Tudo Menos Economia

Por

Bagão Félix, Francisco Louçã e Ricardo Cabral

Ricardo Cabral

23 de Abril de 2015, 13:30

Por

A piada do ano

A 6 de Maio de 2010, em questão de minutos, os índices bolsistas nos EUA registaram uma queda abrupta, tendo recuperado umas horas depois num evento que ficou conhecido como “flash crash”. O pânico foi generalizado e não se sabia muito bem o que tinha ocorrido.

Fonte: WSJ

 

Pois bem, 5 anos depois as autoridades americanas encontram o “verdadeiro culpado” e acusam-no de vários crimes. Pretendem extraditá-lo para os EUA, onde pode incorrer em pena de prisão de 20 a 30 anos.

Mora nesta casa em Hounslow, perto do aeroporto de Heathrow, na grande Londres.

Fonte: Zero Hedge

 

Foi presente a um juiz e ousou usar, imagine-se, uma camisola amarela. Aqui está ele, Navinder Singh Sarao!!!

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Fonte: Zero Hedge

 

Dizer que um indivíduo, sozinho, de sua casa, pode derrubar os mercados bolsistas mundiais é comparável a dizer que um cidadão normal sozinho pode mover multidões, vencer exércitos, construir arranha-céus… É certo que as autoridades não dizem bem isso, afirmam apenas que Navinder contribuiu para o “flash crash”.

A acusação em si é problemática nomeadamente porque:

1. Encontra um “bode expiatório” que, alegadamente, ganhou 40 milhões de dólares em 5 anos a especular na bolsa,[1] utilizando uma técnica para manipular os preços de produtos financeiros derivados. Ora o que fazem as grandes empresas e os programas informáticos para ganhar dinheiro a especular na bolsa? Em particular aquelas que nunca erram a prever o futuro e que, graças a isso, ganham dinheiro dia sim dia sim, ao longo de anos a fio, num fenómeno de demonstração real de impossibilidades estatísticas?

2. Se um único indivíduo consegue deitar abaixo os mercados, qual é afinal a “robustez” dos mercados? Será que é tudo um frágil castelo de cartas?

3. Porque damos tanta relevância aos mercados se afinal é tão fácil manipulá-los?

4. Se um cidadão da classe média consegue manipular os mercados, o que não fará um grande banco ou um oligarca bilionário?

5. Porque é que, 7 anos depois da última grande crise financeira, após biliões de euros de dinheiros públicos em apoios ao sistema financeiro internacional, 5 anos depois do “flash crash” e não obstante numerosos escândalos financeiros de manipulação e conluio em diversos mercados não temos ainda um sistema regulador capaz?

 

 

 

[1] A defesa de Navinder Sarao sugere que os recursos financeiros deste são muito mais modestos do que o alegado pela acusação.

Comentários

  1. Congratulo – me por saber que andamos a ajudar os nossos parceiros alemães. Muito em particular o Deutsche Bank, agora a braços com o pagamento das multas em que incorreu por manipulação da libor. Os amigos são para as ocasiões, e Schauble faz questão de relembrar isso mesmo a todos os ministros das finanças portugueses.

