Tudo Menos Economia

Por

Bagão Félix, Francisco Louçã e Ricardo Cabral

Francisco Louçã

31 de Agosto de 2015, 08:39

Por

Algumas coisas que a esquerda tem a aprender com a direita

escadasAo longo dos últimos anos, a direita reconfigurou-se em Portugal. Os partidos são os mesmos, mas num dos casos com uma geração nova: os Passos Coelho (ou os Miguel Relvas) são o símbolo desses promissores políticos que fizerem tirocínio nas juventudes partidárias ou, quando para isso tinham dotes ou amigos, em empresas financeiras ou outras, e que chegaram entretanto ao poder (alguns com insucesso na política, que se pode transformar em sucesso nos negócios). Note o caso do Bruno Maçães, o tuitista  frenético do governo: é ignorante? é ideológico? É tudo e nada, por isso é um triunfo acarinhado nos meios do governo porque representa esse quê de inocência e de atrevimento que faz dele uma alma penada das ideias feitas. São as que fazem sucesso.

O que mudou para aqui chegarem merece ser visto.

Mudou a ideologia. Esqueçam a “social-democracia” e a redistribuição, agora é “competitividade” e “empreendedorismo”. Esqueçam Sá Carneiro, que pedia a adesão à Internacional Socialista (e onde ela já vai), agora é o caldo fundidor do Partido Popular Europeu que junta PSD e CDS. Esqueçam tudo o que está para trás, denigram Manuela Ferreira Leite porque ela diz que ainda quer ser social-democrata. No entanto, para os novos líderes da direita falta de ideologia não significa ausência de ideias: pelo contrário, o vazio do pragmatismo é mesmo uma engenharia social, preenchida pela doutrina das chamadas “reformas estruturais”. Na medida em que esta língua de pau se tornou hegemónica na Europa, o caminho estava facilitado: vários governos falam a mesma ideologia e a transumância política entre o centro e a direita é assim facilitada.

Como se chegou a esta mudança ideológica e a esta obediência política, é o que me interessa assinalar aqui.

Para fazer este caminho, os mais preclaros construíram a seu tempo uma rede de aparelhos ideológicos. Foi uma acção deliberada e estratégica e não ocasional. O seu sucesso foi construído meticulosamente. Durou anos e é o seguro de vida destes ideólogos sem ideologia.

Vasos comunicantes de ideias

Na produção de ideias comunicantes, os aparelhos são dois.

O primeiro é o mapa do discurso oficial, reproduzido em conferências e colóquios, revistas e dizeres dos “especialistas” convidados normalmente por televisões: para eles é tudo fácil, vinga a tese da “austeridade inteligente” ou “expansionista”, segundo a qual o ajustamento de uma economia se faz por via da flexibilização do mercado de trabalho, a redução de salários resolve o problema do desemprego, o corte no Estado resolve o problema do défice. São os preclaros anunciadores do tudo fácil. O discurso oficial tem virtudes convidativas, pois apresenta um dicionário simples, as suas palavras são chavões banais que resistem a qualquer prova de factos. A “Europa”, essa massa de ordens e de obediências, é o santo e a senha deste cimento ideológico. A neo-germanofilia é a fábrica dos quadros da direita, seguir o chefe é a sua bússola.

O segundo aparelho é o sistema de reprodução de ideias. É, creio, o mais forte. Se as ideias nem são originais nem são sensatas, são pelo menos banais e criam um senso comum. A galinha do vizinho é maior do que a minha, o remediado queixa-se do rendimento mínimo que o pobre recebe – o CDS fez disso uma indústria eleitoral, no tempo em que ia a eleições. O senso comum ampliou-se entretanto com a mais católica das virtudes, o discurso da culpa e da punição. Bem merecíamos o que nos aconteceu, ainda bem que tiraram uns mesitos de pensão aos nossos avós, ainda bem que o salário dos novos empregos é 580 euros em média, ainda bem que cumprimos o nosso sacrifício, enquanto o pau vai e vem folgam as costas. Pedro Adão e Silva enunciou esplendidamente este discurso ganhador que se tornou a atmosfera que respiramos (Expresso, 29 agosto).

Este discurso tem um aparelho e ele foi preparado meticulosamente. Nos jornais, tem o Sol, mesmo que este tenha minguado para se reduzir a ministro do dinheiro angolano e da sua elite. Mas o centro é o universo do Correio da Manhã, o jornal e o canal cabo, com a estratégia brilhante de banalização do incidente (para o povo), e da Sábado (para os leitores de “classe A e B”, o retrato cor-de-rosa do seu país). Mais recentemente, este aparelho foi reforçado pelo Observador, que constitui estrategicamente um fraldário de repetidores de ideias neoconservadoras, chefiado por um dos seus precursores, José Manuel Fernandes, seguido por um séquito de analistas e jovens prometedores que fazem estágio no texto fácil, ou de graduados como Helena Matos e Rui Ramos. Abdicando orgulhosamente de qualquer pretensão de pluralismo e ciente da dívida ao naipe de empresários cavaquistas que o financia, o Observador é uma trincheira ideológica assanhada.

Nas ideias, funciona a concentração que cria a autoridade. Todos juntos, fazem o coro da banalidade e do senso comum da culpa e do sacrifício.

Redes sociais, empregos e influências

Em contrapartida, estes aparelhos diversificam-se na organização social.

O Compromisso Portugal foi um dos primeiros clubes, mesmo que efémero, que juntou a nata dos jovens empresários, elaborou um discurso liberal, influenciou os partidos de direita e mesmo o PS e preparou o apoio a Cavaco Silva. Depois, foi a vez da Fundação Francisco Manuel dos Santos. O seu Pordata serviu de sua carta de apresentação, marcadamente ideológica (o contador sobre os gastos sociais é um exemplo grotesco) mas útil pela compilação de dados e, portanto, convidativo para franjas amplas da sociedade. A Fundação, com a selecção de conferencistas e gestores, esteve sempre atenta ao que interessa: agrupar os liberais e criar uma carteira de serviços.

