Tudo Menos Economia

Por

Bagão Félix, Francisco Louçã e Ricardo Cabral

António Bagão Félix

25 de Abril de 2015, 17:11

Por

Lampedusa, o leopardo e a vergonha

O autor do notável livro “O Leopardo” Giuseppe Tomasi di Lampedusa (11º príncipe de Lampedusa, a pequena ilha italiana no Mediterrâneo, agora tão infelizmente conhecida) ficou muito ligado a uma também célebre asserção inserta naquele livro: “É preciso que algo mude para que tudo se mantenha”.

Lampedusa, o escritor (1856-1957) e a ilha de porto de abrigo de esperança de tantas vidas desesperadamente sofridas estão agora unidos pela citada frase que faz lembrar as sucessivas posições da União Europeia sobre estas dramáticas migrações.

Mudam-se nomes eruditos ou pomposos de programas de acção, discute-se o seu mísero suporte financeiro, fazem-se intervenções formais de protesto e de lamentação, sobram as palavras e escasseiam os actos. Ou seja, tem-se mudado algo para que tudo continue na mesma. Gente escravizada, pessoas que fogem do pavor e da discriminação ignóbil, vergonhoso tráfico de seres humanos, mortes que não podem ser reduzidas à categoria de números, famílias destroçadas, seres inocentes abandonados, tudo isto se passa perante uma Europa fria, burocrática, pesada, financista, dividida e em que o Norte acha que o problema é do Sul, carente de verdadeiros estadistas e que apenas acorda da apatia perante o sobressalto da quantidade tornada insuportável nos corredores de Bruxelas.

Uma vergonha, uma indignidade, uma miséria moral e institucional. Agora decide-se aprovar uma esmola de acesso à Europa de 5.000 deslocados e triplicar o seu reduzido orçamento para as operações no mar. A consciência europeia volta a apaziguar-se até à próxima tragédia.

Comentários

  1. Pois, incendeiam-se os países e, depois, impede-se as pessoas de fugir das chamas. Mas, nós, europeus, tão cultos e civilizados, ainda não percebemos que nos está a cair em cima tudo o que andámos a semear por África e Médio Oriente. É ver, igualmente, o que acontece com o terrorismo, que começámos por combater no Afeganistão e Iraque, agora já o temos dentro de casa. Às vezes, pergunto se será só cegueira e incapacidade de aprender até com a própria história, ou se haverá interesses inconfessados que lucram ou pensam vir a lucrar com estas situações explosivas. Seja o que for, estupidez é certamente, além da falta de vergonha, da indignidade, miséria moral e institucional que Bagão Félix aponta.

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