Tudo Menos Economia

Por

Bagão Félix, Francisco Louçã e Ricardo Cabral

Francisco Louçã

3 de Setembro de 2015, 08:20

Por

Bruno Maçães, onde está a sua outra parte? Eu dou alvíssaras

brunoAdoro o Observador, como já aqui expliquei. É difícil encontrar um panfleto escrito desta forma, uma ideologia tão diversificada nas vozes e tão unida no cântico ou uma intenção tão cristalina. Mas adoro o empreendimento sobretudo porque nos revela personalidades excêntricas, mentes brilhantes e saberes abismais. Ontem, foi a vez de Bruno Maçães.

Já percebo o seu espanto. Então não foi um tweet? O Secretário de Estado excedeu 140 caracteres? Perdeu a cabeça? Não está a disciplinar algum editor de um jornal norte-americano que se tenha exposto contrariando sua excelência? Escreve para nós, atentos cidadãos? Nenhuma mensagem subliminar do governo? Não, nada disso. Foi antes uma confissão íntima, um momento de ternura e de partilha com os leitores.

Preocupado com a rentrée europeia, Maçães abre o seu artigo com uma estonteante revelação pessoal:

“Parte de mim espera que o Outono que se aproxima seja também um regresso da política externa à Europa. A União Europeia, é bom lembrar, é na sua origem e natureza um projeto de política externa, uma visão da ordem global. No entanto, basta um momento de reflexão para perceber que este regresso é tão inevitável como a chegada dos dias cinzentos. Mais do que entusiasmo, o regresso da política externa deve provocar apreensão.”

Eu fiquei estarrecido e mesmo devastado. Não é para menos e, se os leitores sentem o mesmo, partilhemos a nossa aflição para lhe darmos cura.

Bruno, se ele me permite que o trate pelo primeiro nome, tem uma parte que espera que a política externa regresse à Europa (por onde é que ela, a política externa, terá andado a veranear?). Porque “é bom lembrar”, ela é a “sua origem e natureza”. Não é sequer preciso fazer muita força, “basta um momento de reflexão” e mesmo o mais simples consegue “perceber que este regresso é tão inevitável como a chegada dos dias cinzentos”.

Isso já me faz espécie, porque o texto começa por tratar do problema dos refugiados que acodem às costas da Europa. Portanto, esperar pelo Outono e pela “chegada dos dias cinzentos” para esta urgência parece um atraso estranho. Oh Bruno, o que é que se faz no Verão, que ainda vão muitos dias e muitas desgraça por esse Mediterrâneo fora?

Ao ler o resto do texto, que é denso como convém a personagem governamental, percebo logo que o meu receio carece de sentido. Terá sido somente sugestão poética, essa dos “dias cinzentos” para “o regresso da política externa”, trânsfuga sabe-se lá onde. Porque Bruno está em campo. Esteve no Frontex, em Varsóvia, a saber das previsões do número de refugiados, e depois foi a Viena, onde “tive a oportunidade de discutir em detalhe as soluções jurídicas e políticas para criar um enquadramento para a entrada legal de refugiados na União”. Assunto entregue, já foi tudo discutido “em detalhe” pelo nosso Bruno.

O nosso Secretário sabe também, e como ele tem razão – mas vejam a simpatia, partilha connosco essa sabedoria – que a natureza da Europa é ser lenta. Diz mais: “Sabendo que é esta a natureza da União, precisamos de um sistema melhorado, que consiga aproveitar todas as vantagens da descentralização e reduzir as suas desvantagens. Eis o que decidimos fazer. Primeiro, reunir um grupo muito amplo de especialistas para nos ajudar a encontrar a desenhar esta nova versão da nossa política externa”. Discutido o assunto “em detalhe”, “eis o que decidimos fazer”: uma comissão, pois claro.

Já estou a sentir o vosso desânimo. Outra comissão? Outra vez a mesma coisa? Não, não é a mesma coisa. Esta comissão, que “decidimos” reunir, tem “especialistas”. E vai nada menos do que “desenhar esta nova versão da nossa política externa”. Desenhou e dito e feito, “desde então o memorando com as recomendações do grupo foi trabalhado e publicado. Julgo que nos podemos orgulhar de ter preparado o único texto sistemático sobre a reforma da política externa da União.”

