Tudo Menos Economia

Por

Bagão Félix, Francisco Louçã e Ricardo Cabral

Francisco Louçã

3 de Julho de 2015, 08:26

Por

Encontro imediato do terceiro grau: de onde vem a pobreza?

marinFoi na semana passada, na Cidade do México e num encontro organizado pela UNAM, a principal universidade do país, e pela Fundação Saramago. Entre muitos debates que depois vos contarei, um confronto fascinante entre dois mundos.

De um lado, Rosario Marín, mexicana naturalizada norte-americana, a primeira imigrante a ocupar o cargo de Secretária do Tesouro (o equivalente a ministro das finanças) nos Estados Unidos. Foi no primeiro governo Bush, em 2001. Fez depois parte do governo Schwarzenegger na Califórnia, de 2006 a 2009. Ei-la no México a explicar o seu sucesso, foi uma das mulheres mais poderosas do mundo.

Do outro lado, Rebeca Grynspan, que foi vice-presidente da Costa Rica entre 1994 e 1998 e depois secretária-geral adjunta das Nações Unidas.

Explica a republicana e conservadora Marín: vim de uma família pobre, subi à minha custa, o Estado não foi preciso, são as famílias e as pessoas quem deve lutar pela vida, é assim o sucesso.

Responde a progressista Grynspan: o conto do sucesso à sua custa é uma lenda para muito poucos, uma criança subnutrida aos dois anos será pobre toda a vida. O mundo actual está a impor o desastre da pobreza e mesmo a criar novos perigos. Veja o caso das alterações climáticas: os custos dos desastres ambientais não são pagos pelos seus responsáveis directos, e que custos são esses (em dez anos, 2 mil milhões de pessoas foram afectadas, com 945 mil milhões de dólares de custos). Não basta o sucesso de uma pessoa quando se sacrificam povos e gerações. E um exemplo interessante para ser ouvido por uma política norte-americana: a Costa Rica acabou com o seu exército, utiliza os recursos na escola e na protecção da natureza. Os resultados são literacia e redução de pobreza.

São dois mundos, não são? E qual é o real?

Responde um outro interveniente no debate, Jacques Rogozinski, o director da sociedade nacional de crédito, o banco mexicano de desenvolvimento. Cada um por si, é o ar do tempo. E dá um exemplo impante, uma amiga que lhe mandou um mail de Washington a contar do orgulho da filha mais nova, que teve as suas primeiras aulas de empreendedorismo (está na primeira classe da primária) e que, como a irmã mais velha (terceiro ano da primária), está a elaborar um business plan para mostrar as suas capacidades empresariais.

Dizia-me um dos participantes: neste nosso mundo uma criança da escola primária já pode ir à falência se o seu business plan falhar.

Comentários

  1. “neste nosso mundo uma criança da escola primária já pode ir à falência se o seu business plan falhar.” – Como dizia o João Pereira Coutinho (de direita), numa das suas crónicas que agora já não me lembro qual: “As crianças de hoje, já nascem na linha de partida”, de facto, basta ver a competição egoísta e invejosa nas escolas pela melhor nota.

  2. Em meu entender a grande mentira de hoje, e que de tanto ser repetida se quer transformar em verdade, é a desigualdade económica. Nunca antes o dinheiro esteve melhor distribuido do que hoje, nas sociedades capitalistas. Mantenho o meu ceticismo relativamente ás sociedades socialistas, que não mostraram ser capazes de criar riqueza suficiente, para sobreviver ao capitalismo.

    1. Se ignorar o progresso dos salários após ajuste à inflação em quase todos os países “capitalistas” desde os anos 70… tem toda a razão.

