Tudo Menos Economia

Por

Bagão Félix, Francisco Louçã e Ricardo Cabral

Francisco Louçã

30 de Setembro de 2015, 08:12

Por

Atrasado, muito atrasado, diz o Coelho Branco

coelhoAlice vê o Coelho Branco irromper pelo seu sonho, “oh dear, oh dear, I shall be too late”. Correndo atrás do seu atraso, servente do Rei de Ouros, o Coelho é a nossa pressa.

Temos mesmo que viver com esta pressa toda? Sempre atrasados para nunca chegarmos a tempo? Sempre a correr para sermos criados de alguém? Grande parte do dia no trabalho, a outra a matutar sobre o trabalho? Nem pense nisso, escrevia em 1930 um Lorde inglês, economista de renome, que haveria de transformar a sua ciência e que não era dado a lamechices acomodatícias. Nem pense nisso, repetia John Maynard Keynes: os nossos netos viverão numa sociedade em que se trabalhará três horas por dia e o resto poderão dedicar ao lazer, sem irem atrás do Coelho Branco.

Chegados ao tempo dos netos, a realidade é mais sombria e não se confirma o seu optimismo. Em alguns países, trabalha-se mais agora e trabalha-se até em tarefas e com ritmos mais esgotantes. Alguns trabalham um pouco menos: os trabalhadores norte-americanos, por exemplo, ganharam 12 horas por semana em 40 anos, mas a maior modificação na sua vida foi a poupança em tempo em trabalho não pago nas tarefas domésticas, graças aos electrodomésticos. Mesmo assim continuam sempre a correr, sempre atrasados (os norte-americanos estão “sempre com pressa”, registou Alexis de Toqueville no seu caderno de viagem, no século XIX).

Há mesmo uma nova forma de pressa nestes tempos modernos, que é a prisão pela intercomunicabilidade permanente. Uma equipa da Harvard Business School analisou em detalhe o horário do dia a dia de cem profissionais nos Estados Unidos e concluiu que 94% trabalha pelo menos 50 horas por semana, quase metade mais de 65 horas, porque prolongam os seus horários muito para além do tempo do escritório. Nos vinte anos que vão entre 1985 e 2005, quem não acabou o ensino secundário ganhou oito horas de lazer por semana, mas quem tem a universidade perdeu seis horas – a pressa do Coelho Branco.

Noutra pesquisa, percebe-se qual é um dos instrumentos para alongar o stress do dia de trabalho: dois terços das pessoas que usam smartphones estão activamente conectadas 13,5 horas por dia em média e há quem não se desligue nunca.

Na vida depois do horário de trabalho, esta intercomunicabilidade intensa determina a permeabilidade entre o tempo e as funções profissionais. A todo o momento podemos ser chamados, a todo o momento estamos à espera de ser chamados. Se não for o emprego, inventamos amarras. A nova etiqueta determina que um SMS tem que ser respondido em minutos, o email em não mais do que um dia – estamos atrasados, diria o Coelho Branco. Por isso, estamos obsessivamente conectados (olhe à sua volta na carruagem do metropolitano ou no autocarro e repare quantas pessoas estão a falar ao telemóvel ou exasperadas a verificar se apareceu algum SMS ou alguma mensagem no Facebook ou noutra rede, ninguém nota que eu estou aqui?).

A experiência do tempo é por isso tão intensa quanto a sua duração, se não mais. Dois cientistas da Universidade de Toronto, Sanford De Voe e Julian House, fizeram em 2011 uma experiência, que descreveram no Journal of Experimental Social Psychology. Dois grupos de pessoas são expostas a contextos diferentes: a um pergunta-se simplesmente como avalia o seu salário, ao segundo faz-se essa pergunta depois de terem ouvido 86 segundos de uma ópera, Lakmé (de Léo Debiles, 1883). Ambos os grupos têm salários comparáveis, mas o segundo responde que está descontente e infeliz com a sua situação. O salário é o mesmo, mas aquele curto tempo da sua vida foi diferente e fê-los sentir diferentes. Somos escravos do tempo porque o que nos aconteceu no tempo modifica a nossa percepção da vida.

Finalmente, somos ainda “pobres em tempo”, porque somos atraídos para uma vertigem de multi-consumos e não conseguimos responder a todos. Não fazemos todas as viagens, não compramos tudo, não vimos tudo, não conseguimos tudo, só vemos as imagens de tudo a um ecrã de distância. Estamos sempre atrasados. A sociedade moderna é dirigida pelo Coelho Branco. E não devia ser mais moderna, mais acolhedora, mais tranquila, mais respeitadora das pessoas, menos atrasada?

