Tudo Menos Economia

Por

Bagão Félix, Francisco Louçã e Ricardo Cabral

António Bagão Félix

25 de Junho de 2015, 08:08

Por

Laudato si

A primeira encíclica do Papa Francisco “Laudato si” (Louvado Sejas) aprofunda a doutrina social da Igreja sobre “o cuidado da casa comum” e sobre o que chama “uma ecologia integral”, ou seja ambiental, económica, social, cultural, da vida quotidiano e de justiça intergeracional.

Logo nas primeiras palavras, o Papa nos alerta para uma lógica de crescimento como se fôssemos ”proprietários e dominadores, autorizados a saquear” os bens do planeta. E lembra o ecologista São Francisco de Assis: “Nele se nota até que ponto são inseparáveis a preocupação pela natureza, a justiça para com os pobres, o empenhamento na sociedade e a paz interior”.

Esta encíclica é uma exortação contra a indiferença. Um belo texto de desassossego. Uma reflexão de holística sensibilidade. Um grito contra o egoísmo geracional. O pleno reconhecimento da interdependência económica, social e ambiental do homem e da natureza. Um marco contra a indigência moral, que se alimenta da falta de memória corroída pela primazia do presentismo, da impunidade e da “cultura do descarte”. Francisco assinala, sobretudo, as preocupações nos domínios da biodiversidade, da água, da poluição e das mudanças climáticas, da deterioração da qualidade da vida humana e da degradação social, da desigualdade planetária e do que chama “a fraqueza das reacções perante os gemidos da irmã Terra”.

O Papa baseia toda a sua análise em dois princípios fundamentais da doutrina social da igreja: o princípio do bem comum e o princípio do destino universal dos bens. E refere: “o princípio da subordinação da propriedade privada ao destino universal dos bens e, consequentemente, o direito universal ao seu uso é uma ‘regra de ouro’ do comportamento social e o primeiro princípio de toda a ordem ético-social”.

Uma visão prospectiva, desafiante e esperançosa de uma ética não meramente antropocêntrica, desconstruindo a ideia moral de pôr o Homem à parte da natureza.

No texto é explícita a ideia de uma ética intensiva que defenda a natureza. O seu desafio último é a conservação da vida na terra. É uma ética do porvir no espaço e no tempo. Uma ética do futuro que não é uma ética para o futuro, mas para hoje. Em suma, uma visão ousadamente biocêntrica que nos possa conduzir a um ideal ético de harmonia do homem com a natureza. Uma ética que não é uma questão de ideologia, antes de confronto entre o bem e o mal, o certo e o errado.

Neste contexto integrado, Francisco chama, ainda, a atenção para o que designa “a globalização do paradigma tecnocrático homogéneo e unidimensional”.

Como já Paulo VI havia alertado na Populorum Progressio, não podemos ser indiferentes ao perigo de ”confiar todo o processo do desenvolvimento unicamente à técnica, porque assim ficaria sem orientação”. A técnica, em si mesma, é ambivalente. A tecnologia não tem rosto. É impessoal. Pode ser usada para o bem ou para o mal. Os males não estão na tecnologia,antes radicam na acção do homem. Por isso, tem que se basear numa escala de valores. Não podemos ser mais ricos em tecnologia, ao mesmo tempo que nos arriscamos a ser mais pobres em natureza. Como escreveu Bento XVI na Caritas in Veritate: “absolutizar ideologicamente o progresso técnico é um modo de separar o progresso da sua apreciação moral e, consequentemente, da nossa responsabilidade”.

Esta primeira Encíclica de Francisco prova à saciedade que o valor da Natureza não pode ser meramente instrumental ou um simples reservatório de recursos, coisificado pela apropriação e transformação do mundo natural. Daí, desde logo, a afirmação do princípio preventivo reaprendendo a naturalidade que somos, polinizando a autoridade do exemplo, investindo na “educação para a aliança entre a humanidade e o ambiente” e aprofundando a ética do cuidar, num tempo em que as leis do mercado têm prevalecido inexoravelmente sobre as leis da natureza.

Sou crente e nesse contexto acredito na Natureza, reconhecendo o resultado bom e maravilhoso da intervenção criadora de Deus, como seu desígnio de amor e de verdade.

Mas há quem entenda que o cristianismo assume apenas uma visão antropocêntrica. Certamente numa exegese bíblica das primeiras palavras do livro de Génesis: “Façamos o Homem à nossa imagem para que domine sobre os peixes do mar, sobre as aves do Céu, sobre os animais domésticos” (Gn 1, 26) e “Crescei e multiplicai-vos, enchei e dominai a Terra”(Gn1,28)

Mas também lá está dito que “O Senhor levou o Homem e colocou-o no jardim de Éden para o cultivar e também para o guardar. O Criador entrega ao homem, coroação de todo o processo criador, o cultivo da terra”(Gn 2,15).  Esta interpelação vem em muitas passagens bíblicas e é sublinhada na Aliança entre Deus e Noé. (Gn 9,17).

Significativamente curioso é o parentesco linguístico do hebraico adam (homem) e adamah (terra), tal como entre humano e o seu étimo (húmus) que é terra.

