Tudo Menos Economia

Por

Bagão Félix, Francisco Louçã e Ricardo Cabral

Ricardo Cabral

5 de Julho de 2015, 22:48

Por

Não, Oxi

A situação macroeconómica da Grécia é muito similar à de Portugal: a medida mais lata da dívida externa líquida é similar; a dívida pública grega é mais elevada (~179% do PIB vs ~130% do PIB) sendo igualmente insustentável; as contas públicas gregas em 2014 estavam mais próximas do equilíbrio do que as portuguesas; as contas externas da Grécia são ligeiramente melhores que as portuguesas.

E não é só similar à de Portugal, é similar à da Espanha, à da Irlanda e em menor grau à da Itália.

Há quem argumente que os gregos não estão dispostos a fazer a sua quota-parte. Mas, curiosamente, a Grécia foi provavelmente o país que mais duras medidas de austeridade implementou.

Por conseguinte, o que o governo grego acabou de fazer nos últimos 5 meses, desde que foi eleito (com lapsos e falta de preparação à mistura, é certo), foi muito mais do que qualquer governo dos países “periféricos” fez nos últimos anos pelos seus povos. E o Oxi insistente do governo grego – um contra todos os seus parceiros –  foi corajoso e necessário e foi hoje legitimado e reforçado por um contundente Oxi do povo grego, igualmente corajoso e necessário.

Este governo grego acabou por fazer mais pelo projecto europeu e por Portugal, Itália e Irlanda do que muitos “bons alunos” que, acreditando demasiado na necessidade de consenso, não são capazes de aferir como esse consenso, em larga medida determinado por grupos de interesse dos países credores, é tão prejudicial para os interesses dos seus povos.

A reacção do vice-chanceller alemão acusando Tsipras de ter “queimado as últimas pontes” é ominosa mas insustentável. Então o governo alemão “zanga-se” com o governo grego por este ter ousado consultar o povo, acerca da proposta (o “ultimato”) que a Alemanha (e outros países) lhe queriam impor?

Vamos aguardar o desenrolar dos próximos dias, mas quero crer que irá prevalecer o bom senso e a racionalidade…

Comentários

  1. – Será o início do fim da «Moeda Única»?
    Recordo as palavras de Oskar Lafontaine publicadas aqui, no Público: «Fundador do euro pede o fim da moeda única para deixar o Sul recuperar», 06/05/2013

    «Oskar Lafontaine, um dos fundadores do euro quando era ministro das Finanças da Alemanha, pediu o fim do euro para deixar os países do Sul recuperarem. E sublinha que “os alemães ainda não perceberam que o sul da Europa, incluindo a França, será forçado pela sua miséria actual a lutar, mais cedo ou mais tarde, contra a hegemonia alemã“.
    […]
    Por isso, deve ser retomado um sistema como aquele que foi precursor da união monetária, o Sistema Monetário Europeu, que permite fazer “desvalorizações e valorizações controladas” das moedas nacionais, defende, o que exigira um controlo muito apertado sobre os fluxos de capitais. Os países em situação mais débil cujas moedas seriam necessariamente desvalorizadas teriam, num período de transição, de ser ajudados pelo Banco Central Europeu, por exemplo, para evitar o colapso.
    Uma condição essencial para o funcionamento de um sistema monetário europeu seria a reforma do sector financeiro assim como a sua regulação. “O casino tem de ser encerrado”, escreve. Esta transição teria de ser gradual começando, por exemplo, pela Grécia e Chipre.»
    Vide: http://www.publico.pt/economia/noticia/fundador-do-euro-pede-fim-da-moeda-unica-para-deixar-o-sul-recuperar-1593476

    Para bem da Europa é bom que se comece a pensar na “reestruturação” do próprio euro – e na consequente criação de uma nova «Moeda Comum»!…

    1. – Pode um federalista convicto defender o “fim do euro”, como forma de salvar a Europa?
      – Sim. Não é um paradoxo – e o investigador francês François HEISBOURG dá disso testemunho…

      Num artigo de opinião, publicado aqui no Público, Carlos Gaspar [Instituto Português de Relações Internacionais – IPRI-UNL], resume a mensagem principal da leitura que faz do livro «La fin du rêve européen»:
      «Dito isso, no essencial, François Heisbourg tem razão: o balanço político do euro é, para não dizer mais, uma desilusão e a inércia pode destruir não só a União Europeia, como o ideal europeu, que continua a ser um pilar insubstituível da legitimidade das democracias na Europa continental.»
      [Vide: «O fim do euro», 16/11/2013 – http://www.publico.pt/mundo/noticia/o-fim-do-euro-1612678%5D

