Tudo Menos Economia

Por

Bagão Félix, Francisco Louçã e Ricardo Cabral

Francisco Louçã

29 de Maio de 2015, 08:41

Por

Chegar ao Verão na Grécia

tsiprasEm artigos anteriores, sublinhei que a Grécia continua insolvente e que os termos das políticas propostas pela União Europeia só agravariam essa impossibilidade. Assinalei as dificuldades de Março e de Abril, na incerteza sobre se haveria um acordo (que não houve) ou se continuaria o processo de esgotamento das reservas do país. Um encontro recente com a presidente do Parlamento grego, Zoe Konstantopoulou, que esteve em Lisboa, reforçou a minha convicção – que é a dela – de que, sem reestruturação da dívida, a Grécia não consegue tornar-se uma economia viável.

Esta constatação é registada por muitos economistas e comentadores, de Varoufakis a um ex-funcionário do FMI.

É certo que, apesar da pressão, os resultados da gestão do governo são impressionantes: em vez de um saldo primário com défice previsto de 287 milhões, regista-se um superávite de 2164 milhões, através de um gigantesco corte nas despesas públicas, 2000 milhões além do previsto. Só que isto nada resolve e é uma expressão das dificuldades e não das soluções. A economia continuará a afundar-se, não haverá recuperação de emprego, não haverá resposta à crise enquanto o esforço for canalizado para os credores. A Grécia está mesmo à beira da insolvência e por isso antecipa-se que não pagará a próxima prestação ao FMI, como admitiu por estes dias um ministro.

Soluções alternativas, como a emissão de notas de dívida para pagar salários e pensões, seriam medidas insuficientes e sempre provisórias, que me parecem desaconselháveis nestas circunstâncias, porque me escapa o que se conseguiria com mais adiamentos.

Veremos então o que acontece nas próximas semanas, nesta aceleração para o abismo. Que a Grécia está isolada, é verdade desde o primeiro dia. Que está sob ofensiva dos seus inimigos, é evidente (Passos Coelho permitia-se falar de “contos de crianças” a propósito da reestruturação da dívida e António Costa atreve-se agora falar dos “tontos” do Syriza, esquecido da aliança dos socialistas gregos com a direita). Que as instituição da Europa não lhe permitem sair da austeridade, é óbvio. Que falta uma proposta alternativa para a Grécia, a que recorrer se tudo correr mal – e tudo correu mal nestas negociações – também parece claro.

Em todo o caso, é evidente que esperar não é caminho. Em Junho termina a extensão do programa, depois de quatro meses sem conclusões e sem resultados. O governo grego está agora exactamente onde os credores o queriam colocar: sem reservas, enfraquecido politicamente no exterior do país, mais isolado no Conselho Europeu. Mas tem mais força interna, como todas as sondagens têm vindo a confirmar. Pode portanto tomar decisões e fazer escolhas, mesmo difíceis.

Para os europeus que sentem que a Europa se decide agora em Atenas, essas escolhas vão ser fundamentais ou até determinantes.

Comentários

  1. A Grécia, assim como vários outros países da UE, nada perderiam em sair do Euro. Isto já é amplo debate na Finlândia e na Áustria, como eu informei a alguns deputados do PE há dias.
    No meu “PORTUGAL PÓS-TROIKA”, de 8 autores, ficou claro que o Euro só podia fracassar para os pequenos e beneficiar os grandes, especialmente os que tinham uma indústria altamente competitiva. Os cálculos detalhados e as razões estão no livro, nos capítulos do Sueco-Holandês deVylder, do Viriato Soromenho-Marques e do Henrique Neto.
    Ao contrário do que a Troika tenta mostrar, o problema vital é aumentar a competitividade, de cariz ESTRUTURAL e não financeiro. Isto está ligado à cultura de cada país. Infelizmente Sarcozy travou a proposta do Euro-M, Mediterrânico, que teria um valor uns 12%abaixo do Euro e valeria por 5 ou 6 anos para possibilitar-lhe elevar a competitividade e implementar as mudanças estruturais na GR, IT, ES, PT que, como eu disse no Prós/Contras de 01/03/10, levaram 12 anos na DK e os 8 de Clinton, nos EUA.

