Tudo Menos Economia

Por

Bagão Félix, Francisco Louçã e Ricardo Cabral

Francisco Louçã

9 de Julho de 2015, 08:27

Por

Se quer enriquecer nos mercados, é melhor deitar búzios do que confiar nos gurus

buzioNo meio de toda a algazarra que vivemos, há uma doutrina de fé que se impõe sempre: os mercados, os mercados sabem, os mercados querem, os mercados desconfiam, os mercados decidem. A Grécia depende dos mercados, o que seria de Portugal sem os mercados, os mercados agitam-se na China. O que sabem então os mercados?

Daniel Kahneman, psicólogo e prémio Nobel da Economia, dedicou-se a responder a esta questão, estudando os comportamentos e os resultados dos gestores e decisores dos mercados financeiros, ou seja, de quem manda mesmo.

As conclusões são explicadas num seu livro notável, Pensar Depressa e Devagar (Thinking, Fast and Slow, 2011, Nova Iorque: Farrar, Straus and Giroux; existe tradução portuguesa da Temas e Debates, 2012).

A primeira experiência que ele nos conta é de ter sido contratado para apresentar um seminário numa empresa financeira que aconselha e faz a gestão de fortunas (p.215). Na véspera da reunião, Kahneman pediu que lhe dessem informação detalhada sobre os resultados dos gestores de conta. Recebeu uma folha Excel com o registo das previsões de vinte e cinco gestores de conta anónimos, para cada um dos oito anos anteriores. O resultado das suas previsões não era indiferente para eles, porque determina o seu bónus.

O psicólogo calculou simplesmente as correlações destes dados ao longo de anos sucessivos, o que revelaria a persistência da perícia e capacidade dos gestores de conta. O resultado, em média, foi zero. Ou seja, eles tinham capacidades comparáveis e irrelevantes. Dito de outro modo, para os detentores das fortunas, deitar búzios ou seguir os conselhos dos seus gestores e conta daria aproximadamente o mesmo resultado.

Com estes resultados na mão, Kahneman jantou com os chefes da empresa e perguntou-lhes que resultado esperavam, antes de lhes dizer a conclusão a que chegara: a resposta foi “quase nada”. Eles sabiam que a perícia dos seus gestores era quase nula, embora não esperavam que fosse zero. No entanto, foram pagos bónus e não se tratava de pequenas somas. Conclusão de Kahneman: a sorte é premiada como se fosse perícia.

A segunda reflexão de Kahneman, relatada no mesmo livro (p.261) baseia-se num persistente inquérito realizado por uma universidade norte-americana, a Duke University. Os seus professores compilaram as previsões dos responsáveis financeiros de grandes empresas sobre a evolução do índice bolsita (o S&P) para o ano seguinte. Juntaram 11600 previsões e calcularam a correlação entre elas e o que realmente se passou. A correlação obtida é um pouco menor do que zero (ou seja, se os responsáveis financeiros prevêem uma subida da Bolsa, é um pouco mais provável que ocorra uma descida, e vice versa). Conclusão de Kahneman: têm confiança a mais.

É isto o “mercado”: gente com capacidade e perícia profissional a menos, resultados nulos, confiança a mais e bónus sempre crescentes. Mas as lição para si é esta: se quer enriquecer na Bolsa, é melhor deitar os búzios para tomar as suas decisões do que confiar neles. E, se acha que os mercados são a estrela polar da nossa vida, é melhor pensar se não quer ir noutra direcção.

