Tudo Menos Economia

Por

Bagão Félix, Francisco Louçã e Ricardo Cabral

António Bagão Félix

31 de Agosto de 2015, 13:00

Por

Agosto no fim

Fim de Agosto. Para muitos, a contragosto. Para alguns (poucos, creio) com gosto. Eu, amante do Outono, farei mais parte do conjunto minoritário. O Verão e o calor impõem-se-nos. Por fruição, por norma social, por convenção, por significarem férias. O Outono e a mistura mansa de temperaturas, sol e chuva convidam-nos. Para a amenidade, cores, revivescências, introspecção. O Verão é expressionista. O Outono é impressionista.

Fim de Agosto. Ocaso de férias. Observo que muita gente delas sai cansada, subjugada a crescentes e invasivas formas de stress, ainda que sob a aparente capa do seu contrário. Assim se vem hiperbolizando o que o Padre António Vieira já afirmara há séculos: “a razão por que não achamos o descanso é porque o buscamos onde não está”. Sinais dos tempos, em que a parafernália tecnológica termina ainda mais esfalfada do que os seus utilizadores. Em que a rotina da cidade cede lugar a outras rotinas e a agitação do quotidiano assume formas diferentes, mas não menos agitadas. Onde se inventam momentos e passatempos para matar o tempo. Onde se desaprendeu a não fazer nada, ou seja a aproveitar o tempo sem o assassinar, assim dando expressão à contradição lógica do nosso idioma, porque, em bom rigor, não fazer nada significa fazer algo. Por exemplo, ouvir-se ser (na feliz expressão de Vergílio Ferreira), contemplar, sonhar.

Fim de Agosto. Saudades do seu início para quem sossega, e dele gosta. Porque o melhor do descanso não está no fim, mas nas vésperas e no início.

Fim de Agosto. O recomeço, com a ilusão que alimenta a alma.  É sempre assim, como se se descontinuasse o que é contínuo. Ainda assim, a esperança.

Comentários

  1. Boa reflexão de Bagão Félix.
    Reparo na expressão: “Onde se desaprendeu a não fazer nada, ou seja a aproveitar o tempo sem o assassinar […]” – e recordo outros outonos da vida. Nasci numa pequena vila industrial e recordo com muita tristeza e amargura o encerramento de algumas fábricas centenárias de lanifícios. Em 2000 (mais ano, menos ano, já não sei bem…) desloquei-me à fábrica da Retorta (Castanheira de Pera, 1864) também era fim de verão. Os trabalhadores, no regresso das férias, foram surpreendidos com um anúncio de decretava a falência e encerramento da fábrica. Vi lágrimas nalguns rostos – gente de meia-idade, últimos resistentes que se mantiveram até ao fim, não obstante os salários em atraso, as vãs promessas de “reestruturação” da empresa, mais as longas horas de formação do sindicato e IEFP. Gente que na maioria dos casos ali tinha iniciado a sua rotineira e limitada carreira profissional aos 13 ou 14 anos de idade…
    A maioria conseguiria nos anos seguintes a reforma antecipada, após longo período sob a protecção do fundo de desemprego… porém, noto hoje que muitos deles, sobretudo homens entregues à depressão do “nada fazer” – e do alcoolismo – nem tiveram tempo de bem gozar a reforma. E assim, mais cedo veio e findou o inverno
    Tristemente, morre-se com o trabalho – e com a falta dele!

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