  2. Prof. Louça:
    Reportando – me ao V/ precioso esclarecimento de30.05.2015, 10:42, gostaria que me informasse se é verdade que Portugal contribuiu com cerca de 1100 M€ para auxiliar a Grécia ? Se para esta contribuição não teve que se endividar ? Se a divida não vai ser paga por todos n´s que pagamentos impostos ? Será verdade que os Bancos Portugueses, nomeadamente o BCP, não perdeu imenso dinheiro com o perdão de divida? Este perdão da dívida grega não contribuiu para as dificuldades que atravessa?

    Muito obrigado e melhores cumprimentos

    1. Sim. A perda de parte desses 1100M será muito menor do que o ganho da reestruturação da dívida portuguesa. Se a Grécia o conseguir, abre a porta à reestruturação de mais de 200.000M de dívida pública directa nacional. Quanto ao BCP, ganhou e perdeu com os seus jogos com dívida grega. Mas a sua maior perda foi o colapso do banco que tinha comprado na Grécia. Em todo o caso, imagino que não vá responsabilizar um Estado pelas perdas dos bancos com a especulação com a sua dívida, pois não? Porque se for essa a sua opção, o Estado português passa a ter que indemnizar os bancos portugueses e estrangeiros pelo que perdem quando jogam com a nossa dívida nacional (mas suponho que estes não pagarão ao Estado português quando têm lucro, como aconteceu em 2013).

    2. O Francisco Louçã quase que prova aqui que a dívida grega à Troika não vai sofrer nenhum perdão. Pela razão muito simples de que não se pode abrir excepções, pois todos os outros iriam querer, e com toda a legitimidade. A alguém que fosse tentar convencer um alemão de que a dívida do seu país se iria manter em mais de 80% do PIB, enquanto as dívidas do Club Med iriam ser perdoadas, eu desejaria uma dose de boa sorte superior à do ganhador do euromilhões. Sabendo que não chegaria!

    3. Liberal,

      A solução passa pela emissão de nova moeda directamente para as pessoas. Um “dividendo social” pelo menos temporário, e a distribuir igualmente por cada cidadão europeu. Será muito melhor do que o “quantitative easing” que só serve os interesses da elite banqueira…

      Boa ideia será também tirar aos bancos o poder de criar novo dinheiro e passar esse poder para um organismo europeu o use apenas em benefício do interesse público. Um bocadinho à semelhança daquilo que a organização “positive money” no Reino Unido está a propôr. De resto na Islândia têm um estudo semelhante em cima da mesa:

      http://www.publico.pt/economia/noticia/islandia-pondera-tirar-aos-bancos-o-poder-de-criar-dinheiro-1692194

      http://www.jornaldenegocios.pt/economia/detalhe/islandia_prepara_revolucao_na_criacao_de_dinheiro.html

    4. N. Correia, gostei da sua intervenção, criativa mas não disparatada. Entre as loucuras chamadas “quantitative easing” e aquilo que o meu caro propõe, a sua medida é muito mais eficaz e muito menos danosa do que aquilo que as eminências ridículas que governam as moedas têm andado a fazer, e que será um destes dias pago com “língua de palmo”, como aprendi nestas caixas de comentários. Recordo que o presidente Obama fez campanha dizendo que queria resolver os problemas da Main Street, e não da Wall Street. É inegável, agora que chega ao fim dos seus mandatos, que ele falhou. Como se irá ver, não sei se mais cedo ou se mais tarde, falhou miseravelmente.

  3. O que o meu minusculo cerebro não consegue de maneira nenhuma compreender é o que andam 30% de desempregados na grécia, espanha etc a comer há 8 ANOS !
    Plankton da praia ? Ervinhas do campo ?

    Uma sociedade moderna onde tudo custa dinheiro e ninguem tem couves e galinhas suporta 30% de desemprego por 8 anos ?

    Por amor de deus alguem escrva um livro, uma tese de doutoramento sobre este milagre !!!

    Ou será que os numeros são falsos e esta gente recebe algum tipo de rendimento ?

    1. Se o meu caro tivesse lido os artigos de João César das Neves no pico da austeridade portuguesa de há dois/três anos, iria encontrar a resposta à sua questão. Não, não foi o Estado quem cuidou dos desempregados.

