Tudo Menos Economia

Por

Bagão Félix, Francisco Louçã e Ricardo Cabral

António Bagão Félix

23 de Julho de 2015, 15:27

Por

O devaneio saturnista do Senhor Hollande

saturnoO presidente François Hollande resolveu repensar a Europa, à boa maneira francesa. O homem, que vai no side-car da “bomba” conduzida pela chanceler alemã, entendeu sair do seu cubículo, tirar o capacete e oferecer à deprimida Europa uma solução mágica para transformar a pedra-pomes em mineral na escala 10 de Mohs. E tudo isto, de um modo vago, sem consistência, como quem atira o assunto para o ar, a ver se pega…

Já temos duas Europas que, por acaso, de vez em quando se encontram: a do Euro e a das moedas próprias. Isto … se não contarmos com o Reino Unido que se sente como a Europa que está para além da Europa. Mesmo assim, Hollande acha pouco. Sugere, através do preclaro PM Manuel Valls, um novo anel: um “governo” para o euro constituído pelos seis países fundadores da então CEE, com “orçamento específico” e com “parlamento próprio”, dedicado e à medida. Curiosamente coincide, em certa medida, com a divisão entre o rigorista Norte e o indisciplinado Sul, ou com a diferenciação entre excelência dos credores e a contumácia dos devedores. No meio da tempestade, Hollande acha por bem mandar às malvas o que ainda resta do espírito fundacional da união, solidariedade e cooperação, e resolve acentuar a divisão e segregação, sugerindo uma zona euro “tipo Saturno”, com os Estados-membros não contemplados a ficarem nos anéis que orbitam o núcleo duro. Uma outra forma de geometria variável, esse jargão tão apreciado em Bruxelas.

Se não fosse uma questão séria, daria para romancear com humor. Mas não. O onírico presidente francês acredita (?) que esta é a solução, não apenas para os tolerados países de segunda ordem do euro, como para pôr a poderosa Alemanha nos eixos. Ou será que isto foi combinado com a chancelaria, fazendo Hollande de protagonista secundário (passe o oxímoro)?

O presidente francês, que chamou a si os louros de não ter havido (por agora) a saída do euro por parte da Grécia, logo de seguida, apresenta uma ideia que a afasta do centro de decisão da moeda única. Pimba! Que coerência! É como ter emprestado um grande guarda-redes à Grécia para defender um penalti do Senhor Dijsselbloem e, de seguida, roubar a bola aos gregos.

Institucional e organicamente, seria juntar confusão à confusão de competências, âmbitos, níveis de democraticidade (ou falta dela) a nível europeu. Sempre a mesma ideia (socialista): mudar a orgânica para tornear o problema. Passaria a haver uma hiperbólica pletora de órgãos: Conselhos Europeus e essa figura do Tratado de Lisboa que dá pelo nome de Presidente da UE, Parlamento Europeu e seu derivado resultante da proposta francesa, Ecofin, Eurogrupo, Comissão, BCE, etc. E, claro está, no fim ganha a Alemanha.

Até se vislumbra uma ideia defensável nas entrelinhas das frases de Hollande: a de passar a haver um orçamento do euro (e talvez um Tesouro do euro?), condição indispensável para que se passe do actual sistema de câmbios fixos para uma verdadeira moeda única. Mas apresentada como foi, não passa de um nostálgico devaneio gaulês.

Repito, por outras palavras, o que há tempos aqui escrevi: o euro enferma de vícios de gestação. Nasceu mal e não é, por obra e graça destas pseudo propostas, que melhora o estado de forte debilitação. Só o enfraquece ainda mais.

 

 

Comentários

  1. A Europa está perigosamente ingovernável. A Alemanha e a França, os seus grandes motores, propõem soluções que julgam torná-la mais governável ou facilitar a sua governação e logo são atacadas como tendo agendas de dominação sinistras escondidas dos restantes membros. Pergunto: qual a solução? A saida dos países mais pobres da zona euro ou mesmo da UE como alguns mais “radicais” advogam? Além desta, que alternativas credíveis foram até hoje apresentadas a não ser de ataques, principalmente à Alemanha? E se fôssemos alemães ou franceses, como estaríamos vendo tudo isso?

    1. Alberto, quando se propõe a criação de um núcleo que deixa à margem de decisão os países mais pobres, está-se efetivamente e às claras a implementar um modelo dominante de governação europeia, não? Desnecessário usar termos como “sinistro”, é dominante e basta, longe dos objetivos a que se propunha o projeto Europeu, que era de colaboração entre estados livres e democráticos.

