Tudo Menos Economia

Por

Bagão Félix, Francisco Louçã e Ricardo Cabral

Ricardo Cabral

23 de Outubro de 2015, 09:31

Por

A coragem atípica de Cavaco e Silva

Cavaco e Silva fez o que a maioria dos observadores esperava que fizesse: indigitou Passos Coelho como Primeiro-Ministro. E incitou a que deputados do PS quebrem a disciplina de voto e se aliem ao Governo, no que só se pode interpretar como um apelo, de um Presidente em funções, para que um partido – que não é o seu – se fraccione.

Num post anterior tinha argumentado que Cavaco iria logo indigitar António Costa, se este apresentasse uma proposta de Governo com apoio maioritário da Assembleia da República. António Costa deve ter dito ao Presidente que o PS votará contra o programa de Governo (decisão esta entretanto aprovada pela comissão política do PS). Por conseguinte, esta decisão de Cavaco e Silva não deixou de me surpreender, porque:

Cavaco está preocupado consigo e com o seu legado, mais do que com o seu partido (PSD) ou com o País; não quereria deixar para a História um fim de mandato trágico; é forte com os fracos e fraco com os fortes; é vaidoso, mas exageradamente temeroso das consequências das suas decisões. E embora assuma aqui o seu papel histórico de “homem forte” da política nacional, essa postura está em contradição com o seu “perfil” apagado e submisso na esfera internacional, sabendo-se que a decisão que tomou terá sobretudo consequências a esse nível.

A sua comunicação ao País revela muita indignação e demasiada emoção. A decisão faz o País perder preciosas semanas e planta as sementes de uma crise política e de uma potencial crise financeira que não deixará de lhe ser imputada.

Cavaco poderia até ter feito exactamente o mesmo – ou seja indigitar Passos Coelho para Primeiro Ministro – mas de uma forma mais sóbria, seca, e sem os ressabiamentos do seu discurso. Era o que lhe competia.

Ao invés, deixou a emoção levar a melhor, esqueceu os seus medos e espantou com a sua coragem tão atípica.

É pena e é lamentável que não tenha estado à altura dos acontecimentos agindo de forma fria e racional quando estava tanto e tantos em causa …

Comentários

  1. Como nota prévia devo dizer que não tenho filiação partidária porque não acredito no actual Sistema Politico Partidário .
    Contudo , como analista conclui e sobre isto gostaria de saber a vossa opinião ?
    1º – As coligações pré-eleitorais , omissas na CRP , são inconstitucionais (artigo 51º da CRP , e ainda tendo em conta os objectores de consciência) ; 2º – O PS tem maior receita votos/euros ; 3º – O PS foi o partido mais votado (vd . presunção que não pode ser ilidida por o voto ser secreto , contida nos. 1 , 2 e 3 do artigo 5º da Lei nº 19/2003 de 26 de Junho) ; 4º – O PSD e o CDS , em relação a 2011 , tiveram uma perda significativa de votantes e de deputados ; o PS , em relação a 2011 , teve mais deputados e mais votantes ; e o aumento da abstenção foi à custa do PSD ? ; o quadro para a coligação é francamente negativo . E não é verdade , como erradamente diz Cavaco que ela foi apoiada pela “esmagadora maioria dos cidadãos” !… Esta pretensa “maioria” corresponde apenas a 1/5 dos Portugueses !… E o PR deve ter em conta o resultado das eleições . Não teve ? O argumento de haver 2 Partidos da extrema esquerda (onde não voto) serem contra Tratados Internacionais não procede porque também o CDS votou contra a CRP !… E quanto à estabilidade deve dizer-se que o PS tem elevada probabilidade de ser apoiado pela actual maioria parlamentar . A coligação tem uma maioria parlamentar que a detesta. Assim , a decisão de Cavaco pode estar inquinada pelo vicio de inconstitucionalidade por erro na fundamentação de facto .
    Numa linguagem popular , poderá Cavaco Silva dizer que o PS de Costa , Ferro & Cª não presta ? Poderá ter razão , poderá pensar que sim , mas não poderá dai tirar consequências . A golpada do irrevogável PP custou-nos 3,2 mil milhões de euros . Quanto custará a de Cavaco Silva ? Uma golpada , sim . Cavaco é assim .
    Dir-me-ão que Cavaco se burrifou para o Estado de Direito e optou pelo “mal menor” . Será ? Vd. Entre outros , artigos 2º , 13º , 51º , 125º , 133º , 172º . 183º , 186º , 187º e 195 º , todos da CRP .
    Cavaco in casu não é obrigado a demitir o Governo . Só tem de o aguentar até Abril . E Cavaco ? Vamos tê-lo até Outubro , umas eleições em Julho , onde a coligação permanentemente vitimizada e o povo revoltado com o comportamento da oposição , a obter uma desejada maioria absoluta com mais umas doses de austeridade logo a seguir !.. E não só , tal como aconteceu com CS, vamos ter MRS eleito pela “esquerda” logo à 1ª volta , dai a ingratidão de Cavaco para com a esquerda que o elegeu !… Quanto a Cavaco poderá dizer-se ad minus que se trata de um personagem “incoerente , paroquial e falho de cultura politica democrática” . Cfr. Prof. Andre Freire in Publico (28-10-2015)
    Antecipadamente grato .

