Tudo Menos Economia

Por

Bagão Félix, Francisco Louçã e Ricardo Cabral

Ricardo Cabral

25 de Setembro de 2015, 10:00

Por

Os juros que hipotecam o Brasil…

Durante três mandatos presidenciais (dois de Lula da Silva e o primeiro de Dilma Roussef) o Brasil gozou de relativa estabilidade e prosperidade. Mas enquanto, de acordo com dados do Banco Mundial, entre 2003 e 2010 (Lula da Silva) o Brasil cresceu em média 4% ao ano, em termos reais, entre 2011 e 2014 a taxa de crescimento baixou para 2,1% ao ano.

Brasil GDP

 

O Brasil foi um dos países que beneficiou da transformação da China em potência industrial e comercial na primeira década do actual milénio. Exportava matéria-prima, em particular minerais utilizados na produção de aço. Os preços desses minerais subiam e as exportações aumentavam, num círculo “virtuoso”.

Mas a situação económica do país está a deteriorar-se rapidamente, o que se reflecte na desvalorização acentuada do real face ao dólar e ao euro, tendo o real desvalorizado quase 50% face ao euro nos últimos cinco anos (-59% face ao dólar).

 

Cotação do real em euros

Brasil

Fonte: onvista.de

 

Um euro vale hoje quase 4,4 reais, quando há um ano valia 3,1 reais.  Tal evolução da taxa de câmbio deverá resultar em pressões inflacionistas.

 

Brasil interest

A balança corrente brasileira é “ligeiramente” negativa desde 2008 mas o défice da balança corrente tem-se deteriorado progressivamente, atingindo 4,4% do PIB em 2014. Apesar da dívida pública representar “apenas” 59% do PIB em 2014, as contas públicas estão numa situação grave, com o défice público a aproximar-se dos 9% do PIB, sobretudo em resultado dos elevados juros sobre a dívida, que já representam perto de 8% do PIB.[1]

Em resultado a agência de rating S&P baixou recentemente o rating da dívida pública brasileira de “investment grade” para “lixo” e o governo brasileiro tem enfrentado dificuldades em refinanciar a sua dívida.

Será difícil inverter o rumo da economia brasileira no curto prazo, onde nada parece correr bem, mas o Brasil tem pontos a favor. Tem elevadas reservas de divisas internacionais (367 mil milhões de dólares, quase metade da sua dívida externa bruta, a qual representa apenas cerca de 30% do PIB).[2]

Por conseguinte, parece-me que está na altura do Brasil adoptar medidas não convencionais para responder a esta situação com o objectivo de baixar as taxas de juro. Porque com austeridade, bem pode aprender com Portugal…

 

 

 

 

 

 

[1] Em Portugal representam cerca de 5% do PIB.

[2] Em comparação a dívida externa bruta de Portugal é de 235% do PIB.

Comentários

  1. A governação dos últimos 12 anos é muito bem plasmadas na ascensão e queda desse vendedor de power-point chamado Eike Batista que embolsou biliões dos contribuintes brasileiros e que agora sumiram.
    Para além da incompetência os gráficos mostram a verdadeira mistificação da governação PT, em especial Lula. O PT alegadamente tirou “x” milhões da pobreza à custa de factores exógenos e de um programa austero praticado no governo anterior que deixou a coisa arrumada internamente. Trabalho esse que foi terminado durante o período de Henrique Meireles como Governador do Banco Central e ‘de facto’ Ministro da Fazenda ao transformar boa parte da dívida externa em dívida interna. Depois que a lunática escola de Campinas tomou conta das finanças a coisa disparou de vez.
    Nos governos Lula e Dilma fez-se apenas uma reforma de jeito, a equiparação de sistemas de aposentadoria entre público e privado. Curiosamente, foi um partido “socialista” a colocar no Brasil o tal falado plafonamento (do lado público) 😉
    Agora o ataque a medidas anacrónicas que vêm dos tempos do ditador Getúlio e que atrasam o Brasil foi zero.
    Com o seu modelo desenvolvimentista estes governos alimentaram essa corja chamada FIESP (para além do supracitado Eike) que continuaram a fazer os seus produtos medíocres (basta comparar a diferença entre um mesmo danone feito na europa e no brasil) que gozam dos altíssimos impostos aplicados sobre produtos importados e os bancos brasileiros por estimulo ao consumo via crédito a taxas de juro pornográficas. Por cada 100 reais recebidos os brasileiros têm em média 40 empenhados em dívidas em bens como carros, electrodomésticos e viagens.
    Eu concordo consigo que os juros poderiam academicamente descer, pois o seu efeito para conter a inflação parece estar esgotado desde que passou dos 12%. Agora duvido que com a perda do grau de investimento seja possível conseguir fazê-lo sem que se gerem problemas de financiamento.
    Lá em 2018 ter-se-á a contabilidade final, os governos PT terão atirado 1.25 x milhões de pessoas para a pobreza.
    O Brasil precisa de uma verdadeira reforma política. O país deixou de chamar-se Estados Unidos do Brasil, mas manteve o meu sistema político dos EUA. Lá as coisas vão funcionando por conta do bipartidarismo e a capacidade negocial entre a casa branca e congressistas senadores. Não é à toa que o vice americano está no capitólio.
    O sistema actual brasileiro é uma confusão, o partido do presidente tem 20% na câmara e tão mau quanto isso é o facto de o maior partido – o PMDB – não passar de um sindicato do mafiosos cada um com a sua coutada (estados).
    Como se costuma dizer “a gente cria uma dificuldade para vender uma facilidade”.