Já está a perceber? É que Bruno, que discutiu “em detalhe” a legislação e que criou a comissão, também faz parte dela! De Varsóvia para Viena, de Lisboa para Bruxelas, e ainda tem tempo para tweets profundos e para preparar “o único texto sistemático sobre a reforma da política externa da União”, ainda ela não tinha regressado à Europa! É obra, é grande obra, é magnífica, a Europa rejubila, temos homem.

O facto é este, ninguém consegue parar o Bruno: “Chegou o momento de preparar uma terceira versão da nossa política externa, capaz de responder aos desafios mais imediatos. Será a Europa 3.0.”

A minha única dúvida é esta. Esta Europa “capaz de responder aos desafios mais imediatos” é para os “dias cinzentos” ou trata já dos refugiados? E se, nos “dias cinzentos”, vai resolver estes problemas, refugiados, Ucrânia, segurança e tudo o mais, porque é que nosso Bruno nos diz que “parte de mim espera que o Outono que se aproxima seja também um regresso da política externa à Europa”? Porque é que é só “parte de mim”, do Bruno propriamente dito, que espera essa salvação? Isto é que é o fundamental. Será que a outra “parte”, a faltosa, sabe que o Bruno já tem a comissão pronta e produziu “o único texto sistemático sobre a reforma da política externa da União”?

Por onde, por amor da santa, anda a outra “parte” do Bruno que não dá sinal de si, que deve desconfiar de tudo e que parece que não apoia a Europa 3.0? “Outra parte”, apresente-se ao serviço, a Pátria precisa de si, o Bruno também, volte que está perdoada.

Dão-se alvíssaras, precisamos da outra parte do Bruno e precisamos dela já, europeia, engajada, disponível, sorridente, tuitável, para a frente Portugal, tudo a bem da Nação.

Comentários

  1. Muito me diverte o texto e as reacções. Às vezes a única coisa que nos mantém a esperança é ver os atrasados mentais metidos no seu lugar.

  2. Seria mais interessante discutir soluções concretas para centenas de milhares de refugiados do que para a parte desaparecida do Dr. Maçães: opções alternativas com argumentos construtivos sobre a bondade e viabilidade das mesmas. O conteúdo e as discussões úteis perdem pontos para forma e para o entretenimento supérfluo.

  3. Não desdenhe de O Observador, Francisco Louçã. Trata-se de um órgão assumidamente de Direita e liberal – o que me agrada deveras, tendo em conta o panorama dos média nacionais. É certamente sectário, mas onde é que está escrito na pedra que um diário tem de ser pluralista? Sei que essa é a tradição portuguesa mas não o é nos EUA, nem em muitos países europeus onde muitos e bons jornais assumem declaradamente um ideário político, sem que tal signifique fazer mau jornalismo.

    O Observador tem um interessantíssimo e culto leque de articulistas de opinião, muitos deles verdadeiramente eruditos – Rui Ramos, Maria de Fátima Bonifácio , só para referir dois – e outros que sem o serem tanto são de um notório e excelente nível cultural. Cito-lhe alguns: Paulo Ferreira, José Manuel Fernandes, Paulo de Almeida Sande, Maria João Marques, Helena Matos, Não é só a Esquerda portuguesa que é culta, e intelectualmente interessante; a Direita portuguesa também o é, e o Observador prova-o quase todos os dias. Em Portugal já fazia falta um diário assim.

  4. Tenho ás vezes uma certa suspeição
    De que este moço que se chama Maçães
    Toma a mesma estranha medicação
    Que a senhora Assunção Esteves
    Tamanho é o “soft power sagrado”
    Do seu twitico “inconseguimento”

  5. Tenho ás vezes uma certa suspeição
    De que este moço que se chama Maçães
    Toma a mesma estranha medicação
    Que a senhora Assunção Esteves
    Tamanho é o “soft power sagrado”
    Do seu twitico “inconseguimento”

    Supera esta F. Louçã!

