Tudo Menos Economia

Por

Bagão Félix, Francisco Louçã e Ricardo Cabral

Francisco Louçã

24 de Abril de 2015, 10:52

Por

O amigo dos nossos chefes é um terrorista

Foi o jornalista José Goulão quem escreveu sobre o fulano, o que me chamou a atenção para esta história.

Abdelhadim Belhadj foi identificado pela Interpol como um dos líderes do exército do Estado Islâmico, que tem semeado o terror na Síria e no norte de África. Não se surpreenda: como eu até há dias, não sabe quem este é cavalheiro. Pois ei-lo na foto ao lado de McCain, o senador republicano que foi candidato à islamic statepresidência dos Estados Unidos (e de dois outros senadores), a trocarem prendas. Ou poderíamos vê-lo a ser recebido por Laurent Fabius, ministro dos negócios estrangeiros de Hollande, em maio de 2014. Claro que isso foi no tempo do reconhecimento. Agora, é um dos chefes do Estado Islâmico.

Abdelhakim Belhadj foi treinado pelos homens de Saddam e chefiou o Grupo Islâmico Combatente da Líbia, opositor de Kadafi, entre 1995 e 1998, tendo colaborado com os serviços secretos britânicos durante esse período. Mas depois foi para Afeganistão, apoiando Bin Laden. Diz-se que foi um dos responsáveis do atentado de Madrid em 11 de Março de 2004. Seria preso na Malásia, onde foi interrogado pela CIA e pelos seus antigos patrões. Mas foi libertado em 2010, instalando-se no Qatar, até à queda de Kadafi.

As forças da Nato, que foram decisivas nos meses de guerra e de desagregação do regime líbio, nomearam então Abdelkhadim Belhadj governador militar da capital, Tripoli, apresentando-lhe desculpas pelo interrogatório e prisão pela CIA e pelo MI6. Não demorou muito nesta função (mas veja a entrevista na Euronews), porque criou um partido e deslocou-se para a Síria, fundando o Exército Sírio da Liberdade, que recebeu o apoio militar e político dos países ocidentais, na guerra contra o regime dos Assad.

A Interpol identifica-o agora como o chefe do grupo que mais teme: Belhadj terá criado campos de treino do Estado Islâmico em Derna, Sirte e Sebrata, na Líbia, e criado um grupo na Tunísia, em Djerba.

Quando se perguntar o que faz a Europa perante o genocídio do Mediterrâneo e as mortes de quem foge da guerra, lembre-se desta história e da sua moral: um dos amigos dos mais respeitáveis líderes mundiais é um dos chefes do terror. É dele e dessa cultura de morte que os emigrantes fogem. Vão encontrar, do lado de cá, muitos dos amigos e ex-patrões desse chefe do terror e de outros como ele. E são estes amigos e ex-patrões que vão colocar navios de guerra no Mediterrâneo para não deixarem passar as balsas de emigrantes.

 

 

Comentários

  1. Era de esperar todas as situacoes em que o mundo atravessa hoje ja vem relatadas nas Escrituras Sagradas ou melhor Biblia, as antigas nacoes tornaram-se pobres em detrimento das novas que parece tudo ter o seu epicentro o Medio Oriente. Numa leitura sobre a historia de Israel descobri que Jesus nasceu duma tribo que veio da zona chamada Mesopotania ou Persia mas devido a guerras manipuladas de fora para saquear os bens e apoderar-se de tudo aparecem os que se identificam com a Paz e destroem em nome da Paz.
    Os Estados Unidos da America pode ser exemplo disso e sempre usaram a teoria “dividir para reinar” e nunca gostaram ver um Estado Prospero ou Nacao desenvolvida que nao lhes presta vassalagem, por mais democratica que seja.