Na gestão de expectativas e empregos, a organização de conexões é ainda mais diversificada: desde os empregos de assessores na Presidência da República ou na Santa Casa da Misericórdia, até aos cargos de administradores em empresas públicas ou privadas, a direita baseia-se numa rede entre os negócios e o poder. Como aliás acontece no PS, como demonstrei no estudo detalhado que escrevi com alguns colegas sobre as carreiras de todos os governantes constitucionais portugueses, mas com centros de colocação e cumplicidades específicas. Estas redes de emprego garantem a fabricação da seita e asseguram a inclusão e a mobilidade social dos quadros. Em poucas palavras, criam um campo político. Esse era o objectivo e foi bem conseguido.

Neste mister, destacam-se os escritórios de advogados (vimos recentemente como Marques Mendes e António Vitorino se enfrentavam na privatização da TAP, ambos fazendo parte de escritórios bem ancorados em figuras PS e PSD), mas também algumas lojas maçónicas específicas (a Mozart tornou-se a mais conhecida por episódios recentes das nossas telenovelas políticas e dos serviços secretos) ou outras associações sigilosas, que constituem locais de encontro e de recrutamento.

A vida social e a consagração da elite

Finalmente, na representação social, temos a acção deliberada e temos o movimento gerado pelas formas de poder e de reprodução do poder.

A acção deliberada é a das associações patronais que têm uma função mais política nas negociações de leis e influências do que na formação de empresários ou na configuração de interesses industriais ou financeiros.

A acção em movimento social é no entanto a mais profunda, porque é a que se reproduz por si só. Veja por exemplo como a direita destruiu o movimento estudantil, que era um dos centros da constestação social, pela sua agilidade e pela sua radicalidade. A operação de aniquilação do movimento estudantil foi tão eficaz quanto não planeada por um conspirador: simplesmente, bastou fazer reproduzir a autoridade social, domesticando a universidade, onde os jovens ainda se sentiam jovens e livres. Primeiro, reduziu-se os cursos universitários para 3 anos, diminuindo a sociabilidade continuada pela presença na escola e marcando desde a primeira hora que chegará logo o tempo de pagar a propina do mestrado e de por a gravata para ir procurar emprego. Segundo, degradou-se o ensino público no secundário, promovendo conflitos com os professores, reduzindo o seu espaço, desinteressando-os, atacando a imagem da escola pública e, ao mesmo tempo, multiplicando o financiamento para colégios privados, tidos como os padrões de uma excelência sobrevivente. Terceiro, e mais importante porque mais reticular, promoveu-se a praxe como padrão de comportamento e de reconhecimento social do estudante, sujeito assim à degradação da obediência animal, ao reconhecimento da hierarquia tutelar e omnipotente e à submissão emocional. O sucesso social da praxe é o sinal maior da vitória da direita entre os jovens, a que a esquerda reagiu em pânico, optando envergonhadamente pelo silêncio, incapaz de se opor a esta deriva autoritária e à imagética da animalização do estudante, escolhendo não fazer nada como se se tratasse de uma moda que pudesse ser passageira.

Aprender com a direita antes que seja tarde

Sim, a esquerda tem que aprender com o que a direita vem fazendo com sucesso. Não estranhem os leitores este argumento: a minha opinião, suficientemente notória, é que a esquerda tem objectivos contraditórios com os da direita, que os deve mobilizar para enfrentar o situacionismo e que para tanto requer instrumentos de participação e não de passividade, de criação e não de obediência, de radicalidade e não de conformação. No entanto, deve mesmo aprender com o que a direita faz com sucesso.

Tem que aprender a fazer à sua maneira, mas tem que fazer estrategicamente, com tempo, tempo para colocar peças, montar os seus edifícios, fazer as suas conexões e redes, estruturar ideias fortes e ater-se a elas, ampliando-as. Pouco vale o fogacho comunicativo; não será um sound byte que responderá a uma tensão social. Para tanto, tem que ter instrumentos que respondam aos que fizeram a vitória social da direita: meios de comunicação de ideias, de treino de quadros, de recrutamento de capacidades, de reprodução alargada. Ou seja, precisa de associações transversais, de movimentos sociais com raízes (e o movimento sindical tem perdido campo de legitimação, ao mesmo tempo que o movimento estudantil se desvaneceu), de novas formas de representação e de mobilização dos mais capazes, de think tanks com revistas abertas (creio que um exemplo é a revista Crítica Económica e Social), de colóquios que treinem ideias, de disputas agressivas na internet usando o humor, a crítica e a invenção, de centros de investigação em profundidade e que criem pensamento rigoroso e crítico, ou de iniciativas concretas (alguns livros que aqui referi recentemente serão bons exemplos, outro é “Não Acredite em Tudo o que Pensa“, mas falta muito mais combate de ideias).

Uma boa agenda para a esquerda, se quer ganhar a médio ou longo prazo, é multiplicar todos e cada um desses alicerces. Para tanto, tem que deixar de ser condescendente: está a perder a batalha da criação das ideias e precisa de voltar à luta. Sem isso, a curto prazo pouco fará de jeito.

Comentários

  1. Artigo interessante, mas que peca pela não contextualização na evolução recente da União Europeia, a qual enveredou pelo modelo germânico, em detrimento do francês, que foi completamente eclipsado desde Mitterrand, com amplas culpas deste último.
    O Euro, tal como está atualmente concebido, é um “colete de forças”, sendo que enquanto houver défice e pacto de estabilidade (e crescimento! Lol) haverá austeridade. (Relembro que “Austeridade expansiva” e “Austeridade amiga do crescimento” são também chavões do PS, o que demonstra até que ponto grassa a indigência de ideias na oposição e a falta de um projeto alternativo estruturado e não um projeto de mera alternância – a nível EUROPEU).
    Os atuais governantes são meras marionetas, Prof. Louçã. Nunca na vida pensaram assumir o poder. Caso contrario, teriam sido menos incautos e não teriam tantos “rabos-de-palha” (vulgo TecnoFormas e dívidas à Segurança Social por pagar).
    São meros peões para atingir um único desiderato: tornar Portugal umas das reservas de mão-de-obra barata da Europa ou, na terminologia do Governo, “mais competitivas”. Nada mais do que isso, Prof. Louçã .: Não confunda esperteza saloia com inteligência e visão.

