Tudo Menos Economia

Por

Bagão Félix, Francisco Louçã e Ricardo Cabral

Ricardo Cabral

30 de Setembro de 2015, 23:20

Por

Se o modelo não é como a realidade, então mude-se a realidade…

Há anos que ouvimos falar da necessidade de reformas estruturais – conselho generosamente dado por diversas instituições internacionais como o FMI, a OCDE e a Comissão Europeia – e que o país ainda necessita de se reformar mais.

Quando dizem isso,  essas instituições internacionais, por intermédio dos seus especialistas, querem na realidade dizer: são necessárias mais alterações da legislação aplicável ao mercado laboral e às relações de emprego, diminuindo as protecções previstas na lei para o factor trabalho.

A ideia é repetida com tanta insistência que até parece obsessão.

Quando a performance da economia não é a desejável e, sobretudo, quando a economia não gera empregos suficientes, então é claro que a razão é “o país não fez as reformas laborais necessárias”. E são sempre necessárias mais reformas para além das que já foram feitas.

Mas será mesmo?

Um dos dois principais modelos de como uma (macro)economia funciona – a síntese neoclássica – tem como parte central (i.e., como “motor” do modelo) o funcionamento do mercado de trabalho. E os resultados desse modelo macroeconómico, nomeadamente – a economia tem tendência a operar em pleno emprego, ou seja, ao seu nível potencial –, dependem do funcionamento do mercado de trabalho.

Das hipóteses simplificadoras sobre o funcionamento do mercado de trabalho destacam-se: a hipótese de perfeita flexibilidade de salários e preços quer para cima quer para baixo; agentes perfeitamente racionais e perfeitamente informados e a inexistência de salário mínimo.

Sabemos que a realidade não é essa em lado nenhum. Portanto, as premissas do modelo não são realistas. Uma pessoa sensata pensaria que o modelo deveria ser alterado para reflectir melhor a realidade, i.e., os factos. Mas demasiados economistas foram treinados nas universidades nestas “lengas-lengas”. Eles, elas e alguns (se calhar, muitos) dos seus professores acreditam piamente nestes modelos despidos de realidade. E a solução que preconizam é assustadoramente simples. Para que os modelos funcionem – e para que passe a haver pleno emprego – é necessário tornar a realidade como o modelo. Porque, se a realidade for exactamente como o modelo, então o modelo irá, de certeza, funcionar …

E cá ficamos à espera que “eles” algum dia consigam tornar a realidade num modelo?

Comentários

    1. É como quem acha que existe liberdade, é um idiota, pura e simplesmente. Mas felizmente temos o Marques para nos corrigir!

  1. As reformas estruturais estao longe de se resumirem ao mercado de trabalho. Tanto ou mais importantes em Portugal sao a desburocratizacao da administracao publica, a guerra a ineficiencia e podridao do sistema de justica, a sustentabilidade das financas publicas que de previsibilidade a quem investe, o combate a corrupcao, a moralidade na vida publica e nos orgaos de soberania. Nos rankings internacionais de competitividade estao sempre no topo paises europeus como a Suica e os escandinavos que, nao por acaso, sao precisamente modelos de bom governo. E nisto que reside o segredo da prosperidade como bem sabemos.

    1. O bom governo é indispensável, mas o alfa e o ómega continua a ser a poupança, o que foi provado por Adam Smith há duzentos e cinquenta anos! Sem poupança bem podem sonhar com “crescimento”, “investimento”, “empregos”, “prosperidade”, “consumo”, “produtividade”, etc. Portugal, sem bom governo, sem sequer boas leis, e com uma poupança residual, não tem A MÍNIMA hipótese de enriquecer pelo seu esforço. Temos o sol, dizia Pedro Ferraz da Costa. Temos o euromilhões…

    2. Liberal, aquilo que vemos é paises ricos em recursos naturais que estao no fundo em indices de progresso e desenvolvimento humano, e paises pobres em recursos que se tornaram ricos por serem bem governados – Singapura é o exemplo flagrante. Todos os estudos sobre o problema do subdesenvolvimento sao unanimes nesta conclusao. Na Uniao Europeia tb podemos constatar as limitaçoes dos fundos estruturais em operarem milagres em materia de desenvolvimento.

    3. Nos países mal governados não há poupança… A poupança também se cultiva e incentiva, além do mais.

  2. Se calhar Manuela Ferreira Leite teve mesmo um momento brilhante quando disse que só suspendendo a Constituição por seis meses se poderia fazer alguma coisa neste país. Eu duvido é de que seis meses fossem suficientes! Vai-se andando. As instituições internacionais não precisam de se preocupar, porque um destes dias estarão de volta a Lisboa para acabar o trabalho.

  3. Isto vindo de um não-economista ainda vá, mas de um macroeconomista?? Desde quando é que o debate macro deixou de assumir “perfeita flexibilidade de salários e preços”? Bom, pelo menos desde o artigo de Greg Mankiw (1985) sobre ‘menu costs.’ E ‘agentes perfeitamente racionais e perfeitamente informados’? A literatura sobre ‘matching’, ‘sticky information’ e ‘behavioural’ também não é propriamente de agora. Quanto à suposta ‘inexistência de salário mínimo’ nos modelos macro, até a literatura DGSE o incorpora como ‘fricção’ do mercado de trabalho. Bem sei que isto é uma revoada de jargão, mas esperava mais de um macroeconomista do que criticar a profissão como se ainda estivéssemos em 1968 a ler Milton Friedman…

    1. Caro Rui Esteves,

      Agradeço o comentário informado embora com pontos de interrogação a mais. Falei da síntese neoclássica no longo prazo e do que interpreto como sendo os ensinamentos que instituições internacionais e decisores políticos derivam dessa síntese.

      E parece-me que a nossa profissão merece ser criticada, não obstante os esforços que faz para que os seus modelos reflictam melhor a realidade. Porque a principal mensagem que defende, nas últimas décadas é: “são necessárias reformas no mercado de trabalho”.

      Essa, em minha opinião, é uma mensagem demasiadamente pobre que, mesmo que implementada como defendido por muitos macroeconomistas, não irá resolver os problemas que as economias e as pessoas enfrentam.

    2. Rui Esteves parece não compreender que se trata aqui de um blog lido essencialmente por não economistas e que a economia explicada desta forma, atinge uma melhor compreensão do que um comentário repleto de jargão e com alusão a ilustres anedotas como a esse Gregory e ao homem do famoso helicóptero. De resto, é evidente que o FMI persiste na tecla das reformas estruturais, tendo mesmo constituído uma célula de propaganda, exclusivamente constituída por economistas heterodoxos, para que a mensagem passe primeiro como progressista e na prática, seja aplicada a receita contrária. A Grécia é bem o exemplo, como o foi a crise asiática nos anos 90 ou a América latina.

    1. Curiosamente, os defensores destes modelos são precisamente aqueles que acreditam que o estado é o culpado de tudo o que há de mau no mundo e na economia.

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