Tudo Menos Economia

Por

Bagão Félix, Francisco Louçã e Ricardo Cabral

António Bagão Félix

4 de Julho de 2015, 09:19

Por

Eusébio, um campeão no Panteão

imagesJá tudo se disse e escreveu sobre Eusébio. Ainda que a repetição, neste caso, não me canse e embarace, feita de memória que nos traz o passado ao presente e não apenas de saudade que nos leva do presente ao passado. Pode-se discutir, legitimamente, se Eusébio deveria ter ido (ou melhor dito, já ter ido) para o Panteão Nacional que, todavia, não é exclusivo de grandes figuras militares, da política, da cultura. De uma coisa estou seguro: que com Eusébio perpetuado na memória de Portugal, o Panteão vai ser mais reconhecido e visitado.

Menino e jovem, tive a sorte de ver Eusébio jogar em plenitude. Ensinou-me a gostar de futebol, porque o seu futebol era puro, não tinha manhas e não suportava deslealdades. Vi muitos dos seus jogos pelo seu (e meu) clube do coração e pela nossa selecção. Na altura, sem a profusão televisiva de agora, num tempo em que se misturavam, saborosamente, a ida aos estádios com a imaginação que em nós acontecia do relato radiofónico. Faz, assim, parte do meu celeiro memorial. Porque, para um amante do bom e leal futebol, Eusébio foi sempre vizinho e próximo, coração e razão, vitamina e antidepressivo, sal e açúcar.

Eusébio foi um homem simples, grato e um jogador fabulosamente inimitável, que nunca se metamorfoseou num ídolo distante e inebriado pela fama e com tiques de vedetismo. Era no campo o que era fora dele. O que – convenhamos – é hoje raríssimo ou quase inexistente.

Eusébio foi, enquanto jogador, a síntese perfeita entre a referência individual que resolveu tantos jogos e o empenhamento colectivo com que oferecia aos colegas o seu génio. Foi o primeiro grande desportista português da globalização futebolística. Uma projecção de portugalidade no mundo global. Eusébio ultrapassou o mapa de Portugal e derrubou todos os muros. Os de cá e os de lá fora. E sempre soube adicionar à universidade da vida, que foi a sua existência, a universalidade do consenso que foi capaz de gerar.

Eusébio simboliza um ideal de futebol e de desporto que deixou de ser, comportamental e eticamente, a norma. Com ele e para ele, a essência radicava tão-só no futebol jogado, com paixão cristalina. Bem sei que os tempos são, hoje, muito diferentes dos anos sessenta do século passado, mas Eusébio representa a quase ingenuidade e a pureza do artista. Num tempo em que as vitórias não eram apenas uma forma de aumentar a retribuição, mas uma compensação de quem sentia devotadamente a camisola que envergava.

Nunca tive medo de levar pancada. Só no joelho esquerdo fui operado seis vezes ao menisco, mas nunca tive medo, porque sempre gostei de jogar“, disse um dia. Eusébio foi uma indelével expressão de trabalho, de dever, de sacrifício, de abnegação, de entrega, de autenticidade, de companheirismo.

Com amor ao seu clube de sempre, disse, em 1997, ao Diário de Notícias: “Se me dessem a escolher gostaria de morrer no Estádio da Luz. É uma casa que me fez homem, onde estou desde os 18 anos. Nós não escolhemos, mas eu gostava… E já agora num jogo de emoção e com uma vitória do Benfica“.

Eusébio bem poderia ser encontrado num qualquer “Dicionário de Língua Universal” porque intemporal e ecuménico. Ultrapassou a onomástica e a geografia. Moçambicano, foi capaz de ser profundamente português, sem relegar a sua origem mátria. Pertence ao mundo e tem significado próprio.

Eusébio repousa agora no Panteão Nacional, ao lado de eméritas figuras da Nação Portuguesa. O homem autêntico e o atleta fabuloso é consagrado como um símbolo da eternidade pátria.