    1. “If you don’t have a strategy, you’re part of someone else’s strategy. ” A. Toffler
      Assenta que nem uma luva em Portugal…

  2. Professor Francisco Louça.
    Li o seu texto e surge-me uma questão:
    Esta geração de governantes, não participou em lutas contra a PGA, contra as Propinas, não mostrou a sua força pela auto-determinação do Povo de Timor, não construiu Conselhos consultivos municipais, entre outras?
    Parece-me que “aprender” com este tipo de “Direita” onde também cabe o PS e todos os que lhe(s) servem ou querem ser moleta, é um conselho com o qual não concordo!
    Tenho (temos) pouco ou nada a aprender com quem esquece ou muda de princípios basilares. Fazer diferente é afirmar a participação de todos e banir o patrocínio da cervejeira (que também fabrica Ministros!) aos Estudantes que também atiram garrafas dessas à policia quando o Benfica e outros Clubes ganham campeonatos!
    Explicar que “Politica” é respirar e relacionarmos-nos com quem nos rodeia (mesmo que não o conheçamos como Amigo ou mesmo que tenham opiniões diferentes). É um processo que não uma aprendizagem, penso eu!

    1. Aprende-se sempre na vida. O que o artigo sugere não é imitar nem seguir a direita, far-me-à a justiça de não entrar nesse superficialidade. I que diz é que a direita preparou meios de comunicação, de reprodução de ideias, de apresentação simplista de propostas, e que a esquerda deve combater no terreno de massas e com eficácia. Ou pode continuar como está e não vai longe.

  3. Sinceramente não percebo porque é você tem tanta visibilidade nos media. É que desde a televisão aos jornais você está sempre a aparecer e debitar faladora, fala fala fala e insiste numa retórica que (quase) ninguém entende e os que entendem discordam na justa medida que a própria realidade desmenteo-o continua e comprovadamente. E isto porque você representa uma minoria de votos que pouca expressão tem na sociedade portuguesa e, o que é mais importante, com tendência para baixar ainda mais, o que é revelador que mesmo com toda esta visibilidade, tanto você como os do seu partido, não conseguem inverter esta realidade. As razões até podem ser várias, mas há uma delas que você não entende mesmo (ou assobia para o lado), é que as ideias que defende e, mais importante, as raríssimas medidas que propõe, são absolutamente incongruentes, desajustadas e inverosímeis. Para lhe dar uma justificação para o que acabo de dizer, basta dar-lhe o exemplo do Partido Comunista Português que como sabemos navega nas suas águas, mas que tem uma visão política e real das coisas de tal forma objectiva e concreta que, mesmo discordando completamente, como é o meu caso, as entendo que sejam ditas e defendidas no âmbito dos cenários que traça ou nas consequências que aponta. Ou seja, fazem sentido naquela perspectiva e nada está desajustado ou sou a falso. Precisamente o oposto da sua retórica.
    Você esteve bem nos primeiros tempos do BE em que faziam uma uma espécie de sátira política com piada e até com algum gosto. Marcaram alguma diferença pela postura, pela irreverência. E foi nesse tempo que conseguiram o núcleo duro dos vossos apoiantes, depois disso, entraram na política a sério e foi, e continua a ser, uma desgraça.
    Mas, o que me parece mesmo é que você ainda não se deu conta que o Mundo andou pelo menos 20 ou 30 anos para a frente e você ainda está no mesmo sítio. Este é que é o seu problema. O seu problema é o sucesso de uma Europa (atenção que eu não estou a dizer que é perfeita, nada é perfeito, a própria Democracia não é perfeita, etc etc) que por via de uma aposta forte no desenvolvimento económico, no conforto do cidadão através da extraordinária atenção que deu à Educação e à Saúde, bem como no “aperfeiçoamento” do indivíduo por via de uma dinâmica cultural que não tem paralelo seja com que Continente for do resto do Mundo. É este o seu problema. Por outro lado, em que Continente (ou mesmo país) existe uma melhor distribuição de riqueza do que aquela que acontece na Europa? É este o seu problema. Para além de tudo isto e que é muitíssimo, criou um sistema social que tem feito a felicidade de milhões e milhões de pessoas e que lhes proporcionou uma tal qualidade no último terço das suas vidas que não tem paralelo no rosto do Mundo. É este o seu problema.
    Não quero dizer com isto, repito, que é tudo perfeito ou que já nada há para melhorar, porque há ou que chegámos ao fim de linha. Não, não chegámos e ainda muita coisa vai acontecer e muita alteração ainda pode vir a aparecer. Mas o que eu não tenho dúvidas é que os alicerces estão cá para mostrar que crises como a que passámos, sim, passámos, serão muito melhor vividas ou suportadas. Mas esta Europa está longe de se esgotar e muitos desafios vai ter que enfrentar pela frente, mas estou certo que os saberá enfrentar e vencer, com estes ou outros políticos. O século XX foi incrível por tudo o que de mau e bom aconteceu. O século XX resumiu ou consolidou (para usar um termo económico que aqui me parece mais adequado) praticamente tudo o que se passou nos séculos anteriores. Foi, nesta perspectiva, uma lição brutal e foi daqui que a Europa se encontrou e que espero continue a ser o que é e, sobretudo, a proporcionar ao cidadão tudo o que já lhe ofereceu, se calhar, nem era preciso mais. E é este o seu grande problema.
    Eu sei bem porque coloco as coisas neste ponto de vista e com esta realidade sobre a qual, aliás, no âmbito de toda a sua retórica nunca lhe ouvi uma palavra. É que eu tinha 14 anos quando se deu o 25 de abril e fui sempre um miúdo meio precoce na política e estava atento ao discurso da altura e não me esqueço, (e se há coisa que eu não faço mesmo é esquecer-me), quanto esta Europa era criticada, quanto esta Europa era apontada como um exemplo a evitar, quanto esta Europa era apontada como reacionária, etc etc etc.
    Como você se enganou e continua a enganar-se a si próprio e aos outros.
    Mas como vivemos em Democracia, felizmente, continue a falar ou escrever, que tanto faz…

    1. Depois deste ataque à imprensa livre, vinda de quem não queria tv’s privadas, ficamos esclarecidos.

      Felizmente que o mário soares impediu Sá Carneiro de ingressar na is. É sabido que, por via do famigerado pacto mfa/partidos, em 74/5 quem não desse um ar xuxialista não tinha direito a nada.

