Tudo Menos Economia

Por

Bagão Félix, Francisco Louçã e Ricardo Cabral

Francisco Louçã

30 de Março de 2015, 08:13

Por

Recados da Madeira

Região_Autónoma_da_Madeira_islands.svgVários analistas argumentaram, um pouco ao sabor das suas fidelidades opinativas, ora que as eleições da Madeira têm ora que não têm implicações nacionais. O facto é que a Madeira tem uma configuração política única, incomparável com os Açores ou o continente e, por isso, é diferente. Mas qualquer eleição regional ou local tem leituras nacionais e só podemos conversar sobre o assunto partindo desta constatação: é diferente, mas os resultados contam mesmo.

Contam para o PSD, que ganhou, como se esperava, e com maioria absoluta. A imagem de renovação feita pelo delfim zangado com o chefe, com a argúcia de Albuquerque ao excluir Jardim de qualquer acto de campanha, mobilizando a sua história de oposição recente dentro do partido laranja, deu-lhe a vitória de que precisava, com um pequeno desgaste de que amanhã ninguém se lembrará (de 48,6% para 44,3%). A coisa abanou pouco e aguentou. A Madeira continua entregue aos seus poderes fácticos de sempre.

Contam para o CDS, que caiu bastante (de 17,6% para 13,7%), mas que não foi absorvido pela renovação albuquerquiana e por isso pode clamar vitória, tanto mais que o PS ficou longe. Este foi o resultado em que errei, no meu prognóstico, porque subestimei a polarização que o CDS manteve.

Contam para o PS que, vindo do seu pior resultado, conseguiu piorar tudo com uma coligação sem credibilidade. “Mudança” somava partidos que tinham cerca de 21% (PS+PTP+PAN+MPT) e contou ontem 11,4%, abaixo do resultado do PS em 2011. O que quer dizer que o PS, descontados os deputados de José Manuel Coelho, fica com o menor número de eleitos de sempre (suponho, com os resultados que vejo, que ficará igual ao PCP+BE). E isto tem duas lições, na minha opinião. A primeira é que para ser alternativa é preciso ter propostas consistentes e o PS não as tinha. Mostrou confusão, propondo para a dívida da Madeira o que rejeita no país inteiro, prometendo como sempre adaptar-se aos poderes financeiros que, esses, não se enganaram de lealdades e ficaram com os governantes já conhecidos. A segunda lição é que, para fazer uma coligação, tem que se ser consistente: a guerra entre o PS e Coelho ridicularizou a iniciativa e agravou o problema.

Contam para o Juntos pelo Povo, que obteve uns notáveis 10,3%, a partir de uma vitória anterior na câmara municipal de Santa Cruz e que cresceu como uma força de inovação. E agora vai ter que tomar posição sobre as decisões.

Contam para o PCP, que passou de 3,8% para 5,5% e recuperou um deputado que tinha perdido na última eleição, mostrando uma capacidade importante de mobilização social.

Contam para o Bloco de Esquerda, que não só recuperou o seu lugar no parlamento como obteve dois eleitos, o que nunca tinha tido na sua história. Demonstrou que fez bem em recusar a oferta da coligação dirigida pelo PS, inconsistente e sem resposta para a Madeira, e fez melhor em bater-se pelas suas propostas. Mostrou a quem aposta na fragmentação da esquerda que esse destino não é inevitável e que se pode crescer em eleições disputadas.

Os resultados da Madeira contam mesmo.

(Correcção: com os resultados publicados, ainda pendentes da verificação de reclamações, o PS fica com cinco deputados e não com quatro, como sugeri atrás; José Manuel Coelho passa de três para um)

 

Comentários

  1. F, o grande victorioso foi o JPP; o que mostra que é possivel ocupar um espaço que o psd, cds, ps, deixam. O discurso dos irmaos Souza é um discurso simples:,fazer, agir, contra a corrupção, clientela, junto às populações, resolvendo problemas concretos, uma lição para quem quer fazer oposição mas a partir da realidade, sem populismo mas muito popular. A Madeira esta para Portugal como Portugal esta para a Troika, o peso da dívida é insoportável ou soportavel com a austeridade a prolongar-se como doença crónica, e, a burguesia nacional felicisisima com o PIB disparado a 1,6 % em 2015 e, 1,8 em 2016, juros abaixo do previsto, o problema são os portugueses de certa classe media, que melhoraram a sua vida nos últimos 30 anos, ainda não se convenceram que tudo mudou, embora tenham impostos mais elevados, tem juros mais baixos pela casa, tem preços relativos mais baratos para muita coisa, o efeito da austeridade desigual leva a comportamentos conservadores pelo receio do desemprego, o curto prazo é tudo, logo se ve,

  2. Os grandes derrotados foram os partidos do regime que charam a troika e já pariram 3 bancarrotas. O PSD perdeu a maioria absoluta ao fim de 37 anos de reinado com Alberto Joao Jardim que deixou os cofres vazios e arruinados e penhorados.
    PS e CDS sofreram uma pesada derrota os unicos que subiram e muito foi o PCP e BE.
    Portanto algo está a mudar neste nosso país arruinado que destruiu a classe media e pariu os maiores roubos na historia de Portugal sem que ninguem tivesse sido preso, julgado e condenado o que provocou uma senteça de morte ao nosso Estado de Direito completanente assassinado, penhorado e falido.

  3. O BE é como o PC, embora oscile muito mais: numas eleições perde e nas seguintes recupera e farta-se de deitar foguetes, como se estivesse numa trajectória de crescimento e não, como está, estabilizado. Melhor: estagnado. Não há nenhum líder nem nenhuma estratégia que possa dar uma vitória ao PS na Madeira. Os madeirenses são de direita, pronto. Assim como os andaluzes são de esquerda, pronto. Em terras destas as eleições são um formalismo. Quase me apetece dizer que o PS nem devia concorrer na Madeira. Para quê, se há quarenta anos que se sabe antecipadamente quem é o vencedor?

  4. continua a manter esse bom nível de referência , que te trará dividendos … boa instrução , a leitora mt te reconhece … e agradece
    :)

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