  2. MAMON – o deus odierno do DINHEIRO?
    Caro Ricardo Cabral – será que os fins justificam os meios?
    Jesus Cristo terá dito: «Não ajunteis para vós tesouros na terra, onde a traça e a ferrugem corroem e onde ladrões escavam e roubam mas ajuntai para vós tesouros no céu, onde nem traça nem ferrugem corroem e onde ladrões não minam nem roubam: Para onde está o teu tesouro, aí estará o seu coração também. Ninguém pode servir a dois senhores, porque ou há de odiar um e amar o outro ou se dedicará a um e desprezará o outro. Não podeis servir a Deus e às riquezas (Mamon).» (Sermão do Monte – Mateus 6:19-24)
    No artigo “Divino Dinheiro” (vide http://www.insightinteligencia.com.br/55/PDFs/pdf8.pdf), o jornalista e economista brasileiro Diego Viana, escreve sobre a função do dinheiro em nossas vidas, inspirado num cartoon de Quino – em que um pai ensina ao filho, ainda bebé as “lições da vida”: apontado um carro, diz “pernas”, ao computador aponta “cérebro”, do telemóvel fala “contacto humano”, “cultura” é TV, sobre “ideais, moralidade e honestidade” aponta para um caixote do lixo, vendo a cara do garoto reflectida no espelho ensina como “amar o próximo”… e, pegando numa nota de dólar assevera: “Deus”! Será o Dinheiro – “que faz o mundo girar como se fosse a mão invisível de um Ser Supremo” – o verdadeiro Deus dos nossos dias?
    Reflectindo sobre o tema Viana escreve: «Quando John Stuart Mill escreveu, em 1852, que “nada é mais insignificante, na economia de uma sociedade, do que o dinheiro”, ele ecoava ideias de David Hume, um dos primeiros filósofos modernos a olhar directamente para questões económicas: “a bem da verdade, o dinheiro não é um dos sujeitos do comércio.” O dinheiro, resume o filósofo, tem “sobretudo um valor fictício”» E prossegue: «O que o dinheiro faz com os mercados? Como ele influi no sistema de preços? […] Grandes economistas, de Carl Menger a Milton Friedman se esmeram para responder que a resposta é: nada […] Mais dinheiro em circulação não enriquece ninguém por si só. O que faz é aumentar os preços.» Ora, se o dinheiro, per si, nada vale, o mesmo já não se pode dizer da afixação dos preços… «Acontece que um aumento generalizado dos preços não tem consequências só económicas [citando Elias Canetti, sobre as consequências hiper-inflação alemã de 20’s] “a inflação é um fenómeno de massas no sentido mais próprio e mais estrito da palavra.(…) talvez hesitemos em atribuir ao dinheiro, cujo valor é artificialmente fixado pelos homens, efeitos geradores de massas que ultrapassam de longe sua finalidade própria e têm qualquer coisa de absurdo e de infinitamente humilhante.” [Prossegue] O mesmo pode ser dito do fenómeno inverso, uma queda generalizada dos preços – o desemprego é um fenómeno económico, mas as pessoas mal-ajambradas na fila do seguro, não». [O valor do dinheiro é expresso em números, as estatísticas são números, a economia faz-se de números… porém,as consequências sociais de políticas económicas desastrosas não tem a frieza das folhas de cálculo do excel!]
    Então, porque motivo se dá tanta importância ao dinheiro? «O dinheiro, porque é unidade contábil e mediador das trocas, é a única reserva de valor que também é pura, constante e ilimitada […] Como observou Paul Samuelson, a moeda só é aceita como meio de troca por uma única e tautológica razão: porque ela é aceita como meio de troca.» É nesta perspectiva que o dinheiro, enquanto meio de troca, adquire “sentido e “valor”- e é com base na “confiança no valor do dinheiro” que os “mercados” funcionam (logo, deixe-se de acreditar no valor do dinheiro e, de um momento para o outro, as grandes riquezas do mundo se dissiparão!). E como funcionam as leis do mercado? Simples, quem mais dinheiro tiver na mão, mais poderá interagir (comprar, vender, produzir, ajuntar…) – o que faz do dinheiro literalmente uma “potência de acção”, ou potestade. Porém, se “ter” é “poder”, o dinheiro pouco ou nada nos diz do “ser” – ou do carácter (alma) do seu portador. Viana dá-nos um exemplo sugestivo: «Pense numa pessoa que passa o mês inteiro trabalhando […] e ganha um salário que, bem ou mal, remunera seu esforço e traduz a potência de acção do assalariado. Toda a energia que despendeu, está concentrada naqueles papéis que lhe caem na mão. [Mas] voltando para casa […] todo o salário [é] levado por um assaltante […] De uma hora para outra, toda aquela potência que estava na mão do assalariado passa para o assaltante, que, sem ter feito o mesmo serviço que o outro, pode escolher rigorosamente da mesma maneira como aplicar o espólio. E – o que é irónico – seria até possível dizer que aquela quantia “remunera” o roubo, a audácia, o planejamento, o descaso pela lei.»
    Um outro exemplo ainda: «Quando Garganta Profunda sugere a Bob Woodward e Carl Bernstein que “sigam o dinheiro”, é isso que ele está expressando: meçam quem pode mais, procurem a origem e o destino do poder. O caminho, o farol e o combustível são um só: o dinheiro.» Assim sendo, remata: «A política é o jogo dos poderes; o dinheiro é um jogo de potências. Mas o poder nada mais é do que uma forma institucionalizada de potência e o dinheiro é uma – talvez a principal – ferramenta que institucionaliza potências, disputando a primazia com a violência.»
    Logo, o dinheiro, per si, nada vale, porém é o valor que os homens dão ao dinheiro que os subjuga ou liberta. É preciso dessacralizar o Dinheiro. Dai, portanto, “a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus” (Mateus 22:21) – como quem diz, aos credores deves honrar as tuas dívidas, ao Estado deves pagar os teus impostos, porque as potestades deste mundo são geradas no poder fictício do dinheiro, porém, se quereis um novo Reino (mais justo e fraterno – e sem agiotas, nem ladrões!) devereis, em primeiro lugar, buscar e difundir o Amor (João 13:34) – com a promessa, na súmula do «sermão do monte», que “tudo o mais vos será acrescentado”!
    Gandhi disse: «Há riqueza bastante no mundo para as necessidades do homem, mas não para a sua ambição». Acrescentando «7 pecados sociais: política sem princípios, riqueza sem trabalho, prazer sem consciência, conhecimento sem carácter, comércio sem moralidade, ciência sem humanidade e culto sem sacrifício.» Portanto, sem ironia: «Seja você a mudança que deseja ver no mundo!» (Mais do que “autoridades” e “agentes reguladores”, reclama-se mais valores éticos na economia e finanças – como em tudo o resto)