    1. Caro Miguel Cary,

      Agradeço o seu comentário. Se a desvalorização face ao euro tivesse sido de 100%, o real valeria zero euros. Se fosse mais de 100%, o real passaria a ter um valor negativo (o que não faz sentido, a não ser que os cidadãos passassem a ter de pagar por deter reais).

      A desvalorização mede-se nos seguintes termos: há 5 anos atrás um real comprava cerca de duas vezes mais euros (~0,43) do que hoje é possível comprar com esse mesmo real (~0,21).

  2. Há um ano atrás, mais precisamente em meados de setembro de 2014, o euro se cotava na casa dos 2,8 reais. Um ano depois esse valor quase dobrou. No entanto, boa parte dessa desvalorização se deve a fatores geopolíticos externos à política brasileira, pois os fundamentais da sua economia não se alteraram de forma a justificar tal variação. Há, pois, outros fatores a considerar, muitos deles externos. Aí se enquadra a redução do valor das exportações em boa parte derivadas da crise internacional, sendo neste caso importante considerar o que se está a passar com a China. Mas também, ao analisar números, há que ter algum cuidado com os mesmos, pois cada país adota metodologias estatísticas diferentes. Por exemplo, é referido que 47% do orçamento da união é utilizado com a dívida pública. Contudo, esse valor corresponde na sua quase totalidade a dívida refinanciada e não ao pagamento de juros ou a amortização efetiva da referida dívida. Na UE a metodologia seguida tende a ser outra, sendo que em Portugal ouvimos falar somente no valor destinado ao pagamento de juros, não no valor utilizado do refinanciamento de dívida antiga. Por último, e ao contrário do caso português, o Brasil, desde o segundo governo do FHC, que está obrigado a uma gestão prudencial das suas contas públicas como nunca se viu em Portugal, algo na altura imposto pelo FMI (vide Lei Complementar n.º 101 de 4 de maio de 2000, com a apresentação de superávits primários sucessivos), tendo uma carga fiscal moderada com alguma possibilidade de crescimento (ao contrário do que a mídia brasileira tanto gosta dizer, o Brasil não é um país onde se paga muito imposto). É, pois, preciso conhecer algumas destas subtilezas para podermos analisar na plenitude o que se está passando.

    1. Pois é Carlos Gomes, mas os superávites despareceram, como se vê nos gráficos publicados acima, e o Estado brasileiro não se adaptou. O colapso do real é o resultado da percepção pelos investidores, provavelmente brasileiros na sua maioria, de que a situação está fora de controlo. Em Portugal isso não aconteceu porque Portugal não tem moeda própria. Felizmente por um lado, infelizmente por outro.

    2. Caro Carlos Gomes,

      existem diferenças metodológicas, mas penso que não reside aí a explicação. Os dados que apresentei são grosso modo comparáveis. Apesar da obrigação de superávits primários do Brasil, creio que a zona euro tem regras mais duras que o Brasil com o seu Pacto Orçamental (“espartilho orçamental”), que obriga a défices estruturais de 0,5% do PIB em cada ano e à redução de 1/20 da dívida acima de 60% do PIB. Uma utopia que nunca será cumprida.

      A dívida pública do Brasil representa 59% do PIB, mas o Brasil paga 8% do PIB em juros. Em Portugal a dívida pública representa 130% do PIB, mais do dobro do Brasil, mas Portugal paga cerca de 5% do PIB em juros.