Comentários

  1. Bom artigo Dr. Francisco Louçã,

    Relativamente à primeira experiência gostaria de, primeiro dizer que concordo plenamente. Estudei isso no mestrado em finanças que por vezes é uma questão de virar um moeda ao ar ou random walking, ou seja, a opinião de um gestor de conta é pura sorte ou azar. Não depende da perícia do mesmo. A questão é que por exemplo, noutras das cadeiras que estudei no mestrado em finanças no Mónaco, de hedge funds, aí sim, estudei o poder de capturar o alpha! O poder e perícia que certos indivíduos têm de criar retornos para eles e para os clientes, por vezes consistentes ao longo tempo. Estou a falar de retornos de 20, 30%, 90% num ano. Para isso é preciso investir no mínimo 200 000 dólares, o que não está acessível a todos. Mas sim de facto essas pessoas de certos hedge funds realmente criam valor. Já não posso dizer o mesmo de gestores de fundos, tais como mutual funds, pois por exemplo se apostarmos num ETF conseguimos muitas vezes os mesmos retornos sem as comissões desses gestores de fundos. Conclusão ambas as experiências são interessantes, no entanto não se aplicam a nichos de mercados, tais como hedge funds. Finalmente, gostaria de dizer, que o motivo do meu comentário, não foi criticar, pois o que aí apresentou já tinha conhecimento( mas por outras palavras), mas acrescentar algo. Decidi acrescentar algo mais de modo a enriquecer o debate. Obrigado. Boa continuação

  2. Deitar búzios não é coisa menor: Apenas os iniciados, depois de 7 anos, e vários rituais, são autorizados a deitar búzios, pelo Pai ou Mãe de Santo.
    A ideia que a economia é uma ciência exata é uma ideia errada. Trata-se de uma ciência humana, mas não exata.
    Por isso, os mercados estão para o Candomblé como o Comdomblé está para os gurus. É uma regra muito conhecida da aritmética. Mas ao juntarmos à economia a psicologia, as coisas ficam ainda mais inexactas.
    Gerir fortunas como quem gere búzios ou ouvir um gestor de conta como se fosse um guru é perfeitamente normal.
    Tudo perfeitamente humano, e tão natural como são os assuntos de astrologia ou de espiritismo (também assuntos da psicologia humana). No espiritismo, (dizem nunca vi), ocorrem fenómenos de pensar devagar ou pensar depressa, O espirita tem essas duas dimensões, e é assim que falam com substâncias incorpórias e imateriais. Substâncias incorporias como são os números, que tanto gozo dão aos analistas financeiros e corretores de bolsa.
    E há ainda outro fenómeno ligado aos mercados: a Metempsicose (transmigração). Fenómeno que se alimenta dos chamados jogos de azar. Que são jogos nos quais os que têm sorte são os que estão a ganhar com o azar dos outros jogadores; como são mais os que têm azar, estes, sustentam os que vão ter sorte e que são muito menos..
    O exemplo é mundial: os pobres, cada vez mais pobres, alimentando os cada vez mais ricos.

    1. Percebe-se que para Luís Castro um mercado é apenas um casino. Até ao dia em que põe a casa à venda ou em que vai à loja comprar pão, mas, claro, aí ele diz que não está no mercado… Cruzes credo! O mundo está cheio de virgens que nunca estiveram num mercado. Por norma, aqueles onde eles transaccionam serão úteis, e aqueles onde eles nunca estiveram serão “especulativos”. A vaidade talvez seja a única coisa que nunca conheceu limites.

    2. Realmente um “mercado” não é apenas um casino: é um casino com “show privativo” de “crooners” e bares de “strip”. Pelo menos costuma haver por lá tipos que “cantam” informação privilegiada e outros que saem de lá completamente despidos…

  3. Tanta discussão sobre o monstro “mercados”. Não será apenas uma actividade não produtiva, cujo único fim se esgota em si mesmo, gerida apenas e só por expectativas e balizada pela lei da oferta-procura?
    Basta uma notícia (expectativa), um aumento da procura (compra)…
    Os mercados não são para serem compreendidos. Existem para ganhar/perder dinheiro.
    Em muito, não passam de um negócio piramidal, só que legal. Quando rebenta, alguém perde e começa tudo de novo.

