Tudo Menos Economia

Por

Bagão Félix, Francisco Louçã e Ricardo Cabral

Francisco Louçã

20 de Julho de 2015, 10:30

Por

Morram os contratos de trabalho, pim!

ascensoAscenso Simões, ex-governante, é agora o director da campanha eleitoral de António Costa. É uma função essencial e de confiança pessoal para uma eleição difícil, em que tudo tem que ser medido.

Por isso, o seu artigo “Pelo fim dos contratos de trabalho” não deve ser lido como uma piada ou um acaso.

Escreve ele:

Mário Centeno tem razão. A situação que se vive em Portugal, relativamente ao mercado de trabalho, só cristaliza a precariedade. Mais, cristaliza os salários baixos e desmotiva a competitividade e a produtividade. Mas Centeno é ainda muito recuado perante os desafios que se colocam à nossa economia.”

Vamos lá então puxar as mangas e corrigir este “recuado” que só propôs, no documento dos economistas do PS, uma forma engenhosa de facilitar os despedimentos colectivos. Ascenso Simões tem uma outra ideia, “um caminho radicalmente diferente, arrojado”, escreve ele, encantado com a sua ideia “arrojada”.

É assim:

Os socialistas portugueses deveriam saber que não é uma legislação ultrapassada e rígida que resolve os problemas. E quando o que temos não cumpre, o melhor é encontrar um caminho radicalmente diferente, arrojado.

Em Portugal, importa que se avance para a consagração do contrato livre, com regras de protecção bilateral da relação entre as partes. Se esse contrato é com ou sem termo é absolutamente irrelevante.”

O “contrato livre”, sendo “irrelevante” se “tem ou não prazo”, é o “fim dos contratos de trabalho”, como nos assinala o título do artigo. Uma relação individual, directa, entre o patrão e o empregado. Claro está, com a “protecção bilateral da relação entre as partes”. Perguntará o leitor ou a leitora ingénua: porque é que o patrão precisa de “protecção”? É uma figura de estilo, não leve a mal. O trabalhador, esse vai com “protecção” – qual, não se sabe, porventura uma indemnização. Mas, com o “fim do contrato de trabalho”, acabou a protecção constitucional contra o despedimento sem justa causa, tudo fica na relação privada entre quem tem o poder e quem não tem. Sindicatos, esqueça. Negociação, esqueça. Direito do trabalho, esqueça. Agora é tudo “arrojado”.

Deixe-me fazer-lhe uma pergunta, caro leitor ou leitora: lembra-se de algum ministro do PSD ou do CDS que se atreveu a ir tão longe neste engenharia social para a destruição da vida dos trabalhadores?

Este é o homem que vai dirigir a campanha eleitoral do PS. E o PS vai dizer, na campanha eleitoral, que é um voto de confiança para grandes mudanças. Esta é uma das mudanças que o seu director de campanha propõe, veremos o que mais nos sugere. Este homem é uma revelação.

Comentários

  1. Sinceramente este sr. Ascenço Simões de socialista tem pouco mas de oportunista tem muito, aliás penso até que está no PS como poderia estar no PSDCDS, ou outro desde desde que tacho fosse seguro, gente como este sr. que me parece nunca ter lido nada sobre socialismo e qualidade humana, este sr. não presta, a infelicidade é que o PS tem lá muitos que não prestam e através do oportunismo vão guindando-se aos lugares do poder. São serviçais do grande capital.

  2. Eu militante do PS me confesso:
    António Costa deveria demitir já, mesmo já, já, Ascenso Simões. É uma menos, digo péssima, valia, arrogante, convencido que vai prejudicar o PS, já começou.
    Esta gente que subiu no PS e noutros partidos lambendo os degraus da incompetência deveria ser banida do PS e não só.
    Esperem pela desgraça se não tomarem medidas atempadamente.