  4. E porque não a Grécia simplesmente adiar unilateramente o pagamente da sua dívida externa em euros, pagar aos funcionários e ver o que acontece? Assim teriam de ser os outros países europeus a assumir o ónus de expulsar a grécia do euro.

    1. Já pensei nisso, e não conheço a lei internacional, os estatutos do FMI, os poderes do FMI e do BCE. É uma questão que um economista especializado poderá tratar. Mas admito que as contas da Grécia possam ser bloqueadas. Francisco Louçã, o que me diz um economista diplomado?

  5. Prof. Louçã:
    Poder – me – ia informar qual o valor do seu rendimento que disporia de livre vontade para financiar a Grécia? Será possível usar da faculdade de não contribuir com os meus rendimentos para a Grécia?. Já não ajudamos o bastante? É difícil aceitar contribuir para alguém com melhores salários e melhores regalias do que as dos nossos concidadãos.
    Melhores cumprimentos

    1. Caro “José Carlos”, há-de-me dizer quanto saiu da sua conta para “ajudar os gregos”. Zero. Os gregos pagam um empréstimo que lhes foi imposto a juro exorbitante ao mesmo tempo que tinham de destruir a sua economia. Quem está a ganhar nem são os gregos nem os José Carlos. E até acho que sabe quem é que tem ganho com esta destruição da Europa.

    2. José Carlos.

      O dinheiro que foi emprestado aos gregos não vem das poupanças de nínguém, é dinheiro “fresco” criado pelo próprio sistema bancário. A banca é a única entidade que tem poder para criar novo dinheiro…

  6. a grécia vai ter mesmo que sair do euro, quanto mais tempo ficar para experiencias pior. mas não interessa aos EUA por causa da ex urss….

  7. Segundo uma notícia do Público online neste momento: depósitos nos bancos gregos chegam ao valor mais baixo desde 2004; as empresas estão a encontrar dificuldades de financiamento; as exportações e as importações diminuíram; o país entrou em recessão, depois de no ano passado a economia ter conseguido uma ligeira recuperação; desde o início do ano, o investimento baixou 7,5%,….

    O governo Syriza está a ser um estrondoso sucesso!

    1. Creio que o sucesso é da austeridade. Só cortou ainda 25% ao PIB grego, isto tem que continuar com toda a força, dizem as instituições europeias. O seu a seu dono.

    2. Parece-me a mim que Portugal é muito País muito mais derrotado neste momento do que a Grécia. Com um programa de 3 anos de Austeridade cumprido e pago, muitos cortes depois e ajustamentos 78 mil milhões e muitos créditos depois as melhorias são quase nulas e o crédito estende-se a pagar até 2030 com um déficit sempre acima do previsto e nada equilibrado, nem desemprego nem exportações e muito menos o PIB, tudo bastante falseado se querem a minha opinião pessoal. Os Gregos, sem nenhuma medida tomada nem baixar os braços á luta, sem nunca terem desistido já entenderam pelo menos que na geração de moeda, têm melhores possibilidades de retornar ao País muito do Capital “desaparecido” com enormes riscos de demorar sim mas, sem receios pois o que havia a perder, ja´foi perdido há muito. E aqui, ainda ninguém entendeu isso. A geração e emissão de moeda própria OBRIGA, ao retorno de cappiatais EM MEOADA PRÓPRIA AO PAÍS. O que, para TODOS OS PARAISOS FISCAIS E OFFSHORES o que, para TODOS OS MILIONÁRIOS E INVESTIDORES NA GRÉCIA…é um transtorno mais que evidente…!Para eles e qualquer outro País que saia da UE. Varoufakis sabe muito bem onde tem os pés.

    3. Para XanaLopes: Em 4 meses, o Syriza abandonou grande parte das promessas, como a reestruturação da dívida. As medidas anti-austeridade não parecem ter os efeitos de estímulo e confiança previstos, uma vez que, neste período, a Grécia entrou em recessão e o investimento caiu. Segundo a notícia do Público, há gregos a retirar o dinheiro dos bancos com medo de o perderem (e não são só os sinistros capitalistas). Nestas circunstâncias, admiro tanta fé no futuro da Grécia. Quanto aos seus argumentos sobre o retorno de capitais, confesso que não entendi mesmo nada.

