Tudo Menos Economia

Por

Bagão Félix, Francisco Louçã e Ricardo Cabral

Ricardo Cabral

27 de Maio de 2015, 14:16

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Bi-partidarismo: “A escrita na parede”?

Nas eleições locais em Espanha os principais partidos tradicionais (popular e socialista) viram as suas votações cair de 37,5% e de 27,8% para 27% e 25%, respectivamente. Será o princípio do fim do bi-partidarismo em Espanha? Pelo menos coloca-o em dúvida, como refere Francisco Louçã.

A propósito destes resultados e de outros no mesmo sentido, ocorridos no passado, como, entre outros, a Alemanha de Weimar que levou ao poder o partido nazi, é oportuno lembrar o que ocorreu nas décadas  que precederam o fim da monarquia em Portugal.

Também no final do século XIX o nosso País procurou pagar uma dívida externa impagável; também cortou os salários a funcionários públicos; também vendeu monopólios a interesses estrangeiros (não na escala do presente, talvez, porque não havia tantos anéis para “vender”); também ocorreu uma crise financeira internacional, uma crise financeira nacional com a suspensão da convertibilidade para o ouro, e ocorreram escândalos financeiros e também intervenções do Banco de Portugal e do Estado para salvar bancos à beira da falência (e.g., o Montepio de Lisboa) e para financiar o Estado. E, no final deste processo, os dois principais partidos da monarquia constitucional – Partido Progressista Histórico e o Partido Regenerador- desapareceram do mapa eleitoral. Foram substituídos, entre outros, pelo Partido Republicano Português, então considerado radical e que defendia a “alteração revolucionária do regime vigente”. Em 1908, o rei e o príncipe herdeiro foram assassinados, em 1910 implantada a República que apesar de importantes conquistas, nomeadamente nos domínios da educação, da liberdade de expressão e de associação, não conseguiu inverter a instabilidade política, económica e social e o profundo descontentamento herdado do final da monarquia. A participação portuguesa na I Guerra Mundial veio agravar ainda mais a já difícil situação financeira, económica e social criando-se as condições para uma das mais longas ditaduras do século XX.

Na actual situação, os partidos tradicionais do designado “arco da governação” dos países afectados pela política austeritária de resposta à crise, imposta pelas instituições de governo da União Europeia, estão a aceitar soluções similares às dos seus malogrados antecessores. Sentem dificuldades em contrariar a marcha dos acontecimentos e em defender o interesse dos povos que representam face a políticas europeias que se têm revelado profundamente destrutivas. Parece ser mais fácil “não fazer ondas” e viver, como franja protegida, no meio da tempestade. A elite que governa os principais partidos identifica-se mais com os colegas da Europa do que com o seu próprio povo? Ou, pior, acredita na eficácia das políticas impostas pelos países credores?

Ao agir assim não estarão conscientes que, à imagem do que ocorreu tantas vezes no passado, estão a condenar os seus próprios partidos à extinção e ao opróbrio da História?

Porque a “escrita na parede” é clara e a agonia lenta do país a pior das alternativas. Cumpre aos principais partidos políticos, escolher os caminhos menos fáceis no curto prazo, mas que melhor asseguram a defesa do interesse dos povos que representam. E tal passa não por mais austeridade como desejam os credores, mas por uma posição mais assertiva dos líderes desses partidos nas negociações com os nossos parceiros e credores europeus.

Embora o caso grego não permita acalentar muita esperança de mudanças na orientação da política europeia essa mudança de políticas económicas europeias é necessária e imperativa! Os partidos políticos que não entenderem a necessidade de lutar por essa mudança, estão condenados a perder relevância junto do eleitorado e mais importante que isso, a arrastar consigo o país para o desastre. Se assim for, é bom que surjam e/ou se fortaleçam, em seu lugar, alternativas que respondam aos anseios das populações e ao interesse nacional.