Comentários

  1. Discordo de João Macedo. A panteonizaação de um ícone do futebol mundial que calhou ser negro e assumidamente português, reverenciado inclusive como rei em terras de Sua Majestade, não demonstra em si só que Portugal não discrimina ninguém em razão da cor da sua pele. Embora tenhamos avançado um pouco, somos um país ainda cordial e institucionalmente racista. Basta recordar a forma racialmente deselegante como um líder sindical de esquerda se referiu ao etíope que chefiou a missão da troika. Todavia, Eusébio no Panteão Nacional é sem dúvida um grande golaço contra o racismo em Portugal. Mais, um golo também contra o preconceito social porque ele representa o povo no Panteão.

    1. PLENAMENTE de acordo Mr Alberto. Nasci, e vivo em Moçambique, sou descendente de Colonos Portugueses, originais da ex Metropole, e considero a sua narrativa perfeitamente acertada. Deixemos de discurso falaciosos e assumamos a realidade. Parabéns Albert.

    2. Só agora li o comentário de Alberto. Aparentemente muito seguro de si, mas na realidade o discurso é periclitante, para não dizer faccioso. Em todo o caso, falacioso, é certamente. Por exemplo, quando afirma que somos um país institucionalmente racista! Como pode sustentar tal afirmação?! Desconfio que desconhece o significado do vocábulo “institucionalmente”! Caro: Agarre-me aí com força, que é pesado, o GDLP da Porto Editora, escancare-o escarrapachadamente na página 929, e deleite-se com a leitura do sentido do advérbio. Ou dos sentidos, se quiser, das aceções, nomeadamente as nº. 2 e 3. Está a ver?! Portugal racista “segundo as normas institucionais” (aceção nº 2)!, ou “de acordo com os regulamentos” (aceção nº 3)?! Pelo amor de deus! A coisa é simples: se em Portugal houvesse instituições ou regulamentações racistas, há muito que andaríamos na boca do mundo como um país pestiferado com o qual não convém ter relações de qualquer espécie, pois o racismo ins-ti-tu-cio-nal foi definitivamente riscado da paisagem dos países ocidento-democráticos. Não parece ser esse o caso, felizmente. Não estamos assim tão sós. Agora que de vez em quando alguns de nós, os tais racistas cordatos, mandem irrefletidamente umas bocas desastradas e inclusivamente inaceitáveis, acredito piamente que sim, sei que sim. Mas em tais casos, como soe dizer-se, os cães ladram e a caravana passa.

    3. Caro João, poderia ter poupado nas letrinhas e nos “mimos” se tivesse feito uma leitura correta de minha opinião contrária à sua e se se desse ao trabalho de pesquisar o que em sociologia ou em ciencia política se designa por racismo institucional. Ele não precisa de ser decretado. Repito, tivemos avanços mas somos um país ainda cordial e institucionalmente racista. Basta olhar a nossa diversidade étnica hoje, ver se ela tem inquestionável visibilidade, representatividade nas nossas mais diversas instituições e questionar-se. Essa de dizer que o racismo institucional foi definitivamente riscado dos países ocidento-democraticos é de bradar aos céus!… Tem a certeza do que afirma? Não me leve à mal pela observação, mas acho que o meu caro deve estar a fazer alguma confusão conceptual e nos “conhecimentos” que tem da matéria. Um abraço.

    4. Compreendo agora perfeitamente o que se entende por racismo institucional. Queria apenas inicialmente chamar a atenção para o facto de que a panteonização de Eusébio tinha uma inegável dimensão (até aí não referida por ninguém, que eu saiba), uma dimensão porventura inconsciente, de afirmação… institucional (!) de não racismo deliberado da parte da nação portuguesa. Foi essencialmente isso que quis apontar, e que apontei efetivamente. Ora, ver que os dois únicos comentários (os seus) que me aparecem pela frente começam por “Discordo.” e “Discordo de João Macedo.” foi penoso para mim, sobretudo quando opunha ao meu raciocínio um discurso sindical tirado sabe-se lá de que cartola, sendo que de qualquer modo eu tinha aludido às imperfeições existentes, ao fim e ao cabo o tal… racismo institucional! // É pena não ter havido entendimento entre nós, pois também para mim a sociologia foi uma grande paixão durante uma época bastante longa. Em relação à matéria que aqui nos traz, adorei então a leitura de ‘Casa Grande e Senzala’, de Gilberto Freyre, no qual está patente a nossa proverbial abertura ao outro, o diferente, o Pele Negra. E não me diga que isso é ideologia. Pois com ideologia ou sem ela demos origem à nação mais mestiça do Mundo, a saber, o Brasil, apesar e para além (insisto) de todos os líderes sindicais que por aí poderão vagabundear. Não somos anjos. A perfeição constroi-se, pedra a pedra. A panteonização de Eusébio constituiu, eventualmente sem de tal nos apercebermos, a colocação de mais uma pedra na interminável e denodada consolidação da imagem que damos e queremos dar de nós ao Mundo: a de uma sociedade, uma nação, multissecularmente em marcha rumo ao entendimento geral entre todos, sem distinções de raças, a nível afetivo, cultural, económico e obviamente… institucional.

