Tudo Menos Economia

Por

Bagão Félix, Francisco Louçã e Ricardo Cabral

António Bagão Félix

22 de Julho de 2015, 07:56

Por

Cores (II)

cores_01Continuando o texto de ontem (cores (I)), começo por confessar a minha maior dificuldade no caleidoscópio das cores. Há cores – entre o vermelho e o azul – que só distingo com uma cábula. Ainda hoje, tentei acertar nos nomes de uma boa dúzia delas, e – creio – um mais severo examinador talvez me “retivesse”, para usar o eufemismo do “chumbo”. Eis as cores do meu exercício matinal: roxo, violeta, lilás, índigo, magenta, carmim, carmesim, grená, malva, anis, púrpura e fúchsia (curiosamente, esta planta tem flores de cores variadas desde o branco até quase todas as atrás referidas…). No fim, dou comigo, embrulhado suavemente nestas matizes todas, a pensar na policromia do jacarandá e na exuberância da olaia.

As cores também se usam como sinal exterior de um sentimento, atitude, ou estado de alma. Por isso, as há frias e quentes. Agressivas e suaves. Fortes e pálidas. Presentes e fugidias. Há o verde da esperança, o vermelho da esquerda ou da proibição, o amarelo dos falsos sorrisos, o azul simplesmente pálido. No fim de tantas cores, há a cor da nossa imaginação que, por não definível nos catálogos, se preserva na intimidade, alheia a fascínios ou transacções, e onde o daltonismo nem sequer é entrave: a cor do burro quando foge.

A mesma cor pode ser uma outra cor no registo do que nos acontece ou em nós acontece. A cor varia com a intensidade da luz de que se alimenta, como o espírito varia com a intensidade da cor que nos acalenta. A cor que hoje nos agride, amanhã nos compraz. A que ontem nos deixou indiferente, hoje nos atrai.

Também a vida é uma sucessão de cores, começando nos conservadores azul do menino ou rosa da menina, passando pelos verdes anos do jovem e os anos dourados do sucesso profissional, para finalmente se atingir a idade prateada e o amarelo da velhice, tão romanticamente tratado no filme de Manuel Summers “Del rosa al amarillo” (1963), que, em idade jovem, vi no Cineclube Universitário de Lisboa.

A vida, por vezes sem cor, está sempre com ela confrontada. É o correio azul para pagar mais pelo que antes era a normalidade (haverá excepção para quem tenha sangue azul?). É o recibo verde, agora num verde electrónico e que não dispensa impostos. É o voto em branco para os desiludidos da política ou para quem não deseja votar no escuro. É o livro amarelo no qual podemos registar as nossas queixas, sem que nada aconteça… É o vermelho e o verde dos semáforos, e o seu “mais ou menos” que é o amarelo. É a contradição desse verde que também é tinto e que muita gente gosta de bebericar no Minho, seguido de uma boa bebida branca São os cartões amarelo e vermelho do futebol. É a ameaça de uma qualquer arma branca. É o mistério de proveito indevido que dá pelo nome de saco azul. É o branqueamento em paraísos sem câmara escura para não deixar rasto. É a angustiante busca da caixa preta (ainda que laranja) de uma aeronave. É o apito dourado. É quando se muda de cor, ou se põe o pé em ramo verde, ou, ainda, quando se perde a cor depois de se ficar de todas as cores. E quantas vezes, perante pessoas cinzentas, somos impelidos a pôr o preto no branco.

Chego ao fim nesta minha diversão sobre cores. Com o desejo – quase intimista – que a minha cor dominante seja impressionista. Ou seja, dentro de mim. E de mim para os outros. Entre mim e a busca do todo.

 

Comentários

  1. Achei a dissertação sobre a cor interessantíssima. Esqueceu-se porém do significativo azul-ferrete, muitas vezes empregue pelo nosso Eça de Queiroz.

    1. Obrigado. É verdade, o azul-ferrete. Procurei apenas exemplificar. Tanto que ficou por dizer.

  2. Das memórias da minha infância, e das fábricas de lanifícios da minha terra natal, guardo o ofício de “debuxador” – e as amostras das muitas cores e padrões dos tecidos. [Infelizmente, quase desapareceu a tradicional, e outrora próspera, indústria de lanifício de Castanheira de Pera]. E daqui podemos imaginar como terá sido a evolução das “cores” na manufactura têxtil desde a antiguidade, a partir do uso dos corantes naturais.
    Por exemplo, deste tempos remotos eram conhecidos dos povos da Europa o “lírio-dos-tintureiros” (“Reseda luteola” – corante amarelo), o “pastel-do-tintureira” (“Isatis tinctoria” – corante azul) e a “ruíva-do-tintureiro” (“Rubia tinctorum” – corante vermelho). Os fenícios desenvolveram a coloração “púrpura”, cujo corante era obtido de um molusco (búzio) encontrado no mediterrâneo, desde as costas de Tiro até ao atlântico… e às ilhas britânicas – de resto, o alto preço dos refinados tecidos de púrpura, vestimenta dos imperadores romanos, por certo motivaram a extracção e expansão do comércio a Ocidente, bem para lá das Colunas de Hércules. Em Creta, os minóicos prosperaram com o cultivo do açafrão, um corante natural ao qual também davam uso culinário e medicinal. Da Índia é a origem remota do “anil” (“Indigofora”) – que passou a navegar nas naus dos portugueses, juntamente com outras especiarias. Das matas litorâneas de Vera Cruz veio o “pau-do-Brasil” cuja resina vermelha deu uma tintura de excepcional qualidade. E das Américas espanholas veio “pau-campeche” e o “carmim” – este extraído por astecas e maias a partir do insecto cochonilha…

    Acrescentaria ainda uma outra breve referência… A manufactura dos lanifícios foi uma actividade tradicional de grande relevância para muitas vilas e lugarejos do interior das Beiras ao Alentejo, a par de uma agricultura mal amanhada de subsistência. A produção de boas lãs e as boas águas das serranias beirãs (para lavagem e tinturaria das lãs, o pisoar dos panos no engelho do pisão, mais a força propulsora da roda hidráulica que faria girar a linha dos fusos das modernas fiações, etc.) foram de grande contributo para o desenvolvimento da nossa indústria – ainda que sempre sujeita à concorrência desproporcional dos bons panos flamengos e ingleses. Valeu, ainda assim, o esforço industrioso de bons governantes como o Conde da Ericeira e o Marquês de Pombal. Antes, merecem registo os «Regimentos dos panos», ao tempo de D. Sebastião, que são uma tentativa de regulamentar a produção manufactureira – proibindo, entre outros, o uso de corantes de fraca qualidade como o trovisco e o uso de gredas e cinzas.
    Abraço fraterno.
    Das histórias das extracção das tintas e uso de corantes naturais muito mais haveria para pesquisar e contar… combinando ainda outras histórias e contos de civilizações antigas, do comércio e das rotas mercantis e do desenvolvimento da indústria. E, para melhor desenvolvimento do tema, aqui deixo a sugestão ao estimado Bagão Félix que, pelo que nos tem contado noutros bons artigos, é também pessoa muito interessada e versada em botânica.

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