Tudo Menos Economia

Por

Bagão Félix, Francisco Louçã e Ricardo Cabral

António Bagão Félix

24 de Maio de 2015, 08:45

Por

Jacarandás, de volta

jacaranda 2Domingo de Maio em Lisboa, de novo engalanada pela exuberância dos cachos de flores dos Jacarandás (Jacaranda mimosifolia, D.Don). O azul violáceo das panículas trombetadas surge em todo o seu esplendor por cima do castanho dos ramos desengonçados que lhes dão maternidade. Uma das suas mais fulgentes manifestações da natureza arbórea.

Uma árvore com uma vivência anual algo estranha para Portugal. Não segue a regra geral de se desnudar no Inverno. No entanto, é caducifólia (ou quase) como a maioria das árvores companheiras de parques e ruas mas, ao contrário destas, não perde as folhas a partir do Outono, mas mais lá para a frente. Aliás, não chega a ficar completamente sem folhas. Por isso, se diz que tem folhas marcescentes, o que significa que não se soltam dos ramos quando estiolam e secam, mas quando surge a nova rebentação.

O nome jacarandá é já de si musical, quase bachiano, com a sonoridade polifónica das sílabas provindas dos índios tupi.

As flores perfumadas formam tapetes à volta do perímetro da copa, sempre irregular. Pela sua textura viscosa, há quem, menos sensível à bela prodigalidade, fique incomodado pelos passeios e automóveis se cobrirem das flores após a inevitável despedida.

Em Lisboa, nas Avenidas Novas, na Rua Castilho, na Avenida D. Carlos ou no parque Eduardo VII – só para citar as artérias mais sortudas – podemos observar a notável síntese entre a árvore isolada e o conjunto. O resultado é maior do que a soma das parcelas e varia em função da luz de cada dia. Nas manhãs mais sombrias, surgem com uma cor mais intimista, numa junção singela com o tom mais ou menos plúmbeo do céu. Nos dias de sol luzidio e mediterrânico de uma Lisboa meia arabizada sobressaem os tons de pigmentos mais azuis do que os de magenta. É o triplo holismo da passagem de uma das suas flores para o conjunto de uma inflorescência, de todas as inflorescências para a árvore e de cada uma destas para o conjunto das árvores.

O jacarandá é, também, um bom exercício para a difícil distinção das cores entre o azul e o vermelho. As suas corolas bilabiadas são para uns mais roxas, para outros mais púrpura, violeta, lilás, magenta e até essa cor estranha de índigo.

Na África do Sul, o jacarandá é considerado uma árvore nacional. Em Pretória, é vista aos milhares pelas artérias, parques e jardins. O tempo de floração coincide, nesta cidade, com o período universitário de exames, dando origem a uma curiosa tradição: sempre que uma flor cai em cima da cabeça de um estudante, certo é que passará nos seus exames. Infelizmente, nem sempre se concretiza esta lenda, mas a culpa, por certo, não é da árvore…

jacaranda 3Os frutos – cápsulas, verdes de início – amadurecem e secam em tons de castanho. No Outono, porque deiscentes, abrem-se como um bivalve e deixam cair em suaves e alegres movimentos as minúsculas e numerosas sementes cor de café, com asas membranosas. Têm uma forma imperfeitamente oval e uma textura algo carnosa e lenhosa, ainda que achatada. Fazem lembrar as conchas em Portugal, não fossemos nós um país de mar pela terra dentro. Em Espanha, a associação faz-se com as castanholas e, em França, com as ostras.

Eugénio de Andrade haveria de escrever sobre o exotismo desta árvore sul-americana: “nesta Lisboa, onde mansos e lisos os dias passam a ver as gaivotas, e a cor dos jacarandás floridos se mistura à do Tejo, em flor também”.

Aproveitemos o acolhimento de cores, perfumes e movimentos dos jacarandás, entre a memória do ano pretérito e a saudade para o ano vindouro.

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