Comentários

  1. Curiosamente, no ano passado, o Le Monde dedicou um longo artigo a um relatório entregue ao PM francês, onde se mostrava que as tecnologias de informação não conduziram a um aumento da produtividade significativo, tirando durante um breve período nos EUA, nos anos oitenta. Mais, a produtividade das sociedades industrializadas estava a estagnar. A questão que se coloca é se o avanço científico não está a capaz de gerar tecnologias produtivas, ou se muito simplesmente estas não estão a ter efeitos a jusante . No caso francês, o Le Monde colocava uma terceira hipótese, de que a baixa taxa de substituição tecnológica nas empresas francesas, por falta de investimento, é que era a causa da estagnação. A minha hipótese favorita (se bem que algo impertinente) é de que uma espécie de paradoxo de Jevons também se aplica à informação: quando é demais submerge e torna as pessoas improdutivas. Aliás, que desculpa melhor do que ter muitos emails para responder para se procrastinar a nossa tarefa ‘favorita’?

    1. Esse assunto é tão importante que merece mais reflexão, agradeço a sua e voltarei à questão.

  2. Muito bom artigo. Há pouco tempo, também num artigo da concorrência, li um artigo muito interessante de Robert Skidelsky abordando o mesmo tema. Fez-me pensar. De facto, aliando a teoria do rendimento permanente de Friedman ao efeito total (de rendimento e substituição) pelo aumento da produtividade proporcionado pelo progresso técnico, nós devíamos estar a despender mais tempo em lazer e menos em trabalho.

  3. E se juntarmos na sociedade portuguesa o Coelho Branco ao Coelho primeiro ministro então, não há mesmo salvação, o desastre chegará mais rápido.

  4. Relativamente à China, até se diz: “Last Comers, Fast Growers”. É uma velha fórmula da Economia Política do Desenvolvimernto. Que tem justificado tudo: a desmatação da Amazónia; a desmatação das ricas florestas da Indonésia; chineses q

    1. Adenda:

      Chineses que vão à Guiné-Bissau carregar as ricas madeiras, devastando as florestas, de um dos países mais pobres do Planeta; etc…

      Crescimento? É necessário, imperioso e urgente que falemos e estudemos o decrescimento e os seus contributos teóricos. É uma ilação que se retira da “Alice no País das Maravilhas”. É preciso correr com todos os coelhos brancos.

  5. Ainda ontem escrevi sobre a redução da jornada de trabalho das 8 para as 6 horas que está a ser experimentada na Suécia como sendo a forma mais racional de reverter um contexto em que há poucos empregos e muito desemprego, a riqueza concentrada como nunca e os aumentos de produtividade de décadas de avanços tecnológicos por distribuir. É trágico verificar como há tanta gente que vive do seu trabalho que lhe chama “utopia”, essa palavra que para eles tem uma carga muito negativa, mesmo depois de confrontados com a satisfação de um responsável da Toyota de Gotemburgo com o resultado da experiência: aumento de produtividade, funcionários mais felizes e, veja-se lá a utopia, um aumento nos lucros de 25%.

  6. Francisco Louçã, ainda alguém vai imaginar que o Coelho Branco é o Coelho de Massamá, e que a sua crónica é um apelo ao voto no BE! Mais a sério, coloca questões do maior interesse, que deveriam estar na ordem do dia, nomeadamente por parte da esquerda política nos países ricos, em que, infelizmente, Portugal não se inclui. Pôr em causa a religião, a moral e os dogmas do trabalho são ideias que também poderão agradar a um liberal, pelo menos a mim agradam! Afinal de contas, trabalho quer dizer tortura.

    1. Acho que seria preciso ser muito tonto para fazer essa relação. Sei que pode parecer um choque, mas Passos Coelho não é o centro do mundo.

  7. Quando surgiu o e-mail, recordo ouvir dizer meu pai, que era director de recursos humanos numa multinacional, que se tratava de um sistema diabólico que iria tudo controlar; a não resposta ou leitura atempada de uma mensagem, seria imediatamente considerado um facto em si. Mas o meu pai, como o próprio reconhecia, tinha uma visão catastrofista da europa (isto muito antes da euforia da adesão ao euro)

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