    1. Faltou-me muito mais, agradeço a referência. Mas o texto só refere exemplos e não uma lista exaustiva.

  4. Parabéns pela exposição sucinta e bem burilada de algo que a esquerda deveria estar ciente permanentemente: a hegemonia cultural. Quem controla os meios de difusão das ideias controla tudo o resto; as ideias nem precisam de ser boas ou ter qualquer correspondência na realidade, são simplesmente “absorvidas”. Folgo em saber que existem pessoas que não esqueceram os ensinamentos de Gramsci ou Chomsky. O livro “Manufactured Consent” deste último é um “tour de force” sobre esta matéria.

  5. Em Portugal, a velha esquerda encontrou um oásis à sua medida: Depois de atravessar as chamas no calor de Abril, enfraqueceu e cedeu todo o espaço à direita, que soube absorver um PS indisfarçavelmente à procura do seu pedaço do bolo. Hoje, só restam resquícios de uma esquerda empedernida e saudosa, cujo limiar coloca, como atrás referi, o PS à direita. O oásis consiste em embarcar numa ambiguidade que denuncia e desmonta a estratégia da direita, reconhecendo-lhe, é certo, a legitimidade e o engenho, e por outro lado dar a receita para a galvanização da esquerda, sugerindo-lhe “associações transversais, movimentos sociais com raízes”, ou o confronto de ideias nos fóruns sociais. O problema coloca-se ao nível da objectividade; essa esquerda à qual se apela aqui, já não existe… não existe de todo…hoje, os quadros dos partidos chamados de esquerda estão bem inseridos nos aparelhos e instituições que são o terreno fértil da direita; hoje, os movimentos estudantis foram debelados (como bem diz) e só resta a ambição do canudo (tempos difíceis), que a estratégia da direita soube bem colocar em filigrana nas mentalidades; as redes sociais e fóruns de toda a espécie são mantidos sob controlo dos comportamentos, pelo que ninguém ousa dizer realmente o que pensa. Neste panorama de pesadelo, onde é que se encontram os interlocutores para um discurso de esquerda? Esta ambiguidade, não será ela própria um trunfo da direita? Enquanto se adornam discursos à esquerda, a direita dizima tudo na passagem.

  6. Nada que a esquerda não tenha feito durante anos, enquanto preparava a revolução que não chegou, com muita consciência e muita estratégia, nos movimentos estudantis ou nas forças armadas.
    A estratégia não é nova, os novos é que se esqueceram da história ou adormeceram à sombra dela…

  7. Excelente artigo de opinião.A Direita está efectivamente a ganhar terreno nas ideias e nas eleições por toda a Europa. Este quadro de referência da UE, Euro e Globalização que foi criado pelos partidos do centro esquerda à direita, claramente é favorável à cartilha liberal. Mais do que métodos que enunciou, não faltará à esquerda as ideias para este Século XXI da competição e interligação global?

    1. Sim, são precisas soluções de curto prazo e eficazes para responder ao desastre da globalização financeira. E são precisas mais ideias e respostas.

    2. Nao sao precisas soluções a curto prazo com o objectivo de serem medicamentos de acção rápida. Sao precisas medidas rápidas, a curto prazo que levem a soluções a longo prazo, duradouras, com o objectivo de ter impacto não so agora com o inicio de uma mudança cultural, mas acima de tudo que tenha um curso estável nos próximos anos. E um curso estável não significa incapacidade de adaptação, muito pelo contrario: e preciso visão, e preciso aceitar que os tempos mudaram, que a competição e global, que não podemos virar as costas a projectos em que investimos tanto como por exemplo o Euro so por ser uma solução rápida. A esquerda tem que crescer, mas para isso e preciso re-inventar-se, e preciso aceitar que a sociedade não esteve estagnada enquanto a esquerda dormiu. E são precisas ideias novas, o que implica pessoas novas e não ressuscitar os velhos triunfos que a empurram para o lugar onde a agora esta. (peco desculpa pela ausência de acentos, mas o meu teclado não e português e nem todas as palavras são corrigidas automaticamente)

  8. Brilhante diagnóstico, mas terapia limitada. O sucesso da direita advém de ter aprendido as regras da moderna demagogia, como o artigo bem exemplifica, mas também por ter acertado em muita coisa – esta parte, sendo de esquerda, custa-me. Por exemplo: onde está a espiral depressiva que toda a esquerda apregoava há 3 anos? Era evidente, não era? Austeridade – redução da atividade económica – redução das receitas de Estado – deficit – austeridade: espiral recessiva. Pois não foi! A direita ganhou a aposta; lamento, é tão simples como isso. Não passei por isso a ser de direita, mas aspiro a uma esquerda desempoeirada que defenda o que é realmente de esquerda (segurança e redistribuição social, saúde pública, educação pública, etc.) e não se limite a defender os sacrossantos dogmas da esquerda.