    4. Parte do PIB grego, tal como um pouco para o português, era apenas o resultado do dinheiro que os outros lá punham para os gregos consumirem. Acabou. Podem sair do euro à vontade, ninguém lhes vai dar euros para comprarem Mercedes novos. Acabou, mudem de vida. Infelizmente, quem mais sofreu e sofre são os que menos culpa têm, especialmente os jovens. A vida é dura, e o mundo não é justo. E ainda há a Aurora Dourada…

    5. Parte do PIB grego caiu, quando as pessoas ficaram sem dinheiro para consumir. Mas isso é exactamente o que acontece quando falta a moeda, seja nacional ou internacional. Não significa que na Grécia não se produza o que se consome. Para além disso a partir do momento em que partilhamos uma moeda temos obrigatoriamente de partilhar os recursos que com essa moeda são transaccionados. É o principio de qualquer estado social…

    6. O Liberal falou nos mercedes, mas esqueceu-se dos audis, dos bmw, dos volkswagen, dos opel e… dos submarinos. Tudo produtos alemães.
      O crédito exorbitante que os “parceiros ricos” concederam ao longo de décadas aos “quase pretos” do “club med” para que estes comprassem produtos deles não responsabiliza de forma nenhuma os alemães? A culpa é só nossa?
      E aquele que foi concedido aos governos “cá de baixo” para que estes investissem em estradas para os produtos deles entrarem mais depressa?
      E só a “ciganada” do rendimento mínimo e do subsídio de desemprego é que é chula e parasita?
      Então e a canalha dos partidos do “arco”, que enxameiam os BPN, BPP, BCP, BES, CGD, PT, EDP, REN, Galp, CP, Metros e tantas outras grandes empresas?
      Como é que se chamam?
      E que desplante é preciso para se querer convencer as pessoas de que o PS e o PSD são diferentes e não as duas faces da mesma (má) moeda?
      O liberalismo económico existe?
      Onde?
      É que por todo o lado, incluindo os EUA, vejo os ricos e poderosos fazerem grandes negócios à sombra dos Estados…

    7. Os Estados são mais ou menos liberais, tanto no que respeita à vida privada como à vida pública e à economia. Dois países, pelo menos, ocorrem-me como casos em que uma tradição multi-secular nunca foi destruída, nomeadamente por socialismos desenfreados: a Holanda e a Suíça. Nunca houve um liberalismo mais radical posto em prática, ocorre-me o Chile de Pinochet, que deu muito bons resultados na economia, e que continuou após a saída do ditador. Os liberais são poucos, e pouco apreciados, pesam pouco. Na prática, é através dos conservadores que as nossas ideias são adoptadas, e, curiosamente, estamos muitas vezes de acordo com as esquerdas no que respeita à vida privada. Ninguém parece ser insensível à liberdade, excepto os fascistas e os sociais-fascistas. Já agora, apesar de ditador, não considero Pinochet fascista. Os fascistas não fazem referendos sobre a sua continuação.

  8. Se “a austeridade não resolve nada”, como a Esquerda (e a Grécia) gostam de fazer crer, porque é que o Governo Grego fez “um gigantesco corte nas despesas públicas, 2000 milhões além do previsto”???
    Deviam era ter aumentado a despesa…
    A reestruturação da Dívida, que no caso grego seria mais uma, colocaria os credores em situação idêntica aos investidores que confiaram no Ricardo Salgado.
    Afinal a Grécia e os seus defensores continuam não apenas insolventes, mas insolentes.

    1. Caro Olissipone,

      Quais são “os credores que ficariam em situação idêntica aos investidores que confiaram no Ricardo Salgado”?
      És tu? Só se fores banqueiro, porque o dinheiro que tem sido emprestado à “Grécia” é dinheiro que foi criado do nada pelos próprios credores (o sistema bancário) para ser emprestado a juros e enriquecer velozmente os donos do sistema financeiro e seus amigos.

      Em relação a isto: «Se “a austeridade não resolve nada”, como a Esquerda (e a Grécia) gostam de fazer crer, porque é que o Governo Grego fez “um gigantesco corte nas despesas públicas, 2000 milhões além do previsto”???»

      A resposta é simples, eles não têm dinheiro para gastar e o povo tem medo das alternativas.

