Tudo Menos Economia

Por

Bagão Félix, Francisco Louçã e Ricardo Cabral

António Bagão Félix

25 de Agosto de 2015, 13:12

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Exactidão, o que é feito dela?

scales_of_justice_117108A exactidão vai cedendo lugar à falta dela. A exactidão dá-se mal com a pressa e nem sempre é compatível com a quantidade que, (só) às vezes, é o seu instrumento de medida. A exactidão abomina o primado da circunstância, tem horror à vacuidade, foge das adversativas.

A exactidão é a bússola da personalidade e a geometria da alma. É a medida da justa união entre o rigor e a prudência no sentido tomista do termo (“É necessário que haja na razão uma virtude intelectual que lhe dê bastante perfeição para melhor se comportar em relação aos meios a tomar. Esta virtude é a prudência”, São Tomás de Aquino). Mas não é uma forma obsessiva de se ser ou de estar. É, antes, um modo respeitável de respeitar o outro. Ou de se dar. E de, no regresso, ter direito a receber.

A exactidão exprime-se no tempo e nos tempos. No modo e nos modos. No juízo e nos juízos. No sentimento e nos sentimentos. Todavia, não é um algoritmo com a medida da nossa aritmética vivencial. Mas é um antídoto para a fantasia, para a prolixidade verbal, para os excessos da fugidia observação.

A exactidão não é monopólio das ciências ditas exactas.Nestas, a exactidão relaciona-se com o grau de conformidade de um valor ou relação mensurável com uma medida padronizada. Diferente do conceito de precisão, que nos evidencia o grau de variabilidade de uma série de medições em relação a um valor médio. Por outras palavras, se a exactidão é a medida do rigor, a precisão é o detalhe da variação. Por isso, uma balança deve ser exacta (ou seja, com medidas correctas) e precisa (com o menor nível possível de desvio).

A exactidão também não é o mesmo que certeza, como a incerteza não se identifica com a falta daquela. A certeza até é, estatisticamente falando, a exactidão da probabilidade igual a 1 ou 0, mas a incerteza é sempre a exactidão de uma probabilidade numa infinitude entre 0 e 1.

A exactidão convive bem, e talvez paradoxalmente, com a dúvida. Quantas vezes a dúvida é uma forma construtivista de alcançar a exactidão? E quantas vezes a ausência daquela é uma via directa para desistir da procura da exactidão? Como escreveu Goethe “Só sabemos com exactidão quando sabemos pouco; à medida que vamos adquirindo conhecimentos, instala-se a dúvida” .

O teste da exactidão é mais aferido na linguagem escrita do que na expressão oral. Relembro aqui Fernando Pessoa: “A linguagem oral é social. A escrita é cultural”. Certamente porque a exactidão se alimenta de tempo: tempo para a construir, tempo para perdurar. O tempo é, aliás, exactidão. Mesmo assim, há quem queira violar a exactidão do passado para construir qualquer aparente certeza do futuro. No tempo presente e do presente, a escassez de exactidão tem, entre várias, uma expressão de transgressão infelizmente endémica: a falta de pontualidade. Esta inexactidão está a crescer vertiginosamente na razão directa dos meios para a “justificar”, e, dos quais, os chamados sms são os que estão, literalmente, mais à mão. Em certos ambientes ditos de élite (!), a pontualidade é mesmo escarnecida na razão inversa da importância que cada qual dá a si mesmo, e quem é pontual é olhado como fanático, senão mesmo como – paradoxalmente – fora do tempo.

