Tudo Menos Economia

Por

Bagão Félix, Francisco Louçã e Ricardo Cabral

António Bagão Félix

1 de Agosto de 2015, 08:51

Por

Quem procrastina mais?

Procrastinar não é apenas adiar, delongar, postergar. Significa evitar fazer o quase inadiável, não tanto por inacção, mas fazendo outras coisas. Um procrastinador tende a deixar para o fim aquelas coisas que tem mesmo que fazer, escolhendo tarefas menos importantes mas que, para ele, são mais interessantes ou atractivas. Um típico procrastinador é o estudante entre as aulas e os exames.

A palavra procrastinar, tem como raiz última o advérbio latino de tempo cras, que significa amanhã, antecedido por pro  (à frente).

Há vários tipos de procrastinadores: crónicos e ocasionais; relaxados e tensos; estruturados e desorganizados (mesmo para nada fazer é preciso organização). Revelam alguns conhecidos estudos e inquéritos que 20% dos adultos são procrastinadores crónicos e 95% o são ocasionalmente.

A procrastinação pode ter diferentes causas, que vão desde a fadiga, preguiça e falta de concentração ao medo de falhar e ao perfeccionismo.

A evolução tecnológica e toda a sorte de equipamentos de trabalho e de diversão potenciaram não só a procrastinação, como a sua organização. Daí a relevância do procrastinador estruturado, tal como lhe chama John Perry, professor jubilado da universidade de Stanford, no seu livro “A arte de adiar”. Para este autor, o procrastinador estruturado é alguém que faz muitas coisas deixando muitas outras por fazer. O importante é arranjar motivos (ainda que fúteis) para não fazer o que se deveria fazer. Sugere mesmo que a habitual lista de tarefas disponibilizada pelas aplicações informáticas ou o mais clássico “to do” incluam, não só o que tem que se fazer, como o que não se quer fazer. E para aliviar a má consciência do procrastinador, sugere que as tarefas cumpridas não sejam eliminadas, mas continuem visíveis com um traço exterminador.

Confesso que na minha caixa de correio, por vezes, tenho tendência para procrastinar mails importantes e com resposta necessária, escolhendo mails interessantes mas sem seguimento e até mails irritantes que nos invadem a caixa e para os quais sinto o gozo de os eliminar sem dó nem piedade.

Agora que nos aproximamos de eleições, a procrastinação em política é também comum. Aliás, em parte, a fúria dos governos em legislar em catadupa nos últimos meses dos mandatos tem não só a ver com a perspectiva eleitoral, mas também com a sucessiva procrastinação que trocou reformas estruturais trabalhosas e duras por pequenas e médias medidas mais ligeiras e simpáticas.

A procrastinação, mais potenciada nos tempos que correm pela parafernália tecnológica, não é, porém, atitude só de agora. Ao longo da história, há ilustres procrastinadores que nos legaram património artístico, literário, científico. Por exemplo, são referidos como procrastinadores o radicalmente eclético Leonardo da Vinci, Kafka, curiosamente o autor de “O processo”, Victor Hugo e Mark Twain. Este, com a sua notável ironia, haveria de afirmar uma máxima de como bem procrastinar: “Nunca deixes para amanhã o que podes fazer depois de amanhã”. Já nos antípodas do procrastinador, elegeria o prussiano e ferreamente autodisciplinado e racional Emmanuel Kant.

Comentários

  1. Leitor do seu blog deparei-me com as suas reflexões sobre a procrastinação e veio-me à memória uma frase de um célebre colega procrastinador o qual, no leito de morte, proferiu a seguinte frase que serve de aviso:
    ” I should have drunk more Champagne !”
    Para John Maynard Keynes já foi porém tarde !
    Resta dizer que na Academia as opiniões dividem-se sobre quando o Mestre terá proferido o desabafo, mas é convicção geral que foram mesmo suas essas palavras, muito embora talvez não proferidas nos seus últimos momentos, o que lhes retira alguma piada.
    O que é certo é que meditando sobre tudo isto me deu vontade de, antes que fosse tarde, abrir uma garrafa de Pol-Roger que tinha guardada para as grandes ocasiões, e portanto daqui ergo a minha taça numa saúde aos Autores do “Tudo menos Economia.”
    Cheers !

