Tudo Menos Economia

Por

Bagão Félix, Francisco Louçã e Ricardo Cabral

Francisco Louçã

31 de Março de 2015, 11:37

Por

Como é bom viver acima das suas possibilidades

cestoSe pensava que com a comissão de inquérito ao BES e com os longuíssimos testemunhos dos banqueiros, contabilistas e afins ficou a saber como funcionava a elite da economia nacional, pois prepare-se para mais notícias surpreendentes. O Expresso deste sábado apresenta uma delas e é um número: de 2008, quando começou a crise financeira, até 2014, as empresas que agora estão no PSI20 distribuíram 13 mil milhões de euros em dividendos. É mais do que as empresas chinesas aplicaram em privatizações em Portugal, acrescentam com malícia e rigor as autoras do artigo (Elisabete Tavares e Joana Madeira Pereira, “PSI20 paga 13 mil milhões de dividendos desde 2008”). Por outras palavras, nunca faltou dinheiro. Outra coisa é saber como foi aplicado.

De facto, houve dinheiro mesmo quando não havia. Exemplos: mesmo com prejuízos de 63 milhões, em 2011 a Sonae SGPS pagou 66,2 milhões de dividendos. Usou as suas reservas para satisfazer os accionistas. A Zon, em 2012, com modestos ganhos de 22 milhões, pagou o triplo em dividendos, 61,8 milhões. O mesmo já tinha acontecido no ano anterior. A administração foi às reservas.

Havia portanto dinheiro. E generosamente: as duas empresas mais endividadas, a EDP e a PT, foram as recordistas do pagamento de dividendos (4,4 mil milhões na EDP e mais de 3 mil milhões na PT). No total, os pagamentos de dividendos em 2014 foram 1,7 mil milhões, ou seja, 57% do lucro foi entregue aos accionistas no caso das empresas não financeiras do PSI20. Se considerarmos o peso dos dividendos comparado com os resultados líquidos, então temos o número esmagador de 154% em todo o PSI20 (em 2013 e por causa dos prejuízos da banca). Os dividendos foram ao pote.

Note bem. Durante estes anos vivemos primeiro uma crise financeira e depois uma recessão prolongada. O endividamento destas empresas aumentou e o seu investimento caiu a pique. Ficaram mais pobres. Mas usaram mais de metade dos seus rendimentos para pagar dividendos aos seus accionistas – mesmo quando tinham prejuízos ou quando gastavam mais do que o que tinham ganho. Não foi nem para abater a dívida nem para fazer investimento para terem melhores resultados no futuro (já para não dizer criar emprego ou aumentar a capacidade produtiva). Foi para pagar dividendos. Chama-se a isto viver acima das suas possibilidades. E é a história da burguesia portuguesa.

Pois é. O caso Salgado não é só uma maçã podre que perturbava o cesto. O cesto é que é o problema pior.

Comentários

  1. Sem precisar de ler mais o que quer que seja, só acrescento o seguinte: Nada funciona travando; nada funciona sem energia; nada funciona (bem) sem proveitos justos; nada é garantido sem justiça em completa igualdade; nada funciona bem sem formação adequada, nada funciona honestamente sem consequências para quem prevarica; nada prospera sem investir na imaginação; nada é seguro se não se cumprirem regras; nada é genuíno se só se promoverem “afilhados” (muitas vezes medíocres); nada garante democracia se só meia dúzia beneficia dela. E mais não digo, pois até já me sinto cansado do que continuo vendo.

  2. Quem porventura vier com teorias do capitalismo e liberalismo, para defender este tipo de actuação destas administrações de empresas do PSI-20, devem-se lembrar que estão a dar facadas nos mexilhões, ou seja, nos pequenos investidores, ou seja, no capitalismo popular.

    Esta actuação predatória tem que ser censurada por todos. Senão perderemos todos, clientes e investidores de boa fé.

    Vejam quem se safou, por exemplo, na falência do BES. Não foram os mexilhões nem as lapas… nem os clientes destas empresas, na maioria monopólios ou quase…

    Bem haja Professor Louçã!