    2. A República Portuguesa é credora por 3 vias, uma vez que participa nas 3 instituições que constituem a troika que financiou a Grécia. Se a Grécia não puder pagar ou não quiser pagar, a República Portuguesa ficará prejudicada na parte que lhe cabe.

    3. Ficará, embora os valores sejam pequenos. Mais uma razão para que Portugal imponha a renegociação da sua própria dívida. Um sucesso grego abriria caminho para isso. Por isso, os nossos aliados são os gregos e não os bancos credores.

    4. Consumir -> pedir emprestado -> renegar as dívidas -> consumir -> pedir emprestado -> …

      Grande sociedade esta defendida pela extrema esquerda.

    5. Francisco Louçã, quase toda a dívida grega está nas mãos da Troika, e não na dos bancos. Não há já “bancos credores”. A não ser que estivesse a pensar no BCE…

    6. Caro liberal.

      A república Portuguesa é credora de algum (pouco) do dinheiro que a Grécia deve, mas o grosso desse dinheiro vem directamente da banca, criado do nada pelo próprio sistema bancário. A República Portuguesa até pode participar na troika (CE + BCE + FMI), mas quem domina e toma decisões nestas instituições é sempre o sistema financeiro (banqueiros). espero que saibam isso.

      E já agora, alguém sabe como é que o dinheiro da República Portuguesa entra na dita república? É porque cerca de 98% do dinheiro que existe é criado através de crédito pelo próprio sistema bancário comercial. O pior é que actualmente esse dinheiro está a voltar para os bancos o que está a criar esta crise financeira.

      “Capitalista”. Sim, para que a economia e a qualidade de vida das pessoas possam crescer é necessário ir aumentando a massa monetária. Mas não através de dívidas e não para o beneficio de uma pequena elite (banqueiros e amigos)…

    7. N. Correia, engana-se acerca dos credores actuais da Grécia. BCE, FMI e mecanismos de estabilidade europeus, é tudo Estado. Os bancos nada sofrerão em caso de mais calotes gregos. Não que eu desejo que os bancos tenham ainda mais perdas do que já tiveram (dois calotes) com a dívida grega.

  9. Bem haja, Prof. Louçã

    Duas dúvidas. O Syriza prometeu 6 meses para renegociação bi-lateral da dívida e depois passará á renegociação unilateral a partir de Junho, ou só a partir de Junho começará a bi-lateral? Não entendo bem o timing do governo grego…

    Agora sabemos pelas declarações de AT que provavelmente não irão fazer o referendo ao euro. Mas então como vão explicar a saída? Será que vão adoptar duas moedas?

    1. Não sei. A negociação é sempre bilateral mas o governo grego deve reservar-se o direito de acção unilateral se não lhe forem permitidas as medidas que evitem a austeridade. Quanto a duas moedas, não sei o que eles pensam, eu não acho viável.

  10. Não concordo minimamente quando refere que “o governo grego está agora exactamente onde os credores o queriam colocar”. O governo grego está exatamente onde queria estar. Porquê?
    1) Mesmo sabendo que as suas propostas eram incompatíveis com a exigência da moeda única, o Syriza defendeu a permanência da Grécia na UEM apenas porque essa era a vontade do povo.
    2) Assim que assumem funções, começam com ataques, hostilizando a maior economia europeia com pedidos de indemnizações e provocações ao anunciar subidas de salários, pensões e readmissão de funcionários públicos…
    3) Sabendo que o ministro Varoufakis é especialista em Teoria dos Jogos, pergunto-me se a Grécia não está na posição onde queria estar.

    1. Compreendo o seu ponto de vista. Mas não concordo: do ponto de vista internacional, a posição grega não é mais forte agora. Nacionalmente será.

    2. Mas essa é a questão, será que a posição internacional da Grécia mais fragilizada faz parte da estratégia? Enquanto a nível interno há menos gregos a defender a permanência na UEM, se a Grécia for “obrigada” a abandonar o Euro a restante população não culpa o governo mas sim os europeus.

