Tudo Menos Economia

Por

Bagão Félix, Francisco Louçã e Ricardo Cabral

Francisco Louçã

21 de Abril de 2015, 11:26

Por

Quanto o chá se entorna, ou Maria de Fátima Bonifácio e a catequização

Que maldade, a do Expresso contra Fátima Bonifácio. Tinha ela publicado uma divertida crónica contra Carvalho da Silva, usando alegremente a sua inocência sobre os critérios estatísticos de medida do desemprego, o que a levou a protestar com veemência contra o conceito de “inactivo desencorajado” (com finura aponta que “nada impede este pseudodesempregado de passar as tardes a tomar chá com a Kiki Espírito Santo”), e vem o semanário e, zás, publica no dia seguinte uma estatística que contabiliza 258 mil destes inactivos na pilha dos desempregados. Que o tenha feito é prova de como a imprensa, “desprovida da solene autoridade conferida por um doutoramento”, se deixa influenciar por sentimentalismos e por essa falta de rigor que só evidencia a decadência da civilização.

Não é para menos. Que um jornal se permita a “livre propagação de todos os desconchavos”, como ela escreve a propósito do assunto mais transcendente da “fatal indefinição do estatuto epistemológico das ciências sociais”, já é de si assunto de gravidade. Mas que ponha 258 mil argumentos nesse desconchavo, que aluda adesemprego_1 uma fonte que é o INE e outra que é o IEFP (gráfico e explicação do Expresso ao lado, clique para ampliar), já é topete demais. O arroubo de indignação de Fátima Bonifácio é por isso mais do que sintomático, é um alerta, é um levantamento, uma chamada às armas.

Sobre a estatística do desemprego, ela de facto tem pouco a dizer. O Expresso, o INE, o IEFP, Carvalho da Silva e outros encarregaram-se de entronizar esse disparate que é considerar que um desempregado que deixou de ir nas últimas quatro semanas ao Centro de Emprego, mas continua desempregado, é um desempregado. Obviamente, Fátima Bonifácio bem o topa, “nada impede este pseudodesempregado de passar as tardes a tomar chá com a Kiki Espírito Santo”. Coitada da Kiki, que triste sina, 258 mil são demasiadas más companhias para o chá e os Espírito Santo já têm arrelias com que se ocupar, para terem que “passar as tardes” nestes propósitos.

Mas não deixemos que a leve distracção de Fátima Bonifácio nos desvie da floresta. O texto, logo atropelado pelos números do Expresso, do INE e do IEFP, tem outra textura: a propósito do atrevimento dessa gente e de Carvalho da Silva em considerar como desempregado um desempregado que há quatro semanas não vai ao Centro de Emprego, ela tece um rendilhado de filosofia que, densa e esclarecedoramente, nos aponta num ápice todos os erros da universidade, da vida moderna e da humanidade, assim em geral.

É que o radicalismo (como essa imperdoável vontade de chamar desempregado a um desempregado) “incentivou a transformação da Universidade num local de catequização ideológica (…), com a consequente desfiguração de um curriculum universitário sério e consistente”, de modo que “se muldesemprego_2tiplicaram os mandarins académicos que entronizaram o radicalismo, fomentaram a politização do ensino superior e esfacelaram os vestígios de um cânone académico clássico que limitava a arbitrariedade, definia critérios de pertinência e imparcialidade”, prejudicando “o ethos académico que comandava o ideal da objectividade, da imparcialidade, do rigor intelectual e do saber desinteressado”. Belas palavras, inspiradas pelos mestres, Leo Strauss (1899-1973) e Allan Bloom (1930-1992), entre outros, eles são dos melhores.

Permitam que reforce este levantamento de indignação, porque não é para menos, é a civilização que está em causa, o modo de vida do Ocidente, tudo ameaçado pela perturbante mascarada do desempregado que quer impor-se a “passar a tarde” a tomar chá com a Kiki Espírito Santo, comboiado pelos mandarins universitários. Strauss e Bloom são os espíritos mais ilustres para dirigir esta indignação, Fátima Bonifácio só aproveita o caso do chá para convocar a devoção a estas mentes fulgurantes.

