Tudo Menos Economia

Por

Bagão Félix, Francisco Louçã e Ricardo Cabral

Francisco Louçã

1 de Setembro de 2015, 08:53

Por

Erro de Rangel? Sim, mas é pior, é uma emboscada

rangelEscreve Ricardo Costa que Paulo Rangel cometeu um erro. Para ser preciso, “um erro propositado” porque “Paulo Rangel recorreu a um truque retórico clássico: o de se dizer uma coisa sabendo que toda a gente vai entender outra”.

Estou de acordo. É tudo lúgubre: um ex-governante na justiça sugere a manipulação partidária da investigação criminal, ou do governo anterior ou do actual, e lança lama em todas as direcções para convocar Sócrates. Na campanha europeia, se bem se lembram os leitores, já tinha havido episódios deste calibre, com a dupla Rangel-Melo, bem artilhada para estas aventuras.

Mas, neste caso, acho que o erro foi propositado ainda noutro sentido. Rangel sabia que ia ser criticado. Que haveria conferências de imprensa e declarações ofendidas de juízes e magistrados do ministério público, que o PS se atiraria ao ar, que os comentadores o enterrariam. Pensou ele que tudo isso seria espuma dos dias se conseguisse o único objectivo que esta declaração pretende alcançar: fazer com que Sócrates volte a intervir, aproveitando a deixa e argumentando que tudo foi uma manobra partidária contra ele. Se isso acontecer, a notícia já não será o erro do Rangel, será o caso Sócrates metido na campanha eleitoral a quatro semanas do dia do voto.

E a direita precisa disso por todas as razões. O ódio a Sócrates mobiliza o seu eleitorado, que está apático e cheio de dúvidas porque não acredita em Passos. O caso Sócrates faz tremer os sectores sociais do centro, que estão entre o PàF e o PS. E a coligação precisa desse suplemento de alma para acreditar que ainda pode recuperar os votos que tem perdido ao longo do desastre que foi a estratégia de “empobrecimento” de Portugal.

A coligação da direita está reduzida à política da emboscada.

Comentários

  1. Por isso o escorreito e corajoso irmão se prontificou a expôr a canalhice de Rangel. Ah… ainda não… Será que este artigo da emboscada é uma tentativa de calar Sócrates?

  2. Pior ainda. Paulo Rangel chamou indirectamente de “corrupto” ao próprio Juiz Carlos Alexandre, mas somente ao período em que Sócrates foi Primeiro Ministro.

    Depois do Governo de Passos/Portas ter chegado ao poder, o Juiz Carlos Alexandre deixou imediatamente de ser corrupto, e até começou a prender a sério os criminosos, entre os quais o próprio Sócrates.

    Realmente, o vox populi de café e bagaço, subiu á cabeça de Paulo Rangel.

  3. Rangel e com ele todos os outros já perceberam há muito que a Sócrates o PS interessa pouco, e as declarações de Rangel caem como sopa em mel na teoria de Sócrates que o seu julgamento e político. Por isso, suspeito que não demorara muito antes de recebermos mais uma carta de Évora. Se a versão de Sócrates for verdadeira (não discuto as outras porque Sócrates tem direito a presunção de inocência e porque o seu direito a um Processo Justo já foi ferido quanto baste por todas as violações do Segredo de Justiça), isto e, ele não fez mais do que pedir dinheiro emprestado a um amigo, então Sócrates atuou da forma mais imprudente e estúpida que e possível para um ex-Primeiro-Ministro, que deve ser como a Mulher de César, dado ate o facto desse amigo em particular ter feito negócios com o Estado quando Sócrates era Governante. Para alem disso, note-se a hipocrisia de criticar a ganancia dos Mercados e depois recorrer a uma pessoa que enriqueceu deixando atrás de si um rasto de empresas falidas. Suspeito que e dai que vem a raiva sibilina de António Costa, quando declarou que Sócrates lutaria sempre pela sua verdade. O facto e que para a direção do PS, Sócrates não e mais do que um profundo embaraço e ele sabe-o. Logo, curiosamente, Sócrates e a Direita são hoje estranhos companheiros de cama, a versão de um serve os outros e vice-versa…

  4. Esse Rangel é adverso à proposta de um regime de exclusividade e incompatibilidades dos deputados, especialmente de aqueles que exercem advocacia; o livro «Os facilitadores» de Gustavo Sampaio expõe as promiscuidades desta personagem.
    É de facto, tudo muito lúgubre, passaram 4 anos e o bipartidarismo vigente não fez absolutamente nada DO QUE LHE COMPETE para resolver os problemas sobejamente conhecidos; o processo-crime de Sócrates é da esfera judicial, e é inadmissível ver a política a se intrometer no assunto para o seu ganho pessoal. O tiro pode sair pela culatra.

  5. “Aquele que quer ser tirano e não mata a Bruto e o que quer estabelecer um Estado livre e não mata os filhos de Bruto, só por breve tempo conservará sua obra.” Maquiavel.