  3. Ainda que mal pergunte, dividendos não pressupõem lucros? Como é possível uma empresa dar prejuízo e distribuir dividendos? Isso não é descapitalizar a empresa? Qual é a racionalidade económica disto?

    1. Só é possível usando as reservas livres. É uma práctica estranha, mas aconteceu, como se nota no artigo. Sim, é descapitalizar a empresa. Nenhuma racionalidade económica, mas os administradores são eleitos pelos accionistas, que recebem os dividendos…

  4. Interessante análise do artigo do expresso. 13 mil milhões é dinheiro, mesmo em 6 anos!
    Acredito que parte dele estará por cá, eventualmente parte no buraco BES, ou num outro buraco, algum estacionado, outro deslocado, pouco investido, mas enfim, por certo parte dele (ainda pequena) foi parar à China.
    A metáfora do cesto é feliz, mas infelizmente, este é o cesto que temos e não estou a vislumbrar possibilidade de comprarmos outro. hum… A não ser na loja do chinês :)

  5. O que eu quero saber é o seguinte: quando vamos começar a por essa corja política e da banca na cadeia.

    É preciso ampliar Évora com mais 500 celas e começar a por lá todos os vigaristas.

  6. Em bom Português, o que se fez foi uma simples descapitalização das empresas que referiu. Imagino que terá sido feito para manter a confiança dos accionistas nas respectivas administrações. Sucede que as empresas têm uma existência jurídica independente dos seus accionistas e o seu capital não lhes pertence. Mas claro, isto é um princípio conjurado pela Extrema-Esquerda, pois… O caso do BES é diferente porque depois de descapitalizarem todo o grupo Espírito Santo, aparentemente, os responsáveis desta trapalhada descapitalizaram também a PT e ainda os pequenos investidores (não sei se me esqueço de mais alguém). E terão ainda violado a Lei, mas isso cabe à polícia investigar e aos tribunais julgar… Já agora, algo a despropósito, acho piada que haja distintos jornalistas da nossa praça a acusar esses ditos pequenos investidores de ganância… Chama-se a isto ‘blame the victim’… A solução de recapitalização ou nacionalização poderia custar muito aos contribuintes, contrariamente a esta solução algo leninista, à Islandesa (mais uma vez, quem é de Extrema-Esquerda, quem?), mas teria respeitado aquele princípio conservador de honrar a palavra que o Estado deu quando disse que o BES era de confiança para investirem nele (mesmo quando o Banco de Portugal dispunha de toda a informação necessária para demitir a administração).

    1. Uma simples descapitalização? Se os acionistas queriam dinheiro, tendo o valor das ações subido porque o valor da empresa era maior, vendessem os senhores acionistas as ações. Simples e sem trafulhices, apegando os respectivos impostos, claro, englobados no IRS. 13MM uma simples descapitalização? Atente ao caso da apple na qual o S Jobs proibiu, até à sua morte, dividendos para os acionistas. Muitos compraram por 2 dólares e venderam cada ação a 400. Outra coisa: e quem produz o valor? Será o acionista? Só os acionistas têm direito a receber? E os trabalhadores? Népia? Tenha V. Exa. uma Ferrari com 500CV com o depósito cheio da melhor gasolina se o motor não trabalhar deve dar umas voltas fantásticas, mas de empurrão… Que se ganhe dinheiro mas de forma séria. É por essas e por outras que sou de Esquerda e não de extrema-direita…

