Tudo Menos Economia

Por

Bagão Félix, Francisco Louçã e Ricardo Cabral

António Bagão Félix

14 de Julho de 2015, 20:26

Por

Grécia entre paradoxos?

Dizia Fernando Pessoa que “um paradoxo tem valor só quando o não é”. Lembrei-me desta frase nestes dias em que a Grécia (e a Europa) vêm discutindo até à exaustão e se encontrou um aparente “acordo” não no tempo regulamentar, não nos descontos, não no prolongamento, mas nos penaltis.

Vejamos alguns paradoxos:

1º) A Grécia foi obrigada a acordar (no duplo sentido: concordar e acordar). Por etapas sucessivas, temos um Estado-membro da União Europeia num regime de indisfarçável protectorado. Adicionou-se à óbvia soberania partilhada, a soberania condicionada e restringida (pela dívida e respectivos credores), e por fim, a soberania estilhaçada por uma lógica de rendição humilhantemente garantística (o fundo de garantia, os prazos de 48 horas para cruciais decisões e leis parlamentares, etc.).

2º) A Europa do efectivo poder decidiu adiando (o costume). Parece medianamente previsível que, com o novo programa de austeridade e a situação da economia e da dívida, a recidiva é só uma questão de tempo. Estou convencido que o “grexit” acontecerá: só ainda não se sabe bem como e quando.

3º) O Eurogrupo ameaçou com o “grexit” para que (por ora) não acontecesse. Ou seja, a questão da saída (temporária?) da Grécia da eurozona teve dois efeitos: o primeiro, o de obrigar o governo grego a (quase) tudo aceitar perante aquela ameaça; o segundo, o de quebrar o tabu da “expulsão voluntária” da moeda única.

4º) O governo grego aceitou um “Sim” muito mais brutal, depois de ter ganho com um “Não” a um programa mais suave. Um “Sim” com garrote a todo o pescoço, com o regresso do FMI e da troika (chamar-lhe “instituições” é puro eufemismo), com vigilância e tutela nunca vistas, por troca com um parágrafo piedoso sobre a reestruturação da dívida, que já se sabe o que significa no jargão europeu. Em vez de uma “raiz quadrada do Não”, Tsipras regressou a Atenas com um “Sim ao quadrado”.

5º) O “acordo” da madrugada de segunda-feira é apoiado pela oposição grega (decapitada) e rejeitado (ou criticado) pela maioria governamental. Está-se mesmo a ver o que isto vai dar em termos de instabilidade política, quando o seu contrário – a estabilidade – deveria ser uma condição sine qua non para a prossecução de um programa tão severo.

6º) O povo helénico quer estar no euro, mas recusa a assistência. Apoia mais o Syriza, mas está contra o tal “acordo” de segunda-feira. O sistema partidário grego está a tornar-se um enigma, onde os extremismos espreitam a oportunidade. O “Aurora Dourada” que o diga…

7º) O governo da Grécia não tem mandato político para um terceiro resgate e respectivo memorando de entendimento. É certo que estamos habituados (desde logo, por cá) a constatar a profunda divergência entre programas eleitorais e governamentais, mas, neste caso, a diferença não pode ser mais absurda. O Syriza foi o primeiro partido nas eleições de Janeiro, em nome da rejeição de qualquer novo resgate e planos austeritários impostos pelos credores institucionais.

8º) A confiança não pode advir da desconfiança. A Grécia desperdiçou meio ano numa táctica errática, num jogo floral que a nada conduziu e num diz-que-faz-sem-fazer (ainda que tenha tido algum mérito em pôr em causa o conforto das instituições europeias), e gerou uma crescente desconfiança que, agora, foi usada como trunfo negocial da contraparte. A Europa, por sua vez, exacerbou a sua desconfiança e preconceito em relação a um governo fora do mainstream partidário da União. As sequelas, nos dois sentidos, estão para ficar.

9º) Uma mentira: um fundo para (garantir) passivos… sem activos suficientes. Eis a mais esplendorosa decisão dos maestros europeus: 50 mil milhões de activos! Onde estão eles? Ou será que vão privatizar a Acrópole, Olímpia, Creta ou pequenas e médias ilhas? Aqui Tsipras foi sincero: “não tenho nada que se aproxime desse valor”… Pelos vistos, sem resultado, tendo o Conselho preferido a ilusão da mentira à verdade inconveniente.