  3. Será a pobreza, e a riqueza, uma responsabilidade individual ou colectiva?
    Em 2006, o Comité do Nobel dirigia-se a Muhammad Yunus, e à plateia de ilustres convidados, nos seguintes termos:
    «… a paz duradoura não pode ser atingida a menos que grandes grupos da população encontrem formas de sair da pobreza.”
    Yunus, professor de economia, recebeu o Nobel da Paz, numa distinção conjunta com o Grameen Bank, que fundara 30 anos antes no Bangladesh.
    – O que tem o “banco da aldeia” [tradução: grameen – “aldeia”] de tão especial? Yunus, que entretanto ficou conhecido por “banqueiro dos pobres”, desenvolveu uma experiência de crédito junto de um grupo de pobres que viria a alterar muitos dos pressupostos da actividade da banca comercial.
    Ser pobre, mais do que uma privação económica é um estigma social! – Numa aldeia, perto da Universitário de Chittagong, onde Yunus leccionava, deparou-se com um grupo de mulheres que para sobreviver fabricavam pequenas peças de artesanato em bambu. Porém, não tendo capitais próprios para desenvolver a actividade, estas recorriam frequentemente a “agiotas”, que além de emprestarem dinheiro “caro” (juros a 10% ao dia), com que adquiriam as matérias-primas, ainda lhes ficavam com o produto para revenda – pelo que o “lucro” era irrisório, num quadro próximo da escravidão. Então, Yunus resolveu emprestar dinheiro do seu bolso, a taxas bancárias idênticas à banca comercial – e o resultado, contrariando as expectativas iniciais, foi o reembolso completo e no prazo acordado. Enquanto isso, viu aquelas mulheres a aumentar a renda, que se traduziria numa melhoria das condições de vida. Yunus tinha inventado o «microcrédito» – e a pobreza não tinha de ser mais encarada coo uma fatalidade!
    Daqui uma importante lição, os bancos comerciais não emprestavam dinheiro por considerarem os “pobres” indignos de crédito – partindo da percepção de que não ofereciam “garantias” de pagamento. Yunus funda então um novo conceito de crédito baseado na “confiança” – dirigido aos mais pobres, sobretudo mulheres, no financiamento a pequenas actividades produtivas ou geradoras de auto-emprego (empreendedorismo), com um objectivo social e humano específico: erradicar a pobreza! Outras características dos “bancos dos pobres”: é serem geridos por uma instituição sem fins lucrativos, que actuam em proximidade com a comunidade local – segundo o principio de que “as pessoas não devem ir ao banco, mas sim o banco às pessoas”; a responsabilidade sobre o crédito é partilhada entre o grupo de tomadores; a concessão de crédito é ainda acompanhada com um plano de poupanças – de que resulta, mais de 90% do capital do Grameen Bank ser pertença dos participantes no microcrédito.
    Outra ideia de Yunus é o conceito de «negócio social» – neste caso, promover a consciência e responsabilidade social junto de grandes empresas, no sentido de que os lucros obtidos sejam reinvestido nas comunidades locais.
    [vide: http://www.bancodopovo.sp.gov.br/statico/arquivos/bpp_download_005.pdf ]

    Daqui melhor compreendemos que se por um lado o “empreendedorismo” é em larga medida individual, a percepção que temos do “desenvolvimento” tem uma importante dimensão social – e, quanto mais solidária e coesa for uma comunidade melhores chances tem de prosperar.
    Muitas das lições e conceitos resultantes da experiência Yunus, com o Grameem Bank e a difusão do microcrédito, são replicáveis a outros conceitos de «bancos comunitários» e até ao lançamento de “moedas sociais”. Por exemplo, se recuarmos no tempo, até à Áustria dos anos 30, o «Wörgl» conseguiu provar como uma moeda gerida pela comunidade local conseguiu superar a depressão, o empobrecimento e o desemprego!
    [vide: http://www.lietaer.com/2010/03/the-worgl-experiment/ ]

    Já a crise do euro e das dívidas soberanas veio demonstrar que prosseguimos um caminho em tudo diferente – à falta de entendimento e solidariedade entre países, junta-se o desencorajamento das populações, mais uma cultura liberal que promove o “individualismo”, desgasta o associativismo e quebra a identidade e coesão social. E se o único objectivo relevante para as empresas é a obsessão pelo “lucro” (mais o reembolso, minimizando os riscos e perdas, para os credores da dívidas), os grandes investimentos globais correm na “anomia”, indiferentes que estão à responsabilidade social – um bom exemplo são as privatizações, anunciadas como um bom negócio para as empresas (mais competitivas), para o Estado (receitas) e para os grandes investidores globais (únicos capazes de gerar avultados lucros), mas que tendem a desligar-se das responsabilidades de desenvolvimento económico e social das comunidade nacionais onde essas empresas estão inseridas. Numa palavra, enquanto uns poucos estão mais ricos, entre a abundância e livre circulação e acumulação de capitais, nunca antes vista, no geral, estamos todos a ficar mais ansiosos de um futuro cada vez mais incerto, deprimidos (saúde pública, “mais de 350 milhões de pessoas no mundo sofrem de depressão” – OMS, 2012), dependentes (ex. pressão sobre o “estado social”) e pobres (ex. pressão sobre a desvalorização real dos salários e o desemprego). Pense nisto!