    2. O meu caro homónimo não parece ter percebido que o tom do meu post era deliberadamente irónico e dirigido a um senhor abaixo que tinha acusado o Prof. Louçã de dizer o que disse por ser de Extrema-Esquerda (chama-se a isto ‘shoot the messenger’). Sucede que a crítica que o Prof. Louçã fez também poderia ter sido feita por um Liberal. Uma descapitalização de uma empresa é um ato desprovido de toda a racionalidade económica, como aliás o Prof. Louçã explica numa resposta a outro comentador mais acima, mas foi legal neste caso, pelos vistos. Claro, serviu os interesses de curto prazo dos accionistas que receberam os dividendos, mas certamente afectará a capacidade das empresas em questão de investirem e pagarem as suas dívidas (cumprir com os compromissos só é bom para os fracos, como é evidente). Por isso, dizer que é simples não é dizer que não é grave, Sr. Jaime Neves. E, já agora, para que fique claro, eu também me considero de Esquerda, embora não seja anti-capitalista, como o Prof. Louçã. Mas assino por baixo quando ele diz que algo vai muito mal com o capitalismo português. Temos uma burguesia que se entretêm a descapitalizar centros de interesse nacional (como a EDP, p.e.) , para depois o nosso Governo de Direita Patriótica à Paulo Portas os vender ao Capitalismo de Estado Chinês ou Angolano…

  7. Mas pasme-se. Estes deploráveis e incompetentes gestores ainda foram premiados por tanta burrice/estupidez(veja-se caso Zeinal Babba da PT). Será que o mal está nos formadores que dão aulas nas Faculdades ?

  8. comentario muito lateral ao assunto:não sabia que o Expresso ou o Publico eram antros de “comunas” disfarçados,alias pelos vistos a imprensa está cheia de potenciais lideres da coreia do norte.toda a imprensa? claro que não ,ainda resistem uma aldeia de gauleses deseperados que lutam ,de forma desesperada contra os romanos(essa cambada de perigosos comunas),que neste momento estão a cinco( cinco,senhores) votos de dominar…a Madeira

  9. Os dividendos distribuídos não são taxados a uma taxa autónoma de 28%? Em teoria, desses 13.000 milhões de euros, 3.640 milhões não foram para os cofres do estado, onde é que eles estão?!

    1. Quando é distribuído a pessoas. Se for a empresas, quaisquer que elas sejam, outro galo cantará. E cantou. Só não houve foi investimento.

    2. Se for distribuído, para outras empresas e aplicada em investimentos ou nova distribuição, os seus dados não contemplam certo?

    3. De qualquer das formas, se os lucros foram distribuídos para outras empresas essas pagaram 21.5% sobre os dividendos. O estado arrecadou mais de 2 mil milhões em 6 anos, fruto também ele de empréstimos contraídos dessas empresas. Pelo fluir da conversa, verifico que está prestes a defender isenção de impostos sobre os dividendos pagos contraídos com recurso a empréstimos.

      Agora a problemática dos investimentos, cada empresa é livre para o fazer e arrecadar as consequências dessa falta de investimento, até porquê não é por efectuar investimentos que o mesmo dará rendimentos no futuro, pode nem ser aconselhável fazer investimentos de todo.

      Assim, preocupa-me mais enquanto cidadão sobre a questão central: Para onde foi este dinheiro dos impostos… e ai sim, encontramos gente a viver acima das suas possibilidades, à décadas.

    4. Pelo fluir da conversa, Portugal ganhou 3 a 0 ontem a Cabo Verde. É uma forma de fluir a conversa.

  10. E assim vai a extrema esquerda: ansiosa por voltar ao PREC, aos prejuízos de todas as empresas, e a achar que o dinheiro dos outros é o seu próprio dinheiro.

    1. Tem toda a razão. E ainda devia deduzir que quero deslocar o país para Marte, proibir a circulação de qualquer viatura que não seja puxada por dois burros e, como lembra bem, impor prejuízos a todas as empresas. É evidentemente o que se deduz do facto de o Expresso, sinistro jornal de extrema-esquerda, registar que metade dos lucros do PSI20 foram para dividendos, e não para investimento ou abatimento das dívidas.

    2. E tem de ir para investimento ou abatimento de dívida porquê? porque você assim o determina? Devia ter uma lições de democracia e de respeitar as opções dos outros. Ou então tem outra solução: demite-se das suas funções, cria uma empresa, dispersa o capital na bolsa e mostra a todo o mundo como é que se faz. Cria emprego, paga bons ordenados, e não distribui rigorosamente nada de dividendos. Mostre ao mundo como se faz.

