Tudo Menos Economia

Por

Bagão Félix, Francisco Louçã e Ricardo Cabral

António Bagão Félix

1 de Outubro de 2015, 08:41

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Frutos e fruta: o meu itinerário entre cores e sabores (e, de novo, o Outono)

4f01619b6808a6adf7b074c1c67e10ccEra eu uma criança e havia meses novos para novas frutas. Saboreadas pelo e com o seu regresso, depois da ausência confirmada nos manuais de agricultura. Era assim, antes de o calendário deixar de contar para o surgimento e para o pousio da natureza. As tecnologias igualizaram, agora, o que era diferente, então. Hoje temos melão em Dezembro, como temos laranjas em Julho. Mesmo assim, as estações do ano – categorias em vias de extinção – podem resistir dentro de cada um, ainda que, por fora, se dissolva a antes nítida fronteira.

Melhor? Pior? Não sei responder. Apenas direi que a saudade aumenta o gosto pelo regresso. E que esse regresso depende apenas de nós, mesmo que, no sortido à venda nas grandes superfícies, tenhamos à disposição toda a macedónia frutífera para, ao menos, regalar a vista.

A melhor fruta continua a ser a que se apanha. Porque assim se junta a nossa natureza com a natureza ali à nossa disposição e sem disfarces. Lembro-me da minha excitação infantil, apanhando e comendo sofregamente amoras silvestres, hoje domesticadas e alcandoradas à categoria de “fruto do bosque”. Ou cerejas, à mão de apanhar, as mesmas que hoje custam os olhos da cara. Ou o figo, quando eu ainda não sabia do modo como esta infrutescência é polinizada por minúsculas vespas que, através de uma enzima, são transformadas em proteína.

A fruta é sempre um fruto (ainda que, tecnicamente, possa ser mais do que um, uma infrutescência ou o que os botânicos chamam um pseudofruto). Mas fruto não é necessariamente fruta, mesmo que comestível (por exemplo, o tomate, o pepino, o chuchu, o pimento, a beringela e a abóbora). Entre o fruto-fruta e o fruto-não-fruta, há, por exemplo, o marmelo ou gambôa, que assado é delicioso e o indispensável limão, que é dos que mais chega, pela cabeça, às nossas papilas gustativas. E há o que se convencionou chamar frutos secos propriamente ditos, onde a ordem das palavras não é comutativa (pois faz toda a diferença de secos frutos…): amêndoa, avelã, noz, pinhão, pistácio, caju (um pseudofruto), e o amendoim (um legume ou uma vagem que cresce subterraneamente). E a sempre bem-vinda castanha que, de todos, é o fruto seco que mais intimamente está ligado a certas datas e meses. Castanhas assadas no Verão, nem pensar nisso. O prazer de as comer é directamente proporcional ao frio. Já agora: a agridoce tâmara onde fica entre fruto e fruta?

A globalização também chegou depressa às frutas. Há décadas, a fruta era uma espécie de cabaz mais ou menos parco em variedade sazonal: bananas, maçãs, pêras, laranjas, tangerinas, uvas, ameixas, damascos, pêssegos, nêsperas e cerejas, além dos meses do melão e da melancia. Havia a fruteira, mas não havia ainda a mistura sobre ela. A escolha era quase única, ou seja sem escolha. Lembro-me do açoriano ananás como fruta de gala para momentos especiais, hoje um fruto mais democrático e acompanhado do seu mais doce irmão, o tropical abacaxi. Agora há de tudo, dependendo da carteira. Começámos pela importação da China e Oceânia do kiwi, ainda à procura da pronúncia única. Reabilitámos, no Continente, a saborosa polpa da anona (ou graviola) madeirense, demos novas funções de doçaria ao maracujá e aprecia-se (eu não muito) o abacate. Frutos tropicais andam por aí entre a manga e a papaia, e até a goiaba. Refulgiram, entretanto, variedades citrinas antes ignoradas: a ácida toranja, as amáveis clementinas que, outrora, eram simplesmente tangerinas mais pequenas, e as magrebinas tângeras. Para ambientes pretensamente mais sofisticados, as frutas orientais aí estão, desde a exigente líchia ao mangostão, carambola e rambutão. Ultimamente, já depois da tecnocrática distinção entre os pêssegos pubescentes e os pêssegos carecas (nectarinas), surgiu por cá uma nova variedade de pêssego achatado que dá pelo nome de paraguaio. Bem gostoso, por sinal. Neste ínterim, as já referidas amoras, as framboesas, os mirtilos, as groselhas e os morangos formaram uma deliciosa coligação que dá pelo nome, mais chão, de “frutos silvestres” ou, mais requintadamente, de “frutos vermelhos” ou de “frutos do bosque”, ainda que o bosque seja uma estufa.

Uma nota pessoal: os frutos de que mais gosto são os de tons alaranjados. Não por qualquer conotação política. Simplesmente porque, para mim, são os frutos que melhor conjugam, numa visão sinestésica, o gosto da visão com o prazer do sabor. Falo, em especial, da sempiterna laranja ou de uma apelativa e doce tangerina, da nêspera, agora tão segregada e esquecida, do alperce consistente ou do maravilhosamente outonal dióspiro que quase toda a gente, onde me incluo, pronuncia como palavra grave, embora seja esdrúxula. Que belo fruto é o dióspiro, adstringente ou não, de que muita gente não gosta no primeiro contacto, polvilhado com canela! E, ainda, esse fruto tão suavemente ácido que parece destinado a ser mais para decoração de um prato da “nouvelle cuisine” do que para saborear, com o nome botânico de Physalis e que poucos sabem que dá pelo nome vernáculo de alquequenge ou tomate-capucho (ilustração ao lado). PhysalisE da inultrapassável romã na sua multifacetada forma, na sua inexcedível policromia por fora e no solidário ágape das suas mais de 600 sementes envoltas por arilos. Ah, e os pequenos medronhos que me regalam os olhos com a sua mescla de cores de amadurecimento desde o amarelo-torrado, ao laranja afirmativo e ao vermelho impressivo  (ilustração em baixo).medronhos04

 

Comentários

  1. Há dias, saí propositadamente para um passeio vespertino na expo apenas para apreciar os tons dos medronhos (há por lá uns quantos). São, verdadeiramente, um regalo para os olhos. É também costume, por esta altura do ano, fazer uma visita ao convento dos capuchos; depois de passada a cerca, no caminho que conduz ao gólgota do terreiro há uns quantos medronheiros.
    Há uns tempos, dei-me conta da variedade de espécies vegetais que existem na expo. Infelizmente não consigo identificar todas. Sei que existe publicação sobre a flora local.
    Aquando do passeio em busca dos medronhos, reparei numa árvore que dá uma espécie de “pinha”. A árvore tem uma folha verde escura , semelhante à da borracheira, mais delgada. Decidi colher uma (bem sei que não devia) e, em casa, coloquei-a num copinho no jeito que se segura um ovo, a fazer companhia a uma pernada de castanheiro com ouriços que recentemente me fizeram chegar da terra da minha mãe. Desde então, a cada dia, a “pinha” vem fendendo saíndo dela, em riste, inúmeras sementes (presumo que sementes sejam), na forma de feijão, num vermelho inimitável. Tem sido um festival de cor. O Bagão Félix terá ideia de que planta se tratará?
    Cumprimentos

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