    3. Tem razão TR, o Syriza quer e vai sair do euro, mas atirando as culpas para a Alemanha, porque os gregos não querem sair. Não tem nada de muito complicado. Eu percebi rapidamente que jogo se jogava, quando vi Varoufakis reunido com Dijsselbloem com verdadeira cara de troça. Há coisas que não enganam. E não, ele não estava a contar piadas, nem nalgum momento de descontracção. Estava simplesmente a fazer troça de Dijsselbloem. O Syriza irá depois descobrir que as revoluções devoram os seus filhos. Mas sem guilhotina, afinal, o mundo evolui! Já alguma Charlotte Corday…

  11. Não acredito que a Grecia deixe o Euro. Pelo contrario, o Euro já se entranhou. Mudem o que for preciso, menos a moeda.
    O Syrisa (A. T.) não terá valorizado isso o suficiente. Foi a Europa (A. M.) quem o entendeu melhor. A estratégia de confronto saíu assim derrotada. A. T. tinha condições para governar a Grecia, enfrentando a Europa no Conselho Europeu, equilibrando as coisas no seu país, e fazendo reformas no sentido que a sua ideologia socialista requer, mas não tudo de uma só vez. Se acredita em sí, deve saber que isso é possível. Afinal nunca se viveu tão bem na Grecia, e ninguém pense que sem a ajuda Europeia pode manter o nível de vida atingido.

    1. O problema é que parece que não lhes deixam mudar nada, só mais austeridade. Facilitar os despedimentos num país que tem cerca de 50% de desemprego jovem?

  12. Que …*#&%*… é este aviso do Público: “Está a publicar os seus comentários com demasiada rapidez. Deixe passar mais tempo”?

  13. O Syriza deixou-se enredar com más consequências para os gregos e para a esquerda europeia (apesar dos resultados em Espanha). Não entendo como exigem que lhe emprestem mais dinheiro sem ceder sacrifícios (uma vez que está demonstrado que a UE não cederá, por motivos políticos) e ao mesmo tempo não querer sair do Euro. O que está ao alcance dos gregos é tomarem, eles próprios, o seu destino nas mãos, só assim poderão ter controle de alguma coisa. O caminho que estão a seguir só os desacreditam e quando o povo perceber que está do lado de um derrotado e a “fome começar a apertar”, será o seu fim. O passo que deveriam dar, no meu entender, já que do lado da Europa é o que se vê, era fazerem um referendo sobre a saída do Euro. Aí o povo teria de decidir o que realmente pretendem – se mais austeridade ou liberdade de tomarem o seu próprio rumo. Querer “sol na eira e chuva no nabal” é que já não me parece possível.

  14. Um esclarecimento visto que me parece o texto induz em erro. Quando esta dito:
    “(..)É certo que, apesar da pressão, os resultados da gestão do governo são impressionantes(..)” na realidade esta-se a falar do governo anterior e das medidas da troika ( visto que os dados sao de 2014 ). Para o actual governo ninguem ainda tem contas e ao que parece tudo indica que sao desastrosas.

  15. Gostei particularmente desta parte do texto:
    “É certo que, apesar da pressão, os resultados da gestão do governo são impressionantes: em vez de um saldo primário com défice previsto de 287 milhões, regista-se um superávite de 2164 milhões, através de um gigantesco corte nas despesas públicas, 2000 milhões além do previsto.”

    – Austeridade se é feita pelo Syriza: é gestão impressionante do governo;

    – Austeridade se é feita pelo PSD/CDS em Portugal ou Nova Democracia na Grécia: São neo-liberais bandidos a atacar o povo.

    É um prato de coerência ali para a mesa do Sr. Louçã.

    1. Já nos habituou ao seu estilo. Esqueceu-se desta vez da Venezuela. Esse gigantesco corte nas despesas públicas agravou a situação da Grécia, como diz o texto. Lá como cá.

