Tudo Menos Economia

Por

Bagão Félix, Francisco Louçã e Ricardo Cabral

António Bagão Félix

16 de Abril de 2015, 08:30

Por

cem ou sem?

O cem é o primeiro número inteiro constituído por três algarismos. Por isso, sempre exerceu um certo fascínio na vida das pessoas e das instituições, aliado a um almejado e iconográfico cem qualquer coisa. Nas estatísticas e nas efemérides é omnipresente. Sobretudo na sua expressão cardinal de centenário. Ou na meta dos 100 anos de vida que passou a ser um marco crescentemente atingível.

Há, curiosamente, expressões que subsistem geracionalmente apesar de, nos dias alucinantes de expansão tecnológica, já quase representarem o contrário do que está na sua origem. Por exemplo, os mais velhos ainda hoje dizem que alguém foi a cem à hora para dizer que foi depressa. Ou usam a bitola cem escudos, mesmo que, em euros, seja tão-só a metade de um.

Agora com a linguagem informal e jovial nas redes sociais e nas mensagens, o cem em algarismos empresta o seu som ao sem, saneando o pobre hífen. Por exemplo, imagino alguém a escrever: “100querer ficou 100trabalho e 100terra. Foi uma 100vergonha, 100cerimónia e 100razão!

Já comum a todas as idades e gerações, continuamos a expressar a medida do nosso estado ou das nossas acções dizendo que não estamos a cem por cento ou que as coisas não correram cem por cento bem. Mas se correrem mesmo bem, há quem, hiperbolicamente, não se contente com cem por cento, furando a barreira das percentagens e afirmando que se está a 120 por cento ou mesmo a 200 por cento.

Vivemos com a guarnição dos números. Os cem por cento, porém, não contêm em si e por si a qualidade, nem esta precisa daqueles para o ser. A grandeza sem medida pode ser mais do que a medida com a aparente grandeza da ocasião. Às vezes o problema não radica no cem por defeito, mas no sem por excesso…

Por isso é natural que fiquemos sem respostas para cem perguntas, ainda que, agora com os computadores e a Wikipédia, possamos cair no inverso: termos cem respostas, ainda que sem perguntas…

Comentários

  1. «Cem» – a mística e o fascínio do número “100” tem também origem nas «centúrias».
    > Há as “centúrias” esotéricas de Nostradamus – imaginemos conjuntos de 10 versos, reunindo 100 quadras, referentes a 1000 previsões, de 12 livros de 100 páginas!
    > E há a «centúria» romana: I. Centúria: a unidade de infantaria da organização militar das Legiões romanas – uma “legião” são 10 “coortes”, as cortes subdividem-se em 3 “manípulos”, e estes em 2 “centúrias”. Cada “centúria” são 10 “contubérnios”, formados por 10 homens! Sendo cada Centúria era liderada por 1 centurião! II. Centúria: a unidade política das «Assembleias das Centúrias», recuando neste caso ao tempo da República de Roma – realizadas nos arredores de Roma, no «Campo de Marte», estes comícios reuniam as diferentes classes romanas, segundo a hierarquia de voto, por “centúrias”.

    A herança de Roma é tal forma marcante que se prolonga no tempo muito para lá da queda do Império no Ocidente. Por exemplo, só muito tardiamente entre nós – ao tempo de D. Sebastião! – se introduziria a numeração árabe (com a inclusão do “zero”) nas operações contabilísticas. Até aí usava-se de forma ainda rudimentar o “ábaco” e as “moedas de conto” (discos metálicos similares a moedas usados nas contagens). Aliás, há quem argumente que entre as causas para as grandes perdas financeiras da Feitoria de Antuérpia, ao tempo dos Descobrimentos, estejam os persistente erros de contagem!
    E falando sobre contabilidade e moedas… relembra de forma oportuna Bagão Félix a “bitola dos cem escudos” seguida ainda por muitos portugueses. Isto, num “cálculo mental” que nos remete à memória do tempo ainda recente em que Portugal cunhava moeda própria – e, note-se, foram mais de oito séculos de emissão contínua de moeda própria, que nem a dinastia filipina veio interromper!
    Ora, ter “cem escudos” também é diferente de nada ter – “sem escudos”! – e a consequência económica e política deste ser ou não ser está à vista de todos. Recuperar a emissão de moeda própria deveria ser um desígnio patriótico assumido pela nossa elite intelectual e política!
    – Como? Se o abandono do euro parece ser um «Cabo das Tormentas», já a implementação de “moedas complementares” poderá ser a nossa «Boa Esperança».
    Há vários casos de sucesso de circulação de “moedas complementares”: “Círculo WIR” (Franco-WIR), na Suiça; “Palmas” no Brasil (Ceará); “Chiemgauer” na Alemanha… E é do mentor das novas moedas regionais alemãs – Christian Gelleri – que surgiu a ideia de “moeda expresso” (regio/estatal), capaz de ser adoptada pelos os países periféricos em crise – desde logo Portugal e Grécia – sem implicar a saída do euro. Eis uma possível resposta para cem perguntas sobre como resolver a crise!
    Para mais vide: «A “Moeda Expresso” sem sair do Euro» – em http://www.eurorettung.org/fileadmin/media/Eurorettung/2012_02_22_Moeda_expresso_em_vez_da_saida_do_Euro.pdf

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