10º) Como os programas anteriores pioraram a situação económica e social, a solução é reforçar esse mesmo programa. Depois de dois resgates e um perdão de mais de 100 mil milhões, a Grécia já perdeu, acumuladamente, 26% da sua riqueza anual e tem um desemprego socialmente insuportável de 25%. O Estado deve quase 400 mil milhões. O investimento não existe, nem para memória futura. Bem sabemos que se cometeram muitos erros e que houve muito desleixo político. Mas o que vai acontecer? Mais do mesmo, ou seja pior do que antes. E a Europa não é capaz de se interrogar sobre esta evidência dolorosamente empírica? O pior cego é o que não quer ver.

Volto aos paradoxos na sua figura estilística de oxímoros. O que melhor definirá a situação grega e europeia? Um contentamento descontente (ou um descontentamento contente)? Uma lúcida loucura (ou uma sabedoria louca)? Uma obscura claridade (ou uma clara escuridão)? Um silêncio ensurdecedor (ou uma surdez ruidosa)?

Repito Pessoa: “um paradoxo tem valor só quando o não é”. É essa a questão. Afinal estes paradoxos são aparentes. Confundem, misturam, desorientam. Nas suas entrelinhas, o futuro está traçado. Por quem pode e manda.

Um projecto de Europa a esfarrapar-se, sem desígnio e sem alma. Onde há fingimento a mais e convicção a menos.

Comentários

  1. Este é o grande prejuízo dos mais débeis. Quando vão ao banco para comprar uma casita levam com a carga toda em cima … se for o inverso eles dobram-se em vénias, até rastejam como os batráquios. Noutra dimensão, é algo semelhante.

  2. Existe uma História em que o Rei dizia que tinha roupa muito bela. Quando saia à rua toda a gente olhava para o Rei e dizia que bem vestido que ele vai. Uma criança inocente viu o rei e disse O REI VAI NU. Bom quero com isto dizer que todos os comentadores gostam de dar opiniões com frases feitas e estão na moda. O que sei é que durante muitos anos a Grécia viveu faustosamente à custa de todos nós. Quando ouço a palavra pena lembro-me de todas as Empresas que fecharam por muitos motivos mas que originaram muitos problemas e muitos sacrificios, custa-me que depois de tudo isto que nós passamos para nos tentarmos levantar ouço a palavra pena constantemente em relação aos Gregos. Tenho pena destas pessoas que vêem assim. Vejam o significado da história

  3. A sua análise é válida mas contém uma ou outra alegação cuja fundamentação será, a meu ver, inexistente. A supostamente errática táctica do governo grego não o é. Quando do outro lado da mesa estão interlocutores, esses sim, histórica e manifestamente erráticos então o discurso que emana para os corredores só pode ser ‘diplomaticamente’ errático. Varoufakis já explicou isto com notável clareza. O seu erro de análise neste aspecto vai exactamente de encontro ao que o mainstream europeu pretendeu e pretende, etiquetar aos olhos dos seus eleitores que o radicalismo e a incoerência moram em Atenas.
    Recomendo-lhe esta leitura já com 5 anos: https://varoufakis.wordpress.com/2010/11/21/a-new-versailles-treaty-haunts-europe-and-this-time-it-is-not-just-me-thinking-so/?preview=true&preview_id=92&preview_nonce=4bcb922f53&post_format=standard

    Melhores cumprimentos,
    Carlos C

  4. Bom artigo que chama a atenção para a complexidade do problema, em vez de apenas contar a história da Branca de Neve (a Grécia) e da Bruxa Má (a União Europeia), como outros fazem.

    1. Então como fica, são os dois bons? são os dois maus? É que aquilo que argumentas agora é válido para o que costumas defender, ou seja, de que os bonzinhos são a UE. Quem está a ser mázinha, na realidade, é a UE, pois não era por uma questão de centenas de milhões de euros que não se poderia fazer acordo. Mas havia que vexar politicamente as esquerdas fazendo passar a mensagem de que não podem governarm defendendo os interesses da população, mas sim do poder financeiro (bancos). Estes é que foram os causadores da crise financeira, pois andaram a jogar com o dinheiro dos depositantes e ao perderem no jogo quiseram empurrar os prejuízos para os Estados, ou seja para o povo.

    2. Para lj (15-jul, 11:06): Se o(a) senhor(a) acreditar que todos temos de pertencer a algum rebanho, então não vale a pena eu tentar explicar. Se não acreditar nisso e reler com cuidado os meus comentários, então creio que poderá ficar esclarecido.

  5. Excelente enquadramento político da crise grega, com a assinatura de Bagão Félix.
    Faz uma referência muito curiosa a Fernando Pessoa. E, deleitando-me em comentar desta feita “Tudo Menos Economia”, transcrevo um texto retirado do baú de Pessoa, que versa sobre o paradoxo da “excessividade”, em meio à crise, como “characteristico distinctivo do povo portuguez”:
    E daqui, uma outra questão: serão os portugueses assim tão diferentes dos gregos?