  3. Ó Costa depois queres votos não é?
    És mais um politiqueiro que vives de e para a política.
    Há quantos anos vives disso pá?
    Claro acho-te um pouco mais capaz que o passos, porra mas tb era melhor…

  4. No Reino Unido o Governo Conservador está prestes a fazer aprovar no Parlamento legislação que na prática acaba com o direito à greve: Um sindicato necessita de efectuar uma votação entre os seus membros e só quando os votantes forem mais de 50% do total de inscritos, e quando os votos afirmativos ultrapassarem os 40%, é que a greve pode ser legalmente decretada, sendo expressamente proíbida a votação on-line. Em caso de vitória do sim à greve a votação é apenas válida por noventa dias passados os quais sera necessária nova consulta.Certos sectores têm alias exigencies ainda mais dificeis de atingir: Transportes, sector da Saúde, etc. Passa também a ser legal a contratação de trabalho temporário para substituir os grevistas e serão proíbidos os piquetes de grevistas em nome do “direito ao trabalho”, Nada mal para um governo que exerce o poder tendo obtido nas eleições de Maio apenas 25% dos votos do colégio eleitoral. Alias poucos são os Membros do Parlamento que obtiveram votações iguais ou superiores às que serão agora impostas aos Sindicatos.
    A própria BBC, talvez o produto Britânico mais conhecido e prestigiado no mundo, enfrenta medidas de estrangulamento financeiro que irão por em causa a sua independencia, e talvez mesmo a sua existencia, para gaudio dos que não suportam que haja quem não se submeta ao poder.
    Ontem mesmo foram aprovados no Parlamento cortes na despesa pública que irão afectar directamente 330.000 crianças, (não foi gralha,são mesmo 330.000 jovens), tendo a direcção Parlamentar interina dos Trabalhistas aconselhado a abstenção, o que provocou a revolta de cerca de metade do grupo Parlamentar, que votou contra.
    Em Setembro será eleito o novo líder dos Trabalhistas, e dos quatro candidatos três são favoraveis a uma viragem à direita e apenas um, Jeremy Corbyn, aquele que foi aceite que particicipasse na eleição apenas para compor o ramalhete, é de esquerda mas é quem, para alarme e escandalo dos “bem pensantes”, vai à frente nas intenções de voto e o que recolhe mais apoios.
    Talvez não fosse mau que em Portugal se olhasse um pouco mais além de Badajoz, e assim se tivesse uma ideia mais clara do que se prepara por essa Europa fora.

  5. Este é um dos temas mais candentes na sociedade portuguesa e, portanto, deve ser discutido. Parabéns ao Doutor F. Louça (ainda que devesse opinar como Professor de economia e não como político). Em síntese quero dizer o seguinte:
    – Quando uma pessoa trabalha por conta de outrem, juridicamente, celebra sempre um contrato de trabalho (com papel ou sem ele);
    – Só pode dar trabalho a alguém, quem precisar do resultado desse trabalho e enquanto precisar; Só o Estado ou entidades por ele financiadas podem ter empregados a mais.
    – Quanto mais desenvolvida for a economia mais necessidade de trabalho existe e maiores são os salários (EU, Canadá, Austrália, Suíça, que quase não têm legislação laboral … isto é para onde os portugueses continuam a emigrar);
    – A compensação pelo trabalho prestado (seja qual for) é sempre elevada para quem paga e é sempre baixa para quem recebe; Em Portugal a média anda por volta dos € 800,00, pouco mais do que o salário mínimo legal.
    – A legislação protetora dos empregados (e dos inquilinos) só serve para os políticos arranjarem votos e enquanto o nível cultural do povo for baixo. Restringe fortemente a admissão dos jovens e dos restantes desempregados. É assim no Brasil, na Venezuela, na República Dominicana ….
    A. Martins

    1. Alcides Martins: “Quanto mais desenvolvida for a economia mais necessidade de trabalho existe e maiores são os salários (EU, Canadá, Austrália, Suíça, que quase não têm legislação laboral … isto é para onde os portugueses continuam a emigrar);”

      A proteção social nesses países comparada com aquela que é praticada em Portugal só se pode dizer que não tem comparação possível. Para além disso o desemprego é residual, têm uma economia forte e uma estratégia para o futuro como país. Por isso a flexibilização laboral não os afeta como nos afeta a nós………

  6. Caro Francisco Louçã. Arrojos à parte, acha que o nível de proteção laboral em Portugal é baixo? Como explica os mais de 60.000 portugueses que emigraram para inglaterra suiça e mesmo alemanha, onde a proteção laboral é globalmente mais baixa do que em Portugal, entre trabalho permanente e temporário (vide OCDE, http://www.oecd.org/els/emp/onlineoecdemploymentdatabase.htm#epl) e onde as taxas de desemprego andam em torno dos 5%?

