Tudo Menos Economia

Por

Bagão Félix, Francisco Louçã e Ricardo Cabral

Ricardo Cabral

30 de Junho de 2015, 13:36

Por

A Grécia ensina democracia às instituições de governo da União Europeia

O governo grego fez aprovar no último domingo no parlamento a questão a submeter a referendo popular no próximo domingo.

Referendo

Fonte: BBC News

Ou seja, o governo grego pede ao povo grego que se pronuncie sobre se deve ou não aceitar a proposta das “instituições” – Comissão Europeia, BCE e FMI.

O artigo da BBC News que uso acima como fonte da questão em referendo critica a escolha da questão do referendo, argumentando que (quase) não faz sentido.

Vários líderes europeus (de acordo com o The Guardian, os governos da Alemanha, França e Itália) têm reformulado a questão defendendo que um voto no “não” é um voto a favor da saída do euro ou mesmo da saída da União Europeia. Ou seja que a questão do referendo, na realidade, seria:

“Deve a Grécia sair do euro?” (ou permanecer no euro)

A questão colocada no referendo é, em minha opinião, a que deve ser feita, embora pudesse ter uma forma mais simples. Essencialmente é: “Deve a Grécia aceitar o plano do BCE, CE e FMI?” (identificando os documentos que constituem esse plano para que não haja margem para dúvidas).

O governo grego não referenda a saída do euro, nem da União Europeia. A questão que é colocada aos gregos no referendo do próximo domingo é se a Grécia deve ou não implementar o plano de austeridade proposto pelas instituições representantes dos credores a 25 de Junho.

A questão formulada é, em meu entender, clara e neutral.[1] Não contém a priori juízos de valor sobre o conteúdo das propostas das “instituições”.

Os decisores europeus que entendem que a questão a referendar deveria ser “Deve a Grécia sair do euro?” pretendem influenciar o voto dos eleitores gregos e misturam duas questões distintas. Porque é possível à Grécia e ao governo grego rejeitar a proposta das instituições de governo da União Europeia e permanecer no euro.

Ou seja parece-me que os líderes das instituições de governo da União Europeia não estão a agir correctamente.

 

 

 

[1] Embora se possa argumentar que ao colocar a caixa do “Não” antes da caixa do “Sim” o governo grego está subtilmente a influenciar o voto.

Comentários

  1. The Associated Press ‏@AP
    BREAKING: Council of Europe: Conditions of Greek referendum fall short of international standards.

  2. Em relação ao que o FMI quer é deixar que a Alemanha o patrão da Europa mas não aceito isso porque os alemães já cauzaram duas guerras Mundias já mataram milhões de pessoas e agora querem matar o resto á fome vamos dizer TODOS não ao EURO que só veio empobrecer os países mais pequenos como Pportugal .. e ainda por cima nós Portuguêses temos um primeiro ministro que é fiel á Ditadura não vale a pena dizer mais pois para um bom comprendedor mei palavra basta

  3. “Que os ponham na linha”, pois então.Não basta que uma parte substancial dos 400 milhões de euros “emprestados”pela UE, tenham sido drenados para bancos alemães e holandeses, sem qualquer contrapartida económica para a Grécia, ainda é necessária a humilhante sujeição de fazer os gregos, continuar a aceitar a austeridade, como parte dos cuidados paliativos, continuados, de preferência de joelhos, ou de cócoras, como grande parte dos restantes países da autodenominada UE.

  4. Tal como Ricardo Cabral, muito estimo as virtudes democráticas dos referendos. Poderia ser utilizado com mais frequência em Portugal, mas sempre planeado de forma muito ponderada.

    Encontrei a seguinte curiosidade, a propósito do referendo grego de 2011, anunciado pelo então primeiro-ministro Giorgios Papandreou e que não se concretizou. Parece-me muito útil para o esclarecimento dos leitores.

    “ O site GreekReporter recuperou, por ocasião do referendo agora anunciado por Alexis Tsipras, o que o então líder do pequeno partido Syriza dizia [em 2011] a respeito desse referendo [de 2011]: era “uma forma de Papandreou se aguentar no cargo mais algum tempo” e a vontade popular “expressa-se da forma mais democrática através de eleições, não de referendos”. ”
    (In observador.pt/2015/06/30/juncker-faz-proposta-de-ultima-hora-a-grecia/)

  5. A noção de democracia do Syrisa deve muito à Democracia. Querem impor a todos os povos da Europa os resultados democraticamente apurados pelo eleitorado grego que são favoráveis às pretensões do Syrisa. Segundo a retórica do Syrisa, a vontade soberana do povo grego é mais soberana que a vontade não tão soberana dos outros povos. A notícia de última hora é a que pretendem cancelar o referendo após assistirem à tremenda manifestação na praça sintagma a favor do sim. Presumo que temam o resultado democrático que dele irá resultar. O syrisa desbaratou uma oportunidade histórica para mudar efectivamente a Europa. Imperdoável!

  6. Boa noite,
    É democrático promover um referendo. Não é democrático promover um referendo sem tempo para analisar, ponderar e decidir.
    A prática da democracia que os gregos antigos nos ensinaram não foi criada desta forma.
    Os novos gregos não ensinam nada à velha Europa desta forma.
    E não acredito que esta forma seja muito honesta e decente para o povo grego.