    1. O meu caro parece esquecer-se que a ‘Austeridade’ não foi nem de perto nem de longe levada as ultimas consequências. Primeiro porque o TC impediu uma parte dos cortes, segundo porque o Programa de Quantitative Easing do BCE, que Passos abominava no principio, de facto correspondeu a um estimulo económico, mesmo que tardio, pela descida global das taxas de juro. E não vimos ainda a missa a metade, espere por depois das eleições, ganhe quem ganhar, porque Portugal esta comprometido com superavits primários de 4% la para 2018. Em segundo lugar, os keynesianos também defendem ‘Austeridade’, mas no topo do ciclo económico, para evitar o sobreaquecimento da economia (e limpar a divida). O problema dos cortes na despesa publica e eles terem sido feitos na altura em que os privados estavam a fazer o mesmo (falácia da composição), e a economia ainda assim contraiu-se 7% em relação a 2008 (na Grécia, onde a ‘Austeridade’ foi aplicada em todo o seu esplendor, a quebra foi 25%, comparável a Grande Depressão de 29). Em terceiro lugar, depende o que define como ‘Austeridade’. Se esta a falar de rigor nos gastos públicos e combate ao desperdício, a corrupção e aos elefantes brancos, eu estou de acordo com a ‘Austeridade’. Mas ‘Austeridade’ e uma palavra da novilingua que quer de facto dizer ‘corte de salários na função publica, corte de ajudas sociais, corte nas pensões e corte de investimento publico, mesmo aquele que e útil’. Nao me parece que para a Fosun, ou para a Altice, ou para o Governo da China ou de Angola, os últimos anos em Portugal tenham sido de todo anos de ‘Austeridade’… Alias, a Mariana Mortágua assinalava recentemente aqui no Publico que a auditoria do Tribunal de Contas ao processo das privatizações indicava que o interesse publico não tinha sido devidamente protegido pelo Governo. Nada de ‘Austeridade’ neste capitulo, portanto…

  9. Estou “chocado”! Na sua definição da nova direita, que subscrevo, não tocou no ponto fundamental! Nos juros!!!! Os mercados sustentam esta direita com financiamento a juros baixos. Os donos (seja de que forma seja e que eu não sei como) das empresas financeiras a que chamamos mercados são um factor incontornável nesta nova direita. Uma empresa salta à vista (http://www.independent.co.uk/news/business/analysis-and-features/what-price-the-new-democracy-goldman-sachs-conquers-europe-6264091.html). entre outras que escondem o real poder. Achar isto apenas conspiração é acreditar no Pai Natal. Cumprimentos

    1. Acho precisamente que não há conspiração nenhuma. Há forças sociais e políticas que se exprimem e organizam, há ideias que circulam, mas quelquer teoria conspirativa é uma graçola.

    2. Insisto. Há forças financeiras que dominam e condicionam as forças sociais e políticas. Posso ir mais longe, não há força social ou política que sobreviva uma subida das taxas de juro. Resumindo, o famoso “commitment”. A vida real, hoje, é dura.

  10. Na minha modesta opinião, uma das coisas principais que a esquerda tem a aprender com a direita é não contribuir para derrubar governos de esquerda, aliando-se à direita. Sem o contributo do BE e do PCP este governo nunca estaria no poder como todos sabemos. E já agora convinha a esquerda não ter como principal adversário outro partido de esquerda.

    1. Custa-me sempre ver quem se expõe à triste evidência de dar opinião sem ter lido o texto. É o estilo Maria Luis Albuquerque: não li, mas não estou de acordo.
      E, já agora, se tem algum respeito pela democracia, lembre-se que o seu secretário-geral pediu eleições e as perdeu. Pode até responsabilizar os marcianos pelo facto, mas a evidência é esta: o colapso do governo é de responsabilidade de quem andou anos de braço dado com o PSD em programas sucessivos e depois ficou espantado porque o PSD deixou de os apoiar.

    2. Os governos de Sócrates nunca foram governos de esquerda, porque tinham maioritariamente políticas de direita e ignoravam de forma constante e autoritaria o sentir popular rxpresso em centenas de petições, manifestações e tomadas de posição de largos sectores sociais e económicos por todo o país. É dever dos cidadãos de esquerda combater as políticas antipopulares e antinacionais ( como foi o caso) mesmo que praticadas por governos autodenominados “de esquerda”. Foi o que se passou nas ruas e no parlamento. Há muito que o país e uma larga maioria social repudiava as políticas socretinas, como ficou provado no acto eleitoral que se seguiu. Além disso ninguém derrubou o governo. Foi Sócrates que fez birrinha e irresponsavelmente se demitiu por decisão própria. Podia ter negociado com uma parte da oposição, à esquerda ou à direita – compromissos que lhe permitissem governar e aprovar as leis na AR.

  11. Este texto é interessante porque hoje pensamos as coisas que identificam esta ou aquela ideologia ou quadro de valores. Ora, se pensamos acerca da identidade, é provavelmente por sentirmos aquilo que denominamos confusão. Eu acredito que a “Esquerda” poderá estar recetiva à “Direita” e até mesmo aprender com ela, mas o que nos poderá pôr a pensar, é o que é a ideia e a atitude ou o comportamento (identidade e autenticidade) de “Direita” e de “Esquerda” hoje. Acredito que a “Esquerda” tem de aprender com aquilo que é o “paradigma” que sustenta a ideologia e o agir de se ser autenticamente de esquerda – é que o capitalismo não tem pátria nem moral.

