Tudo Menos Economia

Por

Bagão Félix, Francisco Louçã e Ricardo Cabral

António Bagão Félix

23 de Setembro de 2015, 12:31

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Outono, sempre maiúsculo e generoso!

alimentos-outono-invernoNa rota circular do ano, chegámos hoje ao Outono boreal, ainda que o equinócio, em que o dia é igual à noite, só se venha a verificar no sábado.

Já aqui escrevi sobre a mansidão outonal. Num tempo do primado da fulgurância e do excesso, eu gosto da moderação e quietude que o Outono me oferece. Dizia Nietzsche que “o Outono é mais estação da alma do que da natureza”. Sugestivo pensamento, embora eu prefira dizer que o Outono é a estação que melhor conjuga alma com natureza. Uma natureza mais serena, em que as cores se abraçam na plenitude da harmonia, seja no firmamento mais envergonhadamente solar, seja nas folhas que adormecem na esperança da próxima descendência. Uma natureza mais conforme, entre o cheiro da terra húmida e o pôr-do-sol contemplativo.

O Outono é a estação do equilíbrio térmico: dá-nos o frio bastante para arrefecer o calor e o calor necessário para aquecer o frio.

Bem sei que o Acordo Ortográfico despromoveu – vá lá perceber-se porquê – as estações do ano, que deixam de se escrever com maiúscula. O meu Outono resiste a tal despautério. Resistirá sempre, porque o meu Outono é mesmo maiúsculo. Porque – entre maiúsculas e minúsculas – a vida no Outono não se confunde com o outono da Vida.

No ano passado, transcrevi um notável poema de Miguel Torga sobre o Outono. Agora escolho um não menos inspirado poema de Ricardo Reis, heterónimo de Fernando Pessoa, em Odes:

Quando, Lídia, vier o nosso Outono

Quando, Lídia, vier o nosso Outono 
Com o Inverno que há nele, reservemos 
Um pensamento, não para a futura 
Primavera, que é de outrem, 
Nem para o Estio, de quem somos mortos, 
Senão para o que fica do que passa 
O amarelo actual que as folhas vivem 
E as torna diferentes. 

Comentários

  1. Eu também gosto do Outono assim, até porque nasci no Outono, e não no “outono”. Há uma razão que eu considero relevante para escrever os nomes das estações em maiúsculas, é que Verão é uma forma do futuro do verbo “ver”, e por isso escrever “verão” dificulta a leitura. Na verdade, dificultar a leitura parece ter sido um objectivo primordial daquilo a que eu chamo pouco carinhosamente a Aberração Ortográfica. Cumprimentos deste ser outonal, e viva o Outono!

  2. Caro Bagão Felix,

    estou a ver os seus comentários sobre o deficit de 7.2% fruto da não venda do BdP. Não podia discordar mais do que disse.
    O estado não tem os 4.9K Milhões, estão no fundo de resolução e passado 1 ano, o estado continua sem ter esse dinheiro.

    Num banco, o dinheiro emprestado fica registado como saída, não fica em terra de ninguém.

    Segundo julgo saber, as empresas também têm que reportar a desvalorização de posições noutras empresas ainda que não as vendam.

    1. A questão não é do Estado em sentido estrito, mas do Fundo de Resolução que, como entidade de direito público, faz parte do perímetro orcamental. DAi serem 4,9 M e não apenas 3,9M. E havendo dois anos para vender o Banco, a questão só se deveria colocar mais tarde. Pelo menos até la, há uma posição crediticia do Estado e accionista do FR e não um prejuízo, ainda que parcial. Cumprimentos

  3. Entendo que todos nós temos em latência e interiormente as 4 estações num ano ou num dia – os nossos conterraneos insulares dos açores bem o sabem – embora tenda a empatizar mais com as pessoas mais dadas ao despojamento do outono e à primavera, com execpção da marcelista que não chegou verdadeiramente a acontecer.

    Melhores cumprimentos da parte de quem, concordando ou não, gosta de o ler.
    João Sousa

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