    1. Os que emigraram para Inglaterra foram procurar empregos e salários melhores, não creio que tenham ido à procura de baixa protecção contratual. Mas o que o Ascenso propõe, não se esqueça, é o fim dos contratos de trabalho. Talvez queira dar a sua opinião sobre isso.

    2. Caro Francisco Louçã, não estou preparado para dar a minha opinião e respeito inteiramente a sua (daí a minha introdução “arrojos a parte”). Apenas gostaria de perceber, vendo as economias à nossa volta e os niveis de desemprego de algumas delas, porque continuamos a demonizar o tal liberalismo economico (como se fazia ao comunismo nos EUR nos 50’s ou há uns séculos na iberia a quem não acreditava em Deus). Afinal as economias de cariz mais liberal (menos peso do estado e menos proteção) são ou não as que tem taxas de desemprego mais baixas, e já agora melhores salários?

    3. Entre nós, esse liberalismo deu na crise do BES, não foi? E do BCP, e do BPN, e do BPP, etc… Liberdade de circulação de capitais, liberalização e foi o que se viu. Quanto a emprego nas economias mais liberalizadas, são 40 milhões de desempregados na Europa.

    4. 1) A crise no BES e Cª foi por FALTA e não excesso de liberalismo. Penso que vai concordar comigo se eu criticar o Estado por salvar TODOS os depósitos de uma instituição (os de 5 mil e os de 5 milhoes) para depois aumentar o IVA para todos (incluindo quem ganha o salário mínimo) ou cortar as pensões mais baixas. Isto não é liberalismo. Liberalismo seria deixar o banco falir e salvar os depósitos até uma fasquia (eg 50 ou 100.000) para proteger os mais desfavorecidos. Quem tem 5 milhoes tem de aprender a diversificar o risco e não coloca-los todos no mesmo banco. 2) “40 milhoes de desempregados”?: verifique p.f. se esses 40 milhões não estão maioritariamente nas economias menos liberais, com maior peso do estado, e maior proteção laboral como é por exemplo o caso da França (10.5% de desempregados em abril de 2015) quase o dobro da “capitalista” inglaterra. Por que acha que os emigrantes africanos em Calais estão dispostos a meter-se nos rodados de um camião para atravessar o canal?

    5. Agradeço o seu cuidado com o argumento. Mas liberalismo é liberdade de circulação de capitais e ausência de regulação – vd a justificação de Greesnpan – que alimentou o GES, os offshores do BCP e do BPN e outras mafias financeiras. Quanto à Inglatera, nacionalizou os maiores bancos para os proteger, acho que de liberalismo ficamos conversados no reino de sua majestade.

    6. O sr.JCarvalho devia informar-se melhor acerca da proteção laboral,embora não sendo Portugal muito pior que os outros é notoriamente mais baixo que o de Inglaterra,que o diga eu que já andei por lá.

  7. Tenho de voltar atrás na minha palavra, esta é que define todo o texto:
    “O contrato de trabalho cristaliza a dicotomia tradicional da luta de classes. Mas, se olharmos para a vida de hoje, essa luta de classes é cada vez mais um passado distante”
    O socialismo foi para a gaveta no passado, mas este leva-o para as traseiras e dá-lhe um tiro na nuca.

  8. Acho que esta frase é ainda mais ridícula:
    “As leis do trabalho só são motivo de conversa entre associações de patrões, sindicatos funcionalizados, especialistas marxistas do Direito do trabalho e amanuenses da concertação social. Nenhum português discute os contratos se tiver a consciência do seu valor para a organização”
    Esta do “valor para a organização” não sei se é citar o Dilbert ou acredita mesmo nisso.

