Tudo Menos Economia

Por

Bagão Félix, Francisco Louçã e Ricardo Cabral

Francisco Louçã

2 de Abril de 2015, 21:48

Por

Manoel de Oliveira e José Silva Lopes

oliveiralopesO desaparecimento do cineasta e do economista faz evocar, cada um à sua maneira, o que foi o século XX português e os primeiros anos deste novo século.

Oliveira, o decano dos realizadores, atravessou o cinema mudo, descobriu o som e as cores, criou um mundo próprio porque é assim que é a arte e manteve uma alegria incomensurável por viver e por trabalhar naquilo de que gostava. O seu tempo foi portanto o de uma longa travessia feliz, espreitando e revelando as angústias, os vícios, as paixões e a vida da nossa gente, com a ajuda de Agustina, António Vieira e outros clássicos. O “Velho do Restelo” foi o último estreado em vida, poderia ter sido outro, mas há ternura nesta reunião de alguns dos actores queridos de Oliveira, Luís Miguel Cintra, Diogo Dória, o seu neto.

Silva Lopes foi também decano, mas entre os economistas, e passou por provas de fogo na viragem para a democracia e nos seus primeiros anos. Governador do Banco de Portugal, ministro das finanças quando as circunstâncias obrigaram às nacionalizações, negociador do primeiro acordo com o FMI, prosseguiu depois a sua actividade na banca, como escritor de economia, como autor de um relatório decisivo sobre a reforma fiscal, sempre como um dos mais atentos e perspicazes conhecedores das nossas dificuldades. Paul Krugman, um jovem estudante que veio a Portugal estagiar no Banco de Portugal e conheceu então Silva Lopes, muito antes de ganhar o Nobel, lembra alguns episódios saborosos que demonstram o que era a sua personalidade. Céptico, sem qualquer calculismo sobre alinhamentos e discursos, procurava caminhos e soluções, com uma medida muito própria do que se poderia fazer e do que era preciso fazer. O seu tempo foi uma travessia angustiada.

Um e outro viveram portanto tempos difíceis em que foram notáveis. Merecem a homenagem da memória e o cumprimento da acção. A alegria de um e a angústia do outro são a marca do que fica, são a verdade do nosso tempo.

(Nota: Aguiar Branco podia ter tido a sensatez de não dizer que “Silva Lopes teve a felicidade de partilhar este momento com Manoel de Oliveira”. O mau gosto parece não ter limites, nem perante a morte de duas personalidades a quem devemos a cortesia da contenção e do respeito)

Comentários

  1. A cortesia da contenção e do respeito também para identificar quando do outro lado veio apenas um erro de linguagem, a que já se seguiu a devida explicação e o pedido público de perdão.

  2. Aguiar Branco deve ter estado à procura de qualquer coisa sentida para dizer e saiu-lhe asneira. Devemos desculpar-lhe isso, julgo eu. A verdade é que ontem o País ficou mais pobre duas vezes, sem a Arte de Oliveira e a Lucidez de Silva Lopes.

  3. Desculpe lá, mas qual é a admiração? Eu admirava-me era que Aguiar Branco tivesse dito ou alguma vez diga uma coisa com jeito na área da cultura – ou outras. E, ainda por cima, com cortesia, contenção e respeito? Ó Louçã! Ele só queria brilhar um bocadinho, ao nível de que é capaz. Deixe-o lá!

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