      E até nem percebo o espanto, se o próprio estado faz rigorosamente o mesmo: não investir nem abater dívida para salvaguardar os “agarrados ao estado”. A diferença é que o estado arrasta a economia atrás de si para não cortar despesa. As empresas do PSI20 nem por isso.

    3. Tem mais uma vez toda a razão, o Expresso é uma vergonha, em vez de criar uma empresa anda a escrever estas vergonhas. Ainda bem que há um Pedro Oliveira para arrasar esta canzoada.

    4. Nada contra a democracia e com o que cada empresa faz com o seu dinheiro. Desde que, se pare de vez, com esta opera bufa dos lucros privados e prejuízos públicos. É que, a mim, não me toca nada. A não ser pagar, claro.

    5. A extrema esquerda ainda é o Futre? Boa dupla ele o Veloso (que às vezes, para ter assento no XI teve de virar à esquerda)

    6. Seria bom que houvesse simples dignidade ou caracter. Nao se pede mais. Nao havendo isso ha o que temos. O que mais me deprime e’: Como se luta por um povo que rouba, oprime e repete o egoismo de geracao em geracao. Que revolucao pode haver que mude alguma coisa quando este oleo sujo se separa sempre da agua limpa que o poderia limpar?

  11. O remedio é submeter as empresas portuguesas aos rigores da concorrencia, nacional e internacional, para impedir que os instintos rentistas e ociosos (e de dependencia de favores politicos) de alguma burguesia, que ainda sofre dos tiques do passado, se desenvolvam. Nao há como a disciplina implacavel do mercado para aguçar a arte e o engenho – e o investimento nas empresas. Felizmente Portugal tem alguns bons exemplos que ilustram este ponto. Um obvio é o da telefonia movel que, recordemos, teve um desenvolvimento fulgurante desde que foi autorizado o segundo operador no inicio dos anos 90, de tal forma que durante alguns anos Portugal esteve entre os tres primeiros paises da Europa em taxa de penetraçao do telefone movel (apesar de ser um país relativamente pobre), e pode gabar-se de inovaçoes pioneiras no sector como a do cartao pré-pago.

  12. Caro Francisco Louçã,

    Apreciei muito o seu artigo!
    Não consigo entender a dificuldade dos leitores/comentadores em entender o seu raciocínio…

    Espero continuar a ler os seus atrigos, aqui, no Público!

    Cumprimentos,
    Luís Azenha Bonito

  13. ACCIONISTAS: traças que devoram o tecido social. Nascem em lugares incertos e obscuros, em número um pouco reduzido porque o tecido social não chega para muitos, procriam pouco e com cautela para manter a pureza da espécie, são amorais, vorazes e insaciaveis e quando tudo estiver cheio de buracos vão roer para outro lado. Quem ficar que remende o tecido que normalmente é remendado com o forro do bolso de cada um de nós.

    1. Mas agradeça pelos menos ao Bill Gates (Microsoft), o accionista mais rico do mundo, e outros como ele, que lhe permitiram estar aqui a dialogar online.

    2. A Evora não me diga, foi o Bill Gates que inventou a Internet, e os computadores?
      E se lhe disser que este portátil de onde escrevo só muito raramente corre software do monopolista?

      Um pouco de pesquisa e sabia que o Bill Gates não teve influência absolutamente nenhuma, nem praticamente nenhuma outra empresa teve influência na criação da internet como a conhecemos.

  14. grande treta de texto. ..
    o cesto vai-se a ver tem tanto de problemático quanto o pudim : a prova do mesmo está em comê-lo …

  15. é caso para dizer que o cesto não sabe arcar com o peso da responsabilidade..
    atão mas , os mercados precisam de ver o dinheiro .. ou pensa que aquilo é só números.. números não matam a fome..

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