Tudo Menos Economia

Por

Bagão Félix, Francisco Louçã e Ricardo Cabral

Francisco Louçã

2 de Setembro de 2015, 08:37

Por

Abel Barros Baptista, “E Assim Sucessivamente”

abelNão gosto de livros de crónicas ou, explico-me, não gosto de crónicas embrulhadas em livro. Fujo das prateleiras que albergam tais resíduos, desconfio que aos autores pouco mais motiva do que a ressurreição de si próprio e da obra perdida em páginas amarelas de velhos jornais e revistas, acho desperdício de livro. Prefiro mesmo o papel, saber se Miguel Esteves Cardoso mergulhou ontem com 17 graus na Praia das Maçãs, porque ele quer que o saibamos hoje e esqueçamos amanhã (que pode estar mais fria), afinal agora está a chover ou voltou o sol. Preferia Eduardo Prado Coelho, burilado e encantadoramente provocante. Prefiro Ferreira Fernandes, conciso, ou Viriato Soromenho Marques, pensador, ou Pedro Adão e Silva, analítico. Crónicas que cronicam e gostam de o fazer porque são isso mesmo: um piscar de olhos nunca é igual ao anterior, aprende-se sempre, olha-se melhor para fora.

Autores que aprecio tentaram mudar de género e transformar o livro de crónicas em livro que se leia; só raramente, mas acontece, o fizeram com sucesso, a custo de um trabalho imenso que produziu texto actualizado e fresco. Em geral, o livro de recortes é preguiçoso e fica-se pelo depósito das notas datadas, dos comentários tão importantes no momento e tão avulsos no ano seguinte, ou das ideias resumidas aos três mil caracteres que o editor mais generoso atribuiu ao cronista mais persistente.

Acresce ainda, e os leitores disso nem sabem nem sofreram as consequências, que um dia, já lá vão tantos anos, também pensei juntar crónicas em livro e, atrapalhado pela minha relutância em relação ao meu objecto, ainda inventei um dicionário para dar ordem à desordem das crónicas. O editor, compreensivo, recomendou-me juízo e que voltasse com alguma coisa mais consistente. Assim terminou a aventura. E que interesse tem isso, livro falhado, eventual complexo em relação a quem trilhou o caminho das suas prosas pretéritas, perguntarão os leitores? Não tem interesse algum, se não demonstrar que em todo o pano cai a contradição e que dela levo o meu preconceito.

O livro de Abel Barros Baptista, “E Assim Sucessivamente” (2015, Tinta da China) é a demonstração de como estou enganado. Ou, para ser teimoso com o dito preconceito, de como estou enganado neste caso, toda a regra tem excepção e etc. e tal e coiso. Barros Baptista, especialista em Camilo e em Machado de Assis, navegante da literatura e da vida quotidiana, é um caso raro, rarissimo: estimo sempre um apreciador da palavra “facécia” e que, ainda por cima, a cultiva com um gosto contagioso.

O livro recolhe crónicas, então mensais, na revista Ler. Desculparei o meu gosto por este volume (os leitores reconhecerão aqui que é a palavra adequada para indicar as crónicas ajuntadas, porque ganhariam volume mesmo que não tivessem densidade) com o melhor dos argumentos: cada crónica vale um livro. Pois não é que o fulano de tal inventou a palavra “miudência” e a esgrime abundantemente, com a devoção com que devia ser usado o “abrandar aos céus”? E que falta que faz a Portugal a virtude curativa e campestre de Júlio Dinis? Ou como sofrem os escritores a angústia de Dostoievski para alimentarem o seu próprio vício? E como compreender o empreendedorismo sem saber das regras da vírgula de Oxford, o vexante problema que a hermenêutica não consegue resolver? O calembour, pelo mestre José Sesinando, que nos ensina que na época do Iluminismo ainda não havia electricidade, o problema da inveja, Freud pelos sonhos adentro, o inefável Crato, a explicação da cincada, o uso e abuso da bengala dos advérbios de modo, o anonimato das caixas de comentários, a relação entre Deus e Dante, o futebol como metáfora da vida, em tudo isso este livro é uma facécia encantatória. Ou muitas, porque são crónicas.