    “A nossa crise provém, simplesmente, do excesso de civilização dos incivilizaveis. Esta phrase, como todas que involvem contradicção, explica-se de modo desoladoramente simples.
    A excessividade – a aspiração desmedida porém lúcida, a ansia indefinida tendendo conscientemente para nunca se definir – constitui o characteristico distinctivo do povo portuguez, o que elle é essencial, profundamente.
    Entendamo-nos bem quanto a esta excessividade. Todos os povos são naturalmente excessivos nas “qualidades que os distinguem”; mas isso não é porque sejam excessivos, mas porque teem essas qualidades accentuadmente, e porisso em casos individuaes, de temperamentos intensos as teem frequentemente em excesso. A excessividade do portuguez é, porém, uma excessividade vazia, só excessividade, excessividade pura. O povo portuguez não tem qualidades; tem só excessividade. O temperamento portuguez é a falta de um temperamento; e, além disso, é excessivo. O portuguez é plástico, amorpho, indefinido, incerto. Só tem de seu o não ter nada de seu; além d‘isso tem o excesso. O excesso de quê, afinal? O excesso de nada, o puro excesso, o excesso de si-próprio, da abstracção de ser.
    Todo o ibérico é, em verdade, excessivo; porém o hispanhol é-o exteriormente, na expressão apenas (de onde a sua exaggeração notável), o portuguez é-o, sobretudo, interiormente. Exaggeramos menos nas palavras que o hispanhol typico; é nos sentimentos que somos typicamente desmedidos.
    Qual a causa d‘este temperamento? Não sei. O não saber a causa é um dos encantos da sciencia. Porventura a nossa situação ao mesmo tempo absolutamente meridional e absolutamente atlantica, o nosso sudoestismo absoluto, o explicará. Se a explicação não é esta, é sem dúvida qualquer outra.

    Sendo assim organicamente excessivos e desmedidos, resulta que estando à vontade no excessivo, só no excessivo attingimos o equilíbrio. A disciplina externa, a justa-medida indicada, o meio-termo estabelecido – toda a ferramenta do classicismo do tipo latino ou francez – repugnam à nossa absoluta illatinidade, ao nosso iberismo atlantico. O que é excessivo? O universal, que transcende todas as diferenças; o synthetico, que funde todas as cousas; o illimitado, que tendo dentro em si o motivo do alimentado da sua perpétua ansia. O portuguez só é portuguez quando, rompendo todas as tradições, attinge o espírito da universalidade, perdendo todo o aspecto nacional, que aliás não tem; quando, abdicando de todas as crenças e de todas as formulas, attinge uma formula de fusão que as inclue a todas; quando pode livremente ansiar por o que sabe que não se attinge. Reencontra-se assim, a seu modo, e em nível supremo, aquelle “amor im-possivel” que era a flor máxima da aventura hellenica, aquella ansia da proporção vinda de dentro, dada por disciplina própria, que não externa, que characteriza os gregos, e os distingue dos romanos e dos francezes, servos organicos de uma disciplina imposta. Chamo a atenção para o facto, não inteiramente geographico, de que Lisboa e Atenas estão quasi na mesma latitude.

    Se é a excessividade que realmente consitue o fundo da alma portugueza, claro está que Portugal decahirá nas epochas em que a civilização europeia seja não-excessivista; subirá nas epochas de índole contrária. Ora só houve duas epochas de universalidade, de excessividade na civilização europeia – a Renascença, e uma epocha próxima (de que a presente é uma antemanhã indecorosa). Porisso na Renascença, epocha de excessividade e universalismo material, realizámos uma grande obra, no campo material, as descobertas. Passada a Renascença, cahida a Europa na ignobil sagesse, catholica, protestante ou racionalista dos séculos dezasseis, dezessete, dezoito e dezenove […] não havia excessividade onde respirassemos.
    Porisso as nossas qualidades excessivas e universaes ficaram na sua modalidade inferior – o nosso universalismo no mimetismo do estrangeiro, a nossa excessividade na pura bestialidade da nossa vida.