  12. Mais um excelente artigo de Francisco Louçã.
    – O que é a Liberdade? Entretanto, na minha humilde opinião, penso que nem tudo é “conspiração” de direita – embora, aparentemente, conspire a favor da direita, ou talvez antes do carácter amorfo e indefinido do “centro” político.
    Vivemos nos píncaros de um cultura global imediatista, individualista e consumista. As redes sociais são mais criativas e estimulantes do que ler literatura subversiva proibida pela censura moral ou política. A liberdade entrou num esvaziamento de sentido – hoje, simplesmente não se luta pela conquista da tão desejada “liberdade”, nem há ditadura ou regime opressivo que directamente se lhe oponha. Hoje, aparentemente, somos todos “livres” – porque, em liberdade, pensamos e comunicamos sem qualquer constrangimento. Porém, a “liberdade” torna-se refém de si própria quando nos julgamos totalmente “livres” e responsáveis pelos nossos actos e escolhas individuais. Ora, ninguém é totalmente livre, na sua individualidade, se a liberdade não for percebida como parte da consciência colectiva e da participação cívica.
    Neste ponto, ainda mais importante do que promover o abstraccionismo ideológico – colado mais à “esquerda”, como pretende Louçã, ou ao “centro / direita” – seria tomar por desafio a maior aproximação dos cidadãos aos “centros de decisão” – e, dos “referendos” aos “orçamentos participativos” promovidos pelos municípios, passando ainda as pelas novas tecnologias (ex. as sondagens de opinião), parece ser reforçada a tendência de valorização da “cidadania”. Porém, em sentido inverso, os “centros de decisão” que tinham por referência institucional o Estado-nação e a Democracia estão em erosão ou sob forte pressão interna e externa: cresce o “centralismo” burocrático e imperialista de Bruxelas, aumenta o poder corporativo dos grandes grupos económicos multinacionais, e, o Estado de bem-estar social parece estar comprometido…
    A maior prisão, afinal, é aquela que nos faz acreditar que, individualmente, somos “livres”: o que esvazia qualquer motivação de luta e consciência de classes – como reclama a memória histórica da “esquerda”, a que ainda invoca Francisco Louçã!

    – Os Devoristas. Ao ler o artigo de Louçã veio à memória o título «Os Devoristas – a revolução liberal de 1834-1836». Não sei bem o porquê – pois, não tenho especial simpatia pelo autor – Vasco Pulido Valente – e já nem me recordo bem do conteúdo do livro… Talvez seja mesmo pela mensagem subliminar que sugere o título: «Devoristas»!
    Na contracapa lê-se: «Na história portuguesa, o ‘liberalismo’ não foi uma ruptura, foi um prolongamento. Pior ainda: foi um prolongamento que aumentou a centralização e a omnipotência do Estado e enfraqueceu as raras instituições independentes ou semi-independentes dele (a Igreja e a Universidade). Dali em diante, como se sabe, esse processo não parou. A República, a Ditadura e a democracia ‘europeia’ de hoje ‘aumentaram’, não diminuíram, o peso do Estado sobre a sociedade.»
    Sem me ocupar mais do livro e do autor, encontro neste breve e difuso parágrafo introdutório a explicação para o aparente paradoxo ou contradição: afinal, aqueles que mais atacam e procuram esvaziar o poder do Estado, são também os “devoristas” que, ao serviço dos interesses clientelares (como sugere Louçã acima – ex. ao referir “redes de emprego”) do “campo político” a que pertencem, como um poderoso “sindicato”, controlam o Estado e as empresas que gravitam à sua volta… E isto, para bem do país e da democracia, é algo que a “esquerda” e a “direita” têm de aprender juntas – e não copiar!

  13. “A Esquerda aburguesou-se”, é um lugar-comum que vale o que vale. Mas a verdade é que a Esquerda tornou-se o “media” eleitoral por onde desaguam, controladas e com várias ofertas e sabores, as frustrações daqueles que ainda acreditam que “isto” é uma Democracia. Olho e vejo: os partidos de Esquerda ou perderam a memória ou perderam-se no funcionalismo e no carreirismo. Aí igualam a Direita, não têm nada a aprender.
    Só que se o exercício da política do lado da Direita é coisa de salão, retórica, coisa fina, no limite uma alternativa profissional para quem tem influência para lá chegar, do lado dos de baixo é o Pão que está em jogo. Perdoe-me por não ver este assunto “na desportiva” como um jogo de xadrez entre cavalheiros.
    Direita ou Esquerda, há uma certeza: no fim acabaremos vendidos para fazer cola. A estória do cavalo de Orwell repete-se na História num ciclo interminável. A Grécia é só mais um exemplo. a Direita rejubila aliviada perante a perplexidade da Esquerda que estava no jogo para jogar. Auto-decepada das suas raízes, convertida à calmia democrática, não acreditou no radicalismo do seu adversário. Não sabiam que as Leis de Genebra são coisas para serem brandidas em tempos de paz?
    Mas desenganem-se uns e outros, a história ainda não acabou. Não é por não haver revolucionários nos telejormais que não haverá revoluções. Podem é não ser daquelas que a Direita mais teme e que a Esquerda em tempos sonhou.
    O chão da “Democracia” está minado, pejado de galerias por onde se movimentam os interesses subterrâneas que mandam de verdade, já se sabia. O que é novo é a intensidade da sua azáfama e o tamanho desmedido do seu apetite: são de tal ordem que estão a tirar a sustentabilidade ao seu próprio sistema e a minar os alicerces do regime que os sustenta. A esta velocidade a coisa vai desabar, mas sem grandes estrondos.
    Todavia, quem verá a luz do dia não será a “velha toupeira” de Marx, e não veremos façalhudos de botas cardadas batendo os pés com clamor nas avenidas como as ratazanas nazis. Do buraco onde nos afundamos não exalam campos de concentração e limpezas étnicas e de minorias (sabe-se lá, quem de nós, em 1989, haveria de pensar em novos muros na Europa?), nada de alarmar as gentes com cheiro a esgoto que a História tem.
    É uma sabedoria que vem do início dos tempos quando um homem se julgou mais que os demais: vai-se abrindo buracos até que não sobre queijo. A cada lei que se altera para pior, a cada retrocesso social que atira os pobres para as mãos da obediência aos seus “benfeitores” (F. Louçã esqueceu-se de falar na indústria do pobrezinhos), tudo perfumado de modernidade e anunciado por gente bonita com penteados, vestidos e roupas da última moda dos melhores criadores.
    Soldados fardados, isso é para satisfazer “fetichistas”, é nos púlpitos digitais que está o exército mais letal do Capital.

    Louçã esqueceu-se de referir a SIC que segue a tradição do “Expresso”: parece que mostram mas não mostram, distraem. Trata-se do grupo que melhor manipula a opinião pública em Portugal (seja lá o que isso for, “opinião pública” e “Portugal”).

