Tudo Menos Economia

Por

Bagão Félix, Francisco Louçã e Ricardo Cabral

Ricardo Cabral

29 de Março de 2015, 22:07

Por

Feridos de morte

 

“Não há nada mais perigoso do que um animal ferido”, CyberTracker

 

leoa

Fonte: Daily Mail [1]

 

A forma como lidamos com a crise bancária que Portugal enfrenta, mesmo antes da nacionalização do BPN em Novembro de 2008, constitui um “caso de estudo”. Além das perdas no BPN, da resolução do BPP, da recapitalização pública do Millennium BCP, BPI, BANIF e CGD, da resolução do BES/Novo Banco, das garantias públicas sobre dívidas de alguns desses e de outros bancos, que custaram ao erário público, até à data, bastante mais de 10 mil milhões de euros, e a algumas famílias e empresas vários milhares de milhões de euros, continuamos com um sector bancário em dificuldades. Não obstante, as autoridades responsáveis continuam a afirmar que o sector bancário nacional está (e estava) robusto.

Também bancos e empresas em situação económica difícil são muito perigosos para a economia, para outras empresas e para as famílias.

Em particular, os bancos, nessa situação, são tentados a adoptar medidas arriscadas e contraproducentes para se salvarem. Exemplos dessas medidas são amplamente conhecidos: concessão de empréstimos de risco; renovação ou aumento de empréstimos a devedores incapazes de cumprir o serviço da dívida por forma a evitar o registo de aumento do crédito mal parado; remuneração de depósitos a taxas de juro muito elevadas para atrair clientes; e –talvez a medida mais fácil, porque atinge pouco mas muitos –  a criação de taxas e comissões sobre clientes para procurar diminuir os prejuízos na carteira de crédito.

Estas medidas podem resultar em fortes prejuízos para o resto da economia (externalidades negativas). Por exemplo, um banco que passa a introduzir comissões mensais de manutenção obriga clientes, que pretendam evitar pagar essas comissões, a toda uma panóplia de actos e de custos para mudar de conta bancária.

Ora, um banco tem algum poder de monopólio em relação aos seus clientes. Pelo que se justifica que tais alterações de preço sejam regulamentadas. Nesse sentido, parecem positivas as propostas de lei sobre comissões bancárias recentemente aprovadas (20.3.2015) na Assembleia da República, com os votos favoráveis de PSD, CDS e PS, com a abstenção do BE e do PCP. Essas propostas de lei do PSD e do CDS prevêem o fim das comissões de manutenção de conta, nos casos em que não ocorre uma prestação de serviço, e também obriga todos os bancos a assegurar a existência de uma conta de serviços mínimos bancários gratuita. A maioria rejeitou propostas sobre a matéria do BE e do PCP.

A banca nacional continua muito frágil. O que se impunha, logo à partida, mesmo antes do “resgate” de 2011 mas, pelo menos, nessa altura, eram medidas capazes de sanear o sistema bancário nacional, o que evitaria situações como as ocorridas com o BES e  alguns outros bancos, com prejuízos dramáticos para a economia nacional.

Não temos sido capazes, como sociedade, de agir proactivamente prevenindo e antecipando problemas. Ao contrário, muitas vezes tendemos a empurrá-los para a frente, esperando que desapareçam.

Mas, quem sabe esta nossa incapacidade não estará relacionada com a reconhecida e elogiada simpatia e hospitalidade dos portugueses (não será antes, incompetência ou mesmo medo?) que nos leva frequentemente a dizer sim quando no fundo gostaríamos/teríamos de dizer não.

 

 

 

 

[1] A fotografia do Daily Mail, mostra um leão ferido por uma leoa, a qual acaba por vencer o confronto. O leão não parece ficar ferido de morte.

Comentários

  1. Um post muito oportuno. A crise que as sociedades ditas “ocidentais” enfrentam desde meados de 2007-2008 ( a Grande Recessão) só tem um horizonte de comparação: a Grande Depressão de 1929-1930. Há cerca de oitenta anos a crise bancária levou a que Franklin Delano Roosevelt, eleito em 1933, determinasse o fecho dos bancos, sendo que a 9 de Março a promulgação de uma nova lei reorganiza todo sistema bancário. Não são de escamotear as mediadas tomadas em relação à Bolsa(nomeação de Joseph Kennedy – “a raposa no galinheiro”), bem como as medidas que permitiam uma regulação mais efetiva do sistema financeiro, aliás, como Francisco Louçã chamou a atenção, num post, medidas essas só revogadas com as política neoliberal de Ronald Reagan em meados doa anos oitenta. Em suma, a banca deveria, e mereceria, ser alvo de uma “atenção” que ainda não teve!

Deixar uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Tópicos

Pesquisa

Arquivo