    Uma nação, como todo ente vivo ou composto organico, prospera ou não porque se adapta ou não ao meio e que vive. Para uma nação esse “meio” é a civilização a que pertence – entendendo-se por civilização o conjunto abstracto de princípios que resulta da interacção das differentes nações que a compõem.
    Sejamos; com toda a nossa alma, a Europa – mas a Europa do passado, do presente e do futuro, e entendendo-se por Europa todos os outros continentes também, naquillo que teem de aproveitavel para se viverem com a intelligência.”
    Leitura muito apropriada à interpretação do tempo presente…

    1. Portugal Futurista:
      «ULTIMATUM» de Álvaro de Campos [1917]

      Mandado de despejo aos mandarins da Europa! Fora.
      […]
      Homens, nações, intuitos, está tudo nulo!
      Falência de tudo por causa de todos! Falência de todos por causa de tudo! De um modo completo, de um modo total, de um modo integral: MERDA!
      A Europa tem sede de que se crie, tem fome de Futuro !
      A Europa quer grandes Poetas, quer grandes Estadistas, quer grandes Generais !
      Quer o Político que construa conscientemente os destinos inconscientes do seu povo !
      Quer o Poeta que busque a Imortalidade ardentemente, e não se importe com a fama, que é para as actrizes e para os produtos farmacêuticos!
      Quer o General que combata pelo Triunfo Construtivo, não pela vitória em que apenas se derrotam os outros!
      A Europa quer muito destes Políticos, muitos destes Poetas, muitos destes Generais!
      A Europa quer a Grande Ideia que esteja por dentro destes Homens Fortes — a ideia que seja o Nome da sua riqueza anónima!
      A Europa quer a Inteligência Nova que seja a Forma da sua Mateira caótica!
      Quer a Vontade Nova que faça um Edifício com as pedras-ao-acaso do que é hoje a Vida!
      Quer a sensibilidade Nova que reúna de dentro os egoísmos dos lacaios da Hora!
      A Europa quer Donos! O Mundo quer a Europa!
      A Europa está farta de não existir ainda ! Está farta de ser apenas o arrabalde de si-própria ! A Era das Máquinas procura, tacteando, a vinda da Grande Humanidade!
      A Europa anseia, ao menos, por Teóricos de O-que-será, por Cantores-Videntes do seu Futuro!
      Dai Homeros À Era das Máquinas, ó Destinos científicos! Dai Miltons à época das Coisas Eléctricas, ó Deuses interiores à Matéria!
      Dai-nos Possuidores de si-próprios, Fortes Completos, Harmónicos Subtis!
      A Europa quer passar de designação geográfica a pessoa civilizada !
      O que aí está a apodrecer a Vida, quando muito é estrume para o Futuro!
      O que aí está não pode durar, porque não é nada!

      Eu, da Raça dos Navegadores, afirmo que não pode durar!
      Eu, da Raça dos Descobridores, desprezo o que seja menos que descobrir um Novo Mundo!
      Quem há na Europa que ao menos suspeite de que lado fica o Novo Mundo agora a descobrir?
      Quem sabe estar em um Sagres qualquer?
      Eu, ao menos, sou uma grande Ânsia, do tamanho exacto do Possível!
      Eu, ao menos sou da estatura da Ambição Imperfeita, mas da Ambição para Senhores, não para escravos!
      Ergo-me ante, o sol que desce, e a sombra do meu Desprezo anoitece em vós!
      Eu, ao menos, sou bastante para indicar o Caminho!
      Vou indicar o caminho!
      […]

      Vide o “caminho” em: http://arquivopessoa.net/textos/456

  6. Caro Bagão Félix, cada vez mais o vejo com uma pessoa lúcida e intelectualmente honesta; estes elogios hoje em dia não são para todos (nem nunca foram!).

    Mas receio que a sua imparcialidade e bom senso levem a que um dia seja insultado de “esquerdista”, como tão na moda está.

    1. Ou talvez um dia seja insultado de “germanófilo”, como também tão na moda está. Hoje em dia, quem não recita fielmente a “tabuleta de argila” da ortodoxia corre muitos riscos.

  7. A situação europeia é uma farsa séria. Ora veja-se o mais recente episódio, o FMI pelos vistos avisou os governos europeus que se recusa a fazer parte de um novo programa sem uma substancial redução da dívida grega, porque o seu novo relatório, e apesar das suas previsões de evolução económica no contexto do ‘memorando’ fantasticamente optimistas, a situação da Grécia caminha em direcção a uma hecatombe financeira a ritmo cada vez mais acelerado. Os governos europeus não só tinham conhecimento deste relatório e da posição do FMI enquanto estavam a negociar o novo acordo/rendição da Grécia, como incluíram uma passagem que diz que uma pre-condição para a Grécia sequer poder pedir o novo empréstimo é o FMI fazer parte do processo, ou seja algo que sabiam ser impossível!

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