Tudo Menos Economia

Por

Bagão Félix, Francisco Louçã e Ricardo Cabral

António Bagão Félix

5 de Julho de 2015, 23:26

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E agora, Grécia (e União)?

O referendo (ou plebiscito?) grego proporcionou um resultado que, independentemente da opinião de cada um, comporta um aspecto positivo: o de a posição vencedora (neste caso, o “Não”) ter sido clara e insofismável. Teria sido bem pior, uma vitória de um dos lados, por uma meia-dúzia de votos.

Durante esta frenética semana, o que vimos? O directório europeu advertindo os gregos com indisfarçável sobranceria, o Syriza não hesitando em prometer a ilusão de que o “Não” significaria um novo, melhor e fulminante acordo em um ou dois dias, como se um acordo não tivesse duas partes. Não esqueçamos também que o resultado deste referendo helénico não vale mais nem menos do que, hipoteticamente, um  de sinal contrário na Eslováquia, República Checa, Finlândia ou Letónia…

Alguns decisores europeus não resistiram aos holofotes e redes sociais, curiosamente quase todos socialistas democráticos, culminando em Martin Schultz, que fala como se tivesse todo o Parlamento Europeu na barriga.

E amanhã? Entrou-se numa zona de cerrada penumbra, onde se pode prever uma coisa e o seu contrário. Qualquer palpite (sim, palpite) é extemporâneo.

O que vai acontecer? Uma recusa da Europa em negociar um novo acordo (o anterior acabou) ou a razoabilidade de se procurar chegar a uma sinfonia (que é como, em grego, se diz acordo), presa que está por detalhes e obstruída por orgulhos e obstinações? Uma saída do euro com o mínimo de preparação e de ordenação? Um “bail-in” como em Chipre, embora aqui o valor fosse a partir dos 100.000 euros de créditos bancários? O pior que pode acontecer nos próximos dias é entrar-se num limbo de não decisões, sob a forma tecnocrática de adiamentos. No meio desta confusão, pergunto: o que é melhor para os credores institucionais e públicos? Um terceiro resgate com mais injecção de capital e mais austeridade por força de um novo memorando, ou aceitar a reestruturação parcial dos seus créditos com o comprometimento de regras não apenas orçamentais, como também a nível da economia e do investimento?

Seja qual for o caminho, uma coisa é certa. A solução não pode residir em paliativos ou placebos políticos que só agravam o sofrimento dos gregos. É que o problema grego não é apenas de liquidez, é fundamentalmente de solvência, numa economia de rastos que viveu largos anos à custa de “batota”, sem indústria, com um Estado clientelar de todo ineficiente, com exígua capacidade de exportação (à excepção do turismo, agora em queda abrupta), com uma evasão fiscal alimentada por um obsoleto sistema de cobrança e controlo, com um Estado Social não conforme com a criação de riqueza. Por isso, a questão da maldita palavra reestruturação da dívida não pode ficar de lado. Pelo contrário, é a parte nuclear do melhor ou pior futuro da Grécia.

Decisivo, decisivo é o que vai o BCE fazer? No meio de consultas populares e governos eleitos, reside numa instituição não sufragada por via eleitoral a (primeira) chave da solução (ou não). O BCE não pode, à luz dos tratados europeus, receber ordens ou recomendações dos governos dos Estados-membros. Se, porventura, o BCE agir em contra-corrente com o Eurogrupo ou o Conselho Europeu, coloca-se a questão da sua natureza não eleita. Se fizer o contrário, suspeita-se da violação das regras europeias. Um paradoxo que, agora, se revela em toda a sua amplitude e que advém de um projecto de moeda única impreparado, coxo e incapaz de gerir as assimetrias de países tão diferentes.

O resultado do referendo é de difícil análise face à pergunta mal formulada, pelo que cada voto seja do “Não” ou do “Sim” poderá ter significado, na mente dos eleitores, coisas bem distintas. O povo grego terá escolhido “the second worst” já que, espremido até ao tutano, deixou de pensar na ilusão do “second best”. O resultado de significativo alcance político foi cerca de 14 pontos percentuais superior ao que os partidos da agora “coligação contranatura” do Syriza, Gregos Independentes e Aurora Dourada tiveram nas eleições de Janeiro. A Nova Democracia e o que resta do Pasok vão definhando. A Europa, gostando ou não, deverá ter percebido que, nos próximos tempos, não há alternativa a um governo liderado pelo Syriza.