    1. Pela minha parte, também o obrigado pelos amáveis votos do leitor, mas igualmente por esta excelente reflexão do António Bagão Félix sobre quem procrastina mais…

  2. “Nunca deixes para amanhã o que podes fazer depois de amanhã”. É do Mark Twain?? Sempre pensei que fosse André Brun. Estamos sempre a aprender… Recomenda-se para leitura de verão “Os mandriões do vale fértil” Albert Cossery (antigona).

    1. Não conheço o livro recomendado, mas o título lembrou-me de algumas (ainda muito poucas) iniciativas que vão surgindo no meio rural e que tentam resgatar uma forma de vida mais salutar, sustentável e próxima da terra.

      Podemos ficar aqui discutindo economia o quanto quisermos, mas – a meu ver – o atual sistema capitalista parece demasiado “avariado” para justificar tanto esforço de reparo. Melhor – a meu ver – será investir nessas iniciativas e “novas economias paralelas”.

      Aos olhos de muitos membros da classe média mais conservadora, que pode até trabalhar para caramba mas continua apegada à avariada teta capitalista, essas iniciativas não passam de “comunidades de anarcas mandriões”. E no entanto, são eles que estão recuperando terrenos deixados inférteis, restituindo vida ao interior e desbravando uma nova economia, mais humana e sustentável.

      Gostaria de ver mais apoios a essas iniciativas, para que se estruturem melhor e se multipliquem e até para que não se perca – pelo caminho – o tanto conhecimento e tecnologia que – mal ou bem – o capitalismo conseguiu promover.

      Uma coisa me parece certa, são elas que estão recuperando este paraíso que chamamos Terra.

  3. Eu adicionaria um outro motivo; indecisão. E ainda um outro; falta de visão. Mencionou a troca de reformas trabalhosas e duras por outras mais ligeiras e simpáticas, mas será que não existem soluções para a implementação de reformas duras em conjunto com medidas que aliviem os impactos mais negativos e não prejudiquem e até promovam essas mesmas reformas?

    Onde existe vontade…

    Pessoalmente o motivo que mais sinto me atingir é a fadiga. Quando recentemente descrevi a uma amiga a minha rotina diária, que inclui desde as tarefas domésticas às profissionais, ela respondeu-me “estás a aprender o que significa ser mãe solteira”. Limpar a casa, lavar roupa, cozinhar, lavar louça, ir ao supermercado e praticar uma atividade física podem parecer tarefas mundanas, mas higiene, saúde e limpeza não tem nada de fútil; é básico.

    Há algumas décadas atrás, vivíamos mais em núcleos familiares, quando não em clã, e isso resultava em alguma distribuição do peso das tarefas domésticas e familiares. Hoje as famílias estão cada vez mais fragmentadas, não raras as vezes por motivos económicos, tão simples quanto não ter as condições financeiras para morar no mesmo bairro onde moram os pais, que com o passar dos anos de especulação imobiliária se tornou demasiadamente caro. Também havia uma maior tendência a trabalharmos perto de casa. Hoje, chegamos a dispender em deslocação para o trabalho mais duas, três e até quatro horas extra diárias, com o desgaste que isso trás. O ritmo acelerado e o aumento de estresse nos empregos, resultante de diversos fatores como a competitividade que leva à desvalorização da mão-de-obra (que leva a aceitar mais demandas e encurtar o tempo que a elas se destina), avanços na tecnologia, redução de quadros e resultante sobrecarga de demandas, pressão de metas e até a falta de planejamento e senso de urgência, que leva a que tudo seja classificado como “urgente”, tudo isto agrava o desgaste no dia-a-dia. As dificuldades económicas e falta de perspetiva de melhora causam ansiedade, adicionando ainda mais desgaste. A descrença na política e a indignação com toda a inversão de valores a que se assiste também. Até a austeridade, que pode desacelerar a vida daqueles que perdem os empregos, tende a acelerar ainda mais a rotina daqueles que conseguem preservar a sua atividade.

