Tudo Menos Economia

Por

Bagão Félix, Francisco Louçã e Ricardo Cabral

Francisco Louçã

31 de Julho de 2015, 08:58

Por

Tão espertos e sempre tão enganados

ocdeFaça-me o favor de olhar para este gráfico (clique se quiser ampliar). É muito oficial e representa a evolução do PIB da zona euro, a partir de um ponto original que é o estado da economia quando começou a crise financeira (2007-2008). Verifica-se tristemente que, oito anos depois, ainda não recuperámos até ao nível inicial.

Mas o gráfico tem outro detalhe e é desse que lhe quero falar. Ele regista, ano a ano, as estimativas de crescimento das entidades europeias no momento em que foram formuladas. Por cinco vezes sucessivas, estas estimativas enganaram-se. Estiveram sempre erradas. Presumiram que a ligeira recuperação de 2010 ia ser um sucesso. Foi um fracasso. Anteviam que em 2011 a economia ia disparar. Caiu. Que em 2012 ia virar. Continuou a estagnação. Que em 2013 e em 2014 ia começar a fulgurante recuperação. Não saiu do mesmo.

E as previsões estivera erradas no mesmo sentido: eram sempre demasiado optimistas. O mesmo erro cinco vezes seguidas já não é distracção, é mesmo mania. Ou seja, a economia era gerida por gente com um enviesamento ideológico mais forte do que as suas competências técnicas. A consequência foi sempre a pior possível: como tudo ia correr bem, as medidas em vigor eram óptimas e não era preciso nada mais. No ano seguinte, correu mal, as medidas falharam, mas agora é que vai correr bem, não mexer em nada. E no ano seguinte outra vez a mesma coisa. Ou seja, as previsões foram um mecanismo para confortar a ideologia da austeridade e justificar a inacção.

Como é que Passos Coelho, coitado, não se havia de enganar nas contas?

Comentários

  1. Acho que Francisco Louça diz tudo nestas palavras, porque foi este o caminho seguido pelos partidos de governo precedentes na Grécia :

    : ” O mesmo erro cinco vezes seguidas já não é distracção, é mesmo mania. Ou seja, a economia era gerida por gente com um enviesamento ideológico mais forte do que as suas competências técnicas. A consequência foi sempre a pior possível: como tudo ia correr bem, as medidas em vigor eram óptimas e não era preciso nada mais. No ano seguinte, correu mal, as medidas falharam, mas agora é que vai correr bem, não mexer em nada. E no ano seguinte outra vez a mesma coisa. Ou seja, as previsões foram um mecanismo para confortar a ideologia da austeridade e justificar a inacção”

    Syrisa veio para o poder nesta situação.

    Mas o que acho estranho é que o Professor ainda acredite que pode existir uma solução, qualquer que ela seja, no sistema económico mundial actual. Os Estados não tendo nenhum poder para implementar politicas económicas alternativas àquelas que são impostas por Berlim e o BCE, por aliança. Noutras palavras, a finança internacional tendo tomado o poder planetário, nada se fará sem o seu assentimento ou, nada poderá ser feito contra o seu bem querer.

    1. Não sei porque tira a conclusão que expressa no último parágrafo. Não há solução para o pleno emprego no sistema financeiro actual.

  2. Todos percebemos que as coisas não estão a funcionar bem, mas quando procuramos alternativas, não as vemos apresentadas com factos concretos, números exatos, mas apenas com intenções. Protesta-se contra a austeridade imposta pela troika e, com justeza, refere-se os sucessivos erros nas previsões macroeconómicas apresentadas.
    No entanto, aquilo que eu esperava ouvir de quem afirma existir alternativa é a descrição detalhada, com números, dos seus planos.
    Por exemplo, se eu tenho um rendimento de 100 u.m. e uma despesa de 110 u.m, é óbvio que tenho de mudar algo. O óbvio é que a despesa vai ter de diminuir. Se alguém me vem dizer que é possível aumentar o rendimento em pelo menos 10 u.m. para se equiparar à despesa, eu exijo saber como. Não basta que me digam que é possível, é preciso que me mostrem como o fazer, caso contrário, por muito que me custe, irei mesmo tentar o corte de 10 u.m. na despesa.
    Quero que me digam claramente: 2 u.m virão daqui, 4 u.m virão dali, mais 4 u.m. virão dalém e tudo isto devidamente fundamentado.
    Claramente é isto que falha nos partidos que se querem afirmar como alternativas ao poder instituído, pois entre descer vários degraus duma escada que é a economia do país ou fechar os olhos e dar um passo sem ver onde se colocam os pés, não sabendo se o que nos espera é o abismo, não tenho dúvidas em afirmar que tudo continuará igual em termos da inclinação do voto das pessoas.
    Se há alternativas, quero conhece-las, mas de forma detalhada, com números, baseadas em modelos facilmente comprováveis, com planos a longo prazo para a economia. Para me dizerem que o modelo presente não está a funcionar bem, não vale a pena intervirem. Isso já eu sei. Quero é saber se há ou não um caminho diferente que possa ser seguido.

