Tudo Menos Economia

Por

Bagão Félix, Francisco Louçã e Ricardo Cabral

António Bagão Félix

28 de Maio de 2015, 14:20

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O defeso em todo o seu esplendor e a FIFA em toda a sua podridão

Está a terminar a temporada do futebol jogado. Estão a acabar as festas e a diluírem-se as desilusões. Agora vai ser o tempo do que se convencionou chamar defeso. Que, estranhamente, acabará no último minuto do dia 31 de Agosto, já com todo o mundo em novas competições, para usufruto e gáudio dos intermediários.

Apesar da crise e das crises, este ano a coisa volta a prometer, num mercado tão transparente como o breu da noite em Lua Nova.

Vai comprar-se e vender-se de toda a sorte: a retalho ou por grosso, líquido ou bruto, a contado e a prazo, com vendedores reais ou virtuais, em “saldos” ou em mercados emergentes, com cláusula abusiva ou não, em regime “ad valorem” ou em “draw-back”, definitivamente ou em regime de “rent-a-guy”, com direito de serventia ou não, com devolução de monos ou participação de lucros, com fraccionamento do atleta ou mais-valias potenciais “franchisadas”. Magotes de jogadores banalíssimos por milhões. Mas que, na onda da crise, dão sempre azo a comissões e outras prebendas sem crise.

Gosto muito do desporto futebol. E aprecio o seu contributo para a “felicidade nacional bruta a preços do mercado”. Mas, em severos tempos de dificuldade, é dificilmente compreensível a atmosfera de “abundância” que, impassivelmente, se continua a respirar no mundo do futebol. Urbi et orbi.

Houvesse “rating” para os clubes e, por certo, ver-se-iam gregos (literalmente) ao receberem a escala das letrinhas que, implacavelmente, as agências de notação lhes assinalariam.

A facilidade com que se fala de milhões para cá, milhões para lá no futebol, é uma forma perversa de separar este mundo à parte da realidade dura da vida de tanta gente. Esta é uma crise que nem sequer tem levado a um pacto de contenção entre clubes. Pelo contrário: a ideia é vencer, no mercado, o opositor, custe o que custar e a quem custar.

Por coincidência, ao estar a escrever este texto, ouço a notícia sobre o escândalo na FIFA. Mais vale tarde do que nunca. Covil de corrupção e de tráfico de influências por demais evidente, afinal o seu lema de “fair-play” é uma treta. Apenas dois homens governaram a FIFA no último meio-século. João Havelange, durante 22 anos e J. Blatter que já vai em 36 anos, entre secretário-geral e presidente. Entidade não escrutinada ou supervisionada, podre de dinheiro e de interesses cruzados, a FIFA é o pior exemplo institucional no poderoso mundo do futebol, depois também replicado em níveis decisórios inferiores. Está tudo minado. O Senhor Blatter não tem a hombridade e a decência de suspender as eleições e de não se recandidatar. Desceu ao grau zero da ética.

Comentários

  1. E no entanto, a estratégia pais et circenses aplicada até à náusea parece funcionar em pleno. A sociedade incomoda – se com pouca coisa, e os inconformados são ostracizados sem apelo nem agravo. Se a isto acrescentarmos o AO que quer impôr a novilíngua, e um certo liberalismo que afinal se comporta como se vivêssemos numa economia de Estado, diria que este é um admirável mundo novo.

  2. Putin diz que tudo isto “não passa de um complot dos EUA contra a Russia”.Parece mal ,hoje em dia concordar com esse malvado “ditador” russo,mas tendo em conta o que se passa na Ucrania,com um governo de extrema-direita apoiado…pelos EUA,e depois da atribuição do mundial de 2020 para a Russia ,a insinuação de Putin dá que pensar.P.S.-os americanos não percebem nada de “soccer”,mas já perceberam que o “soccer” dá muito dinheiro e que é um autentico “negocio global”:

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