Tudo Menos Economia

Por

Bagão Félix, Francisco Louçã e Ricardo Cabral

António Bagão Félix

14 de Junho de 2015, 08:43

Por

Medo de ter medo

medo-gO medo é natural. Tal qual a respiração.

Sem medo, falta-nos a coragem. Com coragem, afastamos o medo.

Não deixar de ter medo é natural, porque o medo é imanente à nossa natureza. O medo primeiro e último é o da morte, precisamente em nome do seu oposto, a vida. Afinal, temos medo da mais absoluta certeza depois da vida, que é a morte na mais absoluta incerteza do seu momento. Entre aquela certeza e esta incerteza, vai o intervalo da nossa maior ou menor capacidade de saber conviver com este medo.

Prevenir o medo não é evitá-lo. É enfrentá-lo. Reagir ao medo não é eliminá-lo. É utilizá-lo sem ser a medo.

Como disse Nelson Mandela: ”Eu aprendi que a coragem não é a ausência de medo, mas o triunfo sobre ele. O homem corajoso não é aquele que não sente medo, mas aquele que conquista por cima do medo.

Sentir medo pode ser a outra face do sentido de responsabilidade ou da consciência da impossibilidade.

O medo tanto pode ser a lupa da inquietude, como o funil da ansiedade avolumada. Porque há o medo e há medos.

O medo é sempre temor, ainda que este nem sempre signifique aquele. Há o temor contínuo que assim se distingue do susto e do pânico repentinos e do medo localizado. É um temor associado à ameaça, à inconstância, à incerteza. Por exemplo, temer pelo temor de ficar sem trabalho. E há o temor reverencial, cujo superlativo é o temor a Deus.

O medo não se mede a não ser quando se mete medo. Entre o medo causado e o medo suportado ”é sempre melhor que quem nos incute medo tenha mais medo do que nós”, como escreveu Umberto Eco.

“Morrer de medo” pode ser uma via para matar (aquele) medo. Uma espécie de medo em legítima defesa.

O medo está associado, logo quase à nascença, ao escuro. Porque este significa o desconforto invisual de se estar ou sentir só. O escuro deixa de o ser na companhia de outrem. O escuro não é o negro. É o que está para além do negro. É a perda de referências. É o espaço dos fantasmas. É a perversidade da imaginação que alimenta e encoraja o próprio medo.

Nas sociedades “comportamentalmente correctas”, as pessoas passaram a ter um novo medo: o medo de o ter. Porque ter medo é, nesta iconografia dos tempos hodiernos, um sintoma de fraqueza e uma expressão de constrangimento. Falo em medo, não em fobia, que é a sua face patológica ou em pavor, que é o seu rosto no limite sensorial.

Comentários

  1. Excelente reflexão de Bagão Félix.
    “Prevenir o medo não é evitá-lo. É enfrentá-lo. Reagir ao medo não é eliminá-lo. É utilizá-lo sem ser a medo.” – permita-me o autor que a partir desta frase recorde aqui o importante trabalho de Adelino Araújo.
    De jeito franzino e modos humildes, A. Araújo tem sido um dos impulsionadores da Hipnoterapia [ou Hipnose Clínica] no nosso país – com técnicas próprias registadas e associação colectiva fundada em Braga [ALHIP]. Outro importante nome português é Alberto Lopes, no Porto.
    O método registado pelo psicólogo/hipnoterapeuta é aparentemente simples. Após a anamnese (entrevista clínica), na primeira consulta, o paciente, recostado numa poltrona ou divã, é conduzido, nas 3 ou 4 sessões seguintes, a um estado de relaxamento profundo. A mente regride no tempo (percorrendo os “arquivos mentais” que da vida adulta remontam até à infância e ao ventre da mãe) recordando, revivendo e sentindo medos, recalcamentos e traumas – que por sua vez são origem de stress, ansiedade, fobias, depressão e outros transtornos psicossomáticos do presente. Então, o paciente é sugestionado a libertar-se dos medos, sentimentos ou emoções negativas (apelidados pelo psicoterapeuta de “lixo mental”) para um “saco” imaginário que mentalmente segura na mão, e que depois irá destruir… Todo o processo de libertação e cura é mental (dispensando o uso de fármacos). O paciente é levado a confrontar e superar os medos (registo emocional), mas preservando a memória (registo sensorial – ex. imagens) dos acontecimentos passados. Para sermos mais precisos, este é um processo de “autocura”, pois dependente inteiramente da vontade, da concentração [na verdade, a “hipnose” é definida como um estado alterado de consciência, no qual o sujeito concentra a sua atenção em dado estímulo interior (pensamento) ou exterior (som, imagem, etc.)] e, claro, da imaginação – e é desta combinação que é feito depender o bom sucesso da terapia, como tem vindo a experimentar há longos anos o professor A. Araújo! O terapeuta é na verdade um “facilitador” que conduz o relaxamento e orienta a terapia através de “sugestões” aceites e assimiladas pelo paciente…
    E é neste sentido que a frase acima de Bagão Félix ganha aqui uma nova significação oportuna na classificação do “medo” – neste caso, inserido-se bem na linguagem da hipnose clínica!