    E que tal falar desta lei de cobertura das eleições, feita à medida. Para que a “Democracia” (chamam-lhe assim) não prejudicar as audiências? Aqui, onde estava a Esquerda? A “respeitar o estatuto de independência dos jornalistas”… “Independência”? “Jornalistas”? Onde?!
    Tansos. Já em 1975 a Direita sabia da importância da coisa isso quando pôs aquela bomba nas antenas da Rádio Renascença ocupada pelos seus trabalhadores. É verdade, eles sabem-na toda. Desde sempre.

  14. O senhor professor aprendeu muito com o senhor AC (ou terá sido o contrário?).
    O senhor AC diz hoje uma coisa e amanhã o seu contrário.
    Cá na Rua, uns até lhe chamam o Troca-Tintas outros o Fala.Barato.
    Na verdade se trocar a ordem do título até nem andaria muito longe da realidade.

  15. Excelente artigo. É incrível, ou talvez não, como a esquerda tem dormido sobre esta questão da comunicação e da produção de pensamento. Nos dias de hoje em que muitos dos órgãos comunicação se limitam ao seu papel de caixas de ressonância, não existe um órgão de comunicação social de grande circulação marcadamente de esquerda que de igual forma combata o bombardeamento que sofremos diariamente por parte da direita e de muitos interesses instalados. A população que maioritariamente apenas vê os grandes títulos nas capas dos jornais nos escaparates é depois massacrada com a repetição promovida tantos pelos canais de notícias especializados como nos telejornais dos canais generalistas. Parece que o empobrecimento da chamada classe média impede tem impedido reunir o capital necessário para lançar um meio de comunicação que sirva o propósito (com qualidade) para defender os seus interesses e promover a discussão em profundidade das questões que preocupam (ou deveriam preocupar) a maioria da população portuguesa. Será que estamos todos adormecidos, embalados por estas estórias e foi aniquilada a vontade de alterar este estado de coisas? Será que só vamos despontar deste nosso entorpecimento quando for tarde demais e nos virmos envolvidos em acontecimentos dramáticos? O tempo começa a escassear. Como diria Fernando Lopes Graça “Acordai!”

  16. Que ataque à imprensa! A PIDE não diria melhor.

    observador.pt é o maior balão de oxigénio dos últimos 40 anos de PREC/socialismo/comunismo encapotado que reina neste país. demorou mas finalmente estamos a evoluir para sociedades liberais/capitalistas muito mais livres e estáveis. Esperemos que o syriza português não ganhe muitos votos para não destruir tudo como na grecia.

    1. Um pouco exagerado, não é? “Ataque à imprensa”? Mas tem razão, ainda bem que o Observador nos liberta de 40 anos de Cavaco Silva, Passos Coelho, Portas e outros comunistas prequistas que andam a governar isto sem interrupção. Aleluia.

  17. Se o povo é “obrigado” a acreditar, pela força dos media, de que é dependente de sustento do poder económico (não tendo em conta a sua força) e que o PS, quando governo, só dá esmolas à custa do dinheiro dos outros (impostos), favorecendo descaradamente os “amigalhaços”, como querem que a restante esquerda consiga mudar seja o que for? As coisas mudam-se pelo “exemplo dado” e a verdadeira esquerda (para mim o PS não é de esquerda), sem acesso ao poder, está arredada de dar qualquer exemplo, sendo derrotada pelo discurso preconceituoso e falacioso da direita que depois desemboca no discurso “São todos iguais, por isso não vale a pena mudar”. É a chamada política “pescadinha-de-rabo-na-boca”.

  18. Entre o chico-espertismo de Paulo Portas e o vazio de ideias e a casmurrice de Pedro Passos Coelho, pouco restará para dizer. No entanto, independente do quadrante político deverá questionar-se: como foi possível um individuo como Passos Coelho, tão pouco preparado para as lides dos assuntos do Estado, chegar ao topo da governação? Haverá um modelo explicativo que esclareça como uma pessoa tão incompetente de se tornou primeiro-ministro de uma democracia do Sul da Europa? De facto já sabemos que campeou uma vida nas «jotas» (JSD); sem preparação, mas do seu lado assenta uma minuciosa rede de influência. Não iria chegar a bancada no Parlamento. Também teria de vir a lume a TECNOFORMA, e eis a rede a funcionar, com os recibos de vencimento do Parlamento, com os pagamentos por consultadoria que nunca se fizeram, os incipientes descontes para a Segurança Social. Porém, estes episódios, explicam ainda muito pouco, sobre um político que se vangloria de «salvador da Pátria», que não permitiu a demissão do irrevogável e com isso a finis Pátria. O sucesso no assalto ao PSD e o derrube de Manuela Ferreira leite ficou-se a dever igualmente aos amigos políticos de Passos Coelho: Ângelo Correia, que depois se arrependeu; aos advogados Morais Sarmento e Marques Mendes, com interesses no “assalto” ao Estado; ao deputado do Parlamento Europeu Carlos Coelho, que tratou da sua vidinha com chorudo ordenado “europeu”(que nem Marinho e Pinto quer perder!); ao cata-vento Marcelo Rebelo de Sousa, que quer ir a Presidente desta pobre Nação. Toda esta gente, em nome de interesses e agendas particulares, é culpada que o País tenha visto uma trupe de incompetentes assenhorearem-se da governação da Res Pública. Simplesmente miserável.

  19. Excelente no diagnostico, para depois derrapar na solução: nada do que FL propõe como alternativa se consegue concretizar sem o exercicio do poder pela esquerda. Ora em matéria de estratégias de conquista e exercicio do poder pela esquerda, FL lidera, como bem se sabe, pelo menos desde o genial episódio do chumbo do PEC IV.

    1. É revelador que, quatro anos depois, os mais fechados militantes do PS não perdoem a Sócrates ter convocado eleições em vez de tentar aprovar o seu PEC4 em nova versão. Culpar a esquerda por não aceitar cortes no SNS e o plano de privatizações é que me parece excessivo. Mas a paixão é assim: se Sócrates não tivesse ido a eleições, ainda lá estava, não é, Rocha?