      Mais, se realmente for o caso que “a Europa está perigosamente ingovernável”, parece-lhe sensato centralizar poder precisamente naqueles países que mais têm ditado os moldes de governação que a levaram a este estado? Não seria antes o caso de rever esses moldes de governação? Assim parece, pelo menos para mim, mais do mesmo.

      O problema “Alemanha”, a meu ver, resume-se tão simplesmente ao fato de que, além de estar ditando os moldes, está lucrando e se fortalecendo com o agravar da crise e o enfraquecimento dos países mais pobres. Qual a lógica disso, dentro de um projeto de integração Europeia? Não existirá aqui um conflito de interesses?

  2. Curiosamente, desta feita não consigo seguir a sua linha de pensamento. O problema europeu está no ministro das finanças alemão, e nada mais. Assobiar para o lado (ou para cima), não vai resolver este problema. Mas também está claro aquilo que os jamais preferem noticiar.

  3. Não quero fazer qq comentário a este assunto. Mas sim ao seu comntário, ontem à noite na televisão (TVI? SIC?..) quando se referiu ao planeta Plutão que seria anão por ser muito pequenino … Ora, Plutão é considerado anão, não por ser pequeno, mas porque não “consegue limpar os vizinhos que andam na sua órbita”, numa descrição simplista; e que são muitos até porque está nos “limites” da cintura de Kuiper. Obrigado

    1. Muito obrigado. No entanto, não fiz qualquer relação entre a polémica de Plutão como planeta ou planeta anão e o facto de ser muito pequeno. Referi as duas coisas independentemente uma da outra. Mas admito que possa ter ficado essa ideia.

    2. Por mais que Plutão limpe os vizinhos que estão em sua órbita, é o Sol que determina o curso de Plutão e de seus vizinhos.

    3. Ah… E o Sol?… Esse grande astro também está preso na sua órbita em torno do Sol negro que vive no centro da galáxia, longe de ser livre e senhor do seu destino. Ah… E o sol negro?…

  4. Por outro lado, permitia aos outros países terem políticas económicas realistas que lhes dessem a oportunidade de crescimento a curto prazo. Não seria óptimo para a França, mas isso era problema deles.

    1. Fiz confusão entre a declaração e o que me ia na cabeça. Podem mandar só eles, desde que só eles fiquem com o Euro.

  5. Hollande: A Europa do futuro é o regresso à Europa da década de 60. CEE/UE vs EFTA?

    Uma curiosidade: aquando a reunião dos seis países fundadores da CEE (Tratado de Roma, 1957), composta por França, Itália, Alemanha (ex-RFA) e Benelux (Bélgica, Luxemburgo e Holanda), na sucessão da CECA (Comunidade Europeia do Carvão e do Aço), uma outra associação de países, liderada pelo Reino Unido era criada – a EFTA (Associação Europeia de Livre Comércio, 1960).Da EFTA foram membros fundadores: Reino Unido, Noruega, Suécia, Dinamarca, Suiça, Áustria e Portugal. Mais tarde aderiram Finlândia (1961), Islândia (1970) e Liechtenstein (1990).

    Entretanto, aderiram à CEE: o Reino Unido e Dinamarca, juntamente com a Irlanda, em 1973; a Grécia, em 1981. Portugal, com Espanha, entrou em 1986; Suécia, Finlândia e Áustria em 1995. A EFTA ficou então reduzida a 4 membros: Noruega, Suiça, Islândia e Liechtenstein.

    Após Tratado de Maastricht (1993) é formalizada a criação da União Europeia e lançadas as bases para o lançamento da “moeda única” – o Euro. Da zona euro ficaram de fora países como Reino Unido, Dinamarca e Suécia – ex-EFTA’s.

    Quererá o Sr. Hollande retornar à década de 60 – para então relançar novo Euro?
    E, em que pé fica a União Europeia – que poderá sofrer um forte abalo num cenário de saída do Reino Unido (Brexit)?
    Haverá lugar a um Espaço Económico Europeu (1994) distribuído por dois blocos – a «União» organizada em torno do novo Euro e o acordo de livre «Associação» reunindo os restantes Estados soberanos?
    Concordo. O “devaneio saturnista do senhor Hollande” vem “enfraquecer” ainda mais não só o euro, mas a própria integração europeia!

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