Tudo Menos Economia

Por

Bagão Félix, Francisco Louçã e Ricardo Cabral

António Bagão Félix

27 de Abril de 2015, 16:34

Por

Uma evolução positiva, mas insuficiente

Captura de tela 2015-04-27 16.35.54Um dos temas que sempre é citado quando falamos da necessidade de aumentar a produtividade no nosso País é o das competências académicas e profissionais.

Fui ver a evolução das qualificações académicas dos trabalhadores por conta de outrem nos últimos 17 anos. E – confesso – não me tinha ainda apercebido da magnitude da melhoria verificada. A percentagem dos trabalhadores sem escolaridade ou com o ensino básico passou de 38,8% do total para 13%. As pessoas com o ensino secundário e pós-secundário são agora 26,5% contra 12,6% em 1998. E a população activa empregada com o ensino superior teve uma notável subida de 10,8% para 26,2%.

Números que só por si revelam um acentuado esforço do sistema de ensino, em especial do público, e são também a consequência de medidas legislativas, como a das extensões do ensino obrigatório. E, provavelmente, a evolução positiva das curvas seria ainda maior não fosse o forte efeito emigratório dos últimos anos de pessoas com médias e superiores habilitações.

Julgo, porém, que o ensino e formação profissionais não acompanharam, com a mesma intensidade e qualidade, aquela trajectória. Bom será que o novo apoio comunitário para 2014-2020, agora chamado, Acordo de Parceria, na sua componente de Recursos Humanos, possa vir a ser um contributo fundamental para a empregabilidade e para uma melhor qualificação laboral.

Sobre o número de licenciados, os efeitos da generalização do processo de Bolonha (sobre o qual tenho, aliás, muitas reservas) já se fazem sentir no mercado de trabalho. Aumentou-se a quantidade de licenciados, mas o 1º ciclo universitário (3 anos) ficou mais pobre. No fundo, o antigo bacharel é agora o novo licenciado. E o antigo licenciado passou a ser o novo mestre. Esta ilusão tem vindo a implicar desvalorizações nas ofertas de emprego: cada vez mais precárias, com salários incompatíveis com o investimento feito e com pouca margem de progressão. E muitas vezes preteridos, porque vistos com “excesso de competências”. Daí, também, o elevado desemprego de licenciados (119.000).

Perante as tendências aqui sumariamente referidas era expectável uma melhoria mais acentuada da produtividade global que, no mesmo período (2014-1998) cresceu em média anual 1,1% e 0,7% nos últimos 7 anos.

Comentários

  1. Gostava de chamar a atenção para o facto de apesar da progressão das habilitações isso não se traduzir num aumento de competências. Há 15 dias atrás estive a ler os cv’s presentes no IEFP para arquivista. Vi dezeas de cv’s de licenciados ou de mestres e espantosamente a maioria deles só assumia como competências linguísticas “noções” de inglês. Apesar de já terem 5 a 7 anos de inglês obrigatório ! Falta fazer muito ao nível da qualidade de ensino para que o aumento das habilitações corresponda a um aumento das competências !

  2. E há tantos exemplos…
    Numa empresa familiar de média dimensão que conheço demasiado bem, os salários dos donos/gerentes (um casal) representam 60% de todos os gastos com pessoal. As despesas de “representação” para reembolso variam entre câmaras de filmar a viagens ao Brasil passando por consolas de jogos. Para cúmulo, até as empregadas domésticas estão inscritas na folha salarial.
    Houve um doutorado nos quadros (por um mês, despedido num acesso de fúria) e alguns mestres (menos de um ano). Hoje é o marasmo e as vendas afundaram. Vêm mais despedimentos a caminho, bem como dois novos carros.
    Há anos atrás, noutra empresa familiar, presenciei a mesma forma de estar no mercado, totalmente autodestrutiva. Nozes, dentes…

  3. A produtividade das empresas portuguesas depende mais da qualidade dos seus gestores do que da das licenciaturas (pré ou pós-Bolonha) dos seus trabalhadores.
    Não sei se existem dados disponíveis sobre as qualificações dos empresários portugueses, mas julgo que são inferiores, em média, às dos trabalhadores. E, sobretudo, não acompanharam a evolução positiva ocorrida com estes.
    O típico empresário português é uma pessoa com poucas habilitações literárias – quarta classe antiga ou ensino secundário incompleto -, que começou a trabalhar muito novo e, com muito esforço e dedicação, conseguiu construir o seu negócio. Trata os seus empregados licenciados com alguma desconsideração, – “ó doutor” para aqui, “ó engenheiro” para ali -, porque a sua universidade “é a da vida e vale muito mais do que andar a marrar nos livros”.
    A maioria das empresas não ultrapassa a terceira geração e também não consegue crescer a partir de um certo ponto, precisamente porque a qualidade da sua gestão, centralizada na figura do gestor/dono, não o possibilita.
    Acresce que as empresas vivem permanentemente descapitalizadas, porque têm que pagar as vivendas e os carros topo de gama do patrão, da esposa e dos filhos, juntamente com as férias no estrangeiro, o apartamento no Algarve, os jantares em bons restaurantes, o combustível e o seguro dos automóveis, as despesas com as explicações, os ginásios e as aulas de música dos filhos, as roupas de toda a família e até, pasme-se!, as compras do supermercado.

    1. Existem dados sobre empresários (ver Pordata). São relativamente semelhantes aos que aqui apresento, ainda que com menos intensidade na mudança.
      Concordaria consigo se dissermos que a produtividade depende também muito da qualidade dos seus gestores. Não necessariamente mais.

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