Só que os leitores nem o vão lastimar, vão lê-las como se de capítulos se tratasse, deixa ver por onde vai a aventura, e assim salva-se o meu preconceito contra os livros de crónicas e fica recomendado o livro que não pode mesmo perder, porque faltam pretextos mas não razões para nos rirmos de nós próprios nos tempos que correm.

Comentários

  1. Não costumo ler Abel Barros Baptista mas vou ler este livro de crónicas, face aos temas enumerados. Concordo que Miguel Esteves Cardoso(MEC), por vezes, torna-se “frágil” porque entra em “…conversas banais…”, (vide Jorge Palma), mas aprecio a correcção da sua escrita. E fala-nos de autores, temas e livros fora do mainstream. E é um rigoroso analista de preços do on-line. É útil.

    Iniciei o meu interesse literário em António Lobo Antunes(ALA) a partir das suas crónicas. Nomeadamente uma, inserida, creio, no seu primeiro livro de crónicas, “O Grande Barrigana”. Nesta crónica ALA faz uma sentida homenagem ao saudoso e fabuloso guarda-redes, o qual não admitia que o tratassem por “Barrigana”, mas sim, por “Senhor Barrigana”, no plural como ele esclarecia… O pontos nos “ii”… A partir daí iniciei a leitura das obras posteriores a “Os Cús de Judas” e “Memória de Elefante”. Hoje já não leio ALA. Tornou-se complexo, insondável e esotérico. Talvez por querer refundar a literatura.

  2. Este autor e este livro foi uma magnifica descoberta para mim e se por causa deste livro,as cronicas(ou prosas breves) tiverem o direito de serem considerados como arte maior da literatura,isso é inteiramente justo.Recordo magnificos cronistas portugueses como Alexandre O’ Neill(Uma Coisa em Forma de Assim) ,Assis Pacheco,Dinis Machado,todos eles quase esquecidos e ainda o melhor livro(para mim) do MEC:Escritica Pop.E recordo tambem o melhor critico musical de Portugal:Fernando Magalhães(os textos dele eram criticas musicais mas tambem cronicas e ensinamentos sobre uma variedade imensa de musica).Sim,literatura e musica…por oposição à realidade televisionada.

  3. É bem verdade que muitas crónicas nascem na espuma dos dias e sendo muitas vezes circunstanciais nem todas merecerão a “ressurreição”. Mas algumas resistem à usura do tempo, pela pertinência, por vezes intemporal, do tema / assunto e / ou o estilo e capacidade do cronista. Relê-las compiladas é por vezes um prazer ou uma surpresa, para além de no seu conjunto selecionado nos permitirem um outro olhar, aquele que a espuma dos dias muitas vezes impede.

  4. F, o dia que mudes de opinião relativemente às compilações dos discursos presidenciáveis, o relativamente às profusas autobiografias de figuras públicas escritas por ghostwriters, começes a comentar as transferências futbolísticas com aqueles politicos dedicados ao futebol, assistas aos globos de ouro, e sejas visto a prender uma vela em Fátima a favor da unidade da esquerda, serás o melhor candidato presidenciável da esquerda ou de centro esquerda. Bromas aparte, ha crónicas e crónicas, ha crónicas instantáneas da vida cotidiana que valem pela sua escrita, pela riqueza linguistica, pelo poder do observador de representar as imagens do que não se ve, o sente. Nos dias de hóje a televisão substitui isso a cores, no euronews podes ver imagens crónica com a palabra no comments, o camarografo é o cronista silencioso,

    1. Claro, este livro que refiro é o exemplo de magníficas crónicas. Acredito no poder da escrita e nos livros…

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