Como já aqui escrevi, as estatísticas não reflectem a realidade da terra e do mar. O PIB é cada vez mais um indicador imperfeito e incompleto. Não toma em conta a apreciação ou a depreciação do activo ambiental e dos recursos naturais. Já se fala, com insistência, em outras formas de medir a riqueza e o desenvolvimento, considerando não apenas o que se produz como activo da sociedade (o PIB contabilístico tradicional), mas deduzindo-lhe o passivo que resulta da depreciação ou destruição de bens naturais indispensáveis ao bem-estar colectivo (água, solos, florestas, pescas, reservas minerais). Provavelmente, se isto fosse tomado em conta – um PIB mais verde e azul – teria provocado quedas do PIB. Quem sabe se esta mudança estatística, só por si, não permitiria uma atenção maior à Natureza.

Comentários

  1. Este bom artigo de Bagão Félix fez-me recordar a relevância que pode ter a maior divulgação do «Índice de Felicidade» – designado em termos técnicos por «FIB – Felicidade Interna Bruta». Penso que vale a pena aqui, em comentário de rodapé, divulgar…

    O conceito tem origem no Butão, remontado aos anos 70. Jigme Singye Wangchuck, ao seu coroado rei do Butão, procurou abrir este pequeno país budista, encravado nos Himalaias, do isolamento ao mundo a que estava voltado – porém, em resposta às críticas externas sobre o mau desempenho económico do país, o Rei sentiu-se motivado a criar um índice, alternativo ao PIB, que melhor pudesse responder pela satisfação e expectativas da população, designado por «Felicidade» – sendo que a protecção ambiental e o desenvolvimento sustentável ocupam lugar de destaque. No cálculo da «felicidade» entram critérios como:
    – Promoção do desenvolvimento Educacional para a Inclusão Social
    – Preservação e promoção dos Valores Culturais
    – Resiliência Ecológica na base do Desenvolvimento Sustentável
    – Estabelecimento da Boa Governança
    – Preservação dos Valores capazes de garantirem a Vitalidade Comunitária
    – Saúde na Garantia da Vida
    – Desenvolvimento Sustentável para a Inclusão e potencialização do Padrão de Vida
    – Diminuição da jornada de trabalho na promoção do tempo livre e do Lazer. [Fonte: Wikipédia – Felicidade Interna Bruta]

    «Portugal está classificado na 88ª posição de um conjunto de 158 países avaliados no Índice da Felicidade 2015, que coloca a Suíça, a Islândia e a Dinamarca no pódio das nações mais felizes este ano […] Entre os lusófonos, o destaque vai para o Brasil, que encabeça o grupo, na 16ª posição, ao passo que o próximo lusófono é Portugal (88º lugar) e Moçambique, na 94ª posição. Angola, na 137ª posição […]»
    Vide: http://www.dinheirovivo.pt/buzz/interior.aspx?content_id=4532625&page=-1

    Já o Índice de Desenvolvimento Humano [IDH], desenvolvido a partir do «Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento», destaca três áreas: Educação [escolaridade], Longevidade [expectativa de vida] e Renda [PIB per capita]. Foi criado pelo economista paquistanês Mahbub ul Haq, em estreita colaboração com o indiano Amartya Sen, e assim definiu as motivações para a criação do IDH: “Desviar o foco do desenvolvimento da economia e da contabilidade de renda nacional para políticas centradas em pessoas.”
    Portugal ocupa no IDH a 41ª posição [2013] – numa lista liderada por: Noruega, Austrália, Suiça, Países Baixos, Estados Unidos e Alemanha… O Brasil ocupa o 79º, Angola,149º e Moçambique, 178º.

    Depois, temos ainda o Coeficiente de Gini, criado pelo matemático italiano Corrado Gini – é usado frequentemente como medida para a desigualdade na distribuição da renda entre países. Analisando o Coeficente de Gini entre os 30 países com maior “PIB per capita”, mais Portugal, pode verificar-se que a lista é liderada pela Suécia, Eslovénia e Dinamarca… Portugal ocupa o 28º (mas à frente de EUA [30º] e Hong Kong [31º] – que tem o 4º e 6º maior PIB per capita, respectivamente) e o pior desempenho nos índices IDH e FIB.
    Neste estudo de Rui Brites [2012], a Noruega é o país mais homogéneo, na comparação feita entre os vários Íindices – PIB pc:2; Gini:4; IDH:1; Felicidade:5. Já o país com maior “felicidade”, a Dinamarca, ocupa o 13º no PIB pc e 18º no IDH.
    [Fonte: Rui Brites http://www.aps.pt/vii_congresso/papers/finais/PAP0671_ed.pdf ]

    O mais curioso do Índice de Felicidade é que embora a maior “felicidade” esteja relacionada ao nível de “riqueza” e “desenvolvimento” dos vários países, há variações relevantes na ordenação das posições no ranking – e daqui destacam-se países da América Latina, como a Costa Rica (12º), Panamá (15º) e México (16º), que tem ocupado posições à frente de países como Estados Unidos (17º), Reino Unido (22º), França (25º) ou Alemanha (26º) [ONU, 2013]

    Em homenagem a São Francisco de Assis: «Se existe um homem que possa excluir alguma criatura de Deus da protecção, da compaixão e da piedade, terás um homem que actuará do mesmo modo com seu próximo» / «Não te envergonhes se, às vezes, animais estejam mais próximos de ti do que as pessoas. eles também são teus irmãos»
    «Deus, conceda-me: SERENIDADE para aceitar as coisas que não posso mudar ; CORAGEM para mudar aquelas que posso; e SABEDORIA para reconhecer a diferença».

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