  2. Também para mim, como para milhões de portugueses, que, como eu, não eram necessariamente benfiquistas, Eusébio foi um ídolo. Todavia, como muitas pessoas, duvidei da bondade da sua panteonização. O artigo de Bagão Félix acaba no entanto de me sossegar a esse respeito: o Panteão não está reservado a “grandes figuras militares, da política, da cultura”. Pode muito bem acolher no seu seio um desportista excecional. E Eusébio foi isso, um desportista excecional. Ocorre-me contudo acrescentar algo que, creio, ainda não foi apontado, ou não o foi suficientemente para se tornar parte integrante do discurso público. É o seguinte: O luso e exímio futebolista que foi Eusébio era também Africano e Negro. Ou seja, Portugal panteonizou um Africano Negro. Demonstrou assim ao mais alto nível a si próprio e ao Mundo que, apesar e para além das imperfeições que o caraterizam, o ostracismo em relação ao outro, ao diferente com base na cor da pele não é com ele. O reconhecimento, por Portugal, da qualidade de benfeitores da Nação não está reservado às grandes mulheres e aos grandes homens de pele branca. Com este gesto, Portugal provou que não exclui ninguém, que não esquece ninguém, sejam elas ou eles Brancos, Amarelos ou Negros. Está, pois, Eusébio de parabéns. E Portugal também.

    1. Discordo. A panteonização de um ícone do futebol mundial que calhou ser negro e assumidamente português, tratado como rei inclusive em terras de Sua Majestade, não prova em si mesmo que Portugal não exclui ninguém em razão da cor de sua pele. Todavia, Eusébio no Panteão é sem dúvida um enorme passo no combate ao preconceito racial num país, convenhamos, ainda cordialmente racista como Portugal. Basta lembrar aqui a forma racialmente preconceituosa como um líder sindical de esquerda se dirigiu ao etíope que chefiou a missão da troika. Mas, para além da questão racial, Eusébio quebra outra barreira de preconceitos ao simbolizar o povo no Panteão.

    2. Albertíssimo, Caro: Em que ficamos, discorda ou… nem tanto assim? Eu próprio aludi às imperfeições que ainda caracterizam o país em matéria de aceitação do outro, daquele cuja cor da pele é diferente da “nossa” (imperfeições essas contra as quais pontualmente nada se pode fazer, pois qualquer um que se exprima de forma irrefletida, nem que responsável sindical, pode apesar de tudo proferir as tolices mais absconsas a esse nível). Não me diga que atribui a mesma ou mais importância aos fala-barato do que a uma ação intencionalmente concertada e levada a cabo a nível nacional para celebrar um grande homem, ação essa que, como sugeri, tem o condão de, ao celebrar um dos nossos, nos celebrar, como que por encanto, a nós todos. Repito: apesar e para além de todas as nossas tibiezas, não somos racistas. Dá para discordar?!… Para mim é uma alegria. Para si não?…

    3. Caro João, em relação ao Eusébio no Panteão estou totalmente de acordo consigo. É uma alegria. Porém, quanto ao não sermos racistas…a afirmação em si já é muito presunçosa e perigosa. Ela é igualmente de autoria de um sociólogo tristemente famoso diretor de jornalismo da TV Globo que a usou para escrever um livro visando conter políticas de ação afirmativa em benefício dos negros no Brasil, provavelmente o país mais cordialmente racista do mundo.

Deixar uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Tópicos

Pesquisa

Arquivo