Intelectuais ilustres, eles inventaram o neoconservadorismo, que alguns dos nossos compatriotas descobriram ou redescobriram quando George Bush chegou ao poder, se rodeou desta gente e, pouco depois, decretou a invasão do Iraque. Para Strauss, a chave do poder moderno deve ser a memória das grandes civilizações, as da da Antiguidade, Bush percebeu bem a mensagem. Como em Esparta, este poder deve reconhecer a guerra como a forma de dominação por excelência, exibindo os “imensos poderes militares do Ocidente”. Tal poder deve rejeitar a secularização e o Iluminismo, porque este não reconhece um Bem superior, mergulhando-nos então no relativismo (por exemplo, a coexistência pacífica na era da dissuasão nuclear) ou no historicismo (várias doutrinas avulsas sem o “ethos académico que comandava o ideal da objectividade”). Bloom, no livro citado com carinho por Bonifácio, “The Closing of the American Mind”, indigna-se porque “tudo se tornou cultura, cultura da droga, cultura rock, cultura de gangs de rua e assim por diante sem qualquer discriminação. O fracasso da cultura tornou-se uma cultura”. Rock e gangs de rua, que pavor.

Isto resultou. Fez escola. É repetido e reverenciado. No seu livro, “O Neoconservadorismo” (2003 Quetzal), Irving Kristol, um discípulo de Strauss e Bloom, explica a razão da devoção: “a descoberta da obra de Strauss desencadeava o género de choque intelectual que só acontece uma vez na vida. Virava o nosso universo intelectual de cabeça para baixo. Percebíamos de repente que tínhamos analisado a história política do Ocidente de cabeça para baixo”. Uma revelação.

Continua Kristol: a doutrina era instrumental, e Strauss, o homem que nos punha de cabeça para cima, sendo ateu, propunha-se valorizar as ortodoxias religiosas, para converter o povo à sua mansidão, pois “trata-se, isso sim, de insuflar nova vida nas mais antigas e moribundas ortodoxias religiosas, reagindo assim à contracultura da melhor maneira possível”. Uma revelação, mas bastante relativista, coisa de instrumentos para um Bem maior.

Tanto trabalho para um mero convite para o chá, que o desempregado esperará debalde, dirá a leitora ou o leitor. Tanta filosofia que a Kiki, na sua infinita sabedoria, certamente ignorará. Sim, trabalho demais. Mas como poderia Fátima Bonifácio invectivar quem quer que diga que o desempregado que não foi ao centro de emprego nas últimas quatro semanas é um desempregado, se não mobilizasse uma cornucópia de justificações dos seus mentores e da nata do neoconservadorismo, porque tudo começa na cultura do rock e dos gangs de rua e ela bem os topa, escondidos nas saias dos “mandarins universitários”?

O Expresso é que escusava de ter publicado aqueles números. Isso não se faz.

Que dirá a Kiki Espírito Santo desta ignomínia?

Comentários

  1. Acredito piamente, ainda mais do que na Senhora de Fátima, que o próximo governo de esquerda vai calcular a taxa de desemprego segundo os critérios de Carvalho da Silva.

  2. “rock e gangs de rua” faz lembrar o excelente filme de Walter Hill chamado “os selvagens da noite” realizado em 1979,que na altura foi bastante criticado nos EUA ,precisamente por “incentivar à violencia” dos gangs de nova iorque.Acontece que Walter Hill é um bom realizador que trata com inteligencia o espectador,deixando-o refletir pelos seus proprios meios.Este filme nunca foi uma descrição dos gangs de nova iorque mas sim uma fabula urbana passado num lugar imaginario e que por acaso foi filmado em nova iorque.Depois deste filme apareceu Quentin Tarantino,outro exemplo de baixa cultura(droga,rock e criminosos,cultura pop portanto) que eu prefiro de longe à “alta” cultura ,pelos vistos tão adorada pela Bonifácio.P.S.-tambem vejo concertos na Gulbenkian(jazz em agosto) e oiço os noturnos do Chopin.