    Vivemos tempos muito intensos, acelerados e desafiadores. Não é fácil se manter à tona, quanto mais encontrar tempo, energia e tranquilidade para encaixar mais tarefas. Veremos onde tudo isto nos irá levar…

  4. Juro que ao ler a sua crónica,veio-me logo à cabeça procastinação do ps em relação à reforma da segurança social.

    Diz: “A procrastinação pode ter diferentes causas, que vão desde a fadiga, preguiça e falta de concentração ao medo de falhar e ao perfeccionismo.”
    Na minha opinião, a esta atitude do ps, junto ainda, cegueira, incompetência,clientalismo!

    1. O PS procrastina a reforma da segurança social? Olhe que não (eu não sou sequer simpatizante do PS). Verdadeira reforma foi a feita pelo primeiro-ministro Guterres e pelo ministro dos assuntos sociais Ferro Rodrigues. Reforma (na minha opinião muito má) foi a feita pelo primeiro-ministro Pinto de Sousa e pelo ministro Vieira da Silva.
      Que eu saiba, a última reforma feita pelo PSD foi a do governo Cavaco Silva (não me ocorre o nome do ministro da área).
      Vamos a ver se nos entendemos: entra-se para um regime com vinte ou vinte e cinco anos e só de lá se sai quando se morre. São cinquenta ou sessenta anos. Muitas são as mudanças na economia e na sociedade que entretanto ocorrem. Logo, para decidir nesta matéria é imperativa uma grande humildade intelectual. Infelizmente, toda a gente bota sentenças.
      Claro que o regime pode sempre ser alterado; mas impõe-se respeitar, na respetiva proporção de tempo, os regimes ao abrigo dos quais se contribuiu. Esse é o primeiro dever do Estado, Se necessário (embora o não creia) saindo do euro e da União Europeia. Hoje o Estado parece mais vinculado aos contratos de direito privado que firma, o que recuso aceitar

    2. José Neto, Eu também não sou simpatizante do psd, mas contrariamente ao ps vejo-lhes vontade em resolver um problema tão grave como este, que é a sustentabilidade da SS. Segundo a definição da palavra “Governar”: pilotar um navio, condizir, dirigir. Dito de outra forma, governar é anticipar problemas. Ora as reformas que foram feitas não anticiparam os problemas, a prova disso é que neste momento se ainda não batemos no muro, estamos muito proximos de o fazer. E não é ignorando o muro que o vamos evitar, como o mostra atitude do ps.

      “Estado parece mais vinculado aos contratos de direito privado que firma, o que recuso aceitar”

      Não sei se estou certo, a proposta do governo não é muito clara, mas julgo saber que é um misto dos dois: uma parte repartição com teto maximo de 2500 euros (Público) e outra parte capitalização (privado).
      Na minha opinião os 2500 euros é um teto muito elevado. É superior a 3 salários médios, em comparação com a Suiça por exemplo, em que o teto ( parte repartição) é “inferior” a 2.6 salários médios. Quem tem salários mais elevados e pretendem ter uma boa pensão podem muito bem cotizar mais no privado; evita-se assim, como é o caso agora, que os mais pobres andem a pagar para os mais ricos.

    3. “Evita-se assim, como o caso agora, que os mais pobres andem a pagar para os mais ricos.”

      Com o constante aumento da idade de reforma e deterioração da saúde pública, duvido que daqui a algumas décadas a grande maioria dos mais pobres chegue a usufruir de pensão de reforma.

      Do jeito que as coisas andam, daqui a umas duas décadas teremos toda uma camada de cidadãos desempregados com idades compreendidas entre os 50 e 70 anos a viver num limbo, idosos e doentes demais para as empresas se interessarem em empregar, novos demais para se reformarem e com filhos empobrecidos demais para os sustentarem.

      Eu antevejo um verdadeiro holocausto da terceira idade na classe trabalhadora e não vejo nada sendo feito pelos governos, tanto PS como PSD, para o evitar. Pelo contrário, parece-me que, enquanto tentam resolver um problema económico, estão semeando uma crise humanitária numa escala sem precedentes.

      E com os governos nacionais cada vez mais endividados, destituídos de meios de produção e dependentes da receita fiscal para a geração de renda, vão ver-se de pés e mãos atadas para encontrar e implementar soluções. Ou contraem mais dívida ou aumentam os impostos ou – mais provável ainda – ambos, para conseguirem pagar os juros da crescente dívida.

      Enquanto o maior foco da governação for evitar um colapso, colapso será o que está à sua frente e, sem mudança de direção, será inevitável. A vida não pára.

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