Comentários

  1. E agora,Portugal ? Agora,o actual governo de Portugal vai ter de explicar porque não defendeu o povo português junto dos credores internacionais.E vai ter de explicar porque atacou o governo do syriza durante 5 meses nas reuniões do eurogrupo.

  2. Agora é guardar o referendo muito bem guardado e:

    1) Pedir dinheiro aos alemães;

    2) Sair do euro e entrar em default.

    Para o euro seria melhor a 2). Já chega de sermos escravos dos gregos, mandando dinheiro do nosso trabalho para eles utilizarem em boa vida.

    1. De facto, a primeira alternativa é: 1) Pedir dinheiro aos outros 18 países da zona euro. Como não existe Pai Natal, o alívio que um tal empréstimo dará aos gregos será compensado por alguma austeridade (aumento de impostos e/ou redução de benefícios) dos outros 18. Alguns destes países são mais pobres do que a Grécia. Seria interessante ver o que aconteceria se o governo democrático de algum destes países mais pobres convocasse um referendo democrático para que os cidadãos se pronunciassem democraticamente sobre um tal acordo, tal como o governo democrático grego fez.

  3. – Será o início do fim da «Moeda Única»?
    Recordo as palavras de Oskar Lafontaine publicadas aqui, no Público: «Fundador do euro pede o fim da moeda única para deixar o Sul recuperar», 06/05/2013

    «Oskar Lafontaine, um dos fundadores do euro quando era ministro das Finanças da Alemanha, pediu o fim do euro para deixar os países do Sul recuperarem. E sublinha que “os alemães ainda não perceberam que o sul da Europa, incluindo a França, será forçado pela sua miséria actual a lutar, mais cedo ou mais tarde, contra a hegemonia alemã“.
    […]
    Por isso, deve ser retomado um sistema como aquele que foi precursor da união monetária, o Sistema Monetário Europeu, que permite fazer “desvalorizações e valorizações controladas” das moedas nacionais, defende, o que exigira um controlo muito apertado sobre os fluxos de capitais. Os países em situação mais débil cujas moedas seriam necessariamente desvalorizadas teriam, num período de transição, de ser ajudados pelo Banco Central Europeu, por exemplo, para evitar o colapso.
    Uma condição essencial para o funcionamento de um sistema monetário europeu seria a reforma do sector financeiro assim como a sua regulação. “O casino tem de ser encerrado”, escreve. Esta transição teria de ser gradual começando, por exemplo, pela Grécia e Chipre.»
    Vide: http://www.publico.pt/economia/noticia/fundador-do-euro-pede-fim-da-moeda-unica-para-deixar-o-sul-recuperar-1593476

    Para bem da Europa é bom que se comece a pensar na “reestruturação” do próprio euro – e na consequente criação de uma nova «Moeda Comum»!…

    1. – Pode um federalista convicto defender o “fim do euro”, como forma de “salvar a Europa”?
      – Sim. Não é um paradoxo – e o investigador francês François HEISBOURG dá disso testemunho…

      Num artigo de opinião, publicado aqui no Público, Carlos Gaspar [Instituto Português de Relações Internacionais – IPRI-UNL], resume a mensagem principal da leitura que faz do livro «La fin du rêve européen»:
      «Dito isso, no essencial, François Heisbourg tem razão: o balanço político do euro é, para não dizer mais, uma desilusão e a inércia pode destruir não só a União Europeia, como o ideal europeu, que continua a ser um pilar insubstituível da legitimidade das democracias na Europa continental.»
      [Vide: «O fim do euro», 16/11/2013 – http://www.publico.pt/mundo/noticia/o-fim-do-euro-1612678%5D

      No sítio «Inteligência Económica» podemos ler algumas posições defendidas por François Heisbourg, nas quais toma partido pelo «desmantelar do euro» – e voltar atrás, no relançamento das moedas nacionais (possivelmente combinadas numa nova versão do ECU) – como forma de salvar a União Europeia!
      «O federalista Francois Heisbourg (luxemburguês) defende que para salvar o “projecto europeu” é urgente “desmantelar o euro” e re-introduzir as moedas nacionais. Heisbourg é presidente do International Institute for Strategic Studies, de Londres, e do Centre de Politique de Sécurité, de Genebra, e é conselheiro especial do presidente da Fondation pour la recherche stratégique, de Paris. Pode parecer paradoxal que um federalista defenda o fim do euro… »

      Para mais, vide: « François Heisbourg: Desmantelar o Euro, Salvar a Europa», 22/07/2014
      http://inteligenciaeconomica.com.pt/?p=22642

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