  4. Vejo aqui defensores fervorosos do “neoliberalismo”. Em qual lugar no mundo o ” Estado Minimo ” beneficiou a população? Tens a resposta ? Esses são parte da ” Elite Econômica ” ou ouviram o ” canto da sereia “.

    1. Os Estados Unidos da América foram construídos sobre a iniciativa privada e desconfiança dos cidadãos em relação ao Estado, e é por isso que aqueles andam armados. Não estou a defender, estou a constatar.

    2. Sim “liberal”, sempre tive o sonho de viver num país cheio de cowboys!

      É sempre bom registar que pessoas como tu, não vivem apenas para defender a “iniciativa privada e desconfiança dos cidadãos”!

      Só “constactam” isso como um bom exemplo!!!

      Muito bom, é tipo “só tou a dizer”; “nao que defenda”. Assuma-se, homem!

    3. Na Holanda, certamente e por tradição multissecular um dos países mais liberais do mundo, os holandeses não andam armados com armas de fogo. Poderia falar de muitos outros, mas basta. Mas olhe Nuno Silva, no dia em que alguém tentasse tornar-se ditador nos EUA, eu ficaria contente por saber que o povo americano está armado. Parece-me que o Nuno Silva confunde liberal com radical, mas a única semelhança que existe é que as palavras rimam. Pronto, eu confesso, também há liberais radicais demais para o meu gosto, mas isso não é indispensável.

    4. Liberal até rima com Portugal. Infelizmente essa é a única relação existente com Portugal, o país que votou maciçamente em Oliveira Salazar e em Barreirinhas Cunhal para “os melhores portugueses de sempre”. É deprimente.

  5. No exemplo que transcreve, se o erro médio das previsões correlacionadas com o mercado é zero, apenas quer dizer que os tais Gestores de conta estiveram perfeitamente alinhados com o mercado.
    Meu caro Francisco Louçã, descortinou uma conclusão banal, numa tentativa de provar a sua doutrina de fé contra os mercados.

    1. Não leu bem. A correlação é diferente de zero. Pode beneficiar alguma coisa se ler o Kahneman. Afinal, é um prémio Nobel da Economia e não é uma conclusão banal – e só o contrário do que o Adão Antunes sustenta.

    2. Não se trata do erro médio – nesse caso o Adão teria razão -, mas sim a correlação média – o que implica que o Francisco Louçã tem razão.

    3. Já se sabia que a direita e a economia não se misturam, agora também lá se foi a estatística…

    4. Adão, não percebia exactamente a diferença entre erro médio e correlação média, mas fui ler sobre isso, e sem ser presunçoso, porque nota-se que és um expert na matéria, tenho duas coisas para te dizer:

      – Não tens razão, e ficava-te bem admitires

      – Ou és incompetente ou vieste aqui na ganância de tentar provar a tua doutrina de fé a favor dos mercados.

      Boa sorte na proliferação da tua doutrina, mas a mim não me apanhas! E isto é mesmo uma decisão irrevogável, no sentido da palavra e não no sentido Paulo Portas ..

  6. Acho que há um certo enviesamento interpretativo aqui. De facto o Daniel Kahneman sugere isso, mas o argumento dele é muito mais lato: aplica-se a toda a actividade humana “racional”. Provavelmente ele poderia ter feito exactamente o mesmo exercicio, por exemplo com professores universitários de universidades públicas. Ou com funcionários públicos a tentarem fazer o sem melhor.

    A conclusão que os agentes de mercado não são racionais é correcta, mas o argumento aplica-se a toda a actividade humana (por exemplo a um estado iluminado preocupado com o bem estar de todos).

    1. Mas eu não estou a discutir a racionalidade em geral. Estou a apresentar o ponto de vista do Kahneman a partir de duas experiências que ele apresenta detalhadamente no livro, ao estudar os decisores nos mercados financeiros. Citei e referi com exactidão, com as páginas indicadas para quem quiser consultar.

