Tudo Menos Economia

Por

Bagão Félix, Francisco Louçã e Ricardo Cabral

António Bagão Félix

21 de Julho de 2015, 08:08

Por

Cores (I)

cores_01Hoje acordei (ou sonhei?) a pensar em cores. Talvez por causa dos amores das flores (sem humores), com quem convivi bastante nos últimos dias. Amores, onde se junta a cor, a fragrância e a forma, num virtuosismo holístico que me fascina. Cores, amores, flores: a minha troica, nestes dias. Por isso, hoje segunda-feira, resolvi escrever sobre cores, até para, um ano após o nascimento do “TudoMenosEconomia”, dar razão ao título deste blogue.

Já o havia feito já lá vão 13 anos. Volto a elas, com sedução, também 13 anos mais velho. Verei as mesmas cores, interrogo-me? Ou será que a vida proporciona a incessante descoberta ou a confrangedora amnésia?

Na natureza floral, comecei – menino que era – a admirar as chamadas cores principais, o vermelho, o azul, o verde e o amarelo, com as quais nos ensinaram a sua ausência ou negação, o preto (“todas as cores concordam no escuro”, escreveu Francis Bacon), e a sua união, o branco. Depois, tal como na vida, vamos descobrindo as cores ditas secundárias, como cor-de-laranja, cor-de-rosa, castanho e cinzento, sempre antipáticos aos olhos da nossa meninice, lilás, que quase sempre era confundido com o roxo, e ainda se descobria aquela cor difusa a que chamávamos bege, galicismo que não entendíamos e muito menos escrevíamos.

Já bem adulto, com o advento das novas tecnologias e os olhos da cara que custam os cartuchos das impressoras, foi abalada a minha ingénua definição das cores básicas. Assim se passou das cores principais (que aprendi na primária) para as cores primárias (que só me apercebi na terciária), tecnicamente assim chamadas porque não podem ser obtidas das outras cores: magenta, ciano e amarelo, constituindo o acrónimo CMYK (as inicias das 3 cores em inglês e o k que uns dizem ser de key e outros de black).

O tempo não pára. A evolução das cores vai sendo sensível às modas, à iconografia do importante e do inútil, à globalização até. Camões, nos seus Sonetos, falou da mudança. Quase apetece adaptar os primeiros versos, dizendo:

Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,

Muda-se o ser, muda-se a confiança:

Toda a cor é composta de mudança,

Tomando sempre novas qualidades.

Do amarelo-torrado de antanho aos agora também banalizados e corriqueiros verde-alface, garrafa ou bilhar, do azul-eléctrico de difícil explicação ao azul-celeste que a poluição já não deixa descortinar, passaram-se a dizer outras uniões de palavras, gostos e sentidos. Assim é que, agora, temos o já referido ciano, antes azul-turquesa (ou quase), depois azul-piscina, mas sempre o azul-celeste quando o sol se levanta, temos o amarelo de Nápoles ou topázio, o azul ultramarino, logo agora que não temos ultramar, o rosa-velho para rejuvenescer quem o usa. Há cores que passaram de moda, como é o caso do violeta ou do anil.

Cores que se reabilitaram na paisagem urbana como o ocre, ou que ressurgiram no saudosismo cinéfilo ou fotográfico como o sépia. Outras ainda que são chique como o brique, antes modestamente cor de tijolo, o cinza simplesmente cinzento, e até essa cor quase sem cor que é a cor de champanhe ou esse assassinato colorido que é o branco sujo.

A Wikipedia (Tabela de cores) ilustra e dá nome a 212 cores, afinal uma pequena amostra na infinitude de tons, intensidades, parcerias ou incestos coloridos. Nem de cor (com “o” aberto) e salteado lá chegaria. Hoje, há mais cores, ainda que, paradoxalmente, às vezes a preto-e-branco. É um bom exercício olhar para essas cores todas e medir a nossa confusão, ainda que não daltónica.