  3. Boa tarde Francisco Louçã .
    A única pergunta que tenho para si é :
    Alguma vez se preocupou a arranjar soluções para o País ou a única preocupação que o senhor ( vocês do bloco ) têm é dizer que está tudo mal e arranjar gráficos.
    Afinal são duas perguntas : os 78 mil milhões de euros da troika não influíem na dívida pública ? É que vocês também votaram contra o pec . Provavelmente sem troika e sem esta dívida pública o seu vencimento de professor hoje estaria em causa .

    1. Os 78 mil milhões são mais dívida pública. E o ordenado dos funcionários públicos ou as pensões dos reformados nunca estiveram em causa em Portugal. O que esteve em causa foi o lucro e os juros que os bancos alemães e franceses receberam, e esse foi assegurado pela austeridade que levou, entre outras coisas, ao corte da pensão do seu pai e da sua mãe. Suponho que haja quem esteja satisfeito com o resultado, a dívida pública cresceu 40 mil milhões de euros no total.

    2. Rogério, talvez a pergunta mais importante seja “existe abertura a soluções alternativas ao caminho definido pelos grandes poderes para a União Europeia, conforme executado pelo Eurogrupo e pelos partidos do arco de governação?” A inflexibilidade demonstrada durante as negociações com o executivo grego – e até a capitulação do mesmo – passou um sinal de não haver abertura para diálogo ou alternativas.

      E isto porque, a meu ver, no final de contas não se trata de encontrar soluções imediatas para o défice de Portugal ou da Grécia, mas antes de um desmantelamento progressivo das soberanias nacionais, transferência de poder para um governo internacional e – simultaneamente – provocar o desaceleramento da atividade económica nos padrões atuais.

      A austeridade veio para durar um longo tempo. Mesmo as economias conquistadas pelos cortes nas despesas do orçamento de estado poderão ser em breve anuladas com o aumento das taxas de juro da dívida pública. Quem ainda guarda alguma esperança de voltar ao tempo das vacas gordas, pode esperar sentado, pois muito provavelmente já não viverá para o ver. Creio que o melhor que podemos esperar é mais apoios para novas atividades económicas transformadoras e menos brutalidade na implementação da austeridade, com vista a uma transição menos dolorosa.

      E isso sendo muito otimista.

  4. A retoma económica tem sido de facto mais lenta do que se esperava, e com sucessivos avanços e recuos, mas tal não significa que não se esteja a verificar. Recordo-lhe que a Irlanda deverá crescer este ano 3,6%; Espanha, 3,2%; e Portugal nas previsões mais otimistas poderá crescer 2%. Já para não falar da acentuada descida dos défices públicos e da queda das taxas de desemprego que se têm vindo a verificar. A esquerda falhou também grosseiramente nas suas previsões: a tão apregoada «espiral recessiva», afinal também não se verificou.

    1. Curioso: espiral recessiva foi um termo lançado por Cavaco Silva. E esta semana foram publicadas projecções oficiais europeias, segundo as quais Portugal precisará de mais de uma década para reduzir o desemprego. E quanto tempo para corrigir a dívida? O sucesso da austeridade é uma burla.

    2. O Sucesso do Syriza na grecia e do podemos na venezuela é muito melhor. Imprimir moeda própria dá direito a 7 horas na fila para comprar 1 rolo de papel higiénico. Um estrondoso sucesso.

    3. Interessante. O Podemos ganhou na Venezuela, suponho que o Syriza em Espanha e cuidado com o Obama, que ganhou na Alemanha.

  5. O vídeo “Doctor Perfected The Method Of Giving Children Shots”, que pode ser encontrado no youtube, segue uma metodologia semelhante, com a diferença que o médico no vídeo está bem mais proficiente na arte do ilusionismo. Consegue fazer a criança rir bem mais do que sentir a dor. Mas, verdade seja dita, a picada é bem mais rápida. A do gráfico está noutra escala de tempo, bem mais difícil de administrar…