    2. Assim sendo – e não conhecendo a obra em epígrafe – deduzo pelas palavras de Tiago Antão, que talvez a teoria de Kahneman possa ser aplicada às escolhas e opções de risco dos decisores políticos, certo? Quanto vale então um manifesto eleitoral ou um programa de governo?
      * * *
      É nestas alturas, na desesperança, que melhor compreendo a razão da irracionalidade do Mito, na obra de Fernando Pessoa. Pois, só o mito pode conter toda a Verdade!
      «Desejo ser um criador de mitos, que é o mistério mais alto que pode obrar alguém da humanidade.»
      «Há uma espécie de propaganda com que se pode levantar o moral de uma nação – a construção ou renovação e a difusão consequente e multímoda de um grande mito nacional. De instinto, a humanidade odeia a verdade, porque sabe, com o mesmo instinto, que não há verdade, ou que a verdade é inatingível. O mundo conduz-se por mentiras; quem quiser despertá-lo ou conduzi-lo terá que mentir-lhe delirantemente, e fá-lo-á com tanto mais êxito quanto mais mentir a si mesmo e se compenetrar da verdade da mentira que criou. Temos, felizmente, o mito sebastianista, com raízes profundas no passado e na alma portuguesa. Nosso trabalho é pois mais fácil; não temos que criar um mito, senão que renová-lo […] Então se dará na alma da nação o fenómeno imprevisível de onde nascerão as Novas Descobertas, a Criação do Mundo Novo, o Quinto Império. Terá regressado El-Rei D. Sebastião.»

      Afinal, crer confiante na vinda pacífica e redentora de D. Sebastião [simbólica; ex. na forma do regresso do “escudo”, nova alternativa de Governo ou outro acontecimento político ou económico relevante – no qual, com toda a determinação, juntos nos foquemos, venha inaugurar, na consumação derradeira da “esperança”, um novo ciclo virtuoso de desenvolvimento e prosperidade em Portugal], não será, por desventura, menos fecunda que a difusa e racional confiança liberal nos “mercados” – que, diga-se em abono da verdade, com ou sem razão, tem colocado as economias do sul da Europa nas mãos dos credores, e são sinónimo de divergência, desigualdade e empobrecimento.
      – Confiemos, pois, o penhor das nossas esperanças em D. Sebastião: quer venha, quer não!

  7. Há alguns anos atrás, quando ainda ia ao “facebook”, pus lá uma pergunta: “Se os mercados são irracionais, é racional da nossa parte fazermos toda a nossa vida na sua dependência?” Ninguém me respondeu, nem aí nem nalguns fóruns onde também deixei a mesma pergunta. Curiosamente, também ninguém nunca contestou a afirmação base de que os mercados são irracionais. Quanto a mim, anda muita gente a fugir a encarar esta realidade.

    1. A dicotomia racional/irracional, sobretudo com a definição corrente de racionalidade, é incompetente para descrever os mercados financeiros, como este autor prova.

  8. F, muito bom, o pior é que ha escritos dos anos 20 a dizer o mesmo, o Keynes que sabia da poda, escreveu um libro de probabilidades para mostrar que ha situações que simplemente não sabemos, não existeb a probabilidade matematicas para factos que são históricos, quem sabía que Tsipras decidiria convocar um referendum, quem sabia que Berlusconi seria corrido num golpe politico que não ha memoria em Europa, quem sabia que a bolsa chinesa começaria uma derrapagem, podia ate se cheirar, mas saber nada. Quem defende a credibilidad e honorabilidade dos sistemas capitalistas recorrendo a exaltar a capacidade empresarial, iniciatiava, etc, que de facto existem na economia industrial, embora altamente monopolizada, deve ficar muito desapontado pelo Maria vai com as outras do comportamento dos inversionistas, mas o que não sabem também é que esse espiritu faz as bolsas funcionar sem grandes alterações, ate o dia em que os grandes inversionistas decidem meter a mao no bolso do rebanho ou mudar o passo. Parabens pela defesa da dignidad dos jornalistas isentos, que lamentavelemente são objeto de uma pressão desalmada dos editores.