  9. Não me lembro, mas calculo que vontade não lhes falta, também, ao PSD e CDS. Até porque, agora, o objectivo é fazer do trabalhador um escravo, e um escravo “clínex”. Lembro-me, sim, de quem deu a primeira machadada nos contratos de trabalho, com a introdução dos contratos temporários – o primeiro governo Soares. Mais honesto parece-me ser o primeiro-ministro francês, Manuel Valls, quando propôs que o seu partido, ainda dito socialista, mudasse de nome. De qualquer modo, quem mais censuro são aqueles que, ao fim de 40 anos, já tropeçaram 40 vezes na mesma pedra, ficam contentes e ainda agradecem.

    1. Pois esses que tropeção na mesma pedra há 40 anos, são cada vez menos: são os que votam.

  10. Em termos de esclarecimento público acerca do programa do PS e das suas reais intenções políticas, o Francisco Louça tem feito mais que os jornalistas todos juntos.

  11. Talvez isto explique muito bem a razão porque as pessoas se afastam e aumentam as suas dúvidas. Não se revêem nestas concepções e sentem-se enganadas pelos que não correspondem à sua ideologia. É um verdadeiro problema a inadequada aplicação das políticas, uma espécie de orfandade…

  12. Só há uma coisa que me assusta: se o PS estendesse a mão do poder ao PCP ou ao BE, essas mesmas ideias teriam toda a cobertura. Os trotskistas e os estalinistas têm demasiada sede de poder para recusarem esse mesmo poder se o PS lho oferecesse. Os partidos do regime não servem o país.

  13. o que eu tenho para comentar é que ganhava mais dinheiro há 10 amos atrás do que ganho agora o 25 de abril foi um aproveitamento politico e militar criamoas a democracia e as liberdades mas ao fim de quase 40 anos parece que esta tudo na
    mesma pouco se evoluio.tenho dito vitor cruz.

  14. Boas,

    A necessidade de trabalho é cada vez mais reduzida. Não há emprego porque não é preciso trabalhar (quase não é preciso). O dinheiro não vem do trabalho nem as cenouras nem os bifes, até os tractores já andam sozinhos a laia de interstelar. Chegamos pois a uma bifurcação histórica. Um caminho é este: quem tem trabalho tem enquanto houver, o sistema deixa viver mal estes últimos. Quem não tem puta que pariu que não se alimenta “pançudos”. O outro caminho (que aparentemente da esquerda a direita) ninguém entende é iniciar progressivamente o direito celeste e natural (em toda a fauna e flora) à vida gratuita, à vida livre (ninguém que trabalha é livre). E se não se entender este último caminho… Caput! Se não for hoje será amanhã, os meus netos (futuros) trabalho não vão ter (nem que o inventem) resta saber se vivem ou morrem. Abc
    Ps: parabéns ao blog

    1. Esse direito à vida livre expirou quando o ultimo continente foi descoberto… já não há mais continentes virgens e selvagens para ir pregar estacas e dizer, “isto agora é meu”
      Por isso, numa sociedade cada vez mais intrincada, complexa, interdependente e dependente de dinheiro até para respirar iremos ser todos escravos do sistema.

      Até os fazendeiros do texas que não prestam contas a ninguém e que são auto suficientes vão mais cedo ou mais tarde colapsar debaixo da maquina “sociedade de planeamento central estado-corporativa”

  15. Bem haja, Prof. Francisco.

    Não partilho das suas críticas ao PS, uma vez que agora, e finalmente, sabemos ao que vêm!!
    Ou seja, sabemos que vêm fazer o que o PSD/CDS não têm coragem de fazer, ou que nem os partidos mais conservadores e liberais do norte da Europa se atreveriam sequer a propôr.

    E como aqueles partidos têm juntos mais de 70% nas sondagens, fico realmente preocupado com o futuro do meu país, e com o regresso ao passado que nos envergonhou a todos.

  16. Continuo sem perceber como as pessoas fazem distinções ente PS e PSD que são a face da mesma moeda.
    São fabricas de empregos para os amigalhaços, totalmente controladas pelos grandes interesses em Portugal.
    Mas deve ser assim que o povo quer uma vez que 80% da população vota nestes 2 grupos terroristas e criminosos que destroem o país há 40 anos.