  6. O seu texto faz-me lembrar uma das cartas de Fradique Mendes a falar de um jovem deputado do seu tempo. O problema é que passaram uns anos e as coisas por aqui não mudam…

    1. Permita-me discordar consigo, Rute. O velho lugar comum que Portugal não mudou desde os tempos do Eça está errado, pelo menos para mim. Acabo de reler muito do Eça e, sinceramente, Portugal já há muito que não é nada daquilo. Não nos comportamos daquela forma, de maneira nenhuma e já há muito tempo. Não quero dizer que Eça esteja datado, naturalmente, quero apenas dizer que não reconheço Portugal naquelas maravilhosas páginas, a não ser no mesmo vício, esse bem nacional, o de apoucar e amesquinhar o país o mais que se pode. Este aspeto e a falta de ternura e humanidade para com as suas personagens fazem-me não amar muito Eça. Fico-me pelo seu espantoso e admirável estilo.

  7. Obrigado, Francisco Louça, por mais um excelente artigo. Quanto aos “picadeiros” comentadores, nada dizem que não seja de esperar! Nada que o actual governo e seus seguidores, não tenham tentado incutir à aqueles que felizmente pensam apenas e só, por sua cabeça!

  8. Um texto de fazer rir às gargalhadas e um par de comentários para mostrar ao mundo que há gente que defende que os idiotas não encontram melhor lugar para estar do que no Governo da Nação. Patriotas, estes senhores. E responsáveis, sim, sim. Também ministeriáveis, portanto.

    1. Não tenha dúvidas. Maçães é um exemplo luminoso e todos nós, terráqueos, só podemos estar invejosos.

  9. A 1 mês das eleições e o Francisco anda na apanha das Maçães? Ainda por cima das verdes! Se não nos quer mostrar as podres ao menos que pegue as maduras.

  10. O Dr Louça deveria tratar os assuntos sérios com o respeito que eles merecem. Quem não leu o artigo a que se refere na íntegra, pode pensar que se trata de uma paródia humorística. Esse papel cabe aos humoristas da nossa praça. Não fazem sentido em quem queira fazet política responsável.

    1. Fraca defesa do Maçães. Pode chamar-lhe “política responsável” mas o artido do homem é um exercício de narcismo sem conteúdo. O homem viajou, e pronto. O assunto é portanto sério, é isto o governo que temos. Não se ofenda se critico um Secretário de Estado, até hei-de criticar ministros e mesmo o PM.

  11. Maçãs bichosas seriam também suculento pasto para as penas de Eça ou Portela Filho. Não prometem amanhãs que cantam ou esperançosas primaveras mas invernais, gélidos e cinzentos outonos, pois na realidade nunca foram crianças ou adolescentes mas apenas jovens desde o nascer envilecidos. Cegos com a grandeza de se verem reflectidos no mal polido espelho dos poderosos de que são muitas vezes meros e deslumbrados serventuários, quem sabe se apenas por um escasso prato de lentilhas.

  12. A tal outra parte do imprescindível Maçães (faz talta uma coisa destas, para colorir o ramalhete) está algures a descansar das trabalheiras que tem tido e das asneiras que tem feito e dito.
    Agora, com esta revelação (um espanto!) Bruno mostra o que tanto dele se desconhecia: Portugal “exterioriza” finalmente a sua política, a Europa refaz-se como continente de culturas ancestrais, a União Europeia torna-se (qualquer dia) o centro do mundo. Se não houvesse Maçães – melhor seria!

  13. Parabéns caro Francisco Louçã, pela clarividência nas abordagens que faz. Esta é mais uma que nos ajuda a ver as coisas para além da pasmaceira dos “jornaleiros” e “comenteiros” do regime.

  14. não percebestes
    Maçães incorre num erro performativo , os dias cinzentos , não são na sua pragmática o mesmo que na sua semântica

  15. mas tambem f louçã ,
    só lhe falta sugerir que volte aos bancos da ecola
    Uma cois é certa , alguem tem que assumir a responsabilidade , e o senhor , sim o senhor , não o faz

    1. Mas eu estou deslumbrado com a responsabilidade do Maçães e do PM que o escolheu. Estamos bem entregues, descanse.

    1. Engana-se. É o país inteiro, ou mesmo a Europa inteira, quem beneficia do novo Miguel Relvas. Abençoado o governo que tem o Maçães.

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