Também a urgência é, muitas vezes, um pretexto para não ser exacto. Aliás, esta palavra é cada vez menos exacta, de tal modo que para algo exactamente urgente (por exemplo, na saúde) se é obrigado a usar um mais superlativamente sugestivo vocábulo: emergência. Esta nossa imprecisão, quando falamos do tempo, é uma tocante marca de ser português. Desde logo, a imprecisão aritmética: “daqui a uma semana é o mesmo que daqui a oito dias, mas “dentro de duas semanas é daqui a quinze dias, curiosa soma de oito com sete… Ou o nosso tão corriqueiro “só um segundo, por favor!”, que tanto pode significar um minuto, uma hora, ou mesmo … nunca. Há uma interessante expressão no mundo do futebol (um dos lugares, por excelência, de ilustração de não exactidão, a não ser no implacável resultado) que é “Está na hora!”, significando um bramido descronometrado de um nervoso adepto para que o jogo acabe face ao sofrimento da exiguidade do resultado…

Por falar em exactidão de linguagem, logo me lembro das muitas coabitações entre o exagero e a hipérbole. Por exemplo, o “extremamente”, que é usado e abusado para tudo o que não é extremo e o, quase seu oposto, o não menos usado e abusado “mais ou menos”.

A diluição da exactidão é pasto para toda uma variedade de aumentativos e exagerações. Tudo super, híper, mega. Tudo desgraça, catástrofe, tragédia. Tudo última hora, imperdível, incontornável.

A exactidão é um valor. Logo, associado a  éticas prescritivas. De direitos, de deveres, de relação, de cuidados, de virtudes, de persuasão, de observação, enfim, de inteireza (ou integralidade =integral + responsabilidade) de carácter.

Há um provérbio chinês que completa uma expressão que muito usamos: “a palavra é prata, o silêncio é ouro”. Acontece que nem sempre o silêncio tem correspondência na exactidão. A ausência da palavra pode ser uma ardilosa maneira de fugir à exactidão, e é, por isso, que, não raro, o silêncio é unilateralmente de ouro apenas para quem se cala ou não diz. Como escreveu o poeta francês André Breton, “Uma palavra e tudo está salvo, uma palavra e tudo está perdido”.

As redes sociais são um dos hodiernos e expressivos instrumentos comunicacionais de falta de exactidão, que, também por isso, florescem como cogumelos. Entre o bom trigo que nos possibilitam, cresce em força o joio dos antípodas da exactidão do modo como se olha para o mundo e se ajuízam, muitas vezes, tão ligeiramente, os outros e tudo: a cobardia, a impunidade, a irresponsabilidade, a desvirtuação factual, a devassa e até a auto-devassa, o rumor elevado à categoria da verdade absoluta, a montagem, a imitação e carneirada acéfalas.

Agora que se aproximam eleições importantes – com a inultrapassável falta de exactidão no número de eleitores, entre muitos vivos e alguns mortos –  haverá lugar para a exactidão ou estaremos condenados – mais do que ao seu antónimo – à sua aparência danosa?  Por falar em eleições, o que dizer das sondagens, agora cada vez mais falíveis,como verificamos pelo mundo fora? Inexactidão ou imprecisão? Ou ambas? E será que a culpa é da exactidão abstencionista?

Comentários

  1. Excelente reflexão. A falta de exatidão e de precisão no discurso tornou-se um traço nacional há muito tempo, desde que se passou a ensinar a verbosidade em detrimento do discurso preciso e sintético.

    Quando eu era um garoto de liceu, nos anos 70, a minha natural propensão para escrever telegraficamente e de procurar chegar a respostas da forma mais curta e precisa possível entrava em conflito direto com um sistema de ensino que privilegiava a verbosidade. Eu tinha más notas a português, história, filosofia porque preenchia apenas uma folha de ponto, e não 3 ou 4 como a maioria dos meus coleguinhas. Nunca parecia suficiente responder frontalmente à pergunta. Era preciso “desenvolver”.

    40 anos depois, não há na psicologia portuguesa reconhecimento do valor dos argumentos “to the point”. Essa é uma das razões para a inutilidade do debate à portuguesa. É preciso sempre dizer muitas palavras. Até inventamos muletas de discurso apenas para acrescentar palavras (“É assim,…”).

    Precisamos urgentemente de combater essa doença, tornando “fashionable” e “viral” o discurso preciso. Crie-se um movimento. Eu apoiaria, com poucas palavras, mas precisas.

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