  3. “rock e gangs de rua.” faz lembrar o excelente filme de Walter Hill chamado “os Selvagens da Noite” realizado em 1979 que foi precisamente acusado de incitar à violencia pela critica da altura embora o filme seja uma fabula urbana passada em New York.A cultura pop deste filme tem descendencia directa em realizadores como

  4. Caro Francisco Louçã,
    Concordo com o artigo praticamente na íntegra, à excepção disto:
    “[…] esse disparate que é considerar que um desempregado que deixou de ir nas últimas quatro semanas ao Centro de Emprego, mas continua desempregado, é um desempregado.”
    Desculpe, mas não é disparate nenhum. Eu passo a explicar.
    Acho que está a misturar dois conceitos o que, admito, é muito usual. O termo “desempregado” na linguagem corrente quer dizer aquela pessoa que não trabalha, gostaria de trabalhar, etc. Mas nem o INE, nem o Eurostat, nem a Organização Mundial do Trabalho medem este indicador. Nessas instituições, o que se pretende estimar a “ineficiência do mercado de trabalho em absorver quem esteja disponível para trabalhar e esteja activamente a tentar entrar nesse mercado”, o que é um pouco diferente do uso popular que se dá ao termo “desempregado”.
    As pessoas que tentam vender o seu trabalho de forma activa mas o mercado não as consegue absorver são denominadas “desempregados em sentido estrito”. E o desempregado em sentido estrito é aquele que está constantemente a tentar forçar a entrada no mercado de trabalho, i.e. todas as semanas está a bater à porta dos centros de emprego, a enviar currículos e a fazer tudo o que tiver ao seu alcance para entrar no mercado.
    Há centenas ou mesmo milhares de estatísticos muito competentes, espalhados por diversos grupos de trabalho internacionais e por esse mundo fora, que debatem a melhor forma de recolher informação. E apesar de haver melhorias constantes na qualidade da informação, novos métodos, novas fontes, etc., invariavelmente concluem que a melhor forma de estimar o desemprego (como medida de eficiência do mercado de trabalho) continua a ser o desemprego em sentido estrito.
    Agora uma questão muito relevante que se pode e deve colocar: então, e as pessoas? O que importa uma economia boa se as pessoas estão mal?
    Eu não pertenço ao grupo da comissão liquidatária do País (que alguns teimam em chamar governo) e que afirmam “as pessoas estão piores mas o País está melhor”. Como tal prefiro juntar à taxa de desemprego em sentido estrito (aquela que é a estatística oficial e publicada pelo INE) os desencorajados, os estágios do IEFP e o subemprego. E portanto concordo em absoluto que se olhe para o desemprego em sentido lato pois está mais próximo daquilo que vulgarmente as pessoas chamam de desemprego. Mas daí a dizer que o que o INE publica é um disparate é um salto que só damos se desconhecermos o que é que o INE (e todas as organizações internacionais) efectivamente tenta estimar.
    Só uma nota para terminar: é errado juntar os 252 mil de subemprego. A parcela é menor do que 252mil, pois estes trabalham a tempo parcial mas responderam afirmativamente à pergunta “se lhe fosse proposto trabalhar a tempo inteiro aceitava?”. É bem diferente se cada um deles está a trabalhar 1h por dia mas está disposto a trabalhar mais 7h, ou se cada um já trabalha 7h e está disposto a trabalhar mais 1h. Se em média o tempo parcial for metade da jornada completa, então o que faz sentido é juntar 126 mil e não os 252 mil. Seja como for, o desemprego em sentido lato rondará 1.2 milhões em vez dos 1.3, o que não muda em nada a conclusão que daqui se tira: é um número abissalmente alto.

    1. Julgava que desempregado era o contrário de empregado (expresso no prefixo de negação “des”), mas afinal a língua portuguesa é muito traiçoeira.