  6. Estimado Francisco Louçã, e que outra lição prática poderemos tirar no apuramento da verdade sobre este aparente logo?
    Pergunto, se a política mais sensata não seria ajustar os juros, e os encargos global da dívida, ao desempenho ou crescimento real da economia?…
    Se assim fosse, na melhor justeza da “esperteza”, por certo teríamos políticas mais “realistas”, verdadeiramente orientadas para o crescimento, solidárias e equitativas – a começar pela justa relação entre credores e devedores na partilha do risco! Porém, a preceito ideológico da austeridade apenas pretende proteger o credor de eventuais perdas imediatas, para satisfação e tranquilidade dos “mercados” – e não propriamente garantir a sustentabilidade, convergência e integração das economias periféricas do euro.
    * * *
    Entretanto, gostaria de sugerir a leitura do seguinte artigo académico: «ESTÁ NA HORA DE PORTUGAL SAIR DA ZONA EURO» – da autoria de Pedro Cosme da Costa Vieira, 2011, FEP/U.Porto. Neste texto, o autor demonstra as trajectórias reais (vide gráficos) do PIB após a desintegração das zonas económicas do “Rublo” (URSS), da dissolução da Checoslováquia e da saída da Argentina do câmbio fixo do dólar. Vale a pena reflectir…

    Vide: http://wps.fep.up.pt/wps/wp423.pdf

    1. O artigo é interessante mas como pôde comprovar tem erros:

      “Vantagem 1 ‐ Acabava o risco cambial pelo que nos passaríamos a financiar a taxas de juro muito mais baixas.
      Inicialmente isto aconteceu mas Portugal abusou desta oportunidade endividando‐se exageradamente pelo que acabou e não volta mais.”

      Atualmente estamos a financiarmos a taxas que estão em níveis pré-crise. E isto só prova que a política comanda tudo. A união europeia decidiu resolver esse problema e resolveu. Falta os outros !

    2. Sim, António, precisamos de informação rigorosa e políticas realistas. Mas creio que a comparação com a URSS ou a Argentina não dá muita infomação.

    3. O artigo académico de Pedro Cosme (2011) teve o mérito de abordar um tema pertinente: a implosão da zona monetária do Euro – tema até então “tabu”, precisamente por a criação da moeda única não contemplar “critérios de saída”. E aqui dá como exemplo a desintegração do bloco soviético, entre outras zonas monetárias, e a evolução da curva do PIB antes e depois… sem preconceitos ideológicos, vale a pena ler e refletir.
      Para mais, também George SOROS veio comparar, de forma arrojada, mas não de todo descabida de sentido, a Eurozona à URSS: “O euro pode sobreviver durante muito tempo, da mesma forma que a União Soviética sobreviveu durante 70 anos, apesar de ser uma má união” [07/02/2013]
      – E, o que é o Euro hoje senão uma moeda rígida, austera e potencialmente autoritária, anti-democrática, que resulta de um “má união”?

      – Agora, o que fazer?…
      1. PROCRASTINAR – e, entre o protelar e o prostrar, nada reformar ou reestruturar, esperando que a “austeridade” seja a longo prazo,por obstinação da direita, o caminho errado que levará ao destino certo ; ou, aguardar que entretanto, numa conjuntura política mais favorável, a Europa vire à esquerda de Hollande?
      2. DESMANTELAR O EURO – para de forma concertada, retornar às MOEDAS NACIONAIS? E, a partir daqui, ser redesenhada a zona monetária europeia a partir de uma nova MOEDA COMUM -mas já não “moeda única” – como sugeriu Jacques Sapir?
      3. DESINTEGRAÇÃO DA UE – prosseguir de crise em crise, resignados e acomodados aos “falsos ideais” de uma “má união” até a desintegração final do euro – e da própria União Europeia – num processo de degradação continuada que poderá levar longos anos, ou até décadas, como adverte George SOROS na comparação acima com a implosão da ex-ursss?
      4. SAÍDA DO EURO – tomar a iniciativa de arriscar a saída unilateral da moeda única com todos os riscos que isso implica, sobretudo se numa posição de fraqueza for não-negociada ou “empurrada”?
      5. MOEDAS PARALELAS OU COMPLEMENTARES – a introdução (ainda pouco estudada) de sistemas paralelos de pagamentos, complementares ao euro (ex. círculo Franco-WIR, Suíça), que possa conferir maior autonomia monetária – e, numa posição transitória ou intermedia, eventualmente melhor preparem o país para os cenários limite de saída ou permanência plena?

      Estimado Francisco Louçã, pessoalmente não tenho especial simpatia por Varoufakis – e menos ainda por Schauble. Porém, talvez os seus métodos não sejam tão descabidos, como a imprensa tende a subtrair ou até ridicularizar… como diz o ex-ministro grego, vivemos um novo tempo de “GUERRA”, ainda que sem canhões ou blindados.
      Há momentos na História em que se exigem verdadeiras decisões – Agir, ainda que certo ou errado. É tempo de Lutar – não de procrastinar, abater ou resignar!
      [Neste tempo amorfo e decadente, de pouco vale o populismo ou demagogia dos líderes políticos ou a inteligência crítica dos bons articulistas de jornal – se não houver lugar à ACÇÃO e a realizações concretas! Precisamos de verdadeiros líderes – e homens e mulheres de Luta e Acção.]