  7. Este referendo, embora democraticamente exemplar (o povo é que vai decidir o rumo das negociações), é contudo completamente extemporâneo e vai sujeitar os Gregos a uma semana terrível…

  8. Estimado Ricardo Cabral… desta vez discordo do seu ponto de vista!
    A questão colocada em referendo não tem validade, pelo motivo simples motivo de estar já “fora de validade” – ou seja, de ser feita fora dos termos e do prazo que poderia precaver a situação actual de incumprimento. Só faria sentido colocar a questão acima se tivesse havido acordo entre as partes para, no mínimo, estender o prazo para o pagamento do reembolso ao FMI.
    Mais, imaginemos que o resultado é “sim” – que poder negocial terá então Tsipras, que não seja a sua demissão?
    E se, ao invés, for “não” – que garantias tem o governo grego da boa-vontade da contra-parte em negociar e/ou alterar os termos do acordo? E se a UE/ Eurogrupo ainda assim, face ao “não”, decidir não ceder – o que farão os gregos?
    Ora, Tsipras não sabe ou não responde – e isso é um claro sinal de fraqueza. Pois, o que sobressai daqui é que está a fazer “bluff”. E, na verdade, estão todos a fazer da “dívida grega” um jogo de póquer!

    Se o governo grego tivesse realmente um plano viável para a saída da Grécia do euro, então, já o BCE, CE e FMI teriam tentado um acordo que fosse igualmente viável para a Grécia. Tsipras quer jogar numa cartada uma mão cheia de nada – enquanto os agiotas só estão de olho nas fichas.
    Tristemente, a Grécia nada nos ensina [ainda] sobre democracia – e tudo o que podemos aprender até aqui é que a vida de milhões de pessoas está a ser negociada num jogo de “póquer” ou na “roleta” da sorte de um Casino! Desilusão.

    Sublinho as palavras de Paul Krugman: “Não se deixem levar pelos que dizem que os oficiais da troika são apenas tecnocratas a explicar aos gregos ignorantes o que tem de ser feito. Estes pretensos tecnocratas são, de facto, fantasistas, que desconsideraram tudo o que sabemos sobre macroeconomia e estiveram sempre errados. Isto não é sobre análise, é sobre poder — o poder dos credores para dispararem sobre a economia grega, que vai persistir enquanto a saída do euro for considerada impensável”.
    Com frontalidade – e sem meias-palavras ou rodeios – é urgente pensar a saída do euro como algo viável, mesmo que no final se venha a negociar, e melhor decidir em condições mais favoráveis, pela permanência! Abraço Fraterno.

  9. É inteiramente legítimo e democrático o governo grego promover um referendo. Contudo, neste caso, levantam-se questões. As negociações que estavam a decorrer diziam respeito a um programa que encerra no dia de hoje. O Syriza conhecia este prazo. O Syriza negociou este prazo. Por que razão o Syriza não promoveu ou previu a realização de um referendo para antes deste prazo? Por que razão o Syriza convocou um referendo para 5 de julho sobre uma proposta que perde validade porque o programa a que diz respeito acaba hoje?

    Suponhamos que os credores, cheios de paciência e boa vontade, aceitam continuar a negociar como se o prazo não existisse. Suponhamos que o resultado do referendo é não. Naturalmente, o Syriza deve respeitar essa decisão e não aceitar a proposta do dia 25 de junho. E se se mudar um parágrafo e 3 vírgulas nessa proposta, o Syriza já poderá aceitar? Irá fazer um novo referendo à nova proposta? E enquanto o Syriza for fazendo referendos a propostas, quem financia os bancos gregos para que continuem solventes? Quantos BPNs é que os contribuintes europeus terão de pagar enquanto o Syriza for arrastando as negociações? E quem suporta as dívidas da Grécia que forem vencendo? E quem é que paga aos funcionários públicos e pensionistas gregos daqui a dois meses?

    Não seria mais natural fazer no referendo uma pergunta cuja resposta não caduca na negociação do dia seguinte? Por exemplo, “Concorda com a permanência do euro?”, pondo o quadrado do não em primeiro lugar, naturalmente. Ou então “Concorda que os outros contribuintes europeus paguem as despesas dos gregos?”, pondo o quadrado do sim em primeiro lugar, naturalmente.

    1. Sem dúvida que podia ter tomado esta opção mais cedo, e com mais margem de manobra. Os governantes gregos respondem, em todo o caso, que acreditaram ate ao fim que seria possível um acordo.

  10. Se ganhar o Não fica tudo resolvido. Os Gregos vão à sua vida, com do dinheiro que têm ou não têm, e a EU ao fim destes 5 meses pode voltar a preocupar-se com os restantes países.
    Sem ganhar o Sim, deverão os restantes países da EU/Eurogrupo efectuar um referendo nos respectivos países para saber se o povo aceita financiar os gregos nas condições da proposta cozinhada pelos políticos (acho que ficaríamos com um Sim na Grécia e um Não na restante Europa)

  11. Este jornal público é um antro de economistas que defendem solidariedade mas com o dinheiro dos outros.

    Oxalá que percam as eleições os governos na Europa que cederem a esta chantagem grega. E que vão para o lugar deles, pessoas que os metam na linha!

    1. Da mesma forma se pode dizer que os comentários do público são um antro de meias verdades e de pessoas que não sabem do que estão a falar…

      E sim, existe um paradoxo neste comentário ^^

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