    2. Que austeridade é que o Syriza implementou ao povo? Trata-te que estás gravemente doente.

  16. E a hillary .. agora até dá a parecer que toda a vida foi portuguesa ..
    aquele summers é que é insuportável .. a candidata não é nenhum bem rival. Tsipras é que tem a palavra

  17. “[…] (Passos Coelho permitia-se falar de “contos de crianças” a propósito da reestruturação da dívida e António Costa atreve-se agora falar dos “tontos” do Syriza, esquecido da aliança dos socialistas gregos com a direita)[..]. Pois é, caro Francisco, sem faciosismos ou zombarias, mas tenho-lhe de lhe dizer, para sua informação, que o Governo grego do Syriza se tornou alvo de chacota, mesmo entre as pessoas “comuns” que utilizam os transportes públicos ou que sorvem um golo de café expresso numa qualquer esplanada lisboeta. Ainda ontem, ouvia mesmo por detrás de mim, numa esplanada, quatro pessoas, com idades de 40 a 50 anos, a divertirem-se, enquanto uma dizia, em relação às próximas eleições, em Portugal, “Vais ver, vem aí o Syriza… aí é que vão ser elas! Aí é que vai ser bom! vamos todos ficar melhor. Será esplêndido” E riam-se todos à desbragada, no meio destas expressões e dizeres. Caro Francisco, o Syriza tornou-se mesmo alvo de chacota, algo com o qual o comum dos cidadãos se permite parodiar e dizer maliciosidades em tom de paródia. Para mim, tenho que essa paródia verifica-se, porque até agora nada conseguiu de substancial para a solução da divida soberana grega, enquanto assistimos a um folhetim diário, todos os dias, no qual se propala que um acordo estará para breve. Está sempre para breve, e os dias vão passando, passando, passando… até que todos já só esperam um grexit. E os partidos conotados com Syriza vão ficando em maus lençóis, no que se refere a imagem e propostas. Não sei se esta prorrogação de acordos e soluções para a dívida grega esconde alguma estratégia de parte a parte, ou se é propositado este “queimar em lume brando” do Governo do Syriza, da parte de Schäuble e dos seus sequazes. Que é uma triste figura da União Europeia, e do Eurogrupo, lá isso é.

    1. Não confunda ideologia de direita com opinião publica. Veja a referência no PUBLICO de hoje sobre as sondagens na Grécia. Mas estou de acordo consigo, a chave da questão é resolver o problema da dívida.

  18. Estimado Louçã, gostaria de lançar duas questões pertinentes, cuja resposta, entre várias versões já divulgadas, poderá não ser tão óbvia quanto parecerá à partida:
    I. Coloquemos o cenário hipotético, embora não inverossímil, da saída da Grécia do euro. O que aconteceria à dívida? Poderão os gregos impor a simples «redenominação da dívida pública» para a nova moeda? E que vantagens teriam?
    – A) A tese comum dos “europeístas” convictos é a de que a dívida, por imposição do credor, manter-se-ia em euros – especulando a partir daí o “caos” que se seguiria com a desvalorização da moeda nacional e o concomitante agravamento das condições de pagamento da dívida – isto mesmo considerando a inevitável “reestruturação da dívida” num cenário de saída negociada. Ou seja, os gregos estão num beco de empobrecimento sem saída!
    – B) A tese tímida dos defensores da saída do euro sugere, pelo contrário, que o Estado ainda dispõe de poderes soberanos suficientes para avançar com a «redenominação» para a nova moeda nacional (embora admitindo um conflito jurídico com os credores, acrescido do possível “isolamento” internacional), o que num cenário consequente de desvalorização cambial pressuporia o cancelamento parcial da dívida pública – ou seja, estaríamos num cenário de “reestruturação” da dívida motivada pelo “devedor”!
    Embora seja de admitir que as dívidas particulares permanecessem em euros – o que por sua vez poderia forçar a nacionalização da banca!

    Vejamos o que sucedeu à dívida pública portuguesa, em 1998, aquando a preparação para a entrada do euro. DR 113, I-A
    Decreto-Lei nº 138/98 de 16-05-1998 / CAPÍTULO VI / Artigo 14.º – Redenominação da dívida pública directa
    «1 – A dívida pública directa do Estado, expressa em escudos e representada pelas obrigações do Tesouro a taxa fixa (OT) e a taxa variável (OTRV) com vencimento depois de 1999, é redenominada em euros, com efeitos a partir de 1 de Janeiro de 1999. […] 3 – A redenominação da dívida mencionada nos números anteriores realiza-se, a partir da posição do credor, pela aplicação da taxa de conversão ao valor da sua carteira, com arredondamento ao cêntimo de euro […]»