  2. Oh Ricardo Cabral, afinal em que ficamos, o homem foi frio ou emocional? Desculpe-me lá a franqueza, mas é o Ricardo Cabral que está a ver mal este filme, coisa que eu já lhe disse antes. Concordo consigo no que respeita aos defeitos de carácter de Cavaco Silva, mas, apesar de saber que ele não se apoquenta por trair os seus, sei também que ele não o podia fazer desta vez sem consequências bem funestas, e para ele também, de quem ficaria a lembrança do presidente da república que deu posse a um governo contra a vontade do povo, governo esse que transformou de vez Portugal na Grécia. E é isto caro Ricardo que fez desde 5 de Outubro que Cavaco Silva nunca, mas nunca, admitisse indigitar António Costa, ao contrário dos desejos (wishful thinking) de muitos, que os confundiram com a realidade. Eu sei que para algumas esquerdas isto não foi assimilado, mas em nenhum momento se pôs a questão de António Costa ser primeiro-ministro.

    1. Caro Liberal,

      eu faço uma leitura dos factos diferente da sua. Para mim é claro que Cavaco e Silva não queria que António Costa formasse governo. Mas o País encontra-se literalmente à beira do abismo (devido ao rating da DBRS). É essa a leitura que faço da situação económica do país. E parecia-me que Cavaco teria receio de arriscar. Indigitou Passos Coelho. A minha análise estava incorrecta. E julgo que estava incorrecta porque Cavaco e Silva se deixou levar pela emoção. É tão somente esse o argumento que faço.

      Mas mesmo tomando a decisão de indigitar Passos Coelho, o discurso deveria ter sido seco e curto. E não o foi.

    2. Caro Ricardo Cabral,

      Eu concordo que o “rating” da DBRS é mais um elemento a considerar, ainda por cima sendo Cavaco economista, mas como sabe melhor do que eu um dos “ratings” foi recentemente melhorado, creio que outro se encontra em reavaliação para cima, os juros estão em mínimos quase incríveis, a curto prazo não havia razões para temer esse abismo apenas por haver incertezas políticas.

      A minha percepção, admito que intuitiva e subjectiva, e dando-se o caso de ter visto em directo o curto discurso de Cavaco Silva no 5 de Outubro, é de que ele nunca considerou que PCP e BE viessem a participar de qualquer solução de governo, nem considerou que o primeiro-ministro a indigitar não fosse Passos Coelho. Pode chamar-me ingénuo, mas desta vez acreditei no que ele disse, apesar de logo no dia seguinte verificar que muita gente não acreditou. Ele queria MESMO meter o PS no governo da coligação, ou associá-lo de alguma forma, e era só isso que ele queria. Agora até que ponto ele tinha consciência de que não ia conseguir nada, aí já começo a desconfiar do nosso … cavaquinho! É um cavaquinho muito torcidinho!

      Saudações.

    3. Por causa desta conversa consigo fui ver as imagens que pude encontrar do discurso de anteontem de Cavaco Silva, e realmente o nosso presidente estava danado, ou agastado, e isso não foi bom. É a maneira de ser dele, sempre foi. Neste caso concreto, eu compreendo isso como reacção ao facto de o PS não só não lhe ter dado importância depois de 6 de Outubro, como ainda por cima ter ido atirar-se para os braços disponíveis do PCP e do BE. Fiquei com a sensação de que Cavaco Silva nunca nomeará António Costa enquanto for PR. Apostaria dinheiro nisso! Não faz nenhum sentido que ele não possa dissolver o parlamento lá porque está no fim do mandato ou porque o parlamento acabou de ser eleito. Nem as pensam os nossos juristas apatetados.

  3. O sr.cavaco disse claramente que rejeita qualquer governo que tenha partidos como o PCP ou BE.Isto para mim é claramente uma informação dada ao pais e ao estrangeiro ,bastante grave e anti-democratica.E diz tambem que qualquer governo tem que ter(á força,tipo ditadura) o psd.pois bem ,já falta pouco para o profundamente anti-democratico cavaco sair de Belem,que ontem envergonhou claramente como nenhum presidente da republica ate hoje.