  9. os ‘mercados’ são jogos de soma negativa (após os custos associados às transacções), portanto o preço tem que subir (ou descer) Investimento/(investimento – custos). Betas e alfas são uma fantasia perigosa, e transacionar instrumentos com recurso a alavancagem um suicídio (mas como o dinheiro é de outros…), utilizar instrumentos financeiros como colateral para empréstimos (liquidificar) é portanto o mesmo que deitar gasolina ao património, basta uma faísca… A estratégia dos bancos centrais de pôr a economia real a crescer com uma bolha na bolsa é demente

  10. Boa reflexão de Francisco Louçã… diria até pedagógica!
    E talvez isso ajude também a explicar a um leigo, não investidor/especulador, o motivo pelo qual o valor nominal das acções não tem uma correspondência exacta com a dimensão das empresas ou ainda como a evolução em bolsa pode não reflectir a solidez e os resultados correntes da mesma…
    E daqui, na embalagem do artigo de Francisco Louçã, lanço a questão: será o comportamento dos “mercados” racional?
    George Soros, em 1992, ganhou mais de mil milhões de libras, a especular no mercado de câmbios contra a desvalorização desta divisa. – Terá sido sorte ou conhecimento?
    A perspicácia de Soros resultou da boa leitura “instintiva” que fez do lance do momento: “O Bundesbank estava basicamente a pedir para que os especuladores especulassem contra as moedas mais fracas. Nós seguimos a dica do Bundesbank” – referiu.
    A oportunidade, como explica Soros, veio de uma “dica” [ou deliberada fuga de informação] lançada “off-the-record” a um jornalista do diário económico alemão Handelsblatt, pelo então governador do banco central da Alemanha, Schletsinger, de que a desvalorização da lira (Itália) era insuficiente e que outras moedas teriam de seguir o exemplo. Estas informações surgiram na sequência de um momento de tensão entre Londres e Frankfurt, sobre a evolução das taxas de juros…
    Isto foi percebido pelos especuladores como uma indicação explicita de que a libra iria desvalorizar, desencadeando a partir daí a venda massiva desta divisa – ou seja, para os especuladores, por antecipação a qualquer acção do Tesouro britânico, a libra já valia menos! O banco de Inglaterra reagiu, procurando aplacar a sangria, comprando libras a uma preço mais alto – ou seja, “derretendo” literalmente moeda no mercado – com perdas a ascender a 3 mil milhões de libras! Aparentemente sem sucesso, o Tesouro acabaria por decidir, contra as pretensões iniciais, subir as taxas de juros – o que foi interpretado por Soros como mais “um acto de desespero”, e, sem apelo, no agravo a libra continuou em queda livre… George Soros à cabeça, os especuladores tinham conseguido “quebrar” o Banco de Inglaterra. Isto ocorreu num só dia, a 16 de setembro de 1992!

    Este comportamento dos investidores pode ser explicado em parte, e de grosso modo, com o efeito de “manada”. Imaginemos uma manada de «búfalos» pastando tranquilamente. Nisto, um estalo, percebido como um sinal de perigo por um musculado búfalo, fá-lo lançar-se em correria. Então, em sobressalto, toda a manada de búfalos prossegue em desenfreada debandada, arrastando tudo à frente… e cada búfalo corre porque os outros búfalos em redor também correm. A correria, já indiferente ao estímulo inicial, sustenta-se a si própria, levantando, ao estrondo do pisar dos pesados cascos, uma grande nuvem de poeira! A sorte dirá então se a manada encontrará o trilho que a leve a melhor pasto ou o penhasco…
    Noutros casos, os mercados parecem-se como um corpulento «urso» que, em fase prolongada de hibernação, não reage à sorte dos estímulos. Recolhido, o urso permanece agora apático, indiferente ao meio em redor, até novo despertar…
    Num caso e noutro, a reacção sugere ser desproporcional ao estímulo… É caso, de facto, para questionarmos se o comportamentos dos especuladores, e dos mercados, estará mais próximos dos “instintos” animais da natureza ou da racionalidade superior dos homens? Uma parte porventura será razão (informação), outra “instinto”… no resto, a “boa fortuna” será sorte, ou o infortúnio a trama malfadada do destino!