      Os juros (as suas elevadas taxas) são o calcanhar de Aquiles da economia brasileira.

    3. Caro Ricardo Cabral,

      Vi agora a sua resposta das 18:35, e tenho um reparo a fazer-lhe: se olhar com atenção para o excelente gráfico acima, verá que a taxa de juro há três anos atrás quase tocou a inflação, o que significa que estava quase a ser corrigida essa situação de elevadas taxas de juro reais no Brasil, que resultam de vários factores, e muito da desconfiança dos aforradores, convenhamos, com razões de peso para tal. Diria que se perdeu uma oportunidade, olhando para o gráfico. Como saberá, os brasileiros costumam dizer “esse país não tem jeito”! Cumprimentos.

  3. Dilma está a sofrer com os desvarios da era Lula. A folga orçamental de que Lula gozou não se deveu apenas à China, mas também às políticas comedidas do tempo de Fernando Henrique Cardoso. Lula trouxe esperança a muita gente, o que é suficiente para satisfazer a esquerda bem-pensante. Infelizmente, trouxe também corrupção, esbanjamento e ilusão sobre as possibilidades do país. Uma ilusão que, lá como cá, não sobrevive ao mais pequeno revés.

  4. Austeridade expansionista, nunca tinha prestado atenção à expressão, mas é deveras interessante. Vem-me logo à cabeça uma das coisas que pode acompanhar a poupança num Estado, o corte nos impostos. A mim leigo parece-me que há poucas coisas mais expansionistas na política económica do que reduções de impostos. Há anos que eu creio que a Alemanha deveria baixar os seus impostos, e não, ao contrário do que é insistentemente defendido pelas esquerdas europeias, gastar dinheiro em “obras públicas”, aumentos da função pública, Estado Social, etc. Para quem não deu por nada, há poucos meses atrás isso aconteceu enfim, o governo alemão baixou mesmo o imposto sobre o rendimento (não estou certo de que tenha sido esse, o Ricardo Cabral deve saber isso). Não tenhamos ilusões, a consequência será uma ainda maior pujança da economia alemã neste e nos próximos anos. Se a uma tal política se puder chamar “austeridade expansionista”, então viva a austeridade (expansionista!).

  5. Oportuna esta intervenção de Ricardo Cabral, na hora em que o real brasileiro está em colapso, certamente para alegria de todos os turistas que querem ir aos jogos olímpicos do Rio. Mas, como seria de esperar, discordo por completo da proposta keynesiana de estímulos estatais, que iriam adiar a “pancada” de um ambiente económico adverso, mas que a iriam agravar quando enfim o Estado deixasse de poder suportar esses estímulos. Com um défice de 9%, isso seria bem rápido. Pior ainda, a mim leigo parece-me que para o Brasil conforme se encontra, uma tal política suicidária traria de volta aquilo que gerações sofreram, a inflação galopante. Ou o Estado brasileiro pratica contenção e austeridade, ou dentro de alguns anos terá a visita dos credores. Para os muitos brasileiros que se divertiram a troçar de Portugal por causa do FMI, tal seria bem merecido.

    1. Caro Liberal,

      agradeço o seu comentário. Não estou a sugerir políticas orçamentais expansionistas. O que eu estou a sugerir é que utilizar a receita (monetarista) de sempre de aumentar a taxa de juro e realizar intervenções cambiais para evitar a desvalorização do real é uma estratégia condenada ao fracasso, como já se viu no caso de outros países (e.g., Rússia).

    2. P.S.- Ninguém merece sofrer por alguns dos seus compatriotas terem troçado de Portugal, ou será que paga o justo pelo pecador?

    3. O que eu (capitalista) e o Liberal estamos a sugerir é que imprimir moeda, como defende de forma implícita ou como defende de forma explícita o Louçã, condena povos e sociedades ao colapso há milénios. Até os romanos sofreram na pele o resultado dessa política. Por uma razão ou por outra, essa teoria acaba sempre por renascer dos mortos.
      Ou por incompetência de alguns, ou má-fé de outros, alguma razão há de ser.

      Sem reformas e austeridade o Brasil daqui a 1 ou 2 anos, tem o FMI a aterrar de emergência. Que se cuidem.