  17. “afirmativo
    é o fracassamento da alteridade política , o liberalismo é hoje a regra da casa
    aquela sra. Alemã dá a conta e a medida”

    E já fomos a 2 guerras por mão deles. Como não há 2 sem 3, tudo fazem para que a 3ª seja “o mais breve” possível. Dúvidas? Ao longo da história da humanidade como se fez sempre a mudança de “propriedade/poder”? Com epidemias, catástrofes e guerras. Tendo sido as outras 2 pouco “relevantes” desde há 50 anos…entra a terceira, “via”. Funciona sempre. Há-de haver sempre um grupo de “iluminados” a dar o primeiro passo

  18. Bem observado, Francisco Louça.
    – AFINAL DE QUE PARTIDO SOCIALISTA ESTAMOS A FALAR?
    Por uma questão de coerência política, gostaria de transcrever a posição de João GALAMBA [economista, deputado – PS]
    Vide: artigo “Game Over”, em «Que fazer com este euro? – Portugal na tragédia europeia», ed. Le Monde Diplomatique, 2013.

    «A flexibilização do mercado de trabalho não diminui o desemprego.
    A zona euro resolveu adoptar entusiasticamente esta agenda e anda a flexibilizar o mercado de trabalho há mais de uma década. Para além da compressão salarial, que deprime a procura, e da insegurança criada na vida dos trabalhadores, não se vislumbram efeitos positivos neste tipo de reformas. Há países com maior ou menor taxa de desemprego – mas não é de todo possível afirmar que seja a flexibilidade do mercado de trabalho a explicar essas diferenças. Apesar disso, os responsáveis europeus, à semelhança da OCDE, continuam a agir como se essa relação fosse uma evidência. E é por isso que, antes da crise, a criação de emprego em Espanha e na Irlanda foi atribuída à eficácia das reformas estruturais e, depois da crise, o desemprego nestes mesmos países passou a ser explicado pela relação inversa, isto é, pelo facto de ainda não se terem realizado reformas estruturais suficientes.
    No debate em torno da competitividade, a lógica, ou melhor, os pontapés na lógica, são semelhantes. Tendo sido dito que a redução dos custos unitários do trabalho (CUT) era condição necessária para aumentar a competitividade dos países da periferia, o aumento das exportações de países coo Portugal ou Espanha tem servido como demonstração inequívoca da validade dessa tese. Sucede que as exportações destes dois países, em 2012, ano em que os CUT mais caíram, cresceram menos do que a taxa média de crescimento no período 1999-2008, alegadamente o intervalo temporal no qual Espanha e Portugal perderam competitividade, devido precisamente a uma evolução negativa nesse indicador.
    é hoje evidente que todas as alegadas verdades cientificas invocadas para fundamentar a opção austeridade-reformas estruturais não sobrevivem à mínima crítica. A austeridade, que criou depressão económica na periferia e uma recessão em toda a zona euro, não criará coisas diferentes. E as reformas estruturais, que resultaram apenas em cortes salariais e na redução dos direitos laborais, não criarão um único emprego. A única confiança que surgiu nestes últimos dois anos foi aquela que o BCE, soberanamente criou.
    Mais importante do que criticar essas tentativas de justificar o injustificável, importa perceber por que razão certos argumentos, certos ou errados, se tornam necessários. a resposta é simples: quem optou por ilibar a arquitectura institucional da zona euro de toda e qualquer responsabilidade pela crise actual, e preferiu culpar um conjunto de países alegadamente incumpridores por terem criado uma crise de confiança, não tem, de facto, outra opção.»

    Em busca de uma solução, João Galamba conclui…

    «Hoje existem apenas quatro alternativas
    Chegados a este ponto, existem apenas quatro alternativas. A primeira mantém a actual estratégia e insiste, contra todas as evidências, no seu sucesso, se não no curto prazo, garantidamente no longo prazo. A segunda consiste em defender, em nome do rigor, a adopção do Tratado Orçamental, mas também exige a adopção de políticas de crescimento e criação de emprego. A terceira, que rejeita a austeridade, que considera o Tratado Orçamental uma impossibilidade (e uma irracionalidade), e tenta lutar por uma revolução institucional no quadro da moeda única. E, finalmente, uma quarta, que defende que o euro é, e será sempre, social, económica e politicamente insustentável, e que o melhor será procurar uma alternativa o mais rapidamente possível. A primeira é coerente, mas insustentável. a segunda assenta numa contradição insanável. A terceira, embora desejável, é utópica e não se afigura politicamente credível. A quarta é realista, mas coloca um conjunto de questões para as quais não temos hoje, ainda, resposta.»

