Tudo Menos Economia

Por

Bagão Félix, Francisco Louçã e Ricardo Cabral

Francisco Louçã

15 de Maio de 2015, 10:40

Por

Fascistas que influenciaram o nosso tempo

corbusierO caso não é único: Céline foi um dos grandes escritores franceses do século passado e era fascista. Pode a política extremista ao ponto da degradação impedir um escritor de ser escritor? O ódio pode impedi-lo, portanto, de escrever sobre a humanidade? Pode e assim acontecerá, mas também neste caso a humanidade atravessou-se nos seus livros. Ódio aos judeus, negação do Holocausto, apoio a Hitler cujas tropas ocupavam o seu país, Céline permitiu-se tudo. E, apesar disso, foi um escritor.

Sabemos agora que Le Corbusier teve uma trajectória comparável. Charles Edouard Gris, suíço naturalizado francês, urbanista que revolucionou a sua profissão, foi um apoiante do regime de Vichy e um colaborador da ocupação nazi. É certo que na sua vida percorreu vários caminhos: em 1928 foi à URSS e apresentou uma proposta para o futuro Palácio dos Sovietes, que foi recusada. Começada a guerra, foi do lado fascista que se alinhou.

A publicação do livro de Xavier de Jarcy, “Le Corbusier, un fascisme français”, que foi aqui assinalada no PÚBLICO, revelou estes e outros detalhes. A imprensa internacional seguiu o caso com atenção (aquitambém aqui e aqui).

Não é para menos. Le Corbusier foi o criador do planeamento urbano: imaginava uma cidade com três milhões de habitantes e as mudanças fundamentais no nosso modo de vida que nasceriam da urbanização concentrada. Foi por isso um dos construtores da modernidade. Na arquitectura, influenciou Niemeyer. Na pintura, Matta (um dia encontrei-o em Paris e falava-me das linhas das cidades e das cores dos seus quadros, estava eu longe de imaginar este parentesco distante), que podemos ver no Museu Berardo no CCB. Nas duas artes, Nadir Afonso, que com ele trabalhou no seu atelier. Por isso, influenciou-nos a todos.

A vida é imperfeita, mas a vida é vida.

Comentários

  1. “…negação do Holocausto” – Sei que um homem com as suas responsabilidades políticas e sociais não pode ter outra opinião, mas com que provas sustenta que houve efectivamente Holocausto (entendido como exterminação premeditada dos judeus)? Já acreditei inocentemente nisso, mas agora, após alguma pesquisa, duvido muito (não quero com isto dizer que defendo o Nazismo e as suas práticas criminosas de verdadeiro atentado aos direitos humanos, mas simplesmente pôr em causa aquilo que uma maioria tenta impingir sem provas factuais… basta lembrar que a história foi escrita do ponto de vista dos vencedores e nunca dos vencidos): https://www.youtube.com/watch?v=vXLjfaOpl-ghttps://www.youtube.com/watch?v=j30sWIOMIakhttps://www.youtube.com/watch?v=RNsbGKqjXcshttps://www.youtube.com/watch?v=YDboflkSLT0

    1. Ó filho, nunca ouviste falar na expressão “solução final” para a questão judaica? Eu sei que nunca assinei nenhum documento relacionado com isso (não queria ficar na História como um monstro genocida) mas as minhas SS construíram uns resorts para acomodar os da estrela de David. Claro que tinham de trabalhar um pouco para pagar a estadia mas como eu costumo dizer, o trabalho liberta. Depois quando já não podiam trabalhar mais e consequentemente pagar a estada, e como nós alemães não gostamos de emprestar dinheiro a fundo perdido, olha inventámos umas saunas com cheirinho a Zyclon B e assávamos os relapsos em fornos construídos para o efeito. Tudo rápido e limpinho à maneira alemã.

      Olha filho, se não acreditares na minha palavra de Füher do III Reich vê o documentário de Claude Lanzmann “Shoa”. Se mesmo assim continuares incrédulo, olha inscreve-te na Frente Nacional do Le Pen Pai. São uns dos poucos que não me insultam, até a filha Marine já me baniu.