  2. Há que juntar ao puzzle dos altos manipuladores do terrorismo internacional actual, Sarkozy, Cameron e o inefável Bernard-Henri Levy, o antigo novo-filósofo aluno de Althusser que entusiasmou o pretérito PR francês a instrumentalizar o braço-direito de Kadaphi que se tinha exilado em Paris em 2011, e que relatou à contra-espionagem civil e militar americano-franco-britânica os pontos fracos do ” sistema ” militar do ditador líbio, dados essenciais para a programação do ataque e destruição da Líbia. Actualmente, para cúmulo, o novo rei da Arábia Saudita, Salaman al Saoud, e o seu filho e sobrinho como ajudantes principais, são apontados como principais agentes de apoio e colecta de financiamento do Al-Qaida, antes e depois do 11 Setembro 2001.

  3. Há que juntar ao puzzle dos altos manipuladores do terrorismo internacional actual, Sarkozy, Cameron e o inefável Bernard-Henri Levy, o antigo novo-filósofo aluno de Althusser que entusiasmou o antigo PR francês a instrumentalizar o antigo braço-direito de Kadaphi que se tinha exilado em Paris em 2011, e que relatou à contra-espionagem civil e militar americano-franco-britânica os pontos fracos do ” sistema ” do ditador líbio, dados essenciais para a programação do ataque e destruição da Líbia. Actualmente, para cúmulo, o novo rei da Arábia Saudita, Salaman al Saoud, e o seu filho e sobrinho como ajudantes principais, são apontados como principais agentes de apoio e colecta de financiamento do Al-Qaida, antes e depois do 11 Setembro 2001.

  4. Invasões, bombardeamentos, golpes de Estado, apoio a terroristas, atentados de falsa bandeira, e astuta anestesia da opinião pública por incessante manipulação mediática.

    O dia a dia do Império que não admite mais que a subserviência total á sua hegemonia Global Unipolar.

    1. O braço armado Geopolítico da Globalização Neoliberal Mundial , também por viés Económico, via Dolar, Petrodolar, Banco Mundial, FMI, etc…

      “Se não te submetes chamar-te-ei Ditador e se resistes Invadiremos o teu País”

  5. RM,
    O facto é outro, porque se vendem tantas armas a estados que são permanentemente instáveis?
    O EI detém uma enorme frota de viaturas “”Toyota Hilux” (o famoso 4×4 que apareceu no programa topgear, como o ultra resistente) que foram “oferecidas” pelo EUA, agora adaptadas para terem metralhadoras de alte calibre.
    O negócio acontece …. Acredite RM se o MCAIN tivesse ganho ainda iria ser pior….

    1. Militares e generais? Bastantes. Mas nenhum do Estado Islâmico, responsável por decapitações de jornalistas, destruição de museus e chacina de pessoas. E o “RM”, aprecia este chefe do Estado Islâmico pelo facto de ter apertado a mão a Fabius e McCain, já depois de ter sido co-responsável pelo atentado de Madrid?

    2. Obrigado pela resposta. Não faltam políticos de vários quadrantes que já apertaram a mão a gente pouco recomendável. Os americanos teimam em não aprender. Lamento é que não tenha uma palavra a dizer sobre a responsabilidade do sr Assad, que preferiu massacrar manifestantes e eventualmente ver o seu país devastado (um resultado previsível) a permitir uma transição para um regime mais representativo, com os seus alauitas em minoria. Para o sr Louçã, todos os males do mundo têm origem em acções do Ocidente. O Médio Oriente, cheio de ódios étnicos e religiosos, desajustado do mundo moderno por culpa própria, é uma marioneta inocente.

    3. Lamento, mas não estou a fazer um inventário de culpas. Assad e muitos outros são ditadores e inapresentáveis. Mas a mim não me interessa essa lógica de uma mão lavar a outra, de um crime apagar outro. Queria contar uma história reveladora, que está na BBC, no Guardian e em muitos outros jornais, e não esperava encontrar alguns comentários a sugerir que em Portugal não temos direitos a saber isto.

    4. Para Louçã (25 Abril, 2015 às 22:55): Ora, aí está um comentário que muito aprecio. Apertar a mão a ditadores ou terroristas não os torna mais apresentáveis, mesmo que quem aperta a mão seja McCain, Hollande ou algum deputado da República Portuguesa. E, é claro, se alguém apertou a mão a algum ditador ou terrorista para o tornar mais apresentável, temos todo o direito de saber isso.

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