Tudo Menos Economia

Por

Bagão Félix, Francisco Louçã e Ricardo Cabral

Francisco Louçã

16 de Abril de 2015, 11:23

Por

“Phoenix”, de Christian Petzold

phoenixEstreia hoje “Phoenix”, de Christian Petzold. O realizador é conhecido entre nós, sobretudo pelo seu “Bárbara”, que foi candidato ao Óscar do melhor filme estrangeiro (e que não ganhou), e dele conhecemos a pesquisa incessante sobre a natureza da Alemanha à luz da história do pós-guerra. Como Fassbinder, Petzold olha para todos os prismas humanos desta desgraça e do reajustamento da vida na Alemanha. Conta-nos o realizador, numa entrevista à revista Cinema Scope, que, quando foi exibido em Cannes o filme “Noite e Nevoeiro”, de Resnais (1956), os alemães presentes na sala abandonaram-na, porque o filme mostrava o que tinham sido os campos de concentração, e foi com esse filme que, então estudante, começou a perceber a história do seu país. “Phoenix” é uma prestação nesta busca.

Mais uma vez, o filme vive de Nina Hoss, que carrega a história: é difícil encontrar outra actriz com tanta contenção de expressão e que nos possa surpreender tão intensamente, como ela o faz nestes filmes. Em “Bárbara”, ela era uma médica desterrada num lugarejo da Alemanha de Leste, por uma falta ou uma suspeita que não conhecemos, e que vivia entre a atracção pela sua gente e a expectativa sobre o outro lado. Agora, em “Phoenix”, é Nelly, uma artista judia que é resgatada de Auschwitz, destroçada e desfigurada, e que procura a sua identidade e outros sobreviventes. Ela voltou para a Alemanha em 1938, vinda de Londres, uma decisão suicida, mas tinha lá Johnny, o seu marido, e é ele que a vai perder e depois reencontrar. Ao procurá-lo, num ambiente de filme negro à Hitchcock, Nelly resiste ao convite para a fuga para a Palestina, não reconhece a promessa de um Estado judeu na terra prometida, procura simplesmente o seu rosto e a sua vida, atravessa os escombros e os bares em que se toca ragtime, numa noite pequena em que parece que todos se cruzam mesmo sem se reconhecerem.

A dupla identidade ou a dupla face de uma mulher, como em “Vertigo”, é a chave para esta charada em que Nelly resolve o seu passado e encontra força onde estava a sua fraqueza, que era a dependência do marido que a traiu. A extraordinária cena final mostra-nos como Nelly sabe definir quem é, depois de se ter escondido, de ter abandonado a imagem de si, de se ter recolhido numa sombra. E, como no bom cinema e na boa literatura, aqui os personagens adquirem a sua vida própria e falam connosco.

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