    E João Galamba remata… “desmantelar, de forma coordenada, a união monetária”

    «A moeda única, para funcionar, teria de ser uma federação, semelhante aos Estados Unidos da América. Isto é, teria de ter um verdadeiro orçamento federal, financiado por recursos próprios; teria de criar títulos de dívida europeia, para garantir a estabilidade financeira; teria de institucionalizar mecanismos de transferência orçamentais, para garantir o mínimo de coesão territorial. E tudo isto já, e não daqui a uns anos. Como esta revolução institucional é simultaneamente impossível (não existem condições políticas para pôr em prática este projecto) e necessária (sem essas reformas o euro não é sustentável) é difícil criticar o status quo sem concluir que o problema reside, afinal, na existência da própria moeda única. Consequentemente, o único caminho desejável consiste em tentar desmantelar, de forma coordenada, a união monetária, sem pôr em causa o próprio projecto europeu. Não sei se esse projecto será possível, porque a alternativa é um desmantelamento desordenado e caótico, com consequências sociais, económicas e políticas devastadoras.»

    Entretanto, mais recentemente (17/06/15), João Galamba foi mais comedido…
    «Uma saída da Grécia da zona euro será um terramoto financeiro e económico cujas dimensões são desconhecidas e os socialistas, que falam desta possibilidade, fazem-no no entanto como contraponto daquilo que defende o Governo: “Uma desagregação da zona euro tem um impacto muito negativo. É uma posição perigosa achar que o risco está controlado”, defende Galamba.» Vide http://observador.pt/2015/06/17/grexit-coligacao-tem-o-discurso-pronto/

    – Poderá um Partido político (ou os seus dirigentes partidários), por conveniência, dizer uma coisa e o seu contrário?

    1. Sim, lembra bem este texto, bem argumentado. Mas que o homem é director da campanha, lá isso é…

  19. Eu confesso que tenho mais perguntas do que certezas. E não escolho direitas ou esquerdas. Parece-me demasiado redutor. Há problemas e soluções. E, por vezes, vejo soluções muito similares nos dois extermos…

    Com a globalização, o investimento favorece os países com contextos mais favoráveis, que incluem um mercado laboral flexível. Ora, aqui, a defesa do direito individual à segurança no trabalho não implica menos investimento, menos emprego, e mais pessoas desempregadas?

    Quando o mercado laboral é rígido, não existe uma opção consciente e á qual não é possível escapaz de proteger o status quo, proteger os trabalhadores empregados em prejuízo dos jovens à procura do primeiro emprego? Ou não é provável essa consequência?

    No caso duma micro empresa, o micro empreendedor é ou não um trabalhador? E a legislação aplicável a micro empresa deve ser igual à legislação aplicável a pequenas, médias ou grande empresas? Por outras palavras, na relação micro empreendedor vs trabalhador, o micro empreendedor não merece protecção? Essa protecção deve ser concedida apenas ao trabalhador?

    São perguntas. Não deixo de pensar no direito à segurança no emprego. Nas consequências no planeamento da vida pessoal e familiar decorrentes da inexistência desse direito.

    Será que com a robotização, impressão 3D, entre outras novas tecnologias, há futuro para o contrato de trabalho? O futuro não nos obrigará a todos a sermos empreendedores?

    1. Havendo propriedade e capital, há patrões e empregados. Sim, tem havido crescimento de micro e pequenas empresas, também por causa do desemprego, mas não se iluda: quem determina a economia é a finança e são bancos com cem mil empregados.

    2. Rui Soares: “Será que com a robotização, impressão 3D, entre outras novas tecnologias, há futuro para o contrato de trabalho? O futuro não nos obrigará a todos a sermos empreendedores?”