      No sítio «Inteligência Económica» podemos ler algumas posições defendidas por François Heisbourg, nas quais toma partido pelo «desmantelar do euro» – e voltar atrás, no relançamento das moedas nacioanis (possivelmente combinadas numa nova versão do ECU) – como forma de salvar a União Europeia!
      «O federalista Francois Heisbourg (luxemburguês) defende que para salvar o “projecto europeu” é urgente “desmantelar o euro” e re-introduzir as moedas nacionais. Heisbourg é presidente do International Institute for Strategic Studies, de Londres, e do Centre de Politique de Sécurité, de Genebra, e é conselheiro especial do presidente da Fondation pour la recherche stratégique, de Paris. Pode parecer paradoxal que um federalista defenda o fim do euro… »

      Para mais, vide: « François Heisbourg: Desmantelar o Euro, Salvar a Europa», 22/07/2014
      http://inteligenciaeconomica.com.pt/?p=22642

  2. Soubemos hoje de manhã, que Varoufakis se demitiu. Espero que seja um sinal de interesse do governo grego em obter um acordo. Contudo, tendo em conta o que se passou nos últimos meses, o mais provável é ser mais um truque para aldrabar os outros 18 países da zona euro.

  3. “ Então o governo alemão “zanga-se” com o governo grego por este ter ousado consultar o povo …? ”. Não, o governo alemão reconhece que o povo grego fez uma escolha legítima e democrática e essa escolha consistiu em cortar pontes com os outros 18 países da zona euro.

    1. O governo grego convocou o referendo para confrontar o seu povo com um ultimato, no dia 25 de Junho, com o qual terminaram as negociações.
      Recordo-lhe as palavras do presidente do Eurogrupo, Jeroen “Relvas/Sócrates” Dijsselbloem a Varoufakis, no final dessa reunião: “You can consider this, if you wish, a take or leave it proposal”.
      São estas as pontes a que se refere?

  4. Veremos como se porta esta gente do Eurogrupo.

    Não há grandes esperanças. Para além do Alemão facínora, já teremos a Madame Swap, Coelho e outros Maçães que tal, a pedir sangue juntamente com Rajoy que treme ante a progressão do Podemos, muito graças á sua actuação disparatada, tal como o descaramento de impôr multas até 600.000 € para manifestantes desautorizados. Uma Lei absurda (Lei mordaça) em defesa dos Bancos encalacrados com os protestos solidarios de muitos populares que se manifestavam durante os despejos das famílias de suas casas, e visando encobrir os protestos da população que já está pelos cabelos. E Madrid, Barcelona e outras cidades de grande importancia já têm autarcas do Podemos. Coisas que aqui nem se fala… Não convém.

    1. O senhor Manuel Pinto não é capaz de escrever um comentário sem ser malcriado?

    2. Parece que neste blogue há uma regra de não publicação de insultos que só se aplica às vezes.

    3. O pedrocas fala muito mas dois posts acima escreve que os gregos vão novamente aldrabar quem quer que seja que ele pensa que eles vão aldrabar. Moralista e capitalista, como deve ser, exemplar.

  5. Caro professor,

    Partilho consigo a ideia que o “não” é um caminho para a Grécia salvar-se do ralo caótico em que meteu-se. Sim, o Oxi é também uma oportunidade para alterar o falível sistema monetário europeu, porém, como acredito na Europa como projeto político não posso deixar de temer as consequências deste referendo, sabendo inclusive que figuras como Le Pen elogiam efusivamente Tsipras. Ou seja, vejo neste referendo um passo para o colapso do projeto europeu com a possibilidade de incendiar os rastilhos nacionalistas um pouco por todo o continente. Em suma, o problema político que se levanta é bem mais intricado e irredutivel que a questão financeira.

    1. Concordo consigo, há um perigo de derivas nacionalistas, sem dúvida, mas a única forma de o evitar é deixar de humilhar e destruir nações e economias – ou seja, a vida das pessoas. Por isso, a vitoria grega é a única esperança para a Europa.

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