    [Não me admira se ao oráculo dos bruxos e adivinhos acorram também “apostadores”, entre os bem intencionados economistas, a juntar à clientela dos muitos políticos sempre supersticiosos do seu destino.]
    Para mais, lembram-se do polvo Paul, que animou as apostas no Mundial de 2010? Em 14 resultados – acertou 12! Vide: https://pt.wikipedia.org/wiki/Paul_(polvo)

    1. Pois, mas tal como no seu exemplo, a manada muitas vezes é previsível, e provavelmente sabe que pode contar com o resto da manada também para gerar muito dinheiro da manipulação implícita do mercado.

  11. A matemática é tramada! Se os ganhos são zero e os gestores ganham bónus, suponho que em esquema de comissões, o que implica que há mais alguém a ganhar, podemos admitir que os ganhos não são zero, afinal! Um bom exemplo será uma noticia de hoje, aqui no Público, de depósitos complexos. Conceitos como short selling e outros equivalentes explicam como as poupanças do comum cidadão são aplicadas em esquemas piramidais e especulativos que no final de contas resultam em zero ou mesmo prejuízo para o cidadão mas representam grandes ganhos para quem os gere. A desregulação do crédito mantém-se em grande estilo. A desregulação do crédito, em Portugal a partir dos anos 90, ao consumo privado e ao estado, cá para mim, é origem de todos os problemas. O excesso de alavancagem dá um crescimento sem critério e sem sustentabilidade porque maximização do lucro imediato é o único objectivo. O resultado do crédito sem regulação ao consumo do estado e privado será sempre o mesmo não sendo uma questão de esquerda ou direita mas de bom senso. Não será para o Francisco Louçã mas para outros leitores, como eu, que sem terem formação especifica na área se interessam pelo bem comum deixo um documento que considero de leitura imprescindível. http://z3950.crb.ucp.pt/Biblioteca/GestaoDesenv/GD19/gestaodesenvolvimento19_91.pdf

  12. No entanto existiu um homem que previa com extraordinária precisão e eficiência o comportamento dos mercados. Era um tal Madoff, mas parece que essa loja já fechou. Os verdadeiros génios são sempre muito incompreendidos.

  13. Consta até que o “Grande Mestre Mutar”, o “Professor Bambo”, o “Mestre Seco” e o “Professor Karamba” vão lançar uma corretora. E a seguir saltam para a Universidade Nova a orientar MBAs em finanças. Na Católica não precisam, já têm o João César das Neves…

    1. Sob o manto diáfano da demagogia, a nudez crua da verdade. E a verdade é que Daniel Kahneman observou um fenómeno EXPECTÁVEL em mercados eficientes, sendo ele que nenhum grupo, por mais atento e bem informado que seja, consegue ganhos anormais por outro motivo que não seja a pura sorte. Ao contrário do que aqui defende o nosso guru do comunismo, o que o estudo que glosa prova é, mais uma vez, a tremenda eficiência dos grandes mercados organizados. Normalmente aqueles que gostam de os desprezar são os mesmos que lá foram um dia esperando ganhar dinheiro no dia seguinte, e saíram no dia seguinte a correr e a ganir. Ah, esta intervenção provavelmente não vai passar, mas não resisti!