    1. São ideias sólidas e uma busca consistente de alternativas, obrigado por ter referido estes autores e caminhos.

  4. O problema é que esse pensamento neoliberal e neocon se tornou hegemónico. Mas, é preciso dizer que isto está a acontecer porque a verdadeira esquerda (não aquela que ainda ousa dizer-se “socialista” depois de ter metido na gaveta qualquer assomo de socialismo ou mesmo social-democracia) tem andado na defensiva, parecendo, muitas vezes, envergonhada com os seus ideais e valores.Onde pára a ideia de que nenhum homem/mulher deve viver da exploração de outro homem/mulher?

    1. Sem dúvida que tem razão. Por exemplo a grecia vive explorando os restantes europeus. Tornando-os escravos porque pede o dinheiro do seu trabalho e não devolve. Trabalho escravo na europa graças ao syriza.

    2. “Trabalho escravo na europa graças ao Syriza”. Tem gente que não se enxerga.

    3. O problema é que a ideia de que “nenhum homem deve viver da exploraçao de outro homem” ja foi testada e nunca deu bom resultado. Uma boa pergunta é – porquê ? Suponho que os socialistas que “meteram o socialismo na gaveta” julgam ter encontrado a boa resposta. Os chineses, russos, checos, cubanos … encontraram-na seguramente.

    4. “am”, gabo-lhe a franqueza quando admite que alguém possa viver parasitando os outros.Não lhe gabo, pelo contrário, a lógica do argumento, que, transposto, por exemplo, para a medicina, seria: até hoje, as tentativas de encontrar uma vacina contra o cancro falharam; vamos, por isso, desistir, deixando que o cancro continue a matar.
      A matar, porque a exploração do homem pelo homem (ou da mulher pelo homem, ou de um país por outro país) tem levado a todas as guerras conhecidas e por conhecer e aos milhões de mortes, todos os anos, por fome e doenças evitáveis.
      Agora, há quem não queira viver neste mundo desumano, em que o homem se transformou no lobo do homem, ultrapassando, em ferocidade, os próprios animais, que, esses, quando têm a barriga cheia, tornam-se inofensivos e o homem parece insaciável.
      Há, também, quem veja em Cuba, apesar dos erros e defeitos, valores que não se trocam por um par de ténis NIKE, fabricados com mão-de-obra infantil. Esses valores traduzem-se em aquele país ter deixado de ser o bordel e sala de jogo dos Estados Unidos e, apesar do bloqueio económico, que dura há mais de 50 anos, ter uns sistemas de educação e de saúde dos melhores do mundo, segundo a ONU, sem que ninguém passe fome como acontece no nosso país, tão democrático. (Foi noticiado, esta semana, que Cuba é o primeiro país a conseguir que o vírus da SIDA não passe de mãe para filho).
      E, também com toda a franqueza, lastimo quem se compraz vivendo no meio da porcaria, da miséria física e moral, sem que um sonho lhes comande a vida. Mas, como disse o poeta, “Eles não sabem, nem sonham”. Por isso, lastimo.

