Tudo Menos Economia

Por

Bagão Félix, Francisco Louçã e Ricardo Cabral

António Bagão Félix

30 de Julho de 2015, 08:45

Por

A insuportável repetição de programas televisivos no Verão

Há uma tão curiosa, quanto discutível coligação nos canais televisivos, durante o pico do Verão. Os responsáveis pela programação acham por bem oferecer aos telespectadores doses magnânimas de repetições de enlatados e de não enlatados repetidos ad nauseam. Certamente pensarão que, nas noites de calor e nos dias de praia e lazer, não vale a pena gastar dinheiro, para uma audiência bem mais reduzida. A tendência é de tal modo generalizada, que até canais de informação ou temáticos repetem as repetições que, durante o resto do ano, já repetiram.

Repete-se tudo. Já não basta ter que aturar notícias “conservadas em formol” e levadas ao micro-ondas dos dias seguintes em noticiários de duvidosa e preguiçosa actualidade. Agora até o futebol do defeso, já de si desenxabido, é acompanhado, de um modo intragável, de “vira um jogo e toca o mesmo” em canais de informação (!) ou canais desportivos. Que interesse tem uma transmissão repetida da Copa sul-americana entre a Bolívia e o Perú, ou um jogo dos já passados campeonatos europeus grego, belga e mesmo dos mais importantes?

Agosto também é o palco das chamadas rentrées, como se, para isso e antes, tivesse havido um qualquer interregno. E – já me ia esquecendo – é também o tempo das imagens recicladas das praias e dos banhos, certamente como uma novidade de verão.

Dir-se-á: pouca gente vê televisão. Acontece que, até nisto, se nota uma discriminação contra quem não tem férias (ou já não têm férias), quem não sai de casa, ou mantem a rotina do dia-a-dia. Falo não só das pessoas sem recursos para outras opções, como também dos velhos e das pessoas sós para quem a televisão é a companhia (sem férias) de cada dia em todos os dias do ano. Merecem mais respeito.

Comentários

  1. Não sei se já repararam, mas de há 3 ou 4 anos para cá a qualidade da TV degradou-se ainda mais para além da porcaria que já era. E não tenho dúvidas nenhumas que é por falta de dinheiro para comprar bons programas. Eu pessoalmente já nem quase vejo a RTP2 (que era a menos má). A austeridade atingiu mesmo tudo…

  2. Mesmo eu que só tenho os 4 canais, às vezes fico farto……
    Mas, mesmo assim, penso que a RTP 2 tem bons programas, apesar de estar continuamente a repetir as mesmas séries à noite.

  3. Livrei-me da TV há mais de um ano e confesso que não sinto falta alguma. Antes prefiro buscar criar a minha própria programação na internet. De vez em quando vejo um filme, documentário, ouço música, navego para ler sobre algum tema que me interesse…

    1. Faço minhas as palavras do Tiago, “ipsis verbis”!
      E acrescento: neste momento a TV transmite quase só lixo! e o pior é que o mesmo é destinado a manipular (e estupidificar) a população, que nem se apercebe dessa malvadez… Até já os canais temáticos estão a transmitir doses industriais de programação tóxica!
      Ressalvam-se, no entanto, emissões de qualidade e construtivas, de que já agora, devo dizê-lo, é um exemplo a crónica na SIC do Dr. Bagão Félix, ilustre defensor na forma correcta de escrever português (de Portugal). Sem abortos ortográficos! Cumprimentos.

    2. Sobre a qualidade da programação de TV, é por essas e por outras que mais facilmente subscrevo a frase “o governo tem o povo que merece” do que a oposta, mais comum.

      Colhemos o que semeamos, não?

      Quanto ao acordo ortográfico, também prefiro de longe o português pré-acordo, mas acabei por adaptar-me à realidade brasileira onde hoje resido.

      Ainda hoje não me conformo com a falta do acento no “pára”! Para para quê?

  4. Tudo o que diz é absolutamente verdade, e mais, os programas de gastronomia que a RTP debita de forma exaustiva já se tornaram insuportáveis.. E realmente preciso muita pachorra para se digerir os conteúdos enfadonhos, que a comunicação visual não pára de nos impingir.

  5. Bom dia,

    Não poderia estar mais de acordo. Quem, como eu, tem TDT só tem disponível 3 canais, um muito mau (sic, tvi, rtp1 são um só canal tal é a sincronização de conteúdos temas e publicidades) um mais ou menos (canal parlamento) e um manifestamente bom a minha querida e sempre presente RTP2. Acho graça quando me lembro do aparecimento dos canais privados ao argumento que agora a oferta seria muito maior e diversificada. Ficou ainda menos diversificado dado o alinhamento com a concorrência por baixo que a RTP1 teve de fazer (não sei porquê?) com a tvi e a sic. A RTP2 (que já andam a crer ver se fecham) é uma lança em África. A qualidade da música é superior, a qualidade dos filmes é superior, mesmo o desporto na RTP2 é visto como um todo e não como sinônimo de fotebol.

    1. A sociedade de consumo de massas idealizado e conceptualizado pelas elites, e passado à prática pelos agentes económicos do liberalismo é assim mesmo. Procura condicionar o conhecimento e a reflexão, normalizando temas e assuntos, reduz o pensamento crítico a dicotomias básicas e de fácil apreensão (e que melhor prova do que a classe política andar a defender o bipartidarismo como a melhor das soluções democráticas), na esperança de que o tão ambicionado controlo total seja alcançado. Redes sociais e publicidade; televisões sincronizadas nos temas, assuntos, debates e reportagens: analistas e comentadores ao ritmo das maiorias; jornais cada vez mais alinhados, e jornalistas desacreditados (por culpa própria) tudo isto ajuda ao nivelamento por baixo de que falava. Dizem – nos “não pensem”: “consumam o que vos pedimos para consumir”, e depois castigam os que consumiram e gastaram a crédito como solicitado, com a usura bíblica. O capital, a grande religião do século XXI, só está acessível a uns poucos de nós, mas nós jamais seremos como “eles”.

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