    2. Pois, “Liberal”. O “Professor Mestre Seco” , que está neste momento a caminho da China,teve a amabilidade de me confirmar o que diz: os grandes mercados organizados são tremendamente eficientes. Segundo ele, que é um grande especialista em amarrações, impotência e mau olhado (tem como clientes vários dos principais CEOs do país e arredores) aquilo que se está a passar na China, por exemplo, é mau olhado. E todos sabemos como o mau olhado desorganiza os grandes mercados organizados, tornado-os tremendamente ineficientes. Felizmente existe um governo ditatoliberal que repôs, em dois dias, a tremenda eficiência, à espera que intervenham os especialistas, já que com o mau olhado não se pode brincar. E que conta, evidentemente, com o auxílio de vultos como o “Professor Karamba” que, no início do ano, adivinhou sabiamente que “um grande problema financeiro irá afetar um mercado tremendamente eficiente”. Como se confirmou.

    3. António Dias, deve estar a brincar comigo ao sugerir que os “mercados” de capitais chineses são dos mais desenvolvidos. E eu sei que isso talvez lhe escape, mas quando eu digo eficiente, isso não tem nada que ver com racional. Claro que os agentes que participam nos mercados são bastante racionais, mas o mercado jamais. O mercado não é pessoa. E, falando de pessoas, só aquelas que são anormalmente estúpidas se atrevem a comparar e a atribuir a entidades que não são seres humanos atributos exclusivos destes, como a razão. É bem pobre falar de um mercado como se de uma pessoa se tratasse. Próprio de tolos. Depois surgem os disparates, frase como “os mercados decidem”, “os mercados pressionam”, etc, etc.

    4. Há sempre uma desculpa “Liberal”. Se um “mercado” não é “tremendamente eficiente” é porque…não é “dos mais desenvolvidos”! Já agora: diga lá um que seja “desenvolvido”! E fui eu que falei em “mercados racionais” “nervosos” e coisa e tal? Ó homem você “amande-se” aos Bloobergs, Reuters e essa tralha toda! Eu apenas me referi a uma coisa muito séria: o mau olhado e a sua influência fatal nos “mercados”. Mais nada!

    5. Dentro dos mercados de capitais consideram-se por exemplo os da maioria dos países ocidentais como sendo “desenvolvidos”, mas não sou especialista no assunto. Haverá critérios, e muitos, para o fazer, mas esse é um assunto para especialistas … de Economia! Como paradigmas de mercados de capitais “desenvolvidos” teremos as bolsas de valores de Nova Iorque, Frankfurt e Tóquio, para não ser parcial. O facto de um mercado ser desenvolvido não o isenta de sofrer oscilações brutais, mas, apesar de tudo, limita a irracionalidade e a criminalidade (de alguns agentes). Nos dias de hoje é muito polémico o tema de o movimento se fazer sem intervenção humana, sendo as ordens de compra e venda colocadas por programas de computador. E já houve problemas sérios por causa disso.

  14. Eu, sendo apenas um curioso em mercados, e desculpem lá se vou dizer asneiras, considero este resultado perfeitamente natural. Assumindo que as previsões sobre a evolução dos mercados são racionais, e uma vez que existem milhares de analistas por esse mundo fora, com acesso aos mesmos dados e à mesma racionalidade, todos eles vão chegar mais ou menos às mesmas conclusões, pelo que o preço atual nos mercados rapidamente atinge o valor futuro esperado. Ou seja, quase sempre o preço atual nos mercados já reflete o preço futuro esperado, o que limita as perspetivas de ganhos, que se baseiam nas variações de preços. Concluindo: ninguém sabe (a menos que manipule os mercados) se os preços vão subir ou descer.

    1. O que diz é absolutamente correto. A informação sobre o futuro é absorvida e assimilada de imediato. Existe até um fenómeno designado de “overshooting” que é nada mais que uma reação exagerada de um preço, cotação, a um acontecimento anunciado. Na grande maioria dos casos a magnitude do “ajustamento” não é clara de imediato, ajustando-se num curto período de tempo, dependendo da liquidez do mercado em questão. Mas o ponto da questão é que a informação conhecida, mesmo a que diz respeito ao futuro, é incorporada, sendo as variações devidas, entre outras coisas, a diferenças de expectativas em relação às variáveis ou condicionantes desconhecidas.