    5. Uma forma de realizar o sonho é juntar um grupo de interessados e fundarem um Kibbutz. Em Israel, a patria da experiencia e onde o sector ainda tem um peso significativo na economia do país, creio que ainda há Kibbutz que praticam o puro igualitarismo (cada um é pago de acordo com as suas necessidades) e toda a propriedade é estritamente colectiva. Podia ser que o exemplo frutificasse.
      Na ex-Jugoslavia tentou-se a via da auto-gestao das empresas, mas a experiencia nao ganhou raizes.
      Uma outra alternativa é o movimento cooperativo, embora as cooperativas ja se afastem muito do ideal; sao geridas para beneficio dos socios e podem empregar assalariados, como nas empresas tradicionais; e em nada interferem com o modo de vida dos cooperantes, como nos Kibbutz originais.
      E um mundo cão de facto. Parece que o homem nao é capaz de viver sem a adrenalina do risco, da aventura e da competiçao sem estiolar ou morrer de tédio. Nao admira que uma constante da historia seja a guerra e a violencia, a começar pela violencia domestica, que o progresso da civilizaçao tem a custo conseguido mitigar.

    6. Caro “am”, parece-me que o “mundo cão” em que vivemos não nos satisfaz, aos dois. A questão que, aparentemente, nos divide é: aceitamos que o Homem continue a ser um animal, ou procuramos formas de ultrapassar essa condição.
      Os exemplos que dá – Kibbutz, auto-gestão na ex-Jugoslávia, cooperativas – são experiências que devem ser vistas no seu contexto, como tudo, aliás. Não conheço a realidade das duas primeiras, mas parece-me que, no que diz respeito aos Kibbutz, quando uma boa ideia assenta numa falsa premissa – a de que se é o povo eleito de Deus – não pode resultar, como a História tem demonstrado. Quanto à auto-gestão da ex-Jugoslávia, o que sei é que este país, nesses tempos, era considerado a Suíça dos países de Leste e, hoje, pergunto-me por que razão houve que o destruir, desmembrando-o, em nome de nacionalidades, recusadas a outros.
      Cooperativas, cujos exemplos conhecemos de perto, aviltaram, na sua maioria (há excepcões), o nome que sustentam. Razões? Só com muita resistência e luta se consegue fazer frente a um sistema que privilegia o capital e o correspondente poder corrupto, contra os interesses dos cooperantes e, por consequência, da maioria da população (que teria produtos mais baratos e de melhor qualidade). Não foi por acaso que o primeiro alvo a abater (assim como as nacionalizações, por ex., a do banco Espírito Santo), depois do 25 de Abril, foram as cooperativas, em particular, as da Reforma Agrária, que, no seu conjunto, tinham conseguido, em 1975, uma produção de trigo capaz prover as necessidades do país, sem termos de importar, o que, hoje, é um peso considerável no défice da balança comercial.
      Diz que o Homem não é capaz de viver sem adrenalina, aventura, competição. Palavras que encerram uma concepção das relações humanas, contrárias ao que devia ser humano: o bem-estar ou bem-ser (ou felicidade, em último caso) não resulta de momentos fugazes de euforia (adrenalina ou aventura) ou de passar por cima do outro, que é, em definitivo, o que significa competição ou competitividade.
      Repare que essas três palavras, tal como, por ex., “empreendedorismo”, foram reactualizadas e postas em voga, simultaneamente com este ataque sem precedentes aos direitos sociais, na Europa, desde o fim da 2ª Guerra Mundial e,em Portugal, desde o 25 de Abril. E, se soubermos que a linguagem conforma a nossa maneira de pensar, poderemos concluir que, na realidade, aqueles que pretendem reduzir-nos à competitividade e à adrenalina estão, para já, a levar a sua melhor.
      É difícil subtraírmo-nos à influência do pensamento dominante, em que tudo se reduz à competitividade e à adrenalina e, se não quisermos voltar às cavernas (de onde saímos a muito custo), há que pôr tudo em causa e encontrar caminhos novos. Mesmo essa de “a cada um segundo as suas necessidades”, divulgada, simploriamente, como objectivo dos marxistas, faz parte de quem não pensa ou está de má-fé (que justiça haverá se eu, que tive oportunidade de educar o gosto literário ou musical, receber mais pela necessidade que tenho de ler ou ouvir música e, outro, que não teve as mesmas oportunidades, receber menos?).
      Por último, que sentido tem a vida, mesmo para quem acredita na vida eterna, se não contribuir para que o que ainda resta de ADN animal em todos nós seja ultrapassado pela racionalidade e inteligência?

Deixar uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Tópicos

Pesquisa

Arquivo