  3. Pois, se se tivesse limitado a manipular o libor, a pena era muito mais simpática.
    Sem querer ler o longo relatório, ele não terá feito exactamente o mesmo que wall street faz com hft nós derivados?

    1. O mais engraçado é que os reguladores não detectaram nada. Foi uma denúncia. E, aparentemente, a acusação é feita a dias da prescrição do prazo de 5 anos, de forma a que mais ninguém possa ser acusado das mesmas práticas no dia 6 de Maio de 2010.

  4. Dr. Cabral:no filme “Wall Street – o dinheiro nunca dorme” o velho banqueiro Zabel perguntava “disseram-me que estavamos a ganhar com as perdas. Como é que se ganha dinheiro com as perdas?”. Era o casino! E continua! Ainda há pouco tempo me propuseram, ao balcão de um banco (não vou dizer qual, deixo adivinhar…) onde me desloquei porque o dinheiro que tinha a prazo tinha vencido e recebi uma proposta de um “depósito” (penso que era , não queria outra coisa) em que poderia “apostar” (atenção! Foi mesmo “apostar” o termo empregue pela funcionária) na evolução da Euribor a um ano. Subia ou descia? Se acertasse, e a Euribor subisse ou descesse, conforme os casos, mais que um certo valor (1,5 por cento, ou coisa assim), receberia um juro superior ao do mercado. De outro modo, não receberia juros, apenas o capital…Que raio de negócio é este? Que substrato tem, a não ser a tal “aposta”? Já agora, se pensou num banco de cor azulada, onde o Estado…acertou!
    Já agora, não será a sua especialidade, não sei quem me poderá esclarecer sobre outros mercados de “casino”. Refiro-me ao negócio das apostas “on-line” (neste caso, as apostas desportivas). Se aquilo fosse um negócio 100% honesto, e se apostasse suavemente, e pelo seguro, os ganhos seriam francamente superiores às taxas de juro atuais, e também era certamente mais seguro do que qualquer investimento bolsista! Porque é que os fundos de pensões e quejandos não se deslocam para lá? Por pesquisas que efetuei, os contratos estão cheios de “alçapões” e arbitrariedades várias, sempre a favor das empresas, sempre sedeadas em paraísos fiscais, e sob alçada de reguladores locais (Malta, Gibraltar, Ilha de Man…). Mas são esses mesmos que, depois de explorarem ao tutano quem se deixa viciar, são apaparicados por governos como o nosso, em troca de uns milhõezitos em impostos (quem controla? quem cobra?) (Atenção: há países, como Malta, completamente dependentes do negócio!). Se fosse um negócio transparente por que razão a Santa Casa, em vez de se armar em reguladora de algo para o qual não tem capacidade, não tentava ela mesma tomar conta dele?

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