Tudo Menos Economia

Por

Bagão Félix, Francisco Louçã e Ricardo Cabral

Francisco Louçã

24 de Setembro de 2015, 08:58

Por

Há mais mundo entre a política e os negócios do que sonhos na nossa imaginação

matos“Os Predadores – Tudo o que os políticos fazem para conquistar o poder”, de Vítor Matos, foi publicado há pouco pelo Clube do Autor. Matos, jornalista, investiga neste livro os processos eleitorais e a formação de cliques e de lideranças dentro do PS e do PSD, usando uma enorme massa de informações, desde reportagens a entrevistas e documentos judiciais. Não existe nenhum estudo que se compare e o resultado é impressionante.

Primárias, eleições para concelhias e congressos, tudo é passado a pente fino e vemos como se estruturam golpes e cumplicidades, compra de votos, pagamento de quotas, manobras de influências, ou seja, como é manipulada a vida interna destes partidos e como se impõem decisões. A democracia, muito mal tratada, aparece como a primeira vítima de uma mistura de farsa e traficância de influências. Mas porque é que isto acontece?

A explicação de Vítor Matos, muito plausível, é que se trata do primeiro degrau do acesso ao poder. Nunca ninguém tinha inspeccionado este primeiro degrau mas, em contrapartida, há algumas investigações sobre os degraus do cimo e é conveniente olharmos então para toda a escada. O que resulta é a descrição do poder político.

Há algum tempo, Pedro Miguel Cruz, investigador na Universidade de Coimbra, usou as suas notáveis aptidões informáticas no tratamento de bases de dados no tratamento das carreiras empresariais de políticos, que tinham sido registada num livro de que sou co-autor (“Os Donos de Portugal”). O mapa que dele extraiu Cruz (“Um ecossistema político-empresarial”, que pode ser visto aqui, como se fosse um jogo, e verificará o rigor da informação e tudo o que nos ensina sobre quem governa) e o livro em que se baseou inspeccionaram portanto o cimo da escada. Mas só inventariavam 115 governantes, os das pastas estratégicas, desde 1976

Mais recentemente, também com outros autores, completei essa investigação abrangendo todos os membros de todos os governos constitucionais portugueses, de 1976 até Passos Coelho, 776 pessoas, em “Os Burgueses“. Dos ministros e secretários de Estado registamos os percursos empresariais antes e depois de terem estado no governo. E mapeamos desse modo um dos vectores mais importantes da relação entre a política e os negócios.

Creio que a explicação para a girândola de luta política descrita por Vítor Matos está no que se passa nos degraus de cima desta escada de interesses. A ambição dessas vantagens e desse poder determina as guerras em toda a engenharia daqueles partidos. Estou certo de que, com estes livros e a sua opinião e experiência, o leitor ou a leitora ficarão a conhecer quem tem o poder em Portugal, como funcionam esses partidos e como se tomam decisões. Essas decisões são sobre si.

Comentários

  1. O tema e, deduz-se, a posição do autor relativamente à sua importância terão seguramente a adesão da grande maioria dos portugueses, no que eu decididamente me incluo.
    Não seria esta questão adicionada a outras igualmente determinantes para o desenvolvimento económico e bem estar social, suficientes para recolher o apoio activo de um número suficiente de pessoas capaz de acabar com esta fatalidade do “Centrão”?
    Seguramente que o era. Seguramente que a justiça e a garantia de bem estar reúne a quase totalidade da população, a felicidade da maioria das pessoas não passa por fazer mal seja a quem for.
    Infelizmente, o que acontece é que nos partidos dos extremos (esquerda ou direita) o fazer bandeira de causas comuns não é mais do que um engodo para conquistar apoio para as suas ideologias. Não há manifestação de indignação contra a corrupção que não traga como brinde todo o manancial de exigências políticas, económicas, sociológicas e de garantias de obediência a cartilha ideológica.
    O resultado é o que se vê. A cada brinde associado corresponde um abandono. No final do dia fica o número residual de quem partilha a 100% da sua ideologia extremista e o “centrão”, não obstante os seus defeitos e oportunismos, mantém-se para a maioria dos cidadãos como a única possibilidade de algum equilíbrio.
    As próximas eleições vão pela enésima vez comprovar isso.

    1. Em complemento a C. Gonçalves, talvez se pudesse dizer que não são necessariamente as pessoas que mais expõem os podres de um Estado ou de um país aquelas que melhor serão capazes de os combater sem “deitar o bebé fora com a água do banho”. Há uns dias atrás recordo-me de um artigo de Francisco Assis em defesa da moderação, fico com pena que o PS nos proponha aquilo que nos tem proposto em vez de pessoas como ele. António Guterres em vez de Jorge Sampaio… Pinto de Sousa em vez de João Soares… Deprimente.