    4. [Ainda sobre Pedro Cosme Vieira… devo acrescentar não ter para com o autor qualquer afinidade senão a livre crítica sobre o conteúdo do artigo em epígrafe. E, como tal, devo acrescentar que não me identifico, e menos me comprometo, com outras posições, preconceitos ou polémicas assumidos pelo professor de economia.
      Vide: http://www.tvi24.iol.pt/sociedade/cosme-vieira/professor-de-economia-mais-criticado-do-momento-e-contra-a-pretalhada

      Por sinal, tenho o privilégio ter por companheira e esposa, uma bela morena cabocla brasileira, culta e bem formada, que também foi imigrante ilegal, empregada doméstica, sem contrato nem direitos, e cuidadora de idosos… isto, num país como o nosso, envelhecido, dado à emigração e tendencialmente conservador.
      Feito este esclarecimento, prevenindo quaisquer outras polémicas ou mal-entendidos, aqui fora de contexto, ao estimado Francisco Louçã solicito que desconsidere a publicação deste comentário. Abraço fraterno]

    5. Também acho que as ideias devem ser discutidas pelo seu conteúdo e não pelo mensageiro.

  7. Neste momento tudo está a ser manipulado pelos governos e pelos interesses instalados. TUDO
    Não se pode confiar em nenhuma estatística, taxas e juro, cotações, preços, noticias.
    O main stream media está totalmente controlado e manipulado pelos mesmos e funcionam apenas de veículos de despejo das agendas.
    Para saber o que realmente se está a passar é preciso cavar fundo e encontrar informação isenta e usar a nossa própria cabeça.
    Não é facil

    O que me revolta é constatar que a democracia não funciona pois 80% da carneirada continua a votar nesta hegemonia podre eleição após eleição.

    1. Johnny,

      É pior do que isso, porque 60% dos eleitores não votam. Devem achar que lhes faz mal. Os restantes 80% dos que votam são os militantes e simpatizantes dos respectivos partidos.

  8. oi francisco louça~
    isso agora já não tem ciência … ie, “A Ana se m permite.. ” , ou seja “A Ana se m permite .. ” ; isso já nao tem ciência nhma ..

  9. Viva! Nem sempre estou de acordo consigo mas muitas vezes sim. Por exemplo, num post recente em relação à saída da Europa hesito… Não é só Portugal mas acho que todos os europeus precisam de melhor. Claro que quem está no bem bom não se vai embora assim sem mais nem menos, mas se calhar o mesmo se aplica aqui ao nosso país, e isto leva-me ao post de hoje. Ontem no telejornal da rtp1 achei escandaloso o modo como se fazia “campanha” aos partidos do arco, as diferenças entre um e outro, diziam… como se não houvesse mais nada para além deles… e a comunicação social faz isso com uma naturalidade como se fosse muito óbvio que o que interessa é falar daquilo, do resto falar-se-á se ainda houver tempo depois da monumentalidade das peças dos partidos do arco. Hoje a mesma coisa quando abro a página do público online… Assim vai ser muito difícil. Acho que a solução tem mesmo que vir de fora. E isto pode acontecer por contágio (temos aquela mania triste de ficar sempre a ver o acontece lá fora e depois imitar) ou seja, temos que esperar que haja mais Syrizas e Podemos por essa Europa para sair deste buraco e pode ser uma longa espera; ou um governo dos europeus eleito democraticamente, mas como diz, não serão os que lá estão agora que o vão querer. Onde é que é mais fácil que os poderes instalados sejam substituídos, em Portugal ou na UE? Uma coisa é certa, em Portugal com esta comunicação a fazer estas “campanhas” é difícil. Por isso um contra-poder à comunicação social é urgente e a sua crónica de hoje e outras vão nesse sentido. A intensificação deste contra-poder é fundamental. Os amanhãs que cantam, neste momento, cantam na internet.

    1. Precisamente, devido á continuada colagem dos partidos da esquerda (exc PCP) ao siriza, é que ninguém se interessa pela sua mensagem.
      Tem de haver mais esquerda para alem do siriza e pcp

    2. Duvido que resultem “soluções que vêm de fora”. A experiência indica o contrário… mas obrigado pelo seu comentário e argumentação fundamentada.

  10. Copiaram o modelo Soviético. No papel uma fantasia na pratica um inferno. Juntando a isso a quantidade de senhores que são Donos de tudo isto,ficam as contas ainda mais complicadas. Fazer muitos planos numa economia que tem muito de especulativo é como ir para o mar com a bussola avariada andam a deriva.

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