O que é curioso nas cores é que algumas servem de vestuário exterior a coisas e objectos. Outras, porém, emanam da natureza que lhes deu abrigo, como sua roupa interior. Há as cores associadas à botânica, a começar pelo rosa da rosa e pelo laranja da laranja, e continuadas nas cores de cenoura, alface, cereja, mel, damasco, pêssego, açafrão, limão, azeitona ou oliva, café, vinho, mostarda, tabaco, pinhão, linho e até palha. Ou à zoologia, como a cor de carne (ou de bronze, no verão), de rato, camurça, camelo, marfim, salmão, pérola, ou à mineralogia como cor de ferrugem, âmbar, de todas as pedras preciosas, jade, coral, ardósia e até a já mencionada cor de tijolo para quem, benevolamente, o classifique como um “mineral”. E até às gustativas cores alimentícias, como caramelo, mel (dependendo do pólen), amêndoa e chocolate, esta agora oficializada como cor alternativa do F.C.Porto, por óbvia conexão com o cacau.

Por falar em futebol, para além dessas cores compostas, como o azul-e-branco ou o verde-e-branco, há o inigualável encarnado (perdoem-me o meu proselitismo…), eufemismo colorido para que os benfiquistas não fossem todos chamados de comunistas e que, hoje, serve para distinguir a região de onde se é natural: encarnado para o lisboeta, vermelho para o resto do país.(Continua).

P.S. As cores pediram-me para eu as escrever em bold. Faço-o com gosto.

Comentários

  1. Interessante. Conseguiu falar das cores e das tonalidades e até fez comparações com as coisas… não o fez com as apetências e escolhas políticas, mas bem lá na essência, se calhar, isso está implícito… até conseguiu dar uma cacetada ténue no novo AO com o ex da “cor”, com o “o” aberto. Felicito-o, embora não seja da sua cor, pela finura das análises. E olhe que os da cor laranja não gostam mesmo nada…já alguns vermelhos podem ficar confundidos, pelas dis(cor)dâncias…

  2. – Vermelho ou encarnado?
    Encarnado – é a cor da carne viva. Vermelho – é a cor do sangue, escarlate e rubi.
    O “vermelho” e o “encarnado” tem também uma significação sociológica – e, assim sendo, os “encarnados” podem ter uma conotação diferente dos “vermelhos”… Os primeiros, podem ser os “benfiquistas”, já pelos segundos passam os “comunistas”!
    “Encarnar” (contrapor a “desencarnar”) remete-nos também para a religiosidade – e, ainda mais precisamente para a “espiritualidade” e o “espiritismo”. E assim, segundo várias interpretações, a “alma” encarna no corpo, e, no momento da morte, faz a viagem do mundo da matéria ao mundo “espiritual”.
    Pessoalmente, talvez pela minha origem beirã, prefiro “vermelho” ao “encarnado”: e o “benfiquista” encarna a mística do clube, que veste de vermelho-e-branco, com o estádio ao rubro e os atletas entrando no campo a vibrar como “papoilas saltitantes”.

    1. Também como beirão (litoral, de Ílhavo) vou mais pelo vermelho, ainda que, com 50 anos de vida em Lisboa, por vezes me saia o encarnado.

  3. Bom dia, então e as cores ligadas a situações “cor de burro quando foge” o “verde de raiva”.
    “Amarelo cobarde” que dá origem ao brasileiro “amarelou”.

    1. Quanto à cor de burro quando foge … tem que esperar por Cores (II) já editado para amanhã.

    2. Tem toda a razão, só reparei agora que o artigo prometia no título uma segunda parte, espero não ter estragado nenhum tipo de “punch line”. Desculpe.

      Ps: já agora deixe-me dizer uma coisa que lhe interessa pouco, mas que a mim me apazigua: o Sr, através deste blog não tem deixado de me admirar positivamente. Os seus temas são de longe os mais interessantes e não tenho encontrado motivos de discórdia (costumo encontrar sempre com quase toda gente) e faz-me pensar se efectivamente serei de direita ou pelo contrário de esquerda. Sei que tanto faz, mas acho-o muito à esquerda para CDS. Só conheci (vagamente) outra pessoa que me surpreendeu da mesma maneira; A Maria de Lurdes Pintasilgo. Eu alinho muito com essa malta do CDS cristão e não sou CDS nem cristão. Por enquanto…

    3. Obviamente a frase não é “não tem deixado de me admirar” (não faz sentido nenhum) mas sim “não tem deixado de me surpreender”. Quem o admira sou eu.

    4. Obrigado pelas suas palavras. Por vezes, também já não sei o que é ser de direita ou de esquerda, ainda que na (maniqueísta) classificação ideológica seja etiquetado como de direita. Procuro pensar pela minha própria cabeça, com total independência e liberdade.

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