  15. Totalmente em desacordo consigo, Dr. Louçã. Aliás, acho até o desenvolvimento do artigo uma desilusão. Iniciá-lo referindo o poder dos mercados para depois atacar os profissionais da área parece-me isso mesmo, para não dizer mais, uma desilusão. Muito haveria para dizer sobre quem conduz realmente os movimentos dos mercados e com que interesses. Um exemplo disso foi a desvalorização recente do Petróleo, que foi conduzida com objetivos claros. Meu caro professor Louçã, aprecio sobremaneira os seus artigos e as suas posições, sempre frontais. Muita falta faz no parlamento. Quanto ao mérito dos gestores de poupanças ou consultores financeiros, este está muito para além da mera adivinhação. Ninguém com dois dedos de testa presume saber quanto irá subir o Dow Jones no próximo ano. No entanto entender as suas condicionantes, as variáveis económicas e financeiras que o afetarão, é fundamental quando se gere ou aconselha poupanças. Entender os riscos incorridos e fazer escolhas, acompanhar a informação relevante e incorporá-la no processo de tomada de decisão. Ajustar os investimentos ao perfil do investidor. Quanto maior a iliteracia do investidor, mais critico se torna recorrer a um profissional. E neste aspeto a certificação da CMVM funciona de fato. Enfim, muito mais haveria a dizer. Uma coisa é certa, o mal dos mercados não são com certeza os seus profissionais, e o seu trabalho nada tem que ver com adivinhação, mas é crítico para que o valor da poupança de um agente económico reduza a exposição a fatores adversos. Volto a referir, os mercados são manipuláveis e devem ser regulamentados. Essa é outra guerra.

    1. Gosto do trabalho da CMVM, mas não é isso que está em causa. O que Kahneman discute, com experiências com gestores de topo, é a presunção do seu conhecimento e capacidade de escolha, que ele prova que é mais deficiente do que a pura sorte (ou azar).

  16. É o baralhar para dar. Não percebeu nada. Ou fingiu que não percebeu para tentar passar a mensagem errada.

    Há um diferença abismal entre gestão activa (fundos que tentam bater os mercados) que de facto é má e não acrescenta valor; e mercados financeiros e geram actividade económica – muito superior do que países sem esses mercados (ou pouco desenvolvidos).
    Outra coisa totalmente diferente são os mercados financeiros (bolsas, bancos, empresas, credores, investidores) que unem uma série de agentes económicos para criar actividade, investir, etc. Nesse aspecto os mercados financeiros são incomparavelmente melhores à escolha arbitrária de esquerda/socialista no campo de gerar actividade económica. Estados Unidos, Suiça, Austrália, Nova Zelândia, Reino Unido, Holanda, etc. são bons exemplos de como mercados financeiros desenvolvidos são muito melhores para a população do que escolhas arbitrárias centralizadas e estatizadas da esquerda socialista – Venezuela, Argentina, Portugal, Grécia, etc.

    Tem que estudar mais um pouco.

    1. Triste contributo. Deve sentir-se bem ao mandar “estudar” ou escrever que, porque tem uma opinião diferente, o seu opositor “não percebeu nada”. Suponho que seja a sua educação, não se lhe pode pedir mais. Mas se ler o livro que cito, que é de um prémio Nobel, talvez perceba que o mundo é mais complicado do que a sua fé.

    2. Olhe que não, Pedro, olhe que não! Ele percebeu, mas finge que não percebeu!

  17. o francisco louçã àx vezes parece que tem o condão de introduzir as pessoas na perfeição
    é uma impressão mt perto de estar generalizada

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