Tudo Menos Economia

Por

Bagão Félix, Francisco Louçã e Ricardo Cabral

António Bagão Félix

29 de Setembro de 2015, 13:24

Por

O que o dinheiro não pode comprar

9780374533656A fraude ignominiosa da Volkswagen, ao que parece a alastrar sem fim à vista. A vergonhosa batota e corrupção no coração da todo-poderosa FIFA, onde a burla para benefício próprio é a regra entre quase todos. O jogador americano de basquetebol Gerald Wallace contratado em Agosto e despedido 57 dias depois, com um prémio de 10,1 milhões de dólares. Isto é tão-só o inventário dos últimos dias de uma viagem ao centro da corrupção e do desvario. Certamente, uma pequena e assombrosa amostra de um mundo de dinheiro completamente à deriva ética.

Saiu recentemente um livro do norte-americano Michael J. Sandel (“O que o dinheiro não pode comprar”, Ed. Presença) que se interroga sobre os limites morais dos mercados que, galopantemente, vão sendo minados por um mundo de ganância e cupidez ilimitadas. Um livro interessante e exemplificativo, muito kantiano. Tudo está à venda nas nossas sociedades. Diz o autor, que é assim fundamentalmente por uma de duas razões: ou pela crescente desigualdade de poder ou de dinheiro, ou pela devastadora e endémica corrupção. Baseado no que se passa no seu país, este filósofo político e professor em Harvard reflecte sobre aspectos do quotidiano em que o mercado funciona segundo a lei do mais forte. Fala, por exemplo, da “ética da fila” (ou falta dela) em que se compra a conveniência e o tempo em balcões de atendimento prioritário, ou o benefício subcontratado de passar à frente numa qualquer fila. Fala de incentivos perversos, como o do dinheiro a troco da esterilização, o de pagar às crianças para tirarem boas notas, licenças negociáveis de procriação, licenças transaccionáveis de emissão de poluentes, ou até pagar para caçar um animal em vias de extinção. Interessantíssima análise – que aqui apenas sumario – de temas cada vez mais presentes e insólitos: títulos honoríficos comprados, tatuagens publicitárias, sangue à venda, mercado de futuros de terrorismo, títulos de obrigações da morte, etc.

O que é feito do modelo de economia social de mercado? Moribundo, perante os jogos e permutas do poder do dinheiro que alastra por todo o lado. “Social, credo!” gritarão os apóstolos da mão invisível, assim ultrapassando Friedman e seus correligionários do século passado. “Mercado perfeito”, onde já vai essa utopia, paradoxalmente num tempo em que há agências e autoridades regulatórias que nascem como cogumelos?

Dinheiro, sem cor, sem pátria, sem ética, sem sensibilidade, sem humanismo, sem dignidade. Não é só a lei da selva, porque essa tem, apesar de tudo, regras entre a fauna e a flora. Há certos bens morais, éticos e cívicos que jamais podem ser transaccionados, que não têm preço, precisamente porque têm valor.

Comentários

  1. Há muitos outros pontos de vista sobre o dinheiro:

    Não diria que os milionários sejam malvados. Têm apenas um respeito saudável pelo dinheiro. Tenho reparado que aqueles que não respeitam o dinheiro não têm nenhum.

    Paul Getty

    Há apenas um tipo de comunidade que pensa mais em dinheiro do que os ricos: os pobres. Os pobres não conseguem pensar em mais nada.

    Oscar Wilde

    O desprezo pelo dinheiro é frequente, sobretudo naqueles que não o possuem.

    Georges Courteline

    Until and unless you discover that money is the root of all good, you ask for your own destruction. When money ceases to become the means by which men deal with one another, then men become the tools of other men. Blood, whips and guns – or dollars. Take your choice – there is no other.

    Ayn Rand

    1. Obrigado pela sua reflexão e citações interessantes.
      Permita-me que acrescente mais algumas deliciosas citações:

      Quando alguém te disser “Não é uma questão de dinheiro, mas de princípio” é sempre uma questão de dinheiro (F. McKinney Hubbard)
      Eu gostaria de viver como um pobre, mas com muito dinheiro (Pablo Picasso)
      Investe na inflação. É a única coisa que sobe (Will Rogers)
      Há três grandes invenções: o fogo, a roda e o banco central ((Will Rogers)
      Se queres saber o valor do dinheiro, tenta pedi-lo emprestado (Benjamim Franklin)
      O dinheiro é como o estrume. Se não se espalhar é inútil (Francis Bacon)
      O dinheiro não dá felicidade, mas acalma os nervos (Sean O’Casey)
      Um banqueiro empresta-te o chapéu-de-chuva quando faz sol e tira-to quando começa a chover (Mark Twain)
      Um banco é um lugar que te empresta dinheiro se conseguires provar que não necessitas dele (Bob Hope)
      Dinheiro no banco é como pasta de dentes: fácil de tirar, mas muito difícil de voltar a pôr (Aldo Cammarota)
      O dinheiro será sempre ou escravo ou patrão (Horácio)
      Quem empresta ou perde dinheiro ou ganha um inimigo (Provérbio)
      Vai á rua e dá a um pobre uma lição de moral e a outro uma coroa e repara qual deles te respeita mais (Samuel Johnson)

      “Há muitas coisas na vida mais importantes que o dinheiro. Mas custam um dinheirão!”Autor – Marx , Groucho
      Quando eu era jovem, pensava que o dinheiro era a coisa mais importante do mundo. Hoje, tenho a certeza (Oscar Wilde)
      Há apenas um tipo de comunidade que pensa mais em dinheiro do que os ricos: os pobres. Os pobres não conseguem pensar em mais nada (Oscar Wilde)
      O dinheiro que temos é o instrumento da liberdade; aquele de que andamos atrás é o da servidão (Jean Jacques Rousseau)
      Os credores têm melhor memória do que os devedores (Benjamim Franklin)

      Abraço

    2. São sempre bem-vindas citações inteligentes e bem humoradas. O dinheiro é daquelas coisas das quais podemos dizer que não podemos viver sem ele, e que não podemos viver com ele… Amo-te e odeio-te, oh vil metal!

  2. Excelente! Completamente de acordo. Só uma pequena dúvida: “mercado de futuros de terrorismo” isso é mesmo a sério? Já ” mercado de futuros” tem muito que se lhe diga… Comprar o azeite de 2020 e etc. agora futuros de terrorismo é para mim impensável. Isso de os pais pagarem por boas notas também nunca percebi… Quem beneficia das boas notas são os filhos e não os pais… Não entendo… Quando tirava boas notas e me gabava os meus diziam “não fazes mais do que a tua obrigação” quando uma vez me gabei de ser o melhor da turma a resposta foi ainda mais azeda “isso não quer dizer nada, se a turma for muito fraca que valor tem isso, olha filho com o mal dos outros podes tu bem, supera-te mas é a ti”. Tinham toda a razão!

    1. Obrigado. Segundo o autor, que dedica 5 páginas do seu livro,ao “mercado de futuros de terrorismo”, trata-se de apostas que já existem incidindo na data da morte de protagonistas políticos por actos de terrorismo ou na ocorrência do próximo ataque terrorista, por exemplo, através de um website. Estranhíssimo, não é?

Deixar uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Tópicos

Pesquisa

Arquivo