    2. “tentar aprovar o seu PEC 4 em nova versão”?! Qual ? ! Na altura não me recordo de nenhuma iniciativa do vosso lado que tivesse vindo a publico propondo algum tipo de negociação, mas vc estava lá, eu não…..
      Sobre a permanência ou não de Sócrates, o seu argumento é igual ao da direita. Deixe-se disso que lhe fica mal. Falamos de politicas, não de politicos. Além de que está a responder a alguém que tinha votado em si e não em Sócrates. Não está a responder a nenhum militante do PS. Não foi o PS quem me traiu o voto.

    3. Sim, estou a responder a uma conversa que o PS já nem usa. O Pec4 tinha sido aprovado por Merkel e por isso Sócrates nunca propôs nenhuma negociação à esquerda. Trair o voto seria alguém apresentar-se a eleições para combater as privatizações e aprovar a privatização da TAP, CTT, EDP, REN, Aeroportos – tudo Pec4.

  20. Nao poderia estar mais de acordo. E desde logo, a desmontagem do discurso da Direita deve começar pela imprensa, em modo digital, claro esta (toda a comunicação social escrita e áudio-visual esta há muito rendida ao poder económico, o ultimo projeto editorial genuinamente de Esquerda foi para ai o saudoso ‘O Jornal’). Diga-se o que se quiser do ‘Observador’, há que reconhecer que e um projeto editorial bem organizado, com objetivos definidos e que sabe escolher bem os seus colaboradores. Quem dera a Esquerda poder fazer algo de semelhante, mas coloca-se claro o problema do financiamento desse projeto, não haverá obviamente empresários que queiram financiar tal coisa. E claro, teria que manter a natureza pluralista, o mais importante e não perder a alma. Depois, e preciso ir pelo caminho que esta a seguir o PS. Pode discordar-se das políticas, podemos ate sorrir com a falta de jeito comunicacional de Costa ou de Centeno, mas sem avaliar o impacto possível das políticas, não será possível convencer o eleitorado. Eu sei que o discurso austeritario esta envolto numa Pseudo- Ciência Económica que disfarça por detrás a mais pura Ideologia, mas quem detém o Poder Económico pode dar-se a esse luxo, quem como a Esquerda esta do lado fraco da corda precisa de desmontar o discurso da Direita com números e precisa de instrumentos para não apenas combater as políticas, mas também apresentar alternativas. Se há algo de chocante na tentativa do Syriza em preparar uma saída do Euro foi o carácter profundamente incipiente da dita tentativa, levando a humilhante capitulação final grega e a conversão de Tsipras ou discurso austeritario (e ainda dizíamos mal de Hollande!). Como disse o Guardian, vamos passar bastante tempo dentro da presente prisão de divida. A Esquerda deve aproveitar esse tempo para se preparar para a Luta…

  21. Esquerda, direita centro está tudo a tornar-se irrelevante.
    A democracia está podre e está morta.
    Já falta pouco para começar tudo à batatada
    A diferença entre uma sociedade civilizada e o caos são 3 refeições.

  22. A direita teve o mérito de transformar produtos tão esótéricos como as teorias neoclássicas e as ficções da escola de Chicago em produtos pronto-a-comer. A esquerda teve o demérito de transformar as soluções keynesianas, incomparavelmente mais simples e com eficácia comprovada, num prato intragável. Sei que estou a ser simplista, senão mesmo simplório, mas parece-me que o triunfo dos primeiros e o fracasso dos segundos passa por aqui. Sem prejuízo do que defende relativamente à investigação que sempre será necessária, parece-me que há que simplificar o discurso, centrá-lo nos problemas das pessoas, por exemplo dando relevância ao papel do declínio dos salários e da degradação das relações laborais na crise que vivemos, e evitar derivações para causas que fracturam. Há que aprender com os próprios erros que falar de homofobia e de feminismos a desempregados e depauperados não resulta em nada mais do que um virar de costas quase generalizado. E há que aprender com a direita que a maioria das pessoas não quer saber de teorias para nada.

    1. De acordo com quase tudo, mas não se esqueça que há mulheres desempregadas e mulheres que recebem salários mais baixos – por serem mulheres. Criar compartimentos ideológicos é um erro, a sociedade não os respeita.

    2. A Extrema-Direita também apelava e apela aos mais desfavorecidos com um discurso keynesiano onde se incluem medidas de apoio social (mas restringe-as aos cidadãos e exclui os imigrantes, por exemplo). Basta olhar para o programa dela em Países como a Franca ou a Dinamarca. Nao se e de Esquerda só porque se defende medidas sociais para os mais desfavorecidos. A característica da Esquerda e que luta pela Liberdade das Pessoas, não esquecendo a Igualdade entre todos e também a sua Dignidade . O apoio aos discursos ditos ‘fracturantes’ e uma causa fundamental da Esquerda porque diz respeito precisamente a luta por estas três causas, tanto que a discriminação que sofrem as mulheres, ou os homossexuais, ou as minorias étnicas não e nenhuma abstração. As ‘teorias’, como diz, dizem respeito a valores fundamentais sem os quais não vale a pena sequer dizer-se de Esquerda, porque de outro modo a ‘Esquerda’ torna-se simplesmente mais um mero projeto de conquista de Poder nas costas dos desfavorecidos e dos ressentidos. Para isso, já temos a Direita, ou mesmo a Extrema-Direita.

  23. E onde já vai a IV Internacional, o Trotsky, a revolução permanemte que o Sr. Professor, bem sei que no século passado, representava com brilhantismo. Porque é que é tão cómodo simplificar as posições dos outros, escolher um asno consensual e ridicularizar a direita, esse repositório de todo o mal que um dia há de ser exorcizado pelos demiurgos puríssimos da esquerda verdadeira, vade retro Tsipras!

    1. Suponho que o “asno consensual” seja o Maçães. Que maldade, caro Pedro Martins! Como é que lhe atribui “esse repositório de todo o mal”, a ele e a quem o escolhe, que exagero!

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