 

Comentários

  1. Apenas uma questão: acredita Ricardo Cabral que uma “posição mais assertiva dos líderes desses partidos [os do arco da governação] nas negociações com os nossos parceiros e credores europeus” irá alterar alguma coisa? O exemplo da Grécia, como refere, mostra que não. Um confronto simultâneo dos países mais endividados da zona euro, talvez tivesse algum efeito, mas, isso, para já, não se vislumbra e o tempo urge. Faz bem em recordar a História, para não cairmos nos mesmos erros e horrores. Mas, sabemos que ela não se repete tal e qual e o que se passa em Espanha, e as últimas eleições demonstram, é que há algo de novo, que responde “aos anseios das populações e ao interesse nacional”. E, quando isso acontece, é possível fazer frente aos interesses daqueles que nos querem reduzir à submissão. Veremos, de imediato, se os gregos estão dispostos a fazer sacrifícios para se manterem na zona euro ou, pelo contrário, a fazê-lo para recuperar a soberania e dignidade. De qualquer modo, as circunstâncias entre os tempos de hoje (países emergentes economicamente, antes colonizados; países, há pouco, o pátio traseiro dos EUA, que, agora, lhes dizem não), e os que precederam a 2ª Guerra Mundial ou a implantação do Estado Novo são diferentes. O resultado pode ser catastrófico, mas não será o mesmo. Aqui estaremos, nós, e muitos outros (mais que antes), para que a catástrofe não aconteça.

    1. Cara Maria João Santos,

      muito obrigado pelo seu comentário, que é mais optimista que o meu. Espero que tenha razão e que a geração actual seja capaz de actuar para que a catástrofe não aconteça.

      O que é certo é que se os líderes políticos dos países periféricos não tentarem negociar de forma mais assertiva dificilmente algo ocorrerá com a dimensão necessária no curto prazo. Não vão ser certamente os credores a agir na defesa do interesse dos povos dos países periféricos. E o espartilho orçamental existente, com o passar do tempo, agrava a crise que o país enfrenta.

      Ou seja, mesmo que pensemos que é impossível (ou muito difícil) alterar alguma coisa nas políticas económicas europeias é nossa obrigação (e é sobretudo obrigação dos nossos líderes políticos) fazer tudo ao seu alcance para procurar alterar essas políticas europeias.

    2. Muito obrigada, também, pela sua resposta.
      Gramsci falava do pessimismo da razão e do optimismo da vontade, que deviam andar a par, o que não é nada fácil…
      Numa divisão de trabalho, deixo aos economistas a razão pessimista e eu, que não percebo nada de economia, vou fazendo o segundo papel. Parece-me, no entanto, que a Ricardo Cabral também não lhe falta vontade. E, há momentos em que o mais importante é a união das vontades (contrariando um pouco Gramsci).
      Maria José Santos

  2. Estando mais que provado que este caminho não conduz a solução nenhuma, resta saber durante quanto tempo mais vamos persistir nele até que haja uma mudança.
    Como uma mudança da Alemanha, por obra e graça do espírito santo, não é previsível, pelo menos enquanto a sua economia continuar pujante, resta aos povos dos países mais martirizados com a austeridade fazerem qualquer coisa.
    Que pode ser uma de duas: ou começam a votar em partidos marginais e/ou emergentes, ou pura e simplesmente se revoltam, o que implicará, obviamente, sangue.
    Para se chegar a este último caso, é preciso a fome e a miséria generalizarem-se.
    Quanto ao primeiro, o pessoal está atento ao exemplo do Syriza, para ver se vale a pena ir por aí, e até agora não há uma conclusão definitiva. Contrariamente ao que a imprensa e os opinadores “mainstream” berram todos os dias, está por provar (até pelas sondagens) que o Syriza esteja à beira da derrota, mas o contrário também é válido.
    Resta, pois, ir aguentando, aguentando, com uma certeza, porém: quanto mais tempo isto demorar, mais a situação se vai degradar. E mais radical vai ser a mudança.

    1. Muito obrigado pelo seu comentário. Concordo com a análise que faz da actual situação.

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