    II. Acima Louçã fala na emissão de “notas de dívida para pagar salários e pensões”…Entretanto, sem dinheiro em cofre, deixando a dívida externa para segundo plano, qual a viabilidade de a Grécia vir, por iniciativa própria, a emitir nova moeda (dracmas) para cumprir com os pagamentos internos, sem se desvincular de imediato do euro? É claro que pagar em “dracmas”, pressupõe alimentar um mercado interno em “dracmas” e receber impostos em “dracmas”, pelo que a solvibilidade última do sistema dependeria da garantia real de “lastro” (reserva em euros) no comércio e obrigações com o exterior – pelo que, mesmo pressupondo uma evolução positiva da economia, pela redinamização do mercado interno, sem reestruturação da dívida pública com o exterior, esta poderia ser vista como uma medida transitória ou intermédia entre a “permanência” plena ou a “saída” definitiva do euro. De outro modo, daria porventura mais tempo, autonomia e poder negocial a Atenas!
    Christian Gelleri, criador da moeda bávara Chiemgauer explica como poderia funcionar a introdução complementar ou paralela de uma moeda deste tipo, em: «Moeda expresso em vez da saída do euro». – Terá a tese de Gelleri substância?
    Para problemas “impossíveis” sempre se requerem soluções “originais” – e, por vezes é preciso ousar sair do quadrado…

    http://www.eurorettung.org/fileadmin/media/Eurorettung/2012_02_22_Moeda_expresso_em_vez_da_saida_do_Euro.pdf

    1. Bem sei que os meus comentário parecerão heterodoxos… na linha de quase “ruptura” com os sistemas convencionais. Sem dados reais, estatísticas ou estimativas torna-se difícil dar credibilidade às afirmações, entre convicções e também muitas dúvidas. Porém, o bom ânimo sempre ressurge quando, persistindo, encontro quem comungue de idêntica visão de futuro. Desta feita, encontrei um artigo interessante assinado por Jack Soifer:

      «A União Europeia está a apoiar projectos de moedas locais no hemisfério Sul. O New Economics Foundation chegou a sugerir que a Grécia usasse o dracma em paralelo com euro, para o comércio local.
      James Skinner diz que o WIR Suíço foi introduzido após o crash de 1929 e hoje atrai 70 mil PMEs e gira 13mil milhões.
      Após o crash de 2001 autoridades regionais da Argentina emitiram as suas próprias moedas, o que possibilitou comprar e vender bens e serviços regionais por anos. Para o Conselho de Desenvolvimento Económico-Social do Presidente Lula, monitorizei este trabalho e o micro-crédito.
      Diz David Boyle, o Brasil é o primeiro país cujo banco central apoia a moeda local. Existem hoje 51 bancos locais a emitir moeda como pagamento de alimentos, transporte público e produtos locais.
      Outro exemplo é o Circuito de Crédito Comercial (C3) a fornecer capital a PMEs em cinco países latino-americanos, apoiado pelo Banco Mundial e a União Europeia. É estranho que a UE apoie o C3 no Uruguai, mas não na Grécia, onde as PMEs não podem mais recorrer a bancos, diz David Boyle. E as nossas?
      Já que as agências de rating nos consideram lixo, não será hora de mudar o modelo económico, como a Argentina fez há 10 anos e, como ela, voltar a crescer 6% ao longo de 6 anos? É só adoptar o escudo como segunda moeda, mas local que seria 30% menos do que o euro e quase em paridade com o dólar.
      Argentina, Brasil, Turquia, Israel e outros mudaram o sistema há anos. Se outros, em situações similares, adoptaram uma segunda ou outra moeda por que não nós? É agora, quando ainda podemos negociar.»

      Vide: http://oourico.blogs.sapo.pt/97451.html

    2. Obrigado pelo comentário. Como já escrevi, não acredito em moedas paralelas em tempos de incerteza. Desencadearia um entesouramento dos euros, que tenderiam a desaparecer, e uma desvalorização permanente da moeda fraca, visto que toda a gente preferirá ser paga na moeda forte, o euro.

  19. Tem razão o governo Grego está numa posição muito frágil.É em minha opinião o momento de não vacilar, reformar não pode ser feito com fome .A Europa que vendeu os submarinos a Grécia tem que restruturar a dívida ,deixando os Gregos respirar para cumprir os seus compromissos .

    1. É também a minha opinião. Mas a União Europeia tem recusado essa alternativa.

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