    2. Desculpe, Pedro Ferreira, vir incomodá-lo com usos populares, mas são os que melhor conheço e, dessa minha experiência, gostaria de partilhar consigo o seguinte: em tempos idos do governo Sócrates e das famosas Novas Oportunidades, acorria a esses centros, instalados nas escolas públicas, sobretudo gente desempregada. Desempregada segundo a definição das instituições públicas, isto é, recebiam um subsídio de desemprego ou, quando este acabava, um subsídio social de desemprego, igualmente temporário. Durante o dia, percorriam tudo o que tivesse porta aberta, desde o pequeno comércio aos consultórios médicos, para conseguirem um papel, a entregar no Centro de Emprego, de 15 em 15 dias, justificando que se encontravam “activamente” à procura de trabalho, trabalho que o Centro de Emprego não lhes conseguia arranjar. À noite, iam até ao Centro Novas Oportunidades tentar obter um certificado académico que lhes proporcionaria, ilusoriamente, “novas oportunidades” de emprego. Ora, muito popularmente, o que acontecia era que a maioria dessas pessoas, ao fim de pouco tempo, deixava de aparecer, porque, deixavam de ter dinheiro para as deslocações, quer para fazer a via sacra das empresas, quer para frequentar as Novas Oportunidades (o subsídio social de desemprego estava entre os 200 e 300 e pouco euros). Imagine o que acontecerá, hoje, quando mais de metade dos desempregados não tem, sequer, qualquer subsídio e o preço dos transportes é, até, dificilmente suportado por muitos que têm emprego. Pois são esses que desistiram, não só porque não há realmente emprego, mas porque não têm dinheiro sequer para irem ao Centro de Emprego dizer que ainda não fugiram, como qualquer criminoso. Além disso, estão condenados a um confinamento ao lugar de residência, isolados e impedidos de participar em qualquer iniciativa conjunta de protesto público, o que muito bem serve quem quer ocultar a dimensão real do desemprego e impedir a sua manifestação. Mas tudo isto são usos populares, que não entram nos sentidos estritos dos Eurostats.

    3. M.J. Santos,

      Sou o primeiro a admitir que a estatística, apesar de o tentar, não mede a realidade na perfeição. Longe disso. E o exemplo que deu é bem exemplificativo que os números não medem perfeitamente a realidade. Há que ter sempre um sentido crítico e não olhar para os números como se fossem sacrossantos.

      No entanto, há dois pontos que acho relevantes: (1) é importante ter presente que não é humanamente possível adquirir toda a informação detalhada de cada árvore que compõe a floresta e que temos de criar um modelo abstracto que represente a floresta como um todo. claro que temos de ser humildes e admitir que as conclusões sobre a floresta podem não representar da melhor maneira todas as árvores, e se o fizermos há sempre a possibilidade de erro; (2) desde que se tenha sempre presente a limitação que os números contém (p.ex. erros de amostragem, falta de cobertura de todos os casos possíveis, margem de erro das estimativas, etc) é melhor ter números do que não ter nada.

      Foi por essa razão que comentei apenas a frase que, implicitamente, dizia que a forma que o INE tem de medir o desemprego é um disparate, a que discordo produndamente. Só me faltou mencionar uma outra razão para que seja medida assim: a harmonização com outros países. Só é possível comparar níveis de desemprego ou o que quer que seja se toda a gente usar regras e metodologias similares. E é o que se passa com o inquérito ao emprego do INE: usa as mesmas regras que estão definidas por Regulamento Comunitário, para que se possa no final poder comparar o nível de desemprego em Portugal com os restantes países europeus. Poderá não ser a forma óptima de medir o fenómeno num País em particular, mas é certamente a melhor forma de o fazer conjuntamente para todos os países da UE e que tem de ter em conta as diferenças na legislação do trabalho dos diversos Países, a forma como os centros de emprego estão organizados, etc.

  5. tambem como se diz de tigerman (o português : ou gosta-se , ou abomina-se.
    coimbra (a noite , é o sítio .. , tem q bater no olho .. bater no olho .. o q tambem é uma coisa mt académica

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