    2. “Infelizmente, o que acontece é que nos partidos dos extremos (esquerda ou direita) o fazer bandeira de causas comuns não é mais do que um engodo para conquistar apoio para as suas ideologias. Não há manifestação de indignação contra a corrupção que não traga como brinde todo o manancial de exigências políticas, económicas, sociológicas e de garantias de obediência a cartilha ideológica. O resultado é o que se vê.” – O seu problema são as ideologias ou o roubo efectivo às pessoas efectuados pelo centrão? O seu problema, e o de grande parte dos votantes, é o preconceito infundado que o “status quo” difunde para poder reinar a seu bel-prazer, como tem acontecido nestes últimos 40 anos. lembra-se da célebre frase “eles dão uma injecção atrás da orelha dos velhinhos”? Pois é, esse é o grande problema, a tugalhada emprenha toda pelos ouvidos.

  2. Esta receita de colocar telhados de vidro sobre a promiscuidade politica, já todos perceberam que não funciona. Por que razão é que os bastidores da politica deveriam estar isentos de promiscuidade se a sociedade, em si, tem essa promiscuidade como valor existencial. Alguém quer lá saber que os políticos façam exactamente o que o comum dos cidadãos vê como uma alavanca para o sucesso. É o que acontece quando se coloca uma pilha nova num relógio analógico avariado, o facto de esse relógio avariado dar horas certas duas vezes por dia, equivale ao efeito que estas revelações têm sobre uma sociedade inquinada na sua essência. Impõe-se reformular o título: “Os sonhos na nossa imaginação merecem melhor que o mundo entre a política e os negócios”.

    1. Gostei. Teremos um Estado podre porque temos um povo podre, ou o povo podre foi feito pelo Estado podre?

    2. “Os sonhos na nossa imaginação merecem melhor que o mundo entre a política e os negócios”. Ou seja, o mundo entre a política e os negócios é um pesadelo, logo convém abrir os olhos.

  3. os alpinistas sociais do bloco central querem o guito para quê? para jantarem na bica do sapato/solar dos presuntos,mandarem uns mergulhos na comporta ou na manta rota,irem ao são carlos/gulbenkian com bilhetes à borla(isto é,oferecidos por certas empresas) para não saberem distinguir o arvo part do andre carrilo,irem a nova iorque(coitados ,devem pensar que new orleans fica no burundi) porque sim,ver os jogos à borla(com bilhetes das mesma empresas referidas atras) e apanhar uma grande bebedeira e perguntar no final do jogo se este já começou, e como se não bastasse ainda não pagaram a vivenda na malveira/belem/av.novas etc.E ainda faltam as viagens às caraibas para dizerem mal…dos cubanos

    1. Democracia é uma coisa, corrupção, nepotismo, promiscuidade, plutocracia são outra coisa. Que comentário tão fraquinho

    2. Diga-me lá o Marco tão vivaço, onde e quando não existiram corrupção e nepotismo? Na Coreia do Norte? Na URSS?

    3. Você, oh Liberal, que faz figura triste, é intocável, é incorruptível, veja lá se diz alguma coisa sobre Marinho e Pinto, o promotor do bem público, o chico-esperto que quer tomar os outros por parvos. Certamente que liberal já percebeu que Marinho e Pinto quer continuar a usufruir de 18.000 euros no Parlamento Europeu. A convicção deste demagogo de trocar o Parlamento Europeu pelo Parlamento em Portugal é mesmo real. Ahahahaha….

    4. “Diga-me lá o Marco tão vivaço, onde e quando não existiram corrupção e nepotismo? Na Coreia do Norte? Na URSS? – Então para que existem leis, para os poderosos se servirem dela a seu bel-prazer e obrigar os pobres a pagarem os seus desvarios? Ou seja, a moral e ética são só para dominar os “escravos” enquanto a “casta especial” se refastela á custa dos trouxas…

    5. Oh José Figueiredo, olhe que o advogado Marinho é tão liberal como eu sou comunista! Oh “lj”, as leis existem para a civilização existir, e quem não gosta delas são os anarquistas. O Cristo disse que o sábado era feito para o Homem, e não o Homem feito para o sábado. Assim são também as leis. Parece-me é que o lj acha que as leis estão todas no mesmo saco, sei lá se incluindo as leis de Nuremberga…

  4. O problema não está centrado na prática política, em todos as estruturas com gradação de poder isso acontece, o que quer dizer que é assim que a sociedade funciona, simplesmente o escrutínio dos bastidores da política tornou-se menos opaco e as pessoas entretêm-se a falar dos podres ‘deles’ como se não fizessem o mesmo. Nas instituições escolares, nas instituições bancárias, nas empresas, nos hospitais, nas organizações partidárias e nos tribunais os jogos de poder, as traições, os atropelos à dignidade dos outros são práticas constantes. Pode-se denunciar, mas se for de forma redutora só serve para tornar a sociedade mais cínica e grosseira.

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