    1. Não foi ontem que ele envergonhou a Presidência da República, foi no dia 5 de Outubro, quando exigiu ao PS apoio prévio para o novo governo de Passos Coelho.

  4. Concordo que o Presidente da República deveria ter indigitado Passos Coelho de uma forma mais sóbria e seca. Se a Assembleia da República decidir chumbar o governo, o que é provável, acho que deve indigitar Costa, se Costa conseguir o prometido acordo com os dois partidos comunistas.

    Acho curioso que Ricardo Cabral já esteja a antecipar uma crise política e uma crise financeira. Eu também. Pelo que vamos ouvindo e lendo, o tal acordo parece reduzir-se a um conjunto de medidas para gastar dinheiro e quando o dinheiro acabar em 2016 lá teremos as crises e, provavelmente, um novo resgate e mais austeridade, como aconteceu na Grécia.

    Também acho curioso que Ricardo Cabral já esteja a arranjar um culpado: Cavaco Silva. Ora isso não faz sentido nenhum. Se o Costa derrubar o governo de direita e vier a chefiar um governo de esquerda com maioria absoluta na Assembleia da República, Costa, o seu governo e os partidos que o apoiam serão os únicos responsáveis pelas crises. Como é óbvio!

    1. É óbvio? Tal como é óbvio que saímos da crise e só crescemos e criamos emprego, certo?
      Infelizmente, a economia não vai lá por achismos.

    2. Cara Inês Santos,

      agradeço o seu comentário. As leituras e interpretações que cada um faz dependem da informação que têm sobre diferentes factores e como a avaliam. Na minha perspectiva o país está à beira do abismo devido ao rating da dívida pública. Se a agência de rating DBRS fizer o downgrade o sistema bancário passa a ter de recorrer à assistência de liquidez de emergência do Banco de Portugal. E asseguro-lhe que essa é uma situação limite. Ora a leitura que faço é que tal pode ocorrer nas próximas semanas, mesmo antes de ser indigitado um governo de António Costa.

      Se isso ocorrer antes de ser indigitado, a responsabilidade não pode ser de António Costa, porque mal ou bem a única coisa que pretende é formar governo. Não se pode esperar que, querendo formar governo, a culpa lhe seja assacada porque não concordou em apoiar outro governo. Uma analogia admito que imperfeita seria, por exemplo, se num concurso, o “candidato” excluído fosse culpado porque apresenta uma reclamação sobre o concurso (que acha que ganhou).

      A consequência lógica do argumento acima é que a responsabilidade por uma eventual crise financeira que ocorra nas próximas semanas passa a ser de Cavaco e Silva.

      E portanto Cavaco e Silva pode ficar com o bébé (a crise) nos braços.

      Citando um ditado americano: “you break it you own it”!!!

  5. Consta que Cavaco terá chamado a Belém os professores Bambo, Karamba, Djabi e Saku com uma missão: interpretar a intenção dos eleitores do PS. Os reputados conselheiros usaram variados eficientes métodos ocultistas: o Professor Bambo atirou ao ar cascas de pistáchio, o Karamba interpretou a forma da ferrugem no fundo das latas de cacau vazias, o Mestre Djabi apalpou boletins de voto e o Saku apalpou os próprios votantes. E apresentaram a Cavaco as conclusões preliminares: quem votou no PS pensava que estava a dar força a Costa para negociar com Coelho dois lugares de susbsecretário de estado, para ele e para a esposa e um lugar de porteiro para o Francisco Assis. E salientaram o exemplo de uma eleitora de 42 anos que confessou ao Grande Mestre Saku que votou no PS porque lhe disseram que dentro da mão fechada estava um coelho. Paulo Portas já comentou esta notícia dando-a como a prova de que houve um sequestro de votos, dando ordens ao GOE da PSP para que se ponha em campo.

  6. Fico muito feliz com a decisão do Presidente da República. Recusou pactuar com um golpe de estado feito pela esquerda e que nos levará à 4ª falência em 40 anos.

    A decisão mais corajosa e bem conseguida de sempre.

    (A cereja no topo do bolo é a esquerda a espumar de raiva, como bem se vê por esta publicação).

    1. Sim, era mesmo do que estávamos a precisar nesta altura: de um presidente incendiário. Cavaco é a negação de tudo o que ele próprio defende. Ser oposição de si próprio é interessante. Faz parte das chamadas personalidades “complexas”.

    2. Sim, claro, a esquerda fazer uma coligação é um golpe de estado, isso está reservado para a direita, óbvio. Democrático é impedir que uma maioria resultante de eleições governe, desde que essa maioria seja de esquerda e tentar impor uma minoria, desde que ela seja de direita.

      Com “democratas” assim vamos longe

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