Tudo Menos Economia

Por

Bagão Félix, Francisco Louçã e Ricardo Cabral

Ricardo Cabral

28 de Junho de 2015, 09:12

Por

O “remake” do BES ?

O Público explica na edição de ontem, detalhadamente, as operações financeiras da Fosun na Fidelidade, indicando que a exposição da Fidelidade ao grupo chinês “está a ser analisada” pela Autoridade de Supervisão de Seguros e Fundos de Pensões (ASF) e que o Banco de Portugal está já a “acompanhar a situação”, uma vez que parte dos produtos financeiros da Fidelidade foram vendidos aos balcões da CGD,[1] numa situação com algumas similitudes à que ocorreu com os clientes do BES que foram lesados ao comprar papel comercial de empresas do Grupo Espírito Santo (GES). O governo remete-se ao habitual silêncio, como se não tivesse nada a ver com a matéria, apesar da Fosun ainda estar submetida a regras definidas no âmbito processo de privatização da Fidelidade.

Compreende-se a esperança do governo de que mais nenhum escândalo financeiro ocorra a poucos meses das eleições, sobretudo com uma das “jóias” das privatizações realizada pelo governo apenas no ano passado. Só que os responsáveis da Fosun também sabem que “a mão pesada” das autoridades portuguesas, perante a possibilidade de eventuais irregularidades, será provavelmente “leve” antes de eleições. Ou seja, a Fosun aparenta ter grande margem de manobra até às eleições.

Como referi sexta-feira, a Fosun já “tirou mais dinheiro da Fidelidade” do que pagou por ela (1100 milhões de euros). Ou seja, de forma simplificada, é como se a Fosun tivesse comprado a Fidelidade com o dinheiro da própria Fidelidade e ficasse ainda com algumas centenas de milhões de euros adicionais. De facto, o Público refere que a Fidelidade já emprestou 1100 milhões de euros a uma subsidiária da Fosun e comprou 340 milhões de euros de activos do grupo, além de outros investimentos em activos da Fosun que não quantifica. O CEO do grupo chinês afirmou ainda que a Fosun “já recuperou grande parte do investimento que fez na compra da Fidelidade”. E a Fosun anunciou há dias mais “planos de investimento” da Fidelidade em activos da Fosun alegadamente para aumentar a rentabilidade da seguradora.

O Público refere ainda que o regulador – a  Autoridade de Supervisão de Seguros e Pensões (ASF) – já está em campo. [2] Mas parece que o Público está a ser simpático e compreensivo com a ASF e com o Banco de Portugal: “estar a analisar” e “estar a acompanhar” é muito pouco. Já é tarde para “estar a analisar” e “para estar a acompanhar” porque se estão a consumar factos (a utilização de activos da Fidelidade para o financiamento e compra de activos de subsidiárias do accionista principal da Fidelidade) perante a passividade das autoridades – talvez pelo choque do inesperado (mas altamente previsível, como referi aqui).

É, pois, necessária uma actuação firme e célere das autoridades!

 

 

 

[1] A Fidelidade pertencia ao Grupo CGD até 2014, que ainda retém uma posição accionista de 15%. A Fosun, em Maio de 2014, adquiriu por 1100 milhões de euros 80% da Fidelidade.

[2] Note-se, à parte, a polémica viagem de férias à China do presidente do regulador dos seguros (ASF), na sequência de um convite da Fosun, como informa um artigo do semanário Sol, de que tomei conhecimento na sequência de um comentário de um leitor. O Expresso dá também essa notícia.

Comentários

  1. Ou como se prometem cinquenta e tal novos aviões para a TAP, alienando os aviões de longo curso que a empresa tanto necessita. Financiamento para a operação de aquisição, mas pior, reduzir em vez de aumentar escala nas rotas que a TAP tem mercado. É impensável não chamar o governo à responsabilidade, e entre outras coisas exigir a publicidade dos termos dos contratos de venda e concessão com que andou entretido nestes quatro anos. Se existir negligência, e dolo, anulam – se as negociatas e punem – se os responsáveis.

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