      Uma sociedade de incerteza e do risco está associada a uma conceção liberal da sociedade, encarando o risco como um quadro dado e não como algo a mudar. Nessa situação, cada um procura estratégias individuais que permitam vencer os obstáculos, esquecendo as dimensões mais societárias e coletivas. Daí este “tornar-se empresário de si próprio”, em que cada um se transforma num recurso, num capital que é preciso fazer render,
      Richard Wilkinson e Kate Pickett (2010), o Espírito da Desigualdade, baseando-se em abundantes dados estatísticos, analisaram a relação entre a riqueza de um País e a qualidade de vida dos seus cidadãos, concluindo que, nas “sociedades mais igualitárias” , existem menos problemas sociais de natureza diversa (nas esferas da saúde, da educação, da segurança, etc.). Entre os países mais desiguais encontram-se Singapura, EUA, Portugal e Reino Unido. É também nestes países que se encontra um maior número de problemas sociais. A conceção de justiça social que assenta na sociedade de oportunidades não cria uma sociedade mais igualitária.
      Excertos do artigo de Teresa Sá : “Precariedade e trabalho precário: consequências sociais da precarização laboral” Configurações – revista de Sociologia 7/2010”

    3. Antonio Belo, é possível construir uma sociedade, uma economia, com base numa ideia redutora ou incompleta da pessoa humana? Pode negar que a pessoa humana é egoísta? Ou que também é altruista?

      Quem é que quer uma sociedade igualitária? O que é isso? Assusta-me a palavra. Parece um sinónimo de ditadura.

      Como é que podemos construir uma sociedade onde a diferença entre ricos e pobres seja de tal forma irrelevante a tornar inútil a própria divisão entre ricos e pobres, mas sem chegarmos a uma sociedade igualitária?

      Ignora por completo a necessidade de premiar o mérito? Nenhuma sociedade será igualitária. Haverá sempre diferenças. Alguém terá que morar em Cascais. Fazemos um sorteio? Ou o partido fará essa escolha?

      Vamos conversar sobre coisas sérias. No futuro, uma empresa muito grande pode ter um exército de drones. Como é que podemos evitar um cenário desses? Vai responder com ideologia, com a ideia duma sociedade igualitária ou com a obsessão pelo COLECTIVO… ?!

    4. Francisco Louça, hoje também há conhecimento. Portanto, mencionar capital e propriedade?! Não só é redutor, parece-me até questionável a sua crítica implícita ao conceito de propriedade. Recomendo o vídeo que segue, onde poderá aprender alguma coisa sobre propriedade:

      https://www.youtube.com/watch?v=t6TxsjOCWxY

      Com isto não defendo que uma pessoa humana possa ser titular de uma parte substancial da propriedade existente.

      Situação MUITO GRAVE é o abuso da propriedade do conhecimento: patentes, etc..

      Eu não conheço bem as suas ideias. Mas, vejo um sentido útil ao conceito de propriedade. O que é que você oferece em substituição? Se for alguma coisa COLECTIVA, aponte-me uma arma à cabeça e puze o gatilho. Eu sou livre.

  20. Tenho mais perguntas do que certezas. Uma ideia recorrente é que, com a globalização, o investimento os países que oferecem um contexto mais favorável, que inclui um mercado de trabalho mais flexível. A conseq

  21. “… dir-se-ia que, no Tratado de Tordesilhas neoliberal do Bloco Central, ao PS cabe tirar aos desempregados e ao PSD tirar a quem trabalha.” – Manuel António Pina

    1. Não conhecia esse texto do Pina. Obrigado. Ele tem razão, embora hoje o PSD não se exima também de tirar aos desempregados, como se viu.

  22. No Euro só desta forma. Perguntem a Tzipras.
    Pena que este pensamento vá ser escondido dos eleitores porque não é populista
    O problema não é as pessoas que dizem o que pensam, mas o contrario.

  23. Costa também tem os amigos que são autênticas relíquias
    e já nem digo “nada” de Sócrates , que esse é estratosférico

  24. foige ,
    francisco louçã – deixa de dar tempo de antena à política nacional
    A lotaria joga-se toda lá fora ; aqui só ficaram os leões (para adestramento e exibição)

    1. E não acha, Silvio Cruz, que isto vem de inspiração de “lá de fora”? São as ideias liberais puras e duras, acabe-se o contrato de trabalho. O curioso é onde chegam e por quem são apresentadas.

    2. afirmativo
      é o fracassamento da alteridade política , o liberalismo é hoje a regra da casa
      aquela sra. Alemã dá a conta e a medida

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