Tudo Menos Economia

Por

Bagão Félix, Francisco Louçã e Ricardo Cabral

Ricardo Cabral

29 de Maio de 2015, 13:21

Por

O contágio das eleições em Espanha

Um efeito das eleições locais em Espanha foi o seu impacto nos preços dos títulos e nas taxas de juro da dívida pública portuguesa. Observe-se o seguinte gráfico, cuja fonte é Zero Hedge, e que representa a evolução do preço das Obrigações de Tesouro a 10 anos (linha de cima) e da taxa de juro dessas obrigações (linha de baixo, “bond yield” em inglês):

OT 2025 v2
Fonte: Zero Hedge

 

 

Segundo Zero Hedge, a taxa de juro das Obrigações do Tesouro a 10 anos passou de cerca 2,4% na sexta-feira dia 15.5, para chegar a atingir 2,83% na segunda-feira desta semana,[1] tendo posteriormente recuperado. Não me foi possível confirmar estes dados do Zero Hedge. Mas os gráficos que obtive do website onvista.de confirmam, pelo menos, a tendência:

OT 2025
Fonte: Onvista.de

 

Nos últimos dias a taxa de juro das Obrigações de Tesouro a 10 anos (OT 2025) tem vindo a aumentar (e o preço das obrigações a descer) chegando hoje a atingir os 2,6%.

Note-se que quase desde que o BCE começou a comprar de dívida pública em Março de 2015, a taxa de juro a 10 anos começou a aumentar (e o preço dos títulos a cair). Isto parece ser um sinal de que houve especuladores a comprar dívida pública portuguesa de longo prazo precisamente com a expectativa de poder vendê-la ao BCE, quando este realizasse as compras no âmbito do seu programa de Expansão Quantitativa (compra de dívida pública dos países membros da zona euro, ver post 1 e post 2).

O programa de Expansão Quantitativa do BCE iniciou-se em Março deste ano e prolonga-se até Setembro de 2016. Acontece que a taxa de juro da dívida pública a 10 anos está a subir mais depressa do que seria expectável meados de Março, não obstante as compras do BCE. Isso poderá indicar que as compras do BCE não chegam para todos os que procuram vender esses títulos provocando uma descida no preço dos títulos e consequente subida na taxa de juro. Os resultados eleitorais em Espanha parecem ter acentuado essa tendência.

Este comportamento dos mercados é, infelizmente, um mau sinal para as contas públicas portuguesas, porque poderá significar que as poupanças na despesa com juros da dívida que resultam do programa de compras de dívida pública do BCE não serão significativas.

Poderá também indicar que aqueles que pensam que o risco de contágio desapareceu e que o sentido das taxas de juro é só um, não têm razão…

 

 

 

 

 

[1] Existe uma relação inversa entre preços dos títulos e a sua taxa de rentabilidade. De 15 para 18 de Maio (parte 1 do primeiro gráfico) o preço dos títulos da dívida portuguesa a 10 anos (2025) desceu enquanto a taxa de juro (parte 2, “yield” em inglês) subiu.

Comentários

  1. Caro Mário Pereira, é claro que deveríamos fazer tudo para que a dívida não aumente e não gastar mais do que aquilo que produzimos. Mas isso é impossível porque os juízes do Tribunal Constitucional nunca vão concordar em dar a sua contribuição para que isso aconteça.

  2. Andamos há anos a falar da dívida pública/soberana – mais do que da privada, apesar de esta ser muito superior – e a empobrecer e a verdade é que os ricos da Europa ainda querem que empobreçamos mais, porque a dívida continua a aumentar.
    Qualquer dos comentadores “mainstream” sabe – embora não o diga – que o problema da dívida é insolúvel nestes termos. Também deveria saber que a nossa economia, sendo do mesmo tamanho e tão frágil como a grega, sofre e vai continuar a sofrer muito com o que se passa lá.
    Parecemos os migrantes africanos que, na ânsia de se salvarem, se atiram uns aos outros borda fora, quando as frágeis e sobrelotadas cascas de nozes em que atravessam o Mediterrâneo começam a meter água.
    O tempo passa, a gente empobrece, a dívida aumenta, a economia não recupera.
    Nada se resolve, tudo se agrava.
    Como péssima telenovela mexicana (passe o pleonasmo) que tudo isto é, há-de chegar enfim o dia em que se resolverá.
    A questão é quando e com que estragos.
    A história dirá que, tal como na I Guerra Mundial, os líderes desta época foram estranhamente irresponsáveis.

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