    “Conhece-te a ti mesmo!” – é um antigo aforismo grego. E, de que outro modo poderá o Homem conhecer-se se não compreender o espaço ilimitado da sua “mente” – consciente e inconsciente? A mente tanto pode libertar o homem, na sua potência criadora, inspirando a autoestima, a confiança e acção na condução dos “sonhos”; quanto pode escravizá-lo, constrangendo a liberdade de pensar, e oprimindo-o nos grilhões do medo!
    Bagão Félix escreve sobre essa observação curiosa dos tempos hodiernos – o “medo de ter medo”. Mas por certo poderia escrever também sobre a desesperança, o medo e a depressão em tempo de crise e em contextos de desemprego, emigração e envelhecimento demográfico… Ou, ainda dos medos, stress, ansiedade que se escondem nos nossos dias por detrás do rótulo de “crianças hiperativas” – enfim, crianças que de tão pressionadas na “programação mental” de serem educadas para a vida adulta, deixam de ter o tempo e a liberdade para viver e imaginar o mundo como simples crianças que ainda são!
    Adelino Araújo é um daqueles humildes, mas bem formados portugueses, que de forma quase autodidata, com grande empenho e dedicação, presta um serviço de grande valor à comunidade – sem que disso, porventura, venha a ter o devido reconhecimento dos poderes públicos pelo mérito técnico, e científico que tem no desenvolvimento pioneiro da hipnose clínica em Portugal!
    Grato a Bagão Félix pelo excelente artigo – e oportunidade deste comentário.

    Vide depoimento de Adelino Araújo: http://www.youtube.com/watch?v=iYyCs6I5eqY

  2. O seu artigo, basicamente, fala do medo. E o senhor fala do medo sem medo de falar dele. Do que o senhor se esqueceu de falar foi do medo de ter medo e apenas lhe fez uma pequena introdução.
    O medo animal é (penso que sem dúvida) uma das principais razões da evolução darwiniana porque o animal sem medo é aquele que morre porque não foge quando sente o predador.
    O medo de ter medo acontece quando não existe predador ou quando existe apenas um predador psicológico. Mas os predadores psicológicos são tão predadores como os outros. São os que causam o stress e as úlceras no estômago.
    É se calhar o medo de ter medo que “criou” a espécie humana como ela é hoje. O senhor fala de sociedades “comportamentalmente correctas” mas isto é só mais um artifício para designar a sociedade em geral. Esta é doentia e portanto gera seres doentios que enquanto não se formam como indivíduos vivem no temor porque é a única maneira de conseguirem aguentar as pressões e as mentiras ao seu redor.
    Para mim, o medo e a preguiça constituem as duas características humanas essenciais. Coragem é uma espécie de cegueira. Por vezes é necessário parar e ceder ao ócio (não ao vício) e pensar. Por vezes estar quieto é o melhor modo de desbloquear.
    Como Friedrich Nietzsche um dia escreveu: “O heroísmo é o estado de espírito de um homem que caminha para um fim único, em face do qual nada mais é tido em consideração. O heroísmo é: a decidida vontade de perecer.”

    1. Gostei do seu comentário, e acho que tem razão quando diz que o medo de ter medo é que talvez tenha criado a espécie humana como ela é hoje. O ser humano criou um cativeiro para si mesmo, retirou a sua própria liberdade da sua essência de ser (faz parte da essência de se ser vivo ser-se livre). O ser humano tem medo de ter liberdade porque a liberdade dá medo.

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