    4. Caro Ricardo Cabral, agradeço-lhe a resposta antes de mais. Estou de acordo consigo sobre a futilidade de enfrentar os mercados cambiais, mesmo sendo um mercado confinado. No fundo a desvalorização do real, sendo inflacionária para os produtos importados, é também uma ajuda às exportações colossais do Brasil e mesmo à produção nacional para o mercado interno. Eu não sabia que os brasileiros estavam a tentar segurar o real, parece-me uma política disparatada, a roçar a megalomania. O mau governo passou para o ADN do Brasil… Eu não disse que era bem feito para o povo brasileiro ter lá o FMI, só para aqueles como alguns brasileiros que eu “conheci” nas caixas de comentários do DN há uns anos a fazer troça de Portugal. Estavam divertidíssimos, lá isso estavam!

    5. Caro Capitalista,

      Agradeço o seu comentário. Está a assumir coisas que eu não disse, nem de forma explícita nem implícita. E a sua tese, que é defendida há séculos, é que não há alternativa à austeridade (TINA).

      Para alguém que se intitula capitalista e que, presumo, acredita na destruição criativa e na capacidade de se reeinventar, não estará a ser demasiado “old fashioned”? Não quer pensar em soluções novas, melhores que as soluções antigas de sempre?

    1. Caro Paulo Marques,

      agradeço o seu comentário. Política económica mais convencional que “austeridade” é difícil existir. Já no século XIX Portugal implementou medidas muito similares às implementadas no passado recente (cortes nos salários dos funcionários públicos, venda de monopólios, etc). Eu diria que a austeridade é baseada na convicção individual de cada um que com trabalho árduo e poupança, se consegue tudo. E depois extrapola-se para o todo a partir da realidade individual, com base na falácia da composição. E os resultados são os que conhecemos todos…

      Mas naturalmente existem artigos académicos publicados por cientistas de grande reputação internacional que defendem teorias como “austeridade expansionista”.

    2. Não resisti a meter-me na vossa conversa, porque me parece que vêem aquilo a que chamam de austeridade, e a que poderíamos dar muitos outros nomes, incluindo o muito mais prestigiante nome de poupança, como um demónio a evitar. Se estou disposto a aceitar que há circunstâncias económicas excepcionais que recomendam que o Estado gaste mais, sendo a Grande Depressão o mais célebre exemplo, eu nunca me esqueço de que aquilo que o Estado gasta é aquilo que os contribuintes mais tarde virão a pagar, para seu próprio prejuízo pessoal e da economia nacional inteira (veja-se Portugal desde 2011). Eu sei que os economistas gostam de dizer que o que o Estado gasta se “multiplica”, mas creio que isso é como o milagre da multiplicação dos pães, pode acontecer, mas é quando lá está o Cristo!

  6. Como em Portugal, a solução do país é ter gente honesta no poder que não roube o país e que seja competente, coisa difícil de encontrar.

  7. Adeus Petrobras… O Brasil está a aproximar-se rapidamente da situação mágica de dever o mesmo que produz por unidade de tempo em que o crescimento tem que ser superior à taxa de juro para não acumular mais divida. A partir daí, é simples, ou privatiza ou paga o que deve. Se privatizar, temos o famoso “commitment”, se não privatizar tem eleições até atingir o tal “commitment”. Terá sempre também o plano B à moda da Argentina. Qualquer que seja o plano parece-me que o Brasil está num ponto sem retorno.

    1. Chegou a altura de pagar o socialismo, também por lá. O problema é que os socialistas estão no poder no Brasil, e não querem! Os gráficos que Ricardo Cabral nos ofereceu mostram que os sintomas do problema já estão bem à vista há algum tempo, mas é sabido que os avestruzes têm uma técnica muito especial de lidar com as ameaças…

  8. De repente o euro já parece uma moeda espectacular, pois faz o que é suposto fazer: reserva de valor.

    Ainda bem que não fomos na conversa dos que diziam que mudar para o escudo era melhor.

    1. A inflação é inimiga dos mais frágeis. Quem propõe um Estado que gaste irrazoavelmente é inimigo dos mais fracos, dizendo-se seu amigo. Quando vires um político a gastar dinheiro não perguntes pois por quem paga. Quem paga és tu.

  9. Esse relatório sobre a economia do Brasil, está correto. Igualmente, as comparações entre Portugal/Brasil.
    Precisa acrescentar que, no Brasil existem enormes “vazios sociais”, pouco atendidos pela governança colocando permanentemente pressão, cada vez mais bellicosa, tornando a vida do dia a dia um inferno, ao contrario de Portugal
    Cumprimentos
    Zee

Deixar uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Tópicos

Pesquisa

Arquivo