      Um abraço do tio Adolfo

  2. E muito interessante discutir a polémica em torno de Le Corbusier e de varias “passagens” suas proximas de varios “ismos” (a qual foi recentemente relançada por 3 publicaçoes nos 50 anos da sua morte)… mas é completamente precipitado assumir genericamente Le Corbusier como fascista ; na primeira metade do século 20 vanguardismo, futurismo, purismo, modernismo (e claro, fascismo), etc. tocaram-se em muitos aspectos e as personagens que lhes foram dando corpo também! Muitos dos arquitectos que entre Guerras mais se bateram por uma Europa nova, moderna, adaptada à sua epoca, bateram-se por vezes em simultaneo por tabuas-rasas e por novas infra-estruturas para as populaçoes pobres ; é um facto que muitos fugiram para os EUA assim que as perseguiçoes por aqui começaram; muitos outros seguiram iludidos para uma URSS que pouco espaço lhes deixou para fazerem arquitectura « livre » (apos inicio dos anos 30 ; Le Corbusier foi colega e amigo de muitos dos mais vanguardistas russos, dos que nos anos 20 se bateram por tudo menos pelo estalinismo); Le Corbusier saiu de Paris mas decidiu ficar na França, mesmo apos a ocupaçao alema da mesma! e temos aqui de facto uma pergunta que merece resposta, “porque motivo ficou?”: um arquitecto notado em todo o mundo, que viajava muito e que estava ligado a muitos outros em varios paises onde se construia muito… poderia ter ido para onde quisesse… nao se percebe à primeira… mas também nao se percebe acusando o mesmo de ser Fascista, ficando-se por ai);

    Assumir que Le Corbusier foi de maneira genérica fascista pode servir varios interesses (a Frente Nacional ganha uma referencia de excelencia ; quem escreve sobre o tema vai vender bastantes livros ; os desencantados pelo movimento moderno ganharao um inimigo maximo…) ; mas nao serve o interesse de entender essencialmente atraves da arquitectura uma das personagens que explicou e realizou algumas das mais fascinantes obras do século XX (que diga-se de passagem a maior parte das Escolas tem feito, de maneira livre, nas ultimas décadas);

    Por outro lado, foram muitos os escritos de Le Corbusier que lidos às luzes de hoje nos parecem radicais a triplicar (Quando as Catedrais eram Brancas, Carta de Atenas…) que nos falavam de tabuas rasas imensas e de modelos de organizaçao do territorio (entretanto testados : a maior parte mal testados) que nao nos deixaram boa impressao… mas quem conhece um pouco da arquitectura construida de Le Corbusier sabe que a mesma tem muito mais de humanismo do que de qualquer outra coisa que lhe queiram associar; Sabe igualmente que tanto a essencia como o detalhe foram pensados no sentido de garantir dignidade aos habitantes, fossem eles endinheirados em villas modernas , fossem eles moradores de uma Unidade de Habitaçao ; e isso, qualquer que seja a « passagem », conta mais do que qualquer rotulo simplista…

    1. O seu ponto é interessante, mas como terá reparado o livro não se refere à primeira metade dos anos vinte, mas ao período de Vichy e da ocupação nazi de Paris, tomando como material o que Le Corbusier escreveu sobre as questões políticas de então.

  3. Céline poeta??!! Foi tanto poeta como o arquitecto Le Courboisier… “vendedor” do seu peixe !! Estranhas formas de classificar… uma errada, a outra… muito pessoal e ousada. Com a bênção de Malcom Millais…!

  4. A História encontra-se repleta de casos como o de Le Corbusier, que nos apresenta no post. Repare-se neste exemplo. José Carlos Rates, anarquista, inicialmente, durante a Primeira República, um dos fundadores e primeiro secretário-geral do PCP, filiou-se na União Nacional salazarista – e logo na sua fase inicial, onde o radicalismo de direita pró-fascista mais se fazia sentir. José Carlos Rates, ainda hoje em dia, é uma pedra no sapato, que muito incomoda, para a “História oficial” do PCP.

    1. Foram os militantes do PCP quem mais morreram na ditadura salazarista. Anda por aí muito saudasista salazarento à espera que um possivel Tarrafal seja reaberto

    2. Não sei o que uma coisa tem a ver com a outra. O que é que o seu comentário tem de lógico em relação ao que escrevi?. Nada! Ou não saber ler, ou não sabe interpretar. O seu comentário que é completamente descabido em relação ao que escrevi!

    3. Cheira-me a comunista, José Figueiredo. Não se trata de um problema de leitura ou interpretação, mas como refere e bem é uma questão de lógica. É que os meus ex-camaradas nunca se deram bem com a lógica, senão vejamos: enchem a boca com o Tarrafal e esquecem os gulags da ex-URSS; dizem – e bem – que foram os que mais morreram na ditadura salazarista mas preferem esquecer que ninguém matou mais comunistas do que Estaline. Realmente o meu nome «ainda hoje em dia, é uma pedra no sapato, que muito incomoda, para a “História oficial” do PCP.» Mas não sou o único: Júlio de Melo Fogaça, Pavel, entre tantos outros desconhecidos. A única diferença é que eu deixei de ser comunista – depois de ter sido expulso do PCP – para ingressar na União Nacional.

      Está aqui a exposição dos motivos da minha adesão ao partido único: https://estudossobrecomunismo2.wordpress.com/2006/08/17/adesao-a-uniao-nacional-de-jose-carlos-rates/

    4. Você é um cobarde, que não se identifica, e não quer perceber nem entender o que quer que seja. Essa de “comunista” ou “não comunista” não conta aqui para nada. De facto, parece-me, que não é do século XXI, porque não quer entender os novos problemas que apareceram, entretanto.

    5. Sr. José Figueiredo, cobarde é sua senhoria ao mencionar o meu nome sem a minha permissão. Volto a informar para seu conhecimento dos meus motivos para a adesão à União Nacional: https://estudossobrecomunismo2.wordpress.com/2006/08/17/adesao-a-uniao-nacional-de-jose-carlos-rates/

      Toda a minha argumentação tinha em vista o comentário do sr. Carlos Augusto. Se não sabe ler ou interpretar o problema já é seu, e se não tem sentido de humor o problema também não deixará de ser exclusivamente seu. Para finalizar, de facto não sou do século XXI já que morri ainda na centúria anterior.

      Sem mais,

      José Carlos Rates (1879-1945)

    6. Mas reconhecerá que, para argumentar, não precisa de fingir que é um morto. Isso é sempre inconveniente para a credibilidade de um argumento. Os desejos da melhor eternidade.

  5. Henrique Galvão… O que fez com que um fervoroso “salazarista” e dedicado militar, virasse destacada figura na oposição à ditadura – como o célebre desvio do navio “Santa Maria”? À parte outras motivações pessoais e políticas, parece que a passagem por África – vendo de perto a crua realidade dos abusos infligidos aos africanos (num relatório escrito em 1947 escreve: “o negro não passa de um animal de carga!”) – foi suficientemente dura para desmistificar muitos dos «mitos» construídos em torno da missão civilizadora do Império, e do conceito de “nação pluricontinental e multirracial”, com que se passou a querer legitimar, a partir de 50’s, a especificidade do colonialismo português… Décadas antes, ao comissário Henrique Galvão é atribuída a autoria do mapa «Portugal não é um país pequeno», apresentado na Exposição Colonial do Porto,1934 – e terá dito: “os homens da minha geração vieram ao Mundo dentro de um país pequeno. Felizmente vê-se que pretendem morrer dentro dum Império”.

    D. Sebastião de Resende, Bispo de Beira, foi outra figura desalinhada da época… Por um lado, “conservador”, coloca-se contra o “comunismo”, na suas célebres pastorais “Ordem Comunista” e “Ordem Anti-Comunista”; por outro, “liberal” em relação à aplicação prática da «doutrina social» da Igreja – de que o antigo seminarista Salazar era também conhecedor! – desafia as autoridades do Estado Novo, denunciando a “escravatura” que testemunha em Moçambique, que o levará inclusive a falar abertamente em Independência.

    De facto, a última frase do texto de Louçã, embora tomando ali outro sentido, é perfeita: “a vida é imperfeita, mas a vida é vida”. Para uns, a “imperfeição da vida” manifesta-se na “perfeição” da arte, para outros, é no confronto ou choque com a “imperfeição” da repressão, privação e morte que a “vida”, afinal perfeita, verdadeiramente começa a ganhar valor na consciência humana!

    1. – E, António de Spínola, que rótulo deve ter?
      Destacado Militar da ditadura do Estado Novo, na defesa intransigente do Império Ultramarino? Ou, antes Homem de Liberdade? Após ter sido governador militar na Guiné. Após ter recusado ser promovido por M. Caetano. Após ter escrito o livro-manifesto “Portugal e o Futuro” (onde sugere não haver solução militar para a Guerra, defendendo ainda a autonomia das colónias através da criação da “Comunidade Lusíada”, etc.). Após ter entrado na Revolução à boleia do MFA… e de ter sido nomeado Presidente pela JSN. Após o apelo falhado à “maioria silenciosa”… mais o envolvimento escuso no MDLP, comandado a partir do exílio… mais o regresso a Portugal já depois do 25 de Novembro? Mais as honras militares “do valor, lealdade e mérito”…
      Serve este comentário – não para julgar o homem (quem quiser que o faça – e a história, vista e revista, também o fará!) – mas para tomar nota de quão difícil é às vezes criar estereótipos e impor rótulos…
      Em todo o caso, à parte os rótulos do “fascismo”, ainda bem que entre nós, não obstante o “saudosismo” de alguns, o “salazarismo” morreu com Salazar – ou será que não morreu?

  6. Bem haja Dr. louçã.

    Parabens pela crónica, e por ter humanizado um assunto que toda a gente finge que não existe, mas que afinal existe e se repete na história, por muita tentação das pessoas se juntarem aos vencedores.

    Todos temos um pouco de conservadorismo na nossa existencia. Mesmo aqueles que pensam estar a viver o expoente do proguessismo ajudado pela tecnologia mais avançada, ou seja, quebrando padrões.

    Nada disto é novo. Continuamos como sempre a poder decidir o bem do mal.

  7. F, não consigo não traças um paralelo entre a criação de modelos económicos e alguns dos intelectuais fascistas que citas. Ha alguns anos foi feita uma exposição sobre Le Corbusier em Lisboa, tive a sorte de ir la em companhia de Malcom Millais, que escreveu um livro extenso sobre este arquitecto, onde desmonta a capacidade dele de preservar a arte da arquitectura e de te-la levado pelos horrores da modernidade, curiosamente influenciou bastante a urbanização de corte soviética. Uma das coisas que mais me chamou atenção foi a enorme quantidade de revistas que criou, foi fundador, editor, o homem era um grande artista na arte de vender o seu peixe e vender-se a si proprio. Todas essas revistas foram obrigatórias para gerações de arquitectos e aprendices. Por tanto dominava a arte de difundir as ideas, de torná-las mainstream um pouco a maneira de Milton Friedman, Hayek, Jacob Viner, esqueceu-se a arquitectura que tornou Europa uma patrimonio de beleza e preservação ambiental. correu atrás do grande , do enorme, do gris, cincento, lugrube, no livro de MM estão as fotografias das mais importantes obras arquitectónicas do LC, a sua biografia camaleónica. Do Celine não vou falar, porque é um poeta empolgado pelo mainstream das irreverências construidas nos cafes e tertulias , mas é um poeta menor na costelação das letras francesas. Dos economistas especuladores, porque ganhar dinehrio produzindo lago matrial da muito trbalho, que eu sabia, so Keynes ganhou dinheiro, mas quando ganhou dinheiro foi quando vendeu libros e no stock market, no mercado cambial perdeu muito.

    1. Céline poeta??!! Foi tanto poeta como o arquitecto Le Courboisier… “vendedor” do seu peixe !! Estranhas formas de classificar… uma errada, a outra… muito pessoal e ousada. Com a bênção de Malcom Millais…!

  8. Os seus dados sobre Céline paracem-me incorretos, Sr. Francisco Louçã. Céline era antijudeu, racista, mas não colaborou com os fascistas diretamente; envolvendo-se somente na corrida dos panfletos antijudaicos por volta de 1937. Na apresentação da sexta edição de Viagem ao Fim da Noite, o próprio Céline diz, que entre o comunismo e o fascismo, era escolher entre a cólera e a peste.

    1. Deixem lá o Céline em paz meus queridos. Olhem que o meu marido também se permitiu tudo. E, apesar disso, também foi um escritor. Se fosse agora tinha-o trocado pelo Raymond Aron. Uma inteligência e lucidez superiores em detrimento de um zarolho desflorador de virgens idólatras.

      Lembram-se quando fomos aí ao vosso pocilgo acompanhar a revolução? E quando ele perguntou perante uma assembleia de estudantes universitários se queriam ficar por uma democracia burguesa ou avançar para uma sociedade socialista? Que possidónio!

    2. A frase que atribui a Céline em que comunismo e fascismo são “doenças” idênticas não retira ao escritor a “colaboração” que F.Louçã lhe atribui. Este afirmou que Céline apoiou com os seus escritos o ditador alemão e esse é um assunto que não me parece discutível.
      Se o termo “fascista” pode ser questionável dado que o mesmo,segundo alguns “puristas”, só deve ser empregue pelos simpatizantes com a doutrina “mussolínica”… isso é outra história . Que,quanto a mim, não adianta muito discutir também.

  9. Não conhecendo o facto, sempre me pareceu que a arquitectura que propunha tinha na raíz um pensamento totalitário.

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