    A política partidária portuguesa, no seu rotativismo, faz-se por aniquilamento das partes. É preciso “matar” politicamente o exuberante Sócrates para que um outro “tirano” pudesse suceder-lhe – e esta lição tanto serve a Costa, e à sucessão partidária, como aos rivais políticos de outras facções políticas. No entanto, se estamos motivados a elevar a moral da República, então, de facto, teremos de “matar” todos os filhos da “tirania” – não votando no triunvirato do “arco da governação”: PS, PSD e CDS-PP!

    [Marcus Június Brutus: Foi um dos assassínios de Júlio César. Antes de ser protegido de César (por curiosidade, sua mãe, Servília Cepião, fora amante de César) apoiara a facção derrotada de Pompeu Magno, após a queda do 1º Triunvirato (Crasso, Pompeu e César), e que abriria caminho para Júlio César se tornar “ditador”. Exilado na Grécia, lideraria com outro conspirador, Caio Cássio, o exército revoltoso na Batalha de Filipos, contra as legiões de Roma lideradas por Marco António e Octaviano, herdeiros políticos de César. Ao ver a batalha perdida, recusando a rendição, Brutus acabaria por se suicidar.]

    1. Gostei do texto de F. Louçã.

      Gostei um bocadinho mais do comentário de António Anchas.

      Estou agradecido a ambos.

    2. Não sei se o verbo “matar” se pode aplicar ao Caso Sócrates. Parece mais que ele, Sócrates, se suicidou, indo viver para Paris. A menos que a teoria da conspiração conceda que foi Rangel, ou outra entidade do actual status político, que lhe pagou as inerentes despesas de manter duas habitações em capitais europeias, mais um motorista que transitava, pelo menos, entre Lisboa e Badajoz. Embora as citações literárias e históricas fiquem sempre bem, o facto é que elas se referiam a regimes hereditários, embora Maquiavel tenha sido governante numa república. Em democracia o voto é a origem do poder. Agora concordo que enquanto Costa não “matar” Sócrates … haverá sempre ocasião para todo o tipo de comentários… como aquele do António Arnaud que, quando lhe devolveram um livro que enviou a Socrates para Évora porque não constava de uma lista, disse que ‘isto nem no tempo da PIDE’, afinal devia-se a uma legislação do Governo Sócrates.

  6. Não me parece é que alguém precise de ser lembrado de Pinto de Sousa… Há 100.000.000.000 de razões para ele ser lembrado. Eu até considero contraproducente uma campanha PSD/CDS que dê grande importância a esse passarão, desdenhando assim António Costa.

  7. Tudo muito bem escrito,
    Premissas correctas
    Mas o remate é desastroso.
    Ou será que quis dizer:

    A coligação da esquerda está reduzida à política da emboscada.

    1. Não, Eduardo, acho que é mesmo a coligação de direita que está reduzida à política de emboscada.
      Ora veja, os dados do desemprego, os dados do crescimento, os dados da dívida pública. Ou está convencido que o reporte é honesto?
      Não estou com isto a dizer que o PS seja muito melhor. Mas tem uma matriz social que a coligação de direita não tem.E talvez esteja aí a única diferença.
      Que não chega para convencer…
      Mas um povo que se deixa submeter como está a acontecer merece tudo o que lhe derem…

    2. Sr. Jorge, foram politicas verdadeiramente de esquerda que nos levaram à bancarrota em 2011? Ora pense, estou a falar em verdadeiras e genuínas politicas politicas de esquerda!?!?!
      Foi quando o PS estava sozinho no poder, quando se coligou com o CDS, esse grande partido de politicas de esquerda, no bloco central?!

      O PS é de facto um partido que, dada a sua génese, deveria praticar politicas verdadeiramente de esquerda, mas raramente o fez, já o PàF, fez bem pior, e como é óbvio, só vai piorar!!!! As politicas do actual governo são desastrosas, e nem por isso são muito de esquerda, pois não? E as politicas de direita/mercenária dos amigalhaços da goldmansachs, que agora passeiam pelos corredores do BCE e de qualquer ministério das finanças europeu, grandes esquerdistas, malandrões pah!

      Já agora, será que o Rangel tem razão?! É que isso explicaria porque é que Portugal foi o único dos países envolvidos no negócio dos submarinos que não teve sequer arguidos…nem o irrevogável!!!!!

      Cumprimentos

    3. Sr. Nuno se a esquerda é assim tão boa, e tem tanta matriz social, porque é que onde quer que seja aplicada – sem capitalismo – leva o país à desgraça? Ex. Venezuela, Coreia do Norte, Cuba, etc.? Portugal e a grecia foram à falência porque os estados faliram. Porque escolheram o modelo económico dos subsídios. Modelo esse de esquerda.

      Os submarinos foram encomendados pela esquerda, nomeadamente por Guterres. A única coisa que o portas falhou foi em não ter acabado com essa concurso. Mas quem os encomendou foi um socialista. Foi a esquerda.

    4. Curiosa resposta. A Grécia, que “foi à falência”, foi sempre governada pelos partidos de direita e pelo PS, que aplicaram religiosamente o que Berlim lhes mandou. Portugal tem já vinte anos de Cavaco Silva, como PM e como PR, 4 de Passos e Portas, 2 de Durão, Santana e Portas, mais outros de Sá Carneiro, de coligações com o PSD e CDS e por aí fora. É um ligeiro exagero dizer que foi a esquerda quem criou o “modelo”.

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