Tudo Menos Economia

Por

Bagão Félix, Francisco Louçã e Ricardo Cabral

António Bagão Félix

28 de Abril de 2015, 19:55

Por

A inoportuna greve dos pilotos da TAP

Uma greve deve ser sempre o último recurso, esgotados todos os outros instrumentos legais dos trabalhadores na defesa das suas causas. A greve é eticamente legítima quando se apresenta como um meio inevitável e imprescindível para alcançar um benefício proporcionado e deve, tanto quanto possível, ter em conta o bem comum.

A greve anunciada pelos pilotos da TAP fere princípios elementares de ética e de solidariedade laborais. Não falo sequer de razões incompreensivelmente não aduzidas pelo sindicato por ocasião do recente acordo a que chegou com a empresa e os diversos sindicatos representantes de outros grupos profissionais da TAP.

Aqui apenas refiro alguns pontos que deveriam ter sido melhor e mais ponderados. Em primeiro lugar, a circunstância de a sua greve paralisar praticamente toda a companhia aérea, envolvendo nesta “onda compulsiva” milhares de trabalhadores de cabina, de terra, de manutenção, etc.. Tal significa um depauperamento económico e de tesouraria da empresa que a todos atinge, sobretudo aos trabalhadores de baixos salários ou para os quais mais facilmente se pode invocar a redundância. Trata-se de egoísmo laboral, em vez de uma visão holística e solidária. Em segundo lugar, esta greve anunciada produz os seus principais efeitos antes da própria greve, quanto às vendas da TAP, apesar dos serviços mínimos. Ou seja, reservas canceladas, aquisição de viagens em companhias ou rotas alternativas, custos reputacionais (atendendo à longa duração da greve). Esta greve corre o risco sério de ter o efeito boomerang, ou seja de se virar contra os pilotos grevistas, seja na sociedade em geral, seja no seio dos outros trabalhadores da TAP e de proporcionar uma  privatização que fica mais à mão de aventureiros com consequências imprevisíveis para o seu futuro.

Uma nota final: independentemente da posição que cada um tenha sobre a privatização, verdade seja dita que fazê-lo agora, no fim do mandato do Governo (e sabendo-se que esta decisão e o modo de o fazer é tudo menos consensual) é uma atitude pouco sensata e até imprudente.

Comentários

  1. Os que efectiva e irremediavelmente sairão prejudicados pela greve dos pilotos são os restantes trabalhadores da companhia. Os prejuízos anunciados para a economia serão de curto prazo e a respectiva causa poderá até dar origem a um ganho de eficiência.
    A greve, ou melhor, os anúncios reiterados de greve, beneficia qualquer eventual interessado na companhia. A um eventual interessado bastará esperar sentado para, em vez de adquirir uma empresa carregada de problemas financeiros, poder adquirir uma série de activos de uma empresa liquidada, desde logo um activo imaterial de elevadíssimo valor: rotas e respectiva clientela. Para quê comprar a companhia se pode comprar os activos livres de qualquer ónus?
    Se a TAP for liquidada, estima-se que 60% das suas rotas serão imediatamente tomadas pela concorrência e certamente que as restantes terão o mesmo caminho se forem comercialmente interessantes.
    O sector do turismo mostra-se preocupado sem razão. Enquanto houver gente a querer visitar Lisboa, Porto, Alentejo, Algarve, Douro, Madeira e Açores e enquanto oferecermos serviços de qualidade, o mercado da aviação providenciará sempre voos para o destino; se não for a TAP será outra companhia qualquer e, eventualmente, a um custo mais baixo e com melhor serviço, do qual poderá resultar um número crescente de visitantes. O eventual prejuízo no curto prazo para o sector do turismo poderá resultar em ganhos no médio e longo prazo.
    Quem sairá definitiva e irremediavelmente prejudicado serão os trabalhadores da TAP que não voltarão a encontrar trabalho na industria; os pilotos empregar-se-ão em qualquer parte do mundo.

    1. Precisamente para isso o turismo no Porto, Açores e Algarve beneficia com as rotas providenciadas pela Ryanair, caracterizada pelo baixo número de atrasos e ausência de greves.

  2. Ora bem, greve só nos períodos de descanso generosamente oferecidos pelo chefe!
    Quando o governo se recusa a honrar os seus compromissos, como o fez com todos os outros seus trabalhadores (além de outras ilegalidades), há que continuar a comer e calar enquanto o governo vende ao desbarato em troca de tachos para os verdadeiros dependentes do estado? Desde quando é que também as greves passaram a ter que ser politicamente correctas (e inúteis)?
    Tenho a certeza que ficará toda a gente mais contente quando a TAP for mais uma empresa a alimentar tachos à custa de todos nós apenas com as viagens que dão lucro.

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