Tudo Menos Economia

Por

Bagão Félix, Francisco Louçã e Ricardo Cabral

Ricardo Cabral

26 de Agosto de 2015, 20:34

Por

Flash Crash “2”

Já se sabia. Os reguladores americanos tinham afinal de contas razão. Após quatro meses de cativeiro na pior e maior prisão do Reino Unido, em Londres, um juiz reduziu a caução de 5 milhões de libras para 50 mil libras, permitindo a Navinder Singh Sarao sair em liberdade, no dia 14 de Agosto de 2015, sexta-feira.

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Fonte: Zero Hedge

Segunda-feira, 24 de Agosto de 2015, 10 dias depois da libertação do Sr. Sarao, um novo “flash crash”.

Coincidência apenas? Obviamente que não !!! 😉

Num tom mais sério, a 6 de Maio de 2010 ocorreu o primeiro flash crash, em que os principais índices bolsistas americanos caíram a pique em poucos minutos. A 24 de Agosto de 2015 no novo flash crash, o índice S&P500 chega a cair mais de 1000 pontos (aproximadamente -6,6%), com a maior parte da queda e recuperação a ocorrer durante apenas 15 minutos.

flash crash

Fonte: CNNMoney

Francisco Louçã escreve hoje também sobre este incontornável tópico do “crash” bolsista na China , apontando para as consequências deste “crash” na economia portuguesa.

Já em posts anteriores havia alertado para a “estranha” evolução dos mercados financeiros internacionais. O ataque ao rublo e sobretudo o ataque (a valorização abrupta) ao franco suíço foram dois sinais importantes de que algo estava a mudar (há muitos outros sinais). O terceiro passo lógico era este que temos vindo a assistir nas últimas semanas: um ataque especulativo à taxa de câmbio entre o dólar e a moeda chinesa (yuan). Considero que o banco central da China é o banco central mais poderoso do mundo, com 3,9 biliões de dólares de reservas no final de 2014[1], as maiores do mundo, sendo a China um país com elevados excedentes externos (ou seja, um país rico do ponto vista financeiro, se bem que a sua população não possa, de modo algum, ser considerada rica).

Porque ocorrem estes ataques especulativos que, numa primeira abordagem, são aparentemente irracionais[2]?

Haverá várias razões, certamente. Mas uma razão não displicente é que especular contra bancos centrais ricos[3] tem-se revelado uma estratégia certeira e extremamente lucrativa. Em poucas semanas ou meses é possível aos especuladores, que apostem contra esses banqueiros centrais, ganharem dezenas de milhares de milhões de euros (montantes esses que poderão ser ainda mais elevados no futuro).

E porque é que os banqueiros centrais têm perdido sistematicamente as suas apostas financeiras?

– Porque fizeram apostas arriscadas e pouco fundamentadas, agindo com base no princípio de que a sua dimensão, riqueza e poder os protege, e que as suas posições e apostas não serão questionadas;

– Porque os banqueiros centrais tendem a não ser pessoas com um perfil de especulador, embora as políticas cambiais que definem para os respectivos bancos centrais sejam de carácter altamente especulativo. Quando chega a hora H agem, não como especuladores, mas como “banqueiros respeitáveis”, no sentido definido pela famosa citação de Keynes.[4] E fracassam “convencionalmente”;

– Porque gerem enormes somas de dinheiros públicos, na maior parte dos casos, com absoluta discricionariedade e à revelia do poder legislativo. Isto é, na prática esses banqueiros centrais têm à sua disposição montantes quase ilimitados de dinheiro[5]. Portanto é natural que, não enfrentando quaisquer restrições orçamentais, sejam presas “fáceis” para a especulação financeira.

Como já expliquei em artigos anteriores, essas gigantescas perdas financeiras dos erários públicos da Rússia, da Suíça e da China, para citar estes três casos recentes, são claros sinais de políticas públicas erradas. Este tipo de actuação dos bancos centrais gera enormes incentivos ao desenvolvimento de actividades económicas que visam a especulação financeira em detrimento de todas as outras actividades económicas.

 

 

 

 

 

 

 

[1] As reservas oficiais do Banco Central da China eram de 421 mil milhões de dólares em Julho de 2015, mas a China possui reservas de divisas e ouro que totalizavam 3,9 biliões de dólares no final de 2014, parte dos quais estará provavelmente à disposição do Banco Central, se necessário.

[2] Note-se que os três ataques especulativos foram realizados contra três dos países com maiores reservas externas.

[3] Países com importantes reservas de divisas e de ouro e simultaneamente com elevados excedentes externos.

[4] “A sound banker, alas, is not one who foresees danger and avoids it, but one who, when he is ruined, is ruined in a conventional way along with his fellows, so that no one can really blame him.” John-Maynard Keynes.

[5] Um banco central pode em teoria imprimir quantidades ilimitadas de papel-moeda.

Comentários

  1. – Excelente e elucidativo artigo de Ricardo Cabral.
    Entretanto, gostaria de aqui apresentar a «TERRA».
    TERRA é uma nova “moeda” global complementar [TRC – Trade Reference Currency] – que pretende funcionar como um meio de pagamento alternativo à escala global.
    Funciona como um cabaz de uma dúzia de mercadorias (commodities) mais cotadas ou transaccionadas a nível global – desde metais, petróleo, cereais, etc. O objectivo é conceber um sistema de pagamentos mais estável e imune a movimentos especulativos e inflaccionários – na verdade, a confiança nesta “moeda” está na potencial garantia de “lastro”, que sugere a reinvenção de um novo padrão-ouro, mas alargado a outros bens / commodities.
    Por outro lado, tratando-se pela sua natureza uma “moeda complementar” (e, como tal não directamente corrente às moedas nacionais) não precisa de um enquadramento legal específico para ser transaccionada, de forma, diríamos, “paralela” – ou alternativa – às divisas convencionais, fundamentando-se, antes, na livre aceitação dos agentes económicos.
    O ponto fraco estará porventura nos custos de armazenamento das mercadorias que serão imputados ao portador das «TERRAS» – e isto trás outras duas consequências, obriga à rápida circulação da moeda e restringe a sua utilidade enquanto reserva de valor.
    – Será esta uma boa ideia? Para mais informações sobre «TERRA», vide:
    «Terra: a Win-win Solution to Monetary Insecurity?» – http://www.humanitad.org/team/25/

    «The Terra TRC: A Global Complementary Currency to Stabilize the World Economy» – http://www.lietaer.com/2010/01/terra/

    * * *
    Para os mais cépticos, «Terra» será ainda uma utopia – porém, é também de utopias que se vai construindo a o “futuro”, na eterna esperança de se construir um mundo melhor: mais justo, livre e fraterno.
    Pessoalmente, sem querer especular sobre o que seja o futuro, não conseguiria viver a fatalidade presente de um mundo decadente e opressivo, opaco e cinzento, sem alternativas, nem esperança: – Ou, viva ou morra em mim D. Sebastião!

    Louco, sim, louco, porque quis grandeza
    Qual a Sorte a não dá.
    Não coube em mim minha certeza;
    Por isso onde o areal está
    Ficou meu ser que houve, não o que há.

    Minha loucura, outros que me a tomem
    Com o que nela ia.
    Sem a loucura que é o homem
    Mais que a besta sadia,
    Cadáver adiado que procria?
    [Fernando Pessoa em: Mensagem / Quinta. D. Sebastião, Rei de Portugal, 1933]

    1. Solução? Mudar a consciência é mudar a forma do dinheiro…

      Para Bernard Lietaer – um dos arquitectos do euro! – a forma como lidamos com o dinheiro é uma questão “civilizacional”. Pelo que, estamos ainda ligados a um sistema monetário que advém da estrutura das relações económicas da “era industrial”. Isto, quando as novas tecnologias nos dão outras oportunidades de conceber novas formas de sistemas de pagamento (moeda) que prometem mudar o conceito que temos, e para que serve, o “dinheiro”!
      Abaixo, segue o trecho de uma entrevista de Bernard Lietaer à Reuteurs, em que o especialista questiona a razão pela qual não poderá a Grécia vir a lançar uma nova moeda – Dracma – complementares ao Euro. Sugerindo que este seja usado preferencialmente nos sectores do turismo e transportes marítimos que elevada exposição nas trocas e receitas com o exterior.

      «No reason why Greece could not have two currencies» – Bernard Lietaer. Reuters, 3/7/2015

      RT: – If Greece sets a precedent and leaves the eurozone, is there a danger others will follow?
      LIETAER: – “[…] There are other solutions available and what’s strange is that they are never talked about publicly anywhere. I don’t see any reason why Greece could not have two currencies: Be a participant in the euro for tourism and for shipping – which are the largest sectors of the economy. At the same time, have some new drachma, which is playing by different rules and which is providing capacity to reanimate the economy at the grassroots level, a lot easier than what happens with the euro now.
      So I think there is a third solution which is ‘let’s innovate’ and there are precedents for this. I know economic theory never has been assuming a possibility of having several currencies in parallel, but in practice we do. Switzerland has, for the last 80 years, has been using two currencies: the Swiss franc and a business-to-business currency, which is working in parallel and stabilizing the economy. We never talked about it but its working. In Britain, if you are a British company you can choose to have your balance sheets and your taxes paid in euro. So you can actually for all practical purposes be part of the eurozone and at the same time in a British pound economy. So these things exist.

      RT: – If these alternatives do exist why are they are not being offered to Greece?
      BL: – It would create a precedent for a very different way of addressing economic problems. We are basically dealing with either orthodoxy, in a classical way, or getting ready for the information age, because that’s what I believe is going to be needed and necessary and we are delaying the process. We are still using an industrial age monetary construct in a period where we have technologies to do things differently. Every Greek citizen has a mobile phone, or at least every family does, so one could create new ways of a payment system with dual currencies. And all that is possible. It has not been done before there is no reason not to do it now. It’s certainly better than what’s being debated.
      Fonte: http://www.rt.com/op-edge/271504-greece-euro-drachma-economy/

      BRISTOL POUND: Um bom exemplo do contributo de novas tecnologias no lançamento de sistemas de pagamento complementares (moeda) é o «Bristol Pound». Através de uma aplicação móvel é possível fazer pagamentos e transferências de conta entre utilizadores aderentes da região de Bristol, Reino Unido, através de telemóvel ou internet.
      Sistema idêntico está a ser implementado pelo banco comunitário «Palmas», no Brasil.

      – Como funciona o «Bristol Pound»?: https://www.youtube.com/watch?v=cj3Bp13hLiE (english)
      – Como funciona o «Palmas e-dinheiro»?: https://www.youtube.com/watch?v=JWxSesCHILI (português)

    2. O que temos hoje em dia é Banca privada a criar moeda (fiduciária) fazendo-o de acordo com os seus interesses (privados e não do interesse público) o que vem a provocar estes ciclos de expansão descontrolada criando bolhas descomunais de créditos, que depois a população está obrigada a pagar com a consequente contracção (crises) criando desemprego miséria etc… etc… O mais patético é que depois nos vendam a historinha de que “as pessoas gastaram mais do que podiam.

      A criação de moeda tem de estar sob controle público e não nas mãos de meia dúzia de figurões cujo único interesse é o de ter o maior lucro possível.

      A gestão do crédito e criação de moeda, deve ser planificado de acordo com o interesse público. Não podemos deixar que algo tão vital para a economia esteja nas mãos de privados e muito menos daquelas criaturas que cometem as vigarices multimilionárias a que temos vindo a sofrer neste País.

      O financiamento dos Estados feito exclusivamente pela Banca privada é um crime contra as populações.

      Existe um movimento que tem uma abordagem interessante sobre este tema:

      http://positivemoney.org/

      Óbviamente, quando entramos no Euro, perdemos qualquer hipótese de autonomia monetária.
      Estamos escravisados pelas falácias enviesadas com que a Finança Mundial explora massivamente as populações, ajudadas pelos seus mordomos (políticos da UE).

    3. O que temos hoje em dia é Banca privada a criar moeda (fiduciária) fazendo-o de acordo com os seus interesses (privados e não do interesse público) o que vem a provocar estes ciclos de expansão descontrolada criando bolhas descomunais de créditos, que depois a população está obrigada a pagar com a consequente contração (crises) criando desemprego miséria etc… etc… O mais patético é que depois nos vendam a historinha de que “as pessoas gastaram mais do que podiam.

      A gestão do crédito e criação de moeda, deve ser planificado de acordo com o interesse público. Não podemos deixar que algo tão vital para a economia esteja nas mãos de privados e muito menos daquelas criaturas que cometem as vigarices multimilionárias a que temos vindo a sofrer neste País.

      O financiamento dos Estados feito exclusivamente pela Banca privada é um crime contra as populações.

      Existe um movimento que tem uma abordagem interessante sobre este tema:

      http://positivemoney.org/

      Obviamente, quando entramos no Euro, perdemos qualquer hipótese de autonomia monetária.
      Estamos escravizados pelas falácias enviesadas com que a Finança Mundial explora massivamente as populações, ajudadas pelos seus mordomos (políticos da UE).

    4. Caro MP, concordo inteiramente consigo!
      No entanto, a promoção do “interesse público” pode também estar no “cooperativismo” no troca de moeda e no acesso ao crédito, desenvolvido pelos “bancos comunitários”. – E, dos vários exemplos, quem são os verdadeiros “donos” destes “bancos” ou “cooperativasde crédito”? Da população participante e cooperante…
      E esta é também a história do Grameen Bank, ou «banco dos pobres», e do microcrédito desenvolvido pelo nobel Yunus
      (Por curiosidade Yunus foi laureado com o prémio Nobel da “paz” e não da “economia”!)
      Mais, a experiência dos bancos comunitários diz-nos que não se trata de concorrer ou substituir o Estado, antes chegar em termos de promoção de economia social onde nem o Estado, nem a banca privada conseguiram chegaram…
      Abraço fraterno.

  2. Este artigo vem a questionar o cerne de todos os problemas e crises financeiras.

    O Sistema Monetário é o sangue da economia. Quando não nos apercebemos que são parasitas que são os donos do nosso sangue e controlam o seu fluxo, obviamente estaremos doentes e ignoramos o que provoca tal situação.

    Por trás de toda a retórica propagada pelos média oculta-se a verdadeira causa da esmagadora maioria dos problemas económicos.

    A criação de moeda (fiduciária) nas mãos da Banca Privada e a regulação da mesma por um Banco Central independente do Poder Público, é uma das maiores fraudes a que o Mundo se deixou submeter.

  3. «[1] As reservas oficiais do Banco Central da China eram de 421 mil milhões de dólares em Julho de 2015, mas a China possui reservas de divisas e ouro que totalizavam 3,9 mil milhões de dólares no final de 2014, parte dos quais estará provavelmente à disposição do Banco Central, se necessário.»

    Como o caro amigo referiu na primeira vez, são 3,9 biliões e não 3,9 mil milhões…

  4. Boa noite Dr Cabral
    Há muito investimento chinês em Portugal, nomeadamente na EDP e na Fidelidade e REn, que impactos